Eterno
4 Capítulo 4:
Esperanza recebeu o golpe de Camus, que a atingiu com violência, jogando-a contra a parede do lado oposto da arena, deixando um rastro de gelo pelo caminho, para o espanto de todos os presentes. Nem a garota, nem o público esperavam que ele começasse a luta usando um cosmo tão forte e agressivo, até porque Camus era conhecido por ser um cavaleiro frio e metódico em seus embates, nunca perdendo o controle.
—Minha nossa!
—Acho que ela não se levanta mais!
—Era o esperado do lendário Camus de Aquário.
Esses e outros comentários espantados eram ouvidos pelos presentes na Arena, a maioria admirada e empolgada por ver uma luta daquelas. Entre eles, no entanto, havia uma jovem de madeixas azuladas que olhava a tudo com um misto de ansiedade e preocupação.
—Papai não precisava ter usado um golpe tão forte de cara! A garota nem teve chance!
—Nike, você sabe que uma batalha por uma armadura é sempre levada a sério. É nessa hora que um candidato deve mostrar que é merecedor de servir entre os Santos de Atena. –Kiki lhe respondeu, mas com o olhar atento na arena.
—Eu sei! Ainda tenho a cicatriz do dia que tive que ganhar a minha armadura de Volans! Mas o Andrômeda não parecia querer me matar quando me testou. –ela suspirou e depois olhou para outro ponto, onde Hyoga observava a tudo com serenidade. –Será que eles irão intervir se a coisa escapar do controle?
—É um combate entre cavaleiros. –respondeu Kiki. –Não seria honrado interferirem agora. E seu pai não faria nada que a ferisse mortalmente, ele sabe que é um teste e não uma batalha real.
—Mas...
—E eu já vi a Esperanza treinando com Shaka de Virgem. Aliás, já ajudei em alguns desses treinos e posso lhe afirmar. –ele sorri. –A luta nem começou ainda.
—Eu não disse? –Olesya olha para Atena e Shaka sorrindo, com arrogância em sua voz. –Essa piveta não é capaz de fazer um arranhão sequer em Camus, essa luta já terminou.
—Está sendo muito precipitada, minha cara. –Shaka respondeu, sorrindo serenamente. –Isso foi apenas um “cumprimento” entre Cavaleiros.
—Hm? –a loira olhou para a Arena, percebendo que Camus parecia aguardar alguma reação de Esperanza.
Camus olhava sério para a sua jovem adversária e mentalmente se questionava se havia realmente tomado a decisão correta em usar da extrema força de seu cosmo para garantir que pessoas sem capacidade usassem a armadura que pertenceu a Milo. Estava ciente que a pessoa que a vestisse deveria ser merecedora dela, era uma maneira de manter a memória de Milo bem viva. Manter seus ideais.
No entanto, talvez não devesse...
—Ai, cacetada! Essa doeu! –escutou a garota falando, se levantando e esfregando os braços frios, retirando pequenos cristais de gelo que estavam grudados em sua pele. –Brrrrr... que gelo!
—Se defendeu bem. -O cavaleiro deu um meio sorriso, a garota havia resistido bem ao seu golpe mais básico.
—Claro, né! –ela moveu os braços como se fizesse aquecimento. –Esperava que eu ficasse parada e virasse picolé?
—Bem...
—Minha vez! –ela o interrompeu, se lançando contra Camus a uma grande velocidade, saindo do campo de visão dele.
—Velocidade da luz?!
Camus se espanta, não imaginava que ela fosse tão rápida e sentiu seu cosmo agressivo pouco antes de a garota se materializar diante dele e por pouco escapando de receber uma série de socos e chutes dela mesma. Camus analisava os sucessivos golpes de que desviava dados pela garota e se questionava se ela realmente levava a sério o que estava acontecendo ali, até segurar uma das pernas, impedindo-a de finalizar um chute contra seu rosto.
—Isso é um teste de cosmo e não de combate corpo a corpo! –Camus a repreendeu, com ar vitorioso. –Você foi derrotada, mon petite!
—Fui não, Pinguim!
Ouvir a garota chamá-lo pelo apelido ao qual Milo sempre usava para se referir a ele, em tom de provocação, o fez por um breve momento, distrair-se e abrir a guarda para Esperanza, que girou seu corpo na horizontal no ar, levando a outra perna a acertar o rosto de Camus.
Camus recuou alguns passos para trás, tonto pelo golpe bem aplicado pela amazona, depois fixou o olhar nela e achou a postura de defesa e ataque que a garota se colocava parecida com a que Milo sempre usava em lutas. Não... tinha certeza de que era a mesma postura.
