Eterno Sonho
1 Capítulo 1: Eterno Sonho
A noite envolvia Ionia em escuridão. A floresta ainda estava cheia de beleza, mas a criança nada viu enquanto caminhava cabisbaixa. Ao longo do caminho, as suas mãos deslizavam pelas delicadas pétalas violetas das zibelina-da-noite, liberando no ar o seu pólen brilhante, atraindo os vagalumes. Por onde os pés descalços pisavam, as raízes e os galhos das árvores se contorciam, abrindo o caminho para as profundezas da floresta. Finalmente, a levando para diante do sagrado salgueiro fantasma.
Existia algo estranhamente familiar naquele lugar. Então ela procurou em sua mente por alguma lembrança. Foi quando algo pesado acertou com força a parte de trás da sua cabeça, fazendo ela cair de joelhos no chão. Atordoada, ela colocou uma das mãos onde fora atingida e seus dedos voltaram manchados de sangue. O cheiro enjoativo de ferro impregnou em seu nariz. Seus olhos tremeram. A sua visão escureceu. De repente, ela despertou observando um teto de madeira.
— Outra vez esse maldito sonho.
Syndra praguejou. No fundo, se sentia aliviada por reconhecer o banheiro do templo de Fae’lor; onde estava descansando com o corpo encoberto até o pescoço pela água morna da imensa banheira rodeada por velas. Logo, ela se recompôs endireitando a coluna e encolhendo os joelhos. Durante um minuto, permaneceu parada observando o seu reflexo na água.
— Só mais algumas horas. – murmurou para si mesma. – Só mais algumas horas.
Faltavam poucas horas para completar um ano desde que Syndra tinha sido libertada de seu eterno sonho. Agora, as imagens daquele dia assombravam a sua mente.
Um longo suspiro escapou dos lábios avermelhados. Em seguida, ela respirou fundo, devagar, igual o velho mestre tinha ensinado. Se concentrou arduamente em controlar as suas emoções. Buscou, dentro de si mesma, que os instintos a guiassem. E mais uma vez fortalecida, a jovem mergulhou na água o corpo por inteiro. Banhou-se de sais e ervas. Aos poucos a rigidez sobre os ombros se esvaiu. Em êxtase, a calma enfim transpareceu em seu rosto. Só que a expressão pacífica subitamente se transformou em espanto ao sentir um forte aperto em torno do pescoço. A sua garganta rapidamente encheu de líquido e ela lutou contra o pânico para conseguir respirar. Ela começou a se debater. Seus pés deslizavam contra o piso enquanto as mãos arranhavam o que parecia ser as raízes de uma árvore sufocando a sua pele. Tentou levantar, no entanto, o corpo já não a obedecia. Os músculos estavam ficando frios e dormentes. A sua visão foi se perdendo, vislumbrando vagamente, do outro lado da água, uma forma sombria estender a mão segundos antes dos seus olhos fecharem.
— O que pensa que está fazendo!? Está tentando se matar, sua idiota!
Em estado de choque, Syndra assistiu Zed gritar enraivecido contra o seu rosto. Ele estava tenso. Os olhos dele a encaravam com uma mistura de seriedade e raiva. Porém, ela franzia a testa em confusão, sem saber como tinha parado em pé ao lado dele tão rápido. Jurava estar sendo aprisionada novamente na Lagoa dos Sonhos. Algo estava muito errado. O silêncio naquele banheiro era tão profundo que a sua respiração ofegante se tornava ainda mais alta.
— Onde está? – Syndra perguntou desconfiada. – Eu vi. Estava aqui. Estava aqui agora a pouco.
— Syndra, não tem nada aqui. Você estava dormindo embaixo d’água.
— Não! Não! – balançou a cabeça, sem conseguir acreditar. – Você não viu? Estava aqui! – apontou para a água. – Aqui! Estava bem aqui!
— Tsc! – Zed cruzou os braços rangendo os dentes. – Você já está confundindo os seus sonhos malucos com a realidade.
