Eternizando Cobrade
2 Capítulo Único - "Vocês estão bem"
– Será que vai dar tempo de ir no mercado? — ela olha para o teto branco e estéril do hospital.
– Não sei, Dama, deve ser só alguma coisa no seu estômago, de novo.
– Então vai ser rápido, né?
– Vai sim, daqui a pouco já vamos embora — ele beija a testa dela.
– Deve ter sido alguma comida francesa, aquele nosso último restaurante...
– Pois é, eu disse que não irmos nele.
– Fora que depois já fomos direto para o aeroporto, meu estômago não reagiu bem.
– Fica tranquila, o médico já vem para receitar algum remédio e você já vai ficar boa, minha Dama.
– Pode ser cólicas também, estou perto dos meus dias, eu acho.
– Pode sim, amor — ele puxa a cadeira para perto da maca e deita a cabeça na beira.
– Está morrendo de sono, tadinho — ela faz carinho na orelha dele.
– Não se preocupa, descansa um pouco, a viagem foi muito longa — ele beija a mão dela.
Ela continua fazendo carinho nele, Cobra fica em silêncio, e segura a outra mão dela. Em poucos minutos Cobra estava dormindo, Jade não para de mexer no cabelo e na orelha dele, ela sorri por ele ser tão presente, mesmo dormindo ele não deixa ela soltar a outra mão.
A porta se abre e o médico finalmente volta com alguns exames na mão, a expressão dele é serena, o que indica que não era nada grave, como eles imaginavam.
– Peço desculpas pela demora, mas o laboratório teve alguns imprevistos e o exame de sangue demorou um pouco mais.
– Tudo bem, doutor.
– E o que deu nos exames? — Cobra fala com a voz sonolenta.
– Está tudo normalizados, fique tranquila sra. Jade, vocês estão bem.
– Graças a Deus! Deve ter sido alguma coisa que eu comi mesmo... — ela para de falar, pensa e olha para o marido que já estava em estado de choque.
– Vocês quem? — Cobra mal consegue falar.
– Sua esposa e o bebê — o médico fala naturalmente — Esses enjôos e cólicas são normais quando está indo para a a quinta semana de gravidez.
– Quinta semana de gravidez?
– Sim, pelo que deu nos exames, está de quatro semanas e meia.
– Amor... — ela fala com a voz chorosa.
– O senhor tem certeza? — Cobra continua em choque.
– Vocês ainda não sabiam? — o médico estranha.
– Não, doutor, porque ela sofreu um aborto espontâneo há uns quatro meses atrás, na segunda semana de gravidez, falaram que seria difícil ela engravidar nos próximos três anos, no mínimo, seria uma chance em um milhão isso acontecer agora.
– Alguém precisa ser esse um em um milhão, não é? — o médico sorri.
– Vagabundo eu não acredito... Eu não acredito — Jade estava aos prantos com a mão na barriga.
– Amor, realmente gostamos de ir na contramão de tudo — ele brinca e coloca a mão na barriga dela.
– Vou só pedir uma ultra-som para semana que vem, vai estar na sexta semana e assim já vamos poder ouvir o coraçãozinho do bebê.
– Mas está tudo bem com ele? Tudo normal? — Cobra fala emocionado.
– Tudo normal, fiquem tranquilos.
– Eu tomei vinho três ou quatro vezes nas últimas semanas, será que fez mal para ele? — Jade fala desesperada.
– Os exames estão em perfeito estado, mas a partir de agora terá que se abster de qualquer tipo de álcool.
– Claro, claro, é que eu não sabia, juro.
– Está tudo bem, eu vou te encaminhar a uma obstetra e ela lhe fará as devidas recomendações e acompanhará a sua gravidez.
– Quando ela começa com o pré natal?
– O quanto antes melhor, agora a senhora está liberada, vou marcar seu retorno para a próxima sexta, tudo bem?
– Claro! — os dois respondem juntos.
Jade levanta da maca com a ajuda de Cobra. Ele mesmo pega a bolsa da esposa, Jade segura o braço dele para irem caminhando juntos ao estacionamento. A moça ainda chorava em silêncio, lágrimas de total felicidade, Cobra tenta disfarçar, mas as lágrimas eram tão espontâneas que ele não tinha controle sobre elas, então as deixou rolar. O Vagabundo abre a porta para ela e dá a volta para entrar no carro.
– Estou com medo — Jade fala quando já estavam deitados.
– Eu sei, meu amor, mas isso teremos que enfrentar... Juntos — ele beija a testa dela.
– Não quero morrer por dentro de novo — a lágrima escorre no cantos dos olhos e molha o travesseiro.
– Não vai, já passou o primeiro mês, fique tranquila.
– Eu ainda tenho...
– O que? Medo? — ele vira para ela — Já disse que não precisa, minha Dama.
