Eternidade e a beleza passageira

1 Capítulo I - Nikolai, o Eterno


O nome era Nikolai von Jaeger, antigo marquês de um território que, séculos atrás, era próspero, enquanto, em alguns dias em seu presente, o antigo marquês tinha dificuldades em sequer se lembrar de seu próprio nome. Não se lembrava do nome de suas terras, ou em que país seu castelo estava construído, mas, nas raras ocasiões em que caminhava pelos corredores, muito lhe vinha à mente.

No coração do castelo, o corredor se estendia como uma artéria escura, suas paredes de pedra maciça envoltas em sombras ancestrais. A luz pálida que entrava pelas rachaduras das janelas em arco era insuficiente para dissipar a atmosfera sombria que permeava o lugar. O chão de mármore gasto pelo tempo, marcado por séculos de passos silenciosos e solitários. O silêncio era quase tangível, interrompido apenas pelo ocasional rangido das vigas antigas ou pelo sussurro do vento que penetrava pelas frestas das janelas. As tapeçarias, outrora ricas em cores e histórias, agora estavam desbotadas e rasgadas, testemunhas mudas do passar dos anos. O cheiro de mofo e decadência impregna o ar. Neste corredor, o eco dos séculos passados se misturava com a sensação de que a escuridão guarda segredos que jamais serão revelados.

Nikolai deslizou graciosamente pelo corredor sombrio, sua figura esguia banhada pela luz pálida que atravessava as janelas arqueadas. Seus olhos, profundos e penetrantes como a própria noite, refletiam séculos de melancolia e solidão. Enquanto passava diante das pinturas de seus ancestrais, Nikolai sentia o peso da história sobre seus ombros imortais, mas se lembrava de seu nome, e de sua familia por conta destas mesmas pinturas. Cada retrato era uma lembrança de um tempo perdido, de uma era em que sua família reinava soberana sobre as terras agora inférteis e desoladas. Ele mal reconhecia os rostos de seus familiares e membros de seu clã imortal, os senhores da noite, e aqueles que moldaram seu destino e selaram sua imortalidade.

Ao chegar diante da pintura de seu progenitor mais antigo, o vampiro sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Os olhos do mestre pareciam penetrar sua alma, sondando os segredos que ele guardava até mesmo de si mesmo. Por um momento, Nikolai se viu refletido naqueles olhos antigos, reconhecendo a mesma fome insaciável que arde em seu próprio ser, mas, ao contrário de seus ancestrais, Nikolai carregava consigo um fardo de solidão que nenhum outro vampiro jamais conheceu. Ele é o último de sua linhagem, o último guardião de um legado que estava fadado a desaparecer nas sombras do tempo.

Não foi por falta de tentativas. Naquelas terras inférteis e isoladas, houveram inúmeras tentativas do imortal de transformar novas criaturas para adicionar à sua família e, dentre elas, até mesmo uma noiva. No corredor sombrio, uma pintura que retratava o antigo amor de Nikolai: Victoria, uma mulher de beleza sobrenatural com o olhar vazio e sombrio, enquanto Nikolai, de pé ao seu lado, refletia a intensidade do amor eterno em seu olhar. Suas mãos entrelaçadas evocavam uma união que desafiava a passagem do tempo, enquanto a paisagem ao fundo testemunhava o romance em meio à beleza selvagem e mistério. Apesar de, sem sombra de dúvidas, ser o retrato mais lindo do castelo e o que o vampiro tratava com mais carinho, apreciá-lo era uma forma de se torturar, pois ver sua amada era um lembrete constante de que a perdeu e, de todas as perdas, esta certamente era a que mais doía em seu peito, em seu coração que já não mais batia. Com um suspiro resignado, Nikolai continuou sua jornada solitária pelo corredor do castelo, envolto pela melancolia de um passado que jamais poderia ser revivido. Em seus olhos imortais, porém, ainda brilhava uma centelha de esperança, uma chama que se recusava a se extinguir mesmo diante da mais profunda escuridão.

Todos os sons lhe eram conhecidos. Vento, chuva, tempestades, criaturas e animais que se aventuravam próximos ao castelo em ruínas... Todos os sons lhe eram familiares, mas, naquela curiosa noite, um destes sons se provou ser algo novo aos ouvidos imortais do vampiro. Uma criatura que sentia ser familiar de alguma forma, mas se encontrou com dificuldades de reconhecer o que era, estava perto, e perto demais e, tendo sua curiosidade suficientemente instigada, decidiu investigar a origem da misteriosa presença que parecia vir de seus jardins.

