Eterno
8 Capítulo 8:
Notas iniciais

Arena dos Fantasmas, arredores do Santuário...
Olesya olhava com desprezo para o corpo sem vida de seu tio. Ela sorri, a gema rubra de seu anel brilha e, em seguida, a loira fala:
— Paciência. Se despertarmos seu servo agora, isso chamará a atenção dos imundos do Santuário e de Atena. – como se ouvisse as palavras da loira, a gema cessa o brilho. – Não se preocupe, o momento de seu retorno já se aproxima. Em breve, meu senhor, teremos o que merecemos. Vingança e poder!
Em seguida, ela dá as costas ao local, precisava se limpar e se livrar das roupas manchadas de sangue antes que alguém a visse. Também precisava de um meio de convencer Camus a manter aquele relacionamento só por mais alguns dias, apenas o tempo que precisava para ter a oportunidade de entrar na restrita sala do trono.
Teria que melhorar suas táticas de sedução. Afinal, era nítido que Camus estava perdendo o interesse nela. Seus instintos diziam que a culpa disso residia na presença daquela amazona de Escorpião. Camus havia mudado muito desde que a conheceu, e ela não era tola para ignorar o fato.
— Não posso permitir que aquele idiota atrapalhe meus planos por causa de uma vadia! – murmurou, estreitando o olhar.
Sabia que Camus havia ido à cidade, e não iria esperar que ele retornasse. Iria ao seu encontro.
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Esperanza ouviu as palavras de Shaka com incredulidade, em seguida olhou para o rosto do seu mestre e para o amigo dele, que parecia um pouco assustado com o modo direto que o cavaleiro lidou com o assunto.
— Como é? – foi a única coisa que a jovem conseguiu falar, após a revelação.
— Friedrich, não é assim que tratamos um assunto sério desses! – Yannos gesticulava ao lado do loiro, que o fitava com muita serenidade. – Uma pessoa saber assim pode causar mais danos do que benefícios! Além de achar que...
— Que estão ficando doidos? – Esperanza completou a frase, considerando seriamente essa possibilidade.
— Sim... NÃO! – respondeu Shaka, balançando a cabeça em negativa. – Desculpe, não deveria ter contado dessa maneira! É razoável que nos ache perturbados.
— Nossa! Por que imaginaria isso? – a morena falou em tom de deboche, recebendo um olhar reprovador de Shaka. – Olha, eu sei que está preocupado comigo desde que comecei a ter aquelas “visões”, mas aí eu lembrei de ter ouvido alguma coisa do mestre Mu, o antigo cavaleiro de Áries, sobre as armaduras carregarem as memórias de todos os que as usaram e que era comum um cavaleiro “ver” essas memórias e bem... – ela suspira, fazendo um gesto com as mãos como se não fosse nada. – Só pode ser isso. Eu estava tendo visões das memórias das armaduras, nada mais e... eu acho que já estive nessa casa antes.
— Esperanza, não é bem isso. – dizia Shaka.
— Você esteve aqui antes, sim. – Yannos adiantou-se, pegando alguns objetos e colocando na mesa. – Era uma menina, ficou desenhando na mesinha de centro da minha sala enquanto seu professor e eu tomávamos chá.
— Nossa! É mesmo! – ela sorriu ao lembrar.
– Sente-se, por favor. – pediu Yannos, apontando para uma cadeira, e ela o fez. – Bem, é um assunto delicado. E delicadeza não é o forte de nosso bom amigo, como sabemos.
— Não é mesmo. Mas, professor Yannos, sobre isso de vidas passadas...
— Esqueça, está bem. – Yannos pediu, estendendo a mão e pedindo que Shaka se sentasse à mesa. – Não vamos falar disso, se acredita que é um assunto desnecessário.
— Que bom que compreende.
— Mas, você tem uma memória invejável. Se lembrar daqui sendo que era tão pequena!
– Lembro que me deram chocolate. – a jovem riu.
— Eu sempre lidei com crianças em meu trabalho e por isso sempre tinha essas guloseimas para meus jovens pacientes. – apontou para cinco objetos. – Mas como pode ver, eles acabavam esquecendo coisas aqui em casa e eu nunca tive coragem de jogar fora quando não voltavam para buscá-las. Inclusive, você esqueceu um objeto seu aqui.
— Esqueci?
Esperanza fez um enorme esforço com a mente para tentar lembrar o que poderia ser, Shaka fez menção de dizer algo a Yannos, mas o professor aposentado pediu que ficasse quieto com um gesto discreto.