“—Shaka deve ter uma memória invejável para se lembrar dessas coisas para ensinar a ela. “
Camus pensou, antes de voltar a assumir uma postura ofensiva, elevando seu cosmo. A luta ainda não se encerrara, pois a amazona deveria usar seu cosmo e não golpes físicos para acertá-lo e se mostrar digna da armadura dourada.
Camus atacou, investindo contra Esperanza um soco, cujo punho estava irradiando um brilho dourado por causa do seu cosmo, ao qual ela desviou por pouco, sentindo a pressão do ar gélido resvalar em sua face. Depois, a morena iniciou uma sequência de socos e chutes que Camus defendia, admirando a persistência dela, mas queria terminar a luta agora.
—Engraçado... –Shura comentava na tribuna de honra, coçando o queixo e observando atentamente a luta. –Eu acho que já vi isso antes...
—Como assim? –Atena lhe perguntou.
—Uma sensação de deja vú... –Shura cerrou os olhos, tentando se lembrar de alguma coisa e de repente soca a própria mão, se lembrando. –Camus e Milo!
Shaka o olhou, erguendo uma sobrancelha.
—Como?
—Anos atrás, lembra Shaka? Quando o Milo teve aquele... sabe, quando virou uma chica. –Shura falava e gesticulava. –Ela lutou com o Camus na arena, treinando e... nossa! Parece que estou vendo um replay!
—Eu a ensinei as mesmas técnicas marciais de Milo. Decerto por isso acha tão familiar. –Shaka quis desconversar.
—Ah, deve ser isso.
Shura voltou sua atenção à luta e à sua torcida silenciosa pela filha, não percebendo que Shaka suspirava aliviado por ele desviar o foco de sua atenção novamente. O ex-cavaleiro de Aquário a segurou pelo pulso, dando em seguida uma chave de braço e imobilizando-a bem perto de seu corpo com a mão livre.
—Vou lhe dar a opção de desistir ou terei que quebrar seu braço e encerrar esse teste. -Camus lhe disse bem perto de sua orelha, fazendo a garota arrepiar-se dos pés à cabeça.
—Desistir nunca é uma opção para os Hernandez! –ela exclamou, dizendo com orgulho o nome da família, esticando a perna e acertando o nariz de Camus, fazendo-o soltá-la.
Camus estava abalado pelo golpe que recebera da garota, mas não sabia exatamente por quê. Apenas uma pessoa usava tal habilidade para se livrar desse golpe imobilizador e todas as vezes pegava Camus de surpresa, pois sempre se distraía com a conversa mole dele.
Ele a fitou enquanto a garota movia-se com graça, elevando seu cosmo, concentrando-o na ponta do dedo indicador da mão direita. Camus sentiu uma leve tontura e teve a visão da imagem de Milo tomando o lugar de Esperanza por alguns instantes, e em seguida, voltar a ter a forma da morena pouco antes de ela disparar seu cosmo em um único feixe escarlate contra ele.
Com incrível velocidade, Camus se desviou do golpe e lançou por instinto seu cosmo contra ela, acertando-a em cheio e a jogando novamente longe.
Houve um pesado silêncio na arena, Esperanza demorou a se levantar, sentindo o corpo todo reclamar de dor. Havia sentido a força de Camus novamente, e sem uma indumentária para protegê-la, sabia que os danos eram mais graves e não conseguia ficar em pé. Camus, por outro lado, caminhava lentamente em sua direção, mantendo a face séria.
Esperanza engoliu em seco quando ele parou diante dela, seu olhar parecia que analisava sua alma. Ele estende a mão e a garota pensa que ali havia terminado seu teste pela armadura dourada, bastando apenas um golpe dele para acabar com tudo.
—Muito bem.
Ao ouvir essas palavras a garota ergue o rosto surpresa. A mão que acreditava que iria ferí-la estava estendida com a intenção de ajudá-la a se levantar.
—Como assim?
—Você me feriu com seu cosmo. Realizou o teste.
Esperanza seguiu o olhar de Camus em seu braço direito, onde um corte havia sido feito e dele escorria um pouco de sangue.
—Eu... venci? –ela parecia custar a acreditar, piscando os grandes olhos escuros diversas vezes, pegando a mão que lhe era oferecida, depois fica em pé rapidamente e praticamente pula de alegria, comemorando com a plateia que a ovacionava. –EU VENCI!
O gesto impulsivo da garota a fez perder novamente o equilíbrio, mas desta vez ela cai sobre Camus, que não estava esperando por aquilo. A morena cai nos braços de Camus e ambos vão ao chão.