– Sim, também tenho medo, mas não é disso que estou falando.
– Então o que é? — Cobra beija a mão dela.
Jade levanta da cama e o esposo fica sem entender, mas continua em silêncio, ela vai até o guarda-roupas e tira de lá uma caixinha. Ele nunca tinha visto ela, por isso estranhou, Jade sobe na cama de novo e coloca perto dele a caixinha.
– Ainda tenho saudades do nosso bebê.
Ele fica em estado de choque, mas ela sinaliza com a cabeça, pedindo que ele abrisse a caixa. Cobra abre e todo o lutador que existia nele, se esvazia em lágrimas. Era o teste de gravidez e uma chupeta. Ele não consegue mais segurar, deita a cabeça no colo de Jade, que o abraça e fica feliz por, finalmente, ele estar colocando para fora. As imagens dele entrando no banheiro começam a passar na sua cabeça.
FLASHBACK ON
"Ela não havia falado um palavra desde a conversa com o dr. Abreu, eu não sabia o que dizer durante o caminho até nossa casa. Ela queria o silêncio, apenas deitou a cabeça no meu ombro, enquanto eu dirigia, depois ela fechou os olhos, acho que ela estava tentando afastar qualquer tipo de pensamento. Jade estava forte demais, acabei pegando o caminho mas longo, ela não notou por já estar dormindo, mas eu só não queria chegar em casa, minha Dama acabou dormindo e eu dei graças a Deus por isso, fazia mais de vinte e quatro horas que ela não dormia. Abri lentamente a porta do carro e a peguei no colo, sim eu a levei no colo até o nosso apartamento; senti Jade ajeitando a cabeça no meu pescoço, ela estava mesmo com o rosto úmido.
Ela já dorme há mais de cinco horas, eu não consegui dormir, fiquei olhando ela o tempo todo, eu nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida. Ela se mexe um pouco e acaba abrindo os olhos.
– Vou tomar um banho — ela esfrega os olhos.
– Quer que eu vá com você? — tento parecer sensual.
– Amor... — ela sorri forçada — Eu preciso ficar sozinha — ela se estica para me dar um selinho.
– Tudo bem, eu vou fazer alguma coisa para a gente comer.
Ela desceu da cama e foi descalça para o banheiro, não pegou toalha nem nada, estranhei, mas continuei em silêncio. Fui para a cozinha ver se tinha alguma coisa para comer, se bem que mesmo se tivesse eu não saberia fazer. Peguei dois pacotes de macarrão instantâneo e coloco a água na panela quando começo a ouvir os gritos, larguei a panela e corri para o banheiro, meu coração está gelado e eu mal consigo pensar. Abro a porta o mais rápido que posso e ela está no canto do box, sentada no chão, nua e com o chuveiro ligado.
– POR QUE? POOOOOR QUE? — ela estava gritando muito e segurava as pernas.
– Amor... — eu estava em choque.
– SAI DAQUI! EU SÓ QUERO GRITAR! ME DEIXA... — voz dela falha, mas ela não estava disposta a parar — ME DEIXA GRITAR! CADE O MEU BEBÊ? POR QUE... POR QUE ELE TEVE QUE IR EMBORA? — ela não parava de gritar.
Eu me ajoelhei perto dela, acabei me molhando todo, mas nada disso me importava, só queria abraçá-la. Ela pregueou firme na minha camiseta, como se fosse rasgá-la, deitou a cabeça no meu corpo e chorou, os soluços eram tão fortes que o peito dela pulava.
– Eu quero o meu bebê.
Ficamos assim por volta de uma hora e meia, até que ela cansou. Eu desliguei o chuveiro e a peguei no colo, ainda nua, frágil, com os olhos vermelhos, eu não consegui chorar com vontade, tive tanto medo dela ficar pior. Eu a coloco na cama e ela me abraça, parece que seria assim pelo resto da noite, eu olho nos olhos dela e começo beijando o seu pescoço, não era "sexy", era uma forma de mostrar para ela que poderíamos tentar quantas vezes fosse.
– Eu te amo."
FLASHBACK OFF
– Tudo bem, deita agora — ela seca o rosto.
– Assim? — ela deita de barriga para cima e ele levanta a blusa dela.
– Ei, você ai dentro — ele se aproxima bem da barriga — Eu só queria dizer que foi a melhor coisa que nos aconteceu, eu papai não sabe cuidador muito bem de criança, mas até você nascer eu prometo que vou aprender, vou te proteger de tudo, e cada segundo a mais que passa conosco nosso amor só aumenta, acredite, não sei se vai ter espaço para tanto amor assim e por ultimo... Papai vai te ensinar muitos golpes.
– Vagabudo! — Jade fala rindo.
– Que foi, minha Dama? Menino ou menina, vai ter que lutar.
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