– Não se lembra? – Yannos insistiu e, diante da negativa da jovem, voltou a mostrar os objetos. – É um deles.
Esperanza os observou. Eram objetos que aos olhos de outra pessoa poderiam ser apenas lixo. Algumas figurinhas de algum campeonato de futebol, uma fotografia antiga e desbotada de um casal idoso, uma pulseira colorida e uma bonequinha de plástico minúscula. A garota fez menção de pegar a bonequinha, imaginando que ela poderia ser o objeto esquecido ali, mas a fotografia antiga chamou mais a sua atenção.
Acabou pegando-a em sua mão, observando o casal com curiosidade. Em seguida colocou a foto diante dela, sentindo um aperto estranho em seu coração.
— Algum problema? – Yannos perguntou, preocupado.
— Apenas... um aperto aqui... – levou a mão ao peito – Como se sentisse uma grande saudade ao ver a foto. Quem eram? Eu os conhecia? – perguntou, olhando para Shaka.
— É esse o objeto que acha que lhe pertencia? – o professor insistiu.
— Eu acho que sim. – ela hesitou e depois respondeu. – Sim. Acho que me pertence, sim. Deve ser a foto de parentes meus. Vou perguntar ao meu pai quem são e...
— Seu pai não saberá lhe dizer quem são. Ele não os conheceu. – Shaka respondeu primeiro.
– Parecem tão familiares... quem são eles?
– Esses são Argos e Melina. Eles foram servos no Santuário durante a vida toda, se conheceram lá e construíram uma vida juntos. Tiveram uma filha, – Shaka apontou para uma terceira pessoa na foto, um menino de pouco mais de quatro anos quase escondido entre os idosos. – Esse menino era neto deles. Ele tinha quatro anos quando ficou órfão e os avós o trouxeram para morar próximo ao Santuário, pois trabalhavam lá. Essa criança era Milo.
— De todos os objetos, esse foi o que reconheceu sendo seu. – Yannos completou.
Esperanza permaneceu calada por um bom tempo, observando a foto com atenção. Borrões de imagens e risadas de uma criança que viveu um curto período de paz com seus avós, antes de ser escolhida para ser um cavaleiro de ouro, vieram à sua mente.
— Senhor Yannos... – ela começou a falar com cautela. – Pode me explicar o que está havendo comigo?
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No Chrysós Távros.
Aldebaran escutava atentamente cada palavra de Camus, contando sobre suas desconfianças, suas impressões a respeito da jovem filha de Shura e de como sentia algo estranhamente familiar quando estava perto dela, desde que chegou ao Santuário e a reencontrou, já adulta.
— Então, é isso. – Camus disse por fim, fitando o brasileiro, que parecia perdido em seus pensamentos. – Não vai dizer nada?
— Estou pensando no que dizer... – ele suspirou, cruzando os braços e começando a rir, para a surpresa do francês. – Essa história me lembrou de uma novela brasileira que eu acompanhava anos atrás. Sério, parece enredo de novela das seis!
— Não vejo graça nesse assunto.
— Espera... – rindo mais um pouco e recuperando a compostura. – Desculpe, só que acho que está é se precipitando, amigo.
— Como assim?
— Nisso de “Milo reencarnou.” – Aldebaran enfatizou a expressão com aspas imaginárias com as mãos. – Apesar de ter visto de tudo nessa vida como cavaleiro, sou cético quanto a esse assunto de reencarnação. Não acredito que isso exista.
— Eu também não, mas... são muitas coincidências.
— Sabe o que eu acho? – Camus o fitou para ouvir sua opinião. – Está em um relacionamento que não te deixa feliz. – o francês ia retrucar, mas o brasileiro continuou a falar. – Ainda sente falta de Milo, lembra dele sempre que olha pra filha de vocês. Aí volta pro Santuário após anos de “exílio”, vê uma linda mulher com a armadura de ouro de escorpião e fica balançado pelo fato de ela te lembrar do Milo. – Aldebaran abaixa o tom de voz como se temesse que Shina escutasse. – E eu conheço a filha do Shura, ela é bem bonita mesmo!
— Não é nada disso!
— Mas tem que concordar que ela é bem bonita!
— É sim...
Camus imediatamente lembrou-se do beijo que havia lhe dado no lago e sentiu uma estranha necessidade de reencontrá-la para provar novamente daquela boca. Balançou a cabeça tentando afastar a ideia e deparou-se com o olhar surpreso de Aldebaran sobre ele.
— O que foi?
— Meu São Expedito... você e ela...?
