Eterno

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
Boa leitura.

Eterno

Ele é imortal.

E ele odeia isso.

Imortalidade.

Uma benção ou uma maldição?

Há aqueles que a definem como uma benção dos Deuses poder viver eternamente, contudo, a realidade é completamente diferente do que imaginam e eu, Sasuke Uchiha, sou a prova viva disso.

O que é a vida? É saber que amanha pode ser seu ultimo dia, contudo, para mim, não há mais o fim, desconheço tal palavra, assim como, da mesma forma, sinto-me bastante familiarizado com ela – em vista de quantas mortes presenciei.

Posso dizer com convicção que a imortalidade não é nenhuma benção, pelo contrario, talvez seja a mais cruel maldição imposta há alguém, os séculos que pesam sobre meus ombros podem confirmar isso. Vi amigos e irmãos envelhecerem e morrerem; vi seus descendentes terem o mesmo destino, e os filhos de seus filhos seguirem o ciclo infinito da vida, tudo isso enquanto mantive-me intacto, imutável e solitário.

Nunca me arrisquei a amar e apesar de todos os meus esforços para ir contra qualquer sentimento de amor, quando imaginei que tal sentimento jamais poderia brotar dentro de mim, ela surgiu com a graça de uma dançarina e a beleza de uma fada. De cabelos exoticamente rosados e olhos do mais belo verde que contemplei em toda minha extensa vida. E com tudo isso, ela ainda era somente uma criança inocente.

Era um fim de tarde quando a avistei pela primeira vez, ela era somente uma criança e possuía um belo sorriso – mesmo que estivesse lhe faltando um dente. Eu caminhava pelo acabado caminho de terra que havia entre o terreno de algumas fazendas, um belo lugar com propriedades incrivelmente extensas, e ela vinha guiando uma pequena carroça ao lado de uma mulher mais velha – sua mãe. Recorde-me de que elas me ofereceram uma pequena carona pela estrada e até me ofereceram um convite para passar uma noite em sua propriedade, aparentemente o pai dela – Kizashi, se não me engano – gostava de ouvir historias de guerreiros viajantes, e por ironia do destino eu era um velho guerreiro com demasiadas histórias de guerra para serem contadas; e apesar de saber que deveria negar tal convite, aceitei-o, tudo por causa do sorriso animado dela.

Nunca me arrependi daquela escolha, contudo, acredito que eu deveria ter dito não para o convite. Uma contradição, eu diria, mas tudo teria sido tão mais fácil se não houvesse me deixado levar.

Uma noite que se tornou uma semana de conversas envolventes com o simpático pai de Sakura – um nome que realmente combinava com aqueles cabelos e olhos -, Mebuki gostava de cozinhar para mim, e a família Haruno parecia absolutamente focada em manter-me com eles. A amabilidade expressa por aquelas pessoas era tocante e chegava a me lembrar de minha própria família, coisa que há muito havia escolhido esquecer, entretanto a pessoa mais interessante daquela casa era a menina que animadamente seguia-me pedindo historias ou até mesmo para ensina-la a lutar.

Antes que eu percebesse a semana se tornara um mês e eu já havia me acostumado a estar ali, a ajuda-los com a colheita e a contar histórias para saciar a curiosidade extrema de Sakura. E cada dia aqueles belos e límpidos olhos esverdeados me encantavam ainda mais; e eu, Sasuke Uchiha, podia afirmar com extrema precisão que em alguns anos ela poderia se tornar uma destruidora de corações e se não fosse por presenciar o quão cafajeste os jovens desta geração poderiam agir, eu sentiria pena dos futuros pretendentes que sofreriam na mão daquela garota.

Entre admiração, temor e ânsia eu a vi se tornar uma maravilhosa, e perigosa, flor. Os cabelos róseos cresceram belos e seus olhos nunca perderam o brilho inocente da juventude, nem mesmo quando fitavam o vazio com uma expressão de seriedade que não combinava com aquelas feições de porcelana.

Sakura Haruno crescera para ser invejada até mesmo por rainhas e imperatrizes, tudo nela poderia levar um homem a causar a maior das guerras ou mesmo desafiar a morte sem um segundo pensamento. Vi milhares de propostas serem apresentadas a seu pai e mãe; propostas que ofereciam ouro e joias caríssimas, terrenos, castelos, mansões, mas o velho casal Haruno negava todas, conheciam a filha bem o suficiente para saber que ela jamais se casaria por causa de uma fortuna. Tentativas de sequestro foram feitas e tive o prazer de ver cada infeliz bastardo ser espancado até o estado de semimorte por aqueles pequenos e delicados punhos que eu mesmo treinei.

Durante os anos que passei com aquela família sempre me questionei o porquê de eles nunca desejarem saber mais sobre mim, ou ao menos o porquê de eu não envelhecer. Mantive-me em silencio sobre o assunto, empurrando-o desesperadamente, rezando para que jamais viesse à tona; mas eu sabia que um dia ele surgiria e neste dia eu teria de partir.

Um dia, numa manha fria, ela me disse algo que mesmo hoje eu esqueci palavras que me deram esperança para meu desejo mais desesperador.

“Você vai morrer, eu vi.”

Não entendi o como ela viu e acredito que tenha ligação com os súbitos devaneios que por vezes ela tem. Talvez seja um dom. O dom de ver o futuro.

Eu conheci uma mulher num passado distante que teve esse dom, ela era um pouco agressiva demais e bebia demasiadamente, mas seu dom era verdadeiro. Se me recordo bem, seu nome era Tsunade Senju. Na época em que a conheci não dei muito credito a suas palavras de que matando determinada pessoa poderia se iniciar uma guerra, ironicamente a pessoa que não deveria morrer era meu alvo, um duque fracassado.

