Eternidade e a beleza passageira

4 04 Capítulo IV - Toque da Compreensão


À medida que o sangue escorria por suas presas e a vida deixava o corpo da corsa, Nikolai sentiu um breve alívio de sua raiva, substituída pela satisfação primitiva de uma caçada bem-sucedida. Mas a fome por violência ainda ardia em seu peito, e ele sabia que essa não seria sua última presa naquela noite.

Ainda desnorteada, Asinha reuniu coragem para sair do emaranhado de tecidos ao perceber que o vampiro não estava mais por perto. Cuidadosamente, caminhou até a borda da mesa onde se encontrava, mentalmente calculando a altura que teria de pular para escapar, e chegando à conclusão de que não conseguiria. Com um suspiro derrotado, ao menos conseguiu respirar um pouco, após a poeira abaixar e o vento frio adentrar o quarto pelo buraco que antes era uma janela. Com um olhar curioso e investigativo, se voltou à ameixa, intacta, e a analisou cuidadosamente. Certamente, adorava ameixas, e não parecia ter nada de errado com aquela em específico. Uma mordida não faria mal, faria?

Uma, ou duas, ou três. Não tinha noção de sua própria fome até perceber que estava completamente embriagada com a doçura da fruta, devorando-a sequer se dando a oportunidade de mastigar direito. Sentiu o estômago doer quando percebeu que metade da ameixa já havia sido devorada, se deixando cair sentada ao lado da fruta, respirando com cuidado. Com partes do tecido que a cobria, tentou se limpar do néctar, certamente seus amigos da floresta ririam de como indelicada ela estava sendo com sua refeição, se ao menos eles pudessem vê-la agora... Aproveitariam mel e néctar juntos, e depois adormeceriam nas flores, com as pétalas protegendo-os dos ventos frios da noite. Algo que aqueles trapos não faziam, lembrando-a de que estava na torre de um castelo frio, quando sentiu o vento invadir o cômodo pela janela, movimentando a poeira e fazendo a pequena fada tremer.

Incomodada com o frio, lançou um olhar disfarçado para o vestido rosa que o vampiro havia lhe mostrado. O tecido parecia quente, algum tipo de seda aveludada... Seus amigos certamente repudiariam a ideia de vestir algo tão humano, mas eles não estavam ali, e estava tão frio. Talvez, devesse ao menos experimentar o vestido, e, se não a aquecesse, simplesmente o chutaria para o lado, ou o destruiria e usaria o tecido como cobertor.

Dito e feito, após se recuperar da refeição, caminhou cautelosamente até o vestido, erguendo-o e julgando o design mentalmente. Não era feio, apenas muito humano. E o tecido parecia tão confortável, que decidiu experimentar. Despiu-se da seda que a cobria, se arrepiando com o frio do quarto, e, como instruído pelo imortal anteriormente, pôs o vestido por baixo, se remexendo para ajustar tudo em seu corpo. Suas asas estavam expostas pelas costas nuas do vestido, mas uma pequena fita a permitiu ajustá-lo, para que não ficasse folgado ou caísse. As costuras, diferentes das costuras feitas pelo vampiro, eram delicadas e confortáveis, mas o vestido era muito pesado. Se fosse capaz de voar, aquele peso do tule certamente a atrapalharia, mas aquele não era o caso no momento. Deu algumas voltas, e caminhou pela mesa a fim de se acostumar com as novas vestes, e então pegou os trapos que usava para se cobrir e envolveu suas asas, cobrindo as costas como uma espécie de xale. Estava vestida, aquecida e alimentada. Olhou para o buraco onde ficava a janela mais uma vez, a lua brilhando e iluminando a noite. Não estava acostumada a ficar acordada durante a noite, e seu corpo a lembrava disso. Tossindo menos, imaginou que seria o momento perfeito para tentar descansar mais uma vez, voltando ao emaranhado de seda que usava como cama, e se encolhendo, adormecendo quase instantaneamente, enquanto respirava com calma.

Em algum lugar da floresta, Nikolai se banqueteava em meio às arvores, com um brilho selvagem nos olhos. Uma de suas poucas roupas intactas agora estava completamente destruída, mas pouco lhe importava. As asas negras pareciam envolvê-lo na escuridão, enquanto as garras, pintadas de vermelho, carregavam consigo restos de carne e pele de suas presas da noite. Se sentia um monstro, e não lhe surpreendia que Asinha o temesse, mas estava se esforçando tanto para ajudá-la, que não conseguia compreender o motivo de tanto medo da criaturinha. Pensamentos assim passavam por sua mente rapidamente, enquanto rasgava a carne de sua presa com os dentes, deixando escorrer o sangue das arvores e pingando na grama, no chão da floresta.