— Quê? Quem? – percebendo de quem ele falava, imediatamente tratou de responder. – Não! Eu e Esperanza? Pfff... Ridículo! Ela é uma menina e ... NÃO!
— Beijou ela.
— Eu... – suspirou. – Beijei.
— Quer que flores pro seu funeral? – Camus fuzilou o amigo com o olhar, diante da brincadeira seguida de uma risada. – Sério! Shura vai te matar quando souber, tenho que me preparar...
— Não tem graça.
— Realmente, vai ser uma desgraça quando o bode te pegar! – rindo mais ainda, mas parando diante do olhar gélido de Camus. – Tá... hahaha... parei, parei! Outro motivo para eu achar que está confundindo as coisas. Essa menina não é Milo.
Camus cruzou os braços e suspirou. Pensando com racionalidade, concluiu que seu amigo estava certo quanto a isso. Ergueu-se, pegando seu terno.
— Aonde vai?
— Pensar um pouco mais... talvez esteja certo, amigo.
— Quer saber de uma coisa, uma opinião. É de graça e você decide se acata ou não. – Camus observou Aldebaran se levantar, ir até uma prateleira e pegar uma garrafa de licor, entregando-lhe. – Vá pra casa, relaxe e reavalie seu relacionamento com a... qual o nome dela? Ofélia? Olé Sái?
— Olesya.
— Essa aí... conheci um cara chamado Olésio. Era careca, suava muito e... – Camus ergueu uma sobrancelha, encarando Aldebaran. – Deixa pra lá. O fato é... você não gosta da loira com cara de prisão de ventre, eu também não gosto. Ela sorri demais e quem sorri daquele jeito o tempo todo? Psicopatas!
— Aldebaran... você nem a conhece.
— Conheci ela de vista quando ainda era amazona de bronze e foi embora daqui pisando duro! Ela tem cara de psicopata sorridente, falando que só voltaria aqui quando fosse poderosa! E a Shina a conheceu nessa época e não gosta dela, o santo não bateu e eu aprendi que, se minha mulher diz que ela não é boa pessoa... rapaz! Quer dizer que a loira é virada no Hades. E a filha do Shura é pura simpatia!
Camus acabou rindo com as palavras do amigo, pegando a garrafa de licor oferecida.
— Bem... O fato é que, se gostasse da Oleosa, não ficaria pensando na outra garota. Te conheço o suficiente para saber que é o tipo de pessoa que não faz jogo duplo numa relação. – o brasileiro fala sério finalmente.
– Realmente, acho que me acomodei com a presença de Olesya. Não sinto nada além de atração por ela. Não acredito que estou te contando isso!
– Talvez esteja só impressionado pela outra garota ser a amazona de escorpião agora. Por ela ter um jeito alegre que te lembre o Milo. Não estou falando que é paixão por ela! Mas isso já está te mostrando que não é certo enrolar a loira.
— Tem razão. Se despeça de Shina por mim.
Camus faz um gesto de despedida e logo sai do restaurante. Alguns momentos depois, Shina desceu as escadas e reparou na ausência do francês, indagando ao marido com o olhar.
— Ah, ele só queria conversar. – respondeu o brasileiro rapidamente.
— Camus nunca foi de conversar. – ela caminha com os braços cruzados até o marido. – Mesmo com você, apesar de terem ficado próximos depois da morte de Milo e de Afrodite ter partido.
— Na época ele precisava mesmo dos amigos, amor. Pai solteiro, perdeu a pessoa mais importante para ele logo depois de descobrir que se amavam. Camus carregou um fardo pesado, senti que precisava saber que não estava sozinho com o pessoal por perto.
— Você fez bem. Aliás, me apaixonei por você quando o vi trocar as fraldas da Nike e ficar cuidando dela quando Camus precisava. – ela fica na ponta dos pés para alcançar os lábios do marido e lhe dar um selinho. – Mas o que foi que houve para ele vir aqui desabafar com você?
— Bem... – Aldebaran coçou a nuca sem graça. – Ele tá confuso com uma garota. Acho que ele tá gostando dela, senão não ficaria tão perturbado com umas coisas. Eu vou te contar direitinho o que ele me falou, ok?
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Na casa de Yannos...
— Bem, e isso é tudo.
Yannos finalizava suas explicações a respeito do caso de Esperanza, sobre todos os sinais que indicavam que ela era a reencarnação de um cavaleiro que havia morrido há mais de vinte anos, e como fazer com que as lembranças do passado e a vida presente pudessem viver em harmonia.