Os jardins de von Jaeger nunca foram os mais belos. Flores selvagens tentavam florescer, mas a falta de insetos e aves tornava o solo infértil. Algumas plantas e vinhas conseguiam se contentar com o mínimo, e envolviam estátuas, bancos e uma fonte que não mais funcionava na entrada do castelo. Nada parecia vivo, e o que estava, era por muito pouco.

De longe, Nikolai pôde ver de onde vinha sua curiosidade: um brilho fraco alojado dentro de uma das flores murchas de seu jardim definhado. O vento frio não o incomodava, e o céu coberto de nuvens ocultavam todas as estrelas, com apenas uma lua crescente visível, mas ele já havia visto esta mesma cena por tantos ciclos lunares que não se admirava mais com a beleza da natureza. Para ele, era apenas mais uma noite fatídica, porém com algo naquela flor que suspeitava que fosse o entreter por um bom tempo.

O imortal se aproximou da flor murcha com uma cautela nascida de séculos de experiência. Seus olhos, brilhando com uma intensidade antiga, examinaram o brilho fraco alojado no coração da pétala desbotada. Com movimentos suaves, ele afastou delicadamente os frágeis pedaços de planta que envolviam o brilho, revelando uma cena que o fez deter seus movimentos por alguns segundos.

Ali, dentro da flor definhada, jazia uma criatura frágil e graciosa, sua asa quebrada pendendo tristemente ao lado do corpo. Uma fada, pequena e delicada como uma joia, com cabelos do tom do sol e olhos que faiscavam com uma luz sobrenatural. Nikolai observou-a por um momento, maravilhado com a beleza frágil da criatura. Em seus séculos de existência, ele havia visto muitas maravilhas deste mundo e do além, mas uma fada dentro de uma flor definhada era algo que desafiava até mesmo sua compreensão. O que traria uma criatura tão ligada à natureza e à vida ao seu jardim?

Particularmente, o vampiro possuía uma visão negativa de criaturas mágicas da natureza, tais como fadas, elfos e unicórnios: Ridiculamente entediantes e extremamente irritantes. Sinônimos da vida cuja a própria existência o rejeitava, tornando-o averso às criaturas da vida, mas, por algum motivo que nem o próprio compreendeu no momento, Nikolai se sentiu estranhamente atraído por aquela coisinha indefesa em seu jardim, já que, pelo tamanho e pela fragilidade, aquela coisinha dificilmente serviria como sequer um aperitivo.

Com um cuidado extremo, ele estendeu a mão, seu toque tão leve quanto uma brisa noturna, e ergueu a fada delicadamente da flor. Seus olhos se encontraram, a imortalidade encontrando a efemeridade em um instante etéreo. E naquele breve momento, Nikolai soube que esta fada quebrada havia trazido algo mais do que curiosidade para sua noite fatídica — ela havia trazido a promessa de uma mudança, e a garantia que os próximos dias seriam, no mínimo, peculiares.

A pequena criatura despertou, com as asas enfaixadas em um tecido de seda, e vestida com mais tecidos de seda, com costuras desengonçadas. Ao abrir os olhos, se viu num local estranho, parecia uma construção humana abandonada, mas certamente alguém a trouxe ali. Tentou se levantar de um emaranhado de tecidos e almofadas, sentindo seus pés delicados tocarem uma superfície de madeira velha, que cheirava a podridão e mofo. Certamente, se ela fosse um pouco maior, aquele carvalho teria se partido muito antes dela despertar.


Com passos delicados, investigou seus arredores. Parecia estar num quarto humano, com pilares e uma cama grande demais para apenas um humano. Na cama, lençóis carmesins e, acima da cama, cortinas da mesma cor, rasgadas e parcialmente devoradas por traças. A janela atrás da grandiosa cama mostrava o cinza da neblina e as gotas de chuva que pareciam querer adentrar o local, impedidos por um vidro que parecia muito frágil, podendo se estilhaçar a qualquer instante e, quando pensou em investigar mais um pouco os curiosos arredores, ouviu uma voz suave, o que a assustou, visto que não havia notado uma presença.” Finalmente, está acordada, coisinha.” Uma figura alta, vestida de preto e vermelho caminhava em sua direção, tão curiosa quanto ela. A pequena criatura tentou se esconder atrás de alguns tecidos rasgados, mas Nikolai apenas os tirou do caminho com uma facilidade que deixou claro a ela de que sequer valia a pena se esconder. “E aqui estava eu, pensando que você não sobreviveria.”