Não demorou muito para que morcegos-cauda-negra se aglomerassem nos restos dos cadáveres que o vampiro deixou para trás. A espécie carnívora havia se adaptado para viver aos arredores de covis e castelos vampiros, agindo como carniceiros, se aproveitando da carnificina para se alimentar sem a necessidade de caça. Por serem animais pequenos, e estarem constantemente presentes, vivendo junto aos seres imortais, e ainda os ajudavam a limpar a bagunça, a presença dessas criaturas não incomodavam Nikolai, tendo se acostumado com o som do bater de asas e do sonar dos animais. Estava ciente de um ninho que se alojava próximo de seu castelo, e, ao vê-los bebendo do sangue da poça na grama, se lembrou vagamente de que estes mesmos morcegos, nos raros momentos em que caçavam, capturavam qualquer criatura viva que fosse menor que eles. Se não tivesse encontrado Asinha a tempo, certamente a coisinha teria sido devorada.

Após uma caçada tão longa, o imortal perdeu a noção do tempo, quando sentiu o ar aquecer ao seu redor, não pelo calor, mas uma forma de seus instintos sinalizarem que o sol estava prestes a nascer. Não tinha certeza de quantos corpos havia despedaçado naquela noite, nem se foram todos animais, mas precisava buscar refúgio da luz solar em sua fortaleza. Nikolai então largou o cadáver de algo que se assimilava a um javali do topo da arvore, que despencou sobre a poça de sangue e espantou todos os morcegos que se alimentavam ali. Enquanto o horizonte começava a clarear com os primeiros indícios do amanhecer, o vampiro estendeu suas asas, levantando voo, tendo sua sede de sangue temporariamente saciada. Todo o corpo de Nikolai batia contra o ar frio da manhã, enquanto todo seu ser formigava com a energia da transformação, uma lembrança constante de sua natureza predatória e sua solidão imortal.

Ao pousar no terraço do castelo, cambaleou levemente, sentindo a fraqueza começar a se instalar em seus membros cansados. A transformação começava a perder a força, drenando sua energia quando sentia a luz do sol se aproximar. Com uma urgência em seus movimentos, se arrastava para dentro do castelo, cada passo uma luta, deixando um rastro de restos de suas roupas e partes de animais que haviam sido estraçalhados para trás. O vampiro mal conseguia se concentrar o suficiente para desfazer completamente sua transformação, mantendo as garras afiadas e as asas, que pesavam em suas costas, varrendo o chão por onde passava.

Ao finalmente alcançar seu refúgio, o quarto principal, se deparou com algo que não esperava: uma ameixa comida pela metade e Asinha num emaranhado de tecidos, vestindo uma das roupas de boneca que mais cedo se recusou a experimentar. O olhar cansado de Nikolai investigou cuidadosamente a criaturinha adormecida, notando a calma e a respiração estável, indicando que, apesar de ter lhe custado a janela, o ar puro fez bem à fada. Por um momento, ao vê-la indefesa e tranquila, seus olhos perderam a selvageria, e sentiu uma calma se estender por todo seu ser. Respirou fundo, por mais que não necessariamente precisasse respirar, e se dirigiu aos restos da janela, fechando as cortinas pesadas para evitar que a luz solar adentrasse o quarto. Então, despencou em sua cama, que rangeu em resposta. Se cobriu com os lençóis, e se envolveu em suas asas, sentindo-se imerso na escuridão. Finalmente, seu covil.

Enquanto o sol começava a surgir no horizonte distante, os primeiros raios de luz dourada filtravam-se pelas cortinas densas e decadentes do quarto principal do castelo. Asinha, despertando lentamente de seu sono tranquilo, piscou os olhos enquanto se espreguiçava delicadamente entre os tecidos que a envolviam, como se estivesse emergindo de um sonho. Ao correr o olhar curioso pelo quarto, a fada imediatamente notou a presença de Nikolai, envolvido lençóis e asas negras. Nunca havia visto um vampiro transformado antes, e não deixou de sentir o cheiro de morte que estava ainda mais intenso naquele momento. Uma trilha de sangue demarcava o caminho que ele havia feito antes de se envolver em seu sono, mais uma vez desconsertando a fada, lembrando-a de que aquele era um assassino, uma máquina de matar.