— É raro uma alma voltar tão rapidamente para uma nova vida. – dizia Yannos. – Geralmente, a alma só retorna quando está preparada e possui alguma missão a cumprir na vida mortal ainda.
— E que missão eu teria?
— Algo pendente, que você precisa descobrir para poder seguir em frente nessa vida. O correto seria que sua vida passada não interferisse na sua nova, por isso pessoas que possuem tais lembranças são raras e esses casos são estudados por especialistas. – o professor explicava. – Mais do que simplesmente provar a existência da vida após a morte, a reencarnação, é importante dar auxílio para que o paciente possa ter uma vida normal.
– Não entendo! Até outro dia eu não tinha qualquer lembrança sobre vidas passadas, e agora tudo vem pra cima de mim como uma tempestade na minha cabeça. – Esperanza estava um pouco nervosa com a situação. – Por que agora essas lembranças estão surgindo?
— Bem...
— Isso você deve descobrir sozinha, Esperanza. – Shaka completou, deixando claro a Yannos que não falaria de Camus ou Nike a ela. – É como estar em uma encruzilhada. Você deve decidir por um caminho: permitir que a sua vida passada interfira em sua vida atual ou seguir sua nova vida como Esperanza, sem a presença de Milo.
— Mestre Shaka, posso perguntar mais uma coisa?
— Sim, minha querida.
— Qual a relação de Milo com Camus?
Shaka olhou para Yannos, que pigarreou e pediu desculpas para preparar mais chá, deixando os dois a sós. O cavaleiro de Virgem a fitou, suspirando profundamente antes de começar a falar:
— É uma longa história. Mas, eu vou contar a partir de um certo ponto da vida deles... quando Milo morreu, para reaprender o valor da vida e do amor...
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Algum tempo depois, pelas ruas de Atenas...
Após ouvir toda a história de Milo, a história envolvida em sua vida passada, Esperanza sentiu-se desnorteada com todas as informações que recebeu de uma vez só sobre si. Pediu licença a Shaka e Yannos e saiu da residência do professor, ganhando as ruas seculares de Atenas.
Precisava de ar puro. Precisava pensar.
Parou diante de uma loja de presentes e fixou seu olhar no reflexo da sua imagem na vitrine, e após alguns segundos, parecia que sua imagem sumia e dava lugar à do falecido cavaleiro de Escorpião. Fechou os olhos, sacudiu a cabeça e, ao abri-los novamente, pôde vislumbrar a própria imagem novamente.
— Isso é um absurdo! – murmurou baixinho, falando consigo mesma. – Eu não sou Milo... ou essa Milena... seja o que diabo for!
Olhou novamente para a imagem, tocando na vitrine em seguida.
— Eu me chamo Esperanza! Eu sou Esperanza de Escorpião!
Fechou os olhos, e não pôde impedir que imagens viessem à sua mente novamente. Mais uma vez eram lembranças de sua vida passada, onde via um Camus jovem e sério usando a armadura dourada de Aquário. Era outro tempo, e parecia que conversava com ela.
Não. Era com Milo que Camus conversava. Conversava e deu um sorriso diante de algo que Milo havia lhe dito. Sentiu seu coração disparar e as faces ficarem rubras... colocou a mão sobre o peito ao perceber que quem havia tido tais reações diante do sorriso espontâneo do Cavaleiro de Aquário tinha sido Milo, e não ela.
As mesmas reações que teve quando se lembrou do modo que Camus a olhava ao sair do lago. Tocou as faces com ambas as mãos e soube que estava corada com as lembranças do beijo e do calor dos braços daquele homem.
— Sério que isso está acontecendo? – ela se pergunta baixinho. – Pela deusa... o que eu estou sentindo?
Camus não entendeu por que não retornou ao Santuário assim que saiu do restaurante de Aldebaran, talvez em seu íntimo quisesse evitar confrontar Olesya nesse momento, pois certamente teriam uma conversa mais séria e terminaria aquela relação sem sentido agora.
O fato é que talvez seu maior receio não fosse o término de um relacionamento que estava fadado ao desastre desde que começou graças a uma atração física e à necessidade primária de ter uma parceira sexual.
Temia rever Esperanza e não saber como reagir diante dela. Não apenas por suas desconfianças, que ainda persistiam em sua mente, mas também pelo fato de que a jovem tinha o poder de abalar todo o seu autocontrole, fazê-lo ceder aos seus instintos, fazer seu coração acelerar como se fosse novamente um adolescente. E isso o incomodava profundamente.