As palavras paralisaram a maga. Uma agonia indescritível incendiou o seu corpo. Quando foi que ela realmente havia adormecido? Aquilo era uma visão? Ou era uma lembrança? Revivendo de novo, e de novo.
— Onde eu estou? – ela se virou de um lado para o outro, procurando alguma coisa fora do comum. – Quanto tempo estou aqui?
— Essa é a sua casa. Por que importa quanto tempo está aqui?
— Preciso sair. Eu tenho que sair daqui!
— O que!? – o rosto do homem se contorceu. – Ei! Ei! Syndra? Syndra?
Syndra não respondeu. Em vez disso, ela tampou os ouvidos e escondeu os olhos por detrás das pálpebras. Desejou compulsivamente em voz alta poder acordar mais uma vez daquele pesadelo.
— Syndra! Syndra, quer parar!
Ordenou Zed segurando firme os ombros de Syndra. Mas ele não conseguiu continuar gritando vendo os olhos claros ameaçarem transbordar todas as lágrimas que se formaram sobre os cílios.
— Syndra, o que está acontecendo?
— Eu não quero ficar presa de novo. Não quero voltar lá para baixo. Por favor, – implorou. – não me deixa voltar para lá.
— Do que você está falando?
— Eu não pertenço a esse lugar! Não deveria estar aqui! Eles estão vindo atrás de mim porque eu estou quebrada, Zed!
— Você não está quebrada, Syndra. Você não é um objeto.
— Eu não consigo controlar... – gaguejou procurando as palavras. –Eu não consigo fazer um feitiço! Eu não consigo ler! As letras ficam se movendo...
— Se acalma. Está tudo bem.
— Não, não está! Eu não... – a voz desapareceu no meio do desespero. – Eu não sei o que está acontecendo comigo! Não consigo dormir! Meu coração continua batendo rápido demais! Eu não consigo respirar! Eu não consigo respirar! Eu não consigo...
A jovem caiu de joelhos na água, escondendo o rosto exausto atrás das mãos tremulas. Seu choro de tristeza vagou no silencio. Pôde sentir a amargura tingir de preto as lágrimas escorrendo por entre seus dedos. A água a sua volta escureceu. As chamas das velas se apagaram. E um poder sombrio irradiou apodrecendo o lugar.
Naquela hora, algo se quebrou em Zed. A dor que jorrava de Syndra lhe fez arrepiar a pele e pressionar os dentes. Ele respirou fundo. Mas cada parte do corpo dele avançou para envolver ela nos seus braços, para acolher todo o vazio que tomava conta daquele coração.
— Está tudo bem. Está segura agora. – ele garantiu. – Enquanto eu estiver aqui não vou deixar que te machuquem.
Ela balançou a cabeça sem se ater aquela falsa esperança.
— Você não pode me proteger... A única maneira de eu estar a salvo é estar morta! Todos os ancestrais, o Espírito de Ionia, essa terra me odeia!
— Ei, escuta. – disse Zed tocando no rosto pálido. – Eu vou encontrar você. – sua voz grossa soou mais séria que o normal. – Não sei para onde os seus demônios querem te levar, mas seja onde for, eu vou encontrar você.
Os olhos de Syndra arregalaram surpresos; sua íris prata emitiu um brilho frio como a lua ao ser hipnotizada pelo tom âmbar que ardia como o sol dentro dos olhos de Zed.
— Confia em mim.
Zed fitava minuciosamente Syndra. Era um completo mistério como ele sempre sabia ouvir tudo o que ela não sabia dizer. Para ele, ela não era o monstro qual todos a pintavam. Havia lhe provado isso por diversas vezes. Ainda assim, decidiu esperar por um sinal de que ele realmente havia conquistado a sua confiança. Não demorou muito até ela ceder fazendo um gesto afirmativo. Então, Zed se sentou no meio da água e puxou Syndra para mais perto, a envolvendo outra vez nos seus braços.
— Eu vou proteger você.
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