Os instintos de sobrevivência da fada a faziam recuar, mas a mesma curiosidade que a guiava, a instigava a observá-lo cuidadosamente. Sempre que o predador se movia, o coração da fada disparava, temendo que ele despertasse em algum tipo de fúria descontrolada, e o sono do vampiro parecia particularmente turbulento. Ele não emitia sons, nem respirava, mas cada movimento fazia com que a cama rangesse violentamente. Não precisou pensar muito para chegar à conclusão de que o vampiro sofria de terrores noturnos. Ponderou cuidadosamente suas opções, mas a natureza empática superou seu medo, levando-a a tomar uma decisão que não tinha certeza se outros de sua espécie aceitariam.

Com cautela, Asinha puxou os tecidos que a envolviam, jogando-os da mesa onde se encontrava para o chão, deslizando delicadamente como se fosse uma espécie de vinha, seus pequenos pés tocaram o chão com leveza. Ela observou Nikolai atentamente, avaliando seus movimentos enquanto ele se contorcia na cama, preso em algum pesadelo sombrio. Com determinação, a fada decidiu que precisava se aproximar do vampiro adormecido, talvez na esperança de acalmar seus tormentos noturnos ou simplesmente para entender melhor sua condição. Com passos silenciosos, Asinha se aproximou da cama onde Nikolai descansava, mantendo-se o mais discreta possível para não perturbá-lo. Com um impulso de coragem, Asinha saltou para os lençóis que cascateavam da cama, seus pequenos dedos agarrando-se às dobras do tecido enquanto ela escalava com habilidade. Se lembrava de quando escalava vinhas e cipós na floresta, quando brincava com seus irmãos, exceto que as plantas tinham um cheiro muito mais agradável que a decadência do local em que ela se encontrava.

Finalmente, Asinha alcançou a superfície da cama, observando cautelosamente o predador encasulado. Era difícil manter o equilíbrio enquanto andava, e evitava pisar nas asas de Nikolai, por mais que duvidasse que aquilo o machucaria. Procurou por entre o emaranhado de tecidos o rosto do vampiro, que permanecia inerte e alheio à presença de Asinha. Ele parecia tão vulnerável naquele momento, tão diferente da figura intimidadora que ela havia imaginado, com olhos fechados que demonstravam uma dor que ia muito além do corpo físico. Uma onda de compaixão inundou o coração da fada, impulsionando-a a estender a mão com delicadeza para tocar a ponta do nariz do vampiro, enquanto permanecia de pé sobre os cabelos bagunçados da figura, tentando acalmar os sonhos turbulentos com um simples toque de sua magia, seu Toque da Compreensão. Ela nunca havia usado o feitiço em nada além de animais que tentava ajudar na floresta, então a ideia de experimentá-lo em um vampiro adormecido a deixava nervosa.

Uma sensação estranha começou a se espalhar, se iniciando com um formigamento familiar percorrendo toda a extensão de seu corpo, como se a energia do vampiro se acumulasse num único ponto, e a sensação foi evoluindo, quando uma onda de choque atingiu Asinha, que se sentiu como se fosse atingida por um raio, com a explosão de emoções reprimidas sendo compartilhadas por um único toque. Uma inundação avassaladora de dor, solidão e desespero preencheu o pequeno corpo da criatura, que foi submergida por um horror esmagador de lembranças e lutas internas equivalentes a um século de existência atormentada. Por um momento, a fadinha se viu perdida na tempestade de emoções de Nikolai, incapaz de distinguir onde terminavam suas próprias sensações e onde começavam as dele. Era uma experiência opressora, mas também reveladora, permitindo-lhe vislumbrar a verdade por trás da máscara do assassino adormecido.

Atordoada, Asinha cambaleou, tropeçando nos fios negros do cabelo de Nikolai, se enroscando neles. “෴” choramingou, confusa e atordoada, não sabendo como processar tudo o que havia experimentado, contudo, com o coração acelerado e a energia pulsando em seu corpo, ao olhar mais uma vez para o imortal, notou que agora estava imóvel, visivelmente mais imerso em sonhos tranquilos. Ao menos um dos dois havia se beneficiado daquele feitiço, e Asinha não deixava de se perguntar se havia tomado a decisão certa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.