Incomodava mais ainda sentir que queria ardentemente beijá-la novamente.
— Por Deus, Camus! – resmungava, socando uma parede de pedra próxima, causando pequenas rachaduras nela. – Se controle!
Instintivamente virou o rosto para o lado e avistou o alvo de seus pensamentos, a causadora da confusão em seus sentimentos, do outro lado da rua. Esperanza estava usando roupas civis, um simples vestido branco, e deixando soltos os longos cabelos negros, que balançavam suavemente ao sabor da brisa do fim da tarde.
Ela estava diante de uma vitrine de uma loja de lembranças para turistas, e parecia falar com alguém. Camus deu alguns passos na direção dela e percebeu que ela falava era sozinha, e parecia um pouco nervosa com alguma coisa. Ao se aproximar, ouviu algo que ela dizia em um tom de total surpresa:
— O que sinto por ele?!
— Esperanza?
Camus arriscou-se a chamar seu nome, incerto de como a receberia e pronto para ouvi-la dizer algo ríspido, e com razão, depois dos últimos acontecimentos. Mas não esperava que ela respondesse com um grito de surpresa e com as faces rubras, como se tivesse sido flagrada fazendo algo vergonhoso.
— O QUE FAZ AQUI? – ela perguntou em um tom nervoso, dando-lhe as costas e escondendo o rosto.
– Passando o tempo? – respondeu simplesmente. – Rua cheia de bares, cidade turística, essas coisas.
— Sem esse tom irônico comigo, Picolé! – ela virou-se com o olhar furioso na sua direção e, surpresa, percebeu que ele sorria. – Qual é a graça?
— Eu... – ele dá um suspiro. Como dizer a ela suas suspeitas? – Nada. Vamos baixar as armas um pouco e recomeçar? Estamos atraindo a atenção das pessoas.
A morena olhou ao redor e viu que as pessoas realmente haviam sido atraídas pela discussão. Certamente por ter elevado a voz ao vê-lo de repente, o que a deixou ainda mais constrangida com a situação.
— Por que não vamos tomar um café? – ele sugeriu, atraindo o olhar desconfiado dela. – Eu conheço um café muito bom que fica a duas quadras daqui.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Esperanza, me dê a chance de tirar aquela impressão errada sobre mim... – ela arqueou a sobrancelha. – Sabe, o lago e...
— Impressão errada? Você me agarrou e me beijou!
— Já pedi desculpas por meu ato. Não sei o que deu em mim para agir daquela maneira... Eu nunca faria nada que fosse constranger ou intimidar uma mulher!
– Há uma ou duas razões para eu nem cogitar sair com você. Mas aqui vai a terceira: você é o Grande Mestre e eu sou uma amazona!
— Não me lembro de isso ser impedimento para tomar um café. – Camus coçou o queixo e depois acrescentou. – Lá tem bombas de chocolate.
– Eu estou falando alguma língua que você não conheça?
— Como Grande Mestre, estou ordenando que coma as bombas de chocolate com café italiano que vou te pagar.
Esperanza arregalou os olhos com o que ele disse e depois deu uma risada. Um riso tão cristalino e espontâneo, que, aos olhos de Camus, era o mais belo que ouvira em tempos.
— E se eu não for?
— Ouvi dizer que o Cabo Sunion é muito refrescante nessa época do ano.
— Sério?
— É o preço pela insubordinação.
Os olhos azuis dele se fixaram nos dela, e Camus experimentou de novo o impulso de excitação, algo que sempre o acometia a cada vez que pensava nela, coisa que ele fez com regularidade assustadora nos últimos dias.
– Está bem. – ela deu de ombros. – Cappuccino, não gosto de café. Aceito as bombas de chocolate e... gostaria de conversar com você sobre algumas coisas.
Camus notou que ela dissera a última frase em um tom sério e preocupado. Imaginou o que viria a ser e concordou com um aceno de cabeça. Fez um gesto para que o acompanhasse, oferecendo o braço a ela como um cavalheiro. Esperanza aceitou e começaram a caminhar.
Ao longe, alguém observava a cena com a expressão contorcida de ódio. Olesya cerrou os punhos, vendo-os seguir por uma rua, misturando-se à multidão de turistas que visitava o local em busca de um happy hour.
– Ela não vai atrapalhar meus planos... – a gema rubra começa a brilhar e ela a toca com a ponta dos dedos. – Nenhuma vadia irá nos atrapalhar, meu senhor. Eu prometo que a tirarei de meu caminho... nem que tenha que matá-la para isso!
Continua...
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