Eu o matei.

E a guerra estourou em menos de uma semana.

Milhares morreram naquela guerra e ela nem foi uma das maiores que presenciei. No fundo, era apenas mais uma guerra, mas isso não importa mais.

Lembro-me que quando Tsunade observava o futuro ela fitava o vazio por alguns minutos como uma pessoa totalmente diferente e quando voltava a si se tornava a bêbada irritante de novo; não entendo como não pude associar esse comportamento ao que Sakura por vezes faz, talvez eu tenha me deixado levar por ela ao ponto de esquecer o passado e o futuro que me espera.

De toda forma, como eu havia previsto, Sakura se tornou uma destruidora de corações – e eu estou definitivamente ausente da equação -, mas de alguma forma ela criou um apego a mim, me fazendo um alvo móvel de admiradores enciumados, não que eu não possuísse minhas admiradoras também – moças psicóticas, insanas e maníacas, que eu desejava manter a maior distancia possível.

E no aniversario de dezoito anos dela os pais da mesma pegaram-me de surpresa por mais uma vez.

“Você tomaria minha filha como sua esposa?”

Fora Mebuki quem me indagara isso durante o café da manha, enquanto servia-me uma xícara de café, Kizashi não pareceu surpreso por aquilo enquanto deliciava-se com seu chá, Sakura estava estranhamente calada na cozinha e eu podia jurar que cada um ali presente podia ouvir o som das batidas do meu coração. Foi uma situação um tanto quanto ilógica para mim; eu vi aquela menina se tornar uma mulher belíssima, e vi-me tornar-me um apaixonado por ela desde o primeiro olhar; e nunca temi tanto o futuro quanto naquele momento, afinal, a minha frente havia a eternidade, contudo, para ela, nada mais do que algumas décadas; mesmo que eu a amasse, ou tempo era o maior obstáculo que haveria. E mesmo sabendo de tudo isso, mesmo sabendo que chegaria o momento em que se eu dissesse o que queria dizer, não haveria mais volta, eu ainda sim respondi com um sim e um sorriso, e a calmaria demonstrada por minhas feições estava longe do caos de minha mente. E o grito — do que supus ser felicidade – que veio da cozinha logo após minha resposta quase deu-me um ataque do coração, não que isso fosse me matar.

Casamo-nos algumas semanas depois e ela estava feliz, quem diria que o presente de aniversario que ela mais desejava era poder casar comigo, logo eu, que nada tinha a oferecer além da minha alma imortal e do meu amor, que carregava mais pecados e arrependimentos do que podia-se contar, mas ela estava feliz e isso era tudo o que importava para mim, contudo sua felicidade lhe fora usurpada quando, numa madrugada fria de inverno, sua casa e a plantação de sua família foram incendiadas e seu pais morreram pelo desabamento da construção, e Sakura apenas não tivera o mesmo fim pois protegi-a.

Kizashi e Mebuki Haruto foram enterrados um ao lado do outro do outro lado do rio que cruzava a propriedade. Sakura ficara inconsolável e jurei vingança sob o tumulo de meu sogros, as pessoas que deram-me uma família e um novo motivo para viver.

Foram necessários algumas semanas de buscas e pesquisa, mas os alvos foram localizados e devidamente mortos, Sakura nunca deu uma palavra sobre o assunto, e assumo que ela mesma desejasse se vingar, e somente não o fizera pois não teria força emocional para tal.

Após tudo partimos daquela vila e apresentei a ela o mundo que ela nunca pensou em conhecer. Viajamos por cidades e países distintos, dei a ela a felicidade que ela merecia. Nunca pudemos ter filhos, ela descobriu ser incapaz de ter filhos e isso se tornou a segunda mancha em sua vida que lhe roubara o sorriso que eu amava, mas mesmo esse simples fato poderia me fazer ama-la menos. Sakura era minha razão de viver e nada me faria ama-la menos.

Os anos passaram e eu a vi envelhecer lentamente. Quando ela estava com seus quarenta e nove anos eu completei meu milionésimo ano de vida. A cada dia eu via seu olhar se tornar distante e suas rugas visíveis, mas isso nunca me fez ama-la menos. Sakura, para mim, sempre será aquela menina de curtos cabelos rosados, olhos de esmeraldas e um deslumbrante sorriso que faltava um dente. Ela sempre teria a beleza de uma fada para mim.

Com seu cinquenta anos compramos uma casa que havia alguns quilômetros longe do vilarejo que ela nasceu e dezenove anos depois ela faleceu em seu sono. Enterrei-a próxima a seus pais. Aqueles foram dias sombrios e doloridos, acredito que nunca havia chorado tanto em toda minha existência.

Sakura era minha vida e ela se fora, não havia mais motivos para eu viver, mas eu ainda continuava aqui. Não importava quanto tempo passasse sem comer, ou quanto sangue eu perdesse, meu coração ainda pulsava mesmo apunhalado ele batia dolorido e triste.

Vivi muitos anos solitários naquela casa onde o cheiro da minha única amada ainda estava presente e quando a dor já havia me consumido ao ponto de não haver mais nada além do torpor, eu parti para longe dali com minha velha capa, minha velha espada e a velha certeza de que minha imortalidade era uma maldição eterna.

Fim

Notas finais
Eu não pretendia fazer essa one chegar a quase duas mil palavras, mas aconteceu, bem, quase rsrs.
Espero que tenha ficado agradável e talvez um pouco dramática, eu realmente tive pena do Sasuke aqui.
Obrigado a todos que leram, bye.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!