Ela tenta se levantar, mas a mão escorrega e ela cai novamente sobre Camus com os seios em cima de seu rosto e suas pernas insinuando entre as suas. O rosto da morena fica vermelho na hora e Camus sente seu corpo reagir e se amaldiçoa por isso, se recriminando por ter uma reação típica de adolescente, algo que ela sentiu na hora a lhe cutucar.
—Pervertido! -Esperanza se levanta rapidamente e por reflexo leva a mão ao rosto de Camus, dando-lhe um sonoro tapa que ecoou por toda a arena.
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Algum tempo depois, em uma sala comunal no Décimo Terceiro Templo. Enquanto Nike segurava a vontade de rir da marca vermelha em forma de uma mão no rosto alvo do pai, que se mantinha com uma expressão contrariada, chegando a morder os lábios para isso, Olesya andava de um lado para outro indignada.
—Onde já se viu? Que atitude imperdoável daquela amazona com o futuro Grande Mestre! –ela falava para Shaka e Atena que estavam sentados em frente a Camus, tentando não rir da situação do sisudo amigo. -Vão castigá-la, não vão?
—Desculpe, o quê? –Atena perguntou, depois de desviar o olhar divertido sobre Camus para a loira que a indagava. –Castigar quem?
—A garota que deu um tapa na cara do Camus!
—Foi uma reação instintiva à situação constrangedora em que Camus colocou a amazona. –Shaka respondeu.
—Mas...
—Já chega desse chilique, Olesya! –Camus a interrompeu, visivelmente irritado pela atitude da russa. –Foi tudo um mal entendido! E eu não vou ser o futuro Grande Mestre! E mesmo que eu fosse, eu não iria castigar a garota por causa de uma coisa ridícula dessas!
A loira cruzou os braços irritada. Não gostava de ser contrariada e menos ainda de ser repreendida na frente de outras pessoas, ainda mais na frente da filha de Camus, a quem não escondia ter inimizade. Sem falar nada, saiu da sala comunal na direção de seus aposentos.
—Não se esqueça, Olesya... que ela é uma Amazona de Ouro agora. –disse Nike, levantando-se e falando alto para que ela ouvisse. –Não seria legal irritar alguém como ela agora.
—Nike... –Camus a advertiu.
—Não falei nada demais. O senhor deveria pensar se vale a pena ficar com alguém tão... instável, né papai? –a garota se defendeu e ignorou o olhar do pai sobre ela, ao fazer uma reverência respeitosa a Atena. –Agora, com licença. Tenho obrigações a cumprir antes de me recolher.
—Tudo bem. –Camus suspirou e Atena sorriu ao vê-la sair.
—Tão parecida com a mãe. –a deusa comentou sorrindo.
—Sim. –Camus sorriu com o comentário. Realmente ver o quanto Nike era parecida fisicamente e no temperamento com Milo era motivo de alegria para ele. –A garota... Esperanza.
—Sim? –Shaka esperou que o amigo fizesse a pergunta que desejava, se servindo de um chá trazido pelas servas.
—Você a ensinou a usar aqueles golpes? Os da Arena?
—Alguns sim... outros ela aprendeu por instinto. –respondeu dando um gole no chá.
—Aquele chute... ela... –Camus balançou a cabeça. –Esquece. Eu vou dar uma caminhada e... dar os parabéns à garota pela conquista. E me desculpar também. Não tive tempo para isso depois da confusão na Arena e o cerimonial para lhe entregar a armadura de ouro.
Camus saiu em seguida da sala, deixando o casal sozinho. Atena fitou o marido com ar inquiridor e ele fingiu não ver.
—Então? –ela insistiu com as mãos na cintura.
—Hm? –disfarçando.
—Aquilo na Arena. Eu vi, você viu.
—Todo mundo viu. Ela venceu e...
—Vimos o cosmo dela elevar-se e a imagem de Milo aparecer. –a deusa completou. –E acho que só nós vimos algo assim.
—Saori...
—E os golpes dela, você não os ensinou. Ela foi pelo instinto mesmo, era como se ela tivesse lembrança de tudo o que aprendeu na vida passada e...
—Saori! –Shaka falou o nome da esposa com mais firmeza e em seguida deixou a xícara do chá sobre a mesa, dando um longo suspiro. –Tem razão... era como se as almas de Milo e Esperanza tivessem se tocado pelo cosmo.
—Shaka... e se isso de algum modo despertar as lembranças dela sobre sua outra vida? É possível? –Atena se mostrava preocupada.
—Não sei... –Shaka estende a mão e segura a da esposa com firmeza. -Talvez devêssemos falar com quem tem maior afinidade com esse assunto.
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Atrás da Casa de Peixes.
Nike ia saindo da Décima Segunda Casa, após ter a permissão de seu cavaleiro para atravessá-la, quando sentiu uma mão forte a pegar pelo braço, puxando-a para um canto mais escuro e pressionando-a contra a parede do templo. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, teve os lábios tomados por um beijo apaixonado e avassalador que lhe roubou o fôlego. Após longos minutos de carinhos, os lábios se separaram e os jovens se fitaram com sorrisos cúmplices em seus rostos.
—Oi. –disse Nike, enlaçando o pescoço de Kiki com os braços.
—Só “oi”? –o ruivo faz uma cara de decepcionado e em seguida sorri quando a namorada volta a beijá-lo. –Vai dormir em Áries comigo de novo? Sinto falta de seu calor todas as noites que estamos separados.
—Minha vez de fazer a ronda pelo santuário. –ela suspirou, enrolando uma mecha ruiva entre os dedos. –Mas posso tomar café da manhã com você assim que eu terminar.
—Café seguido de um banho para descansar da longa noite.
—Acho que não iríamos bem descansar... –ela morde o lábio maliciosa.
Então, eles ouvem passos e Nike olha para ver quem se aproximava. Arregala os olhos ao reconhecer o pai e se esconde em um ponto mais escuro atrás do Templo de Peixes. Kiki disfarça como se acabasse de chegar ali, assoviando e acenando para Camus.
—Boa noite, senhor Camus.
—Boa noite, Kiki de Áries. –disse passando pelo rapaz, que parecia aliviado. Mas Camus para alguns metros adiante. –Espero te ver no café da manhã para falarmos sobre o fato de estar “pegando” minha filha, certo Áries? Vamos ter uma conversa de homens, tudo bem? Boa noite, filha. Papai te ama.
Em seguida volta a sua caminhada na direção de Escorpião, deixando um jovem casal boquiaberto, sem reação alguma.
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Casa de Escorpião.
Esperanza ainda não acreditava que agora era a guardiã daquele Templo. O pai estivera ali mais cedo, acompanhado por sua mãe e pelo irmão caçula, orgulhosos de seu feito, e agora que estava sozinha, queria poder pensar melhor no que houve e ter certeza de que não era um sonho, enquanto admirava a armadura que agora lhe pertencia.
—Nossa... –ela suspirou estendendo a mão até ela, mas no último instante recua ao toque. –Engraçado... eu sempre quis te vestir, agora parece que estou com medo.
A garota olha para a armadura e leva um susto ao ver o rosto de um homem no lugar do seu. Ela se vira e não vê ninguém, depois volta a olhar para a vestimenta sagrada. Teve a impressão de que ela lhe sussurrava o nome.
—Já vi aquele rosto antes... –murmurou. –Em meus sonhos...
Ela volta a estender a mão para tocá-la. Quando o faz, seu corpo parece que recebeu uma poderosa carga elétrica. Imagens desconexas vieram à sua mente, a maioria delas protagonizada por um mesmo rapaz. Ele lutando com uma versão mais jovem do mestre de seu irmão, Hyoga. Lutando contra um homem de longos cabelos em frente a Atena, batalhas sangrentas contra homens de armaduras escuras.
Já ouviu falar que as armaduras guardavam lembranças de seus usuários, e acreditava que estava vivenciando isso nesse momento. Então, ela vê uma mulher linda, que lembrava vagamente aquele rapaz. Ela pisca e ambos estavam diante dela agora, sorrindo. De algum modo ela sente, que era uma só pessoa e não sente medo algum.
—Você... –ela murmura.
O casal segura na mão um do outro e ambos estendem a outra livre em sua direção. Esperanza, movida pelo instinto, as segura. Um brilho intenso surge, ela vê outras imagens e Camus estava nela. De menino a homem sempre ao lado do rapaz de cabelos azuis, que o amava sem desconfiar desse sentimento, achando que fosse apenas uma amizade sincera e fraternal.
—Descubra quem é você... –o rapaz murmura em seu ouvido antes de desaparecer.
A imagem dele é substituída pela da mulher, que vivencia a descoberta do amor nos braços de Camus, e a vê morrer e Camus sofrer por isso... e ela então sabe, de algum modo sabe, que eles estão ligados. Em seguida, Esperanza cai na inconsciência.
—Esperanza...
A voz masculina e preocupada a chamava insistentemente, trazendo-a de seu torpor. A voz logo começou a ter um rosto, de início embaçado, mas logo assumindo as feições másculas e atraentes de Camus.
Ela então se dá conta de que estava caída no chão, e estava amparada nos braços de Camus.
Continua...
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