Notas iniciais
Olá! Demorei um pouco, mas voltei do hiato anunciado anteriormente. E com um "especial de Natal"! Espero que gostem.

Os cavalos cessaram sua caminhada logo na entrada do acampamento. Os Magos saltaram de seus lombos e os puxaram pelas rédeas para amarrá-los, enquanto as mulheres passavam entre eles.

Estavam de volta ao povoado de antes — lugar de onde Curumo e Pallando foram expulsos por um velho ancião. Era ainda noite, e mesmo a aproximação daquela coluna tardou a gerar algum furor dentro das tendas. Estavam todos tão acostumados aos gritos dos espíritos da madrugada que tentaram apenas continuar a dormir, sequer imaginando o que se passava do lado de fora.

Aqueles que primeiro saíram foram justamente os pequenos. Yastor meteu a cabeça para fora da tenda e, percebendo a presença material dos forasteiros, chamou uns três ou quatro amigos e se aproximou rapidamente.

Alatar o viu e deixou escapar um sorriso. O choro do menino ao reencontrar a mãe acordaria todo o restante de seu povo.

***

Reunidos em uma tenda, os Magos discutiam.

— Não compreendo o que quer dizer, Alatar. Concordamos há muitos séculos que nossas intervenções seriam mínimas — constatou Curumo. — Já nos desviamos de nossos afazeres por tempo demais ao ajudar essas mulheres.

O Mago Azul, sentado, encara o outro com intensidade.

— Quer abandoná-los todos à própria sorte?

— Uma vez que eliminemos o inimigo, as adversidades dos homens não são nosso problema. Qualquer vantagem que ele esteja oferecendo aos seus adoradores será reduzida a pó.

Pallando observa a situação com cautela. Cabia a ele fazer o meio-termo entre seus companheiros e representar a voz da sabedoria sempre que possível. Embora fosse próximo de Alatar, também admirava Curumo ao ponto de dar-lhe razão em muitas das discussões que travavam.

— Curumo não está de todo errado. Se nos livrarmos dele…

— Derrotar um balrog trará os guerreiros desse povo de volta? Os conquistadores não precisam de ajuda alguma para derrotar aqueles que já não têm como lutar.

O Mago Branco meneia a cabeça.

— Não percebe? Precisamos ser mínimos em nossas intervenções, Alatar, para que o destino dos povos não contamine nosso próprio espírito. Salvar essas pobres mulheres moveu tuas paixões ao ponto de agora desejar lutar uma guerra que não é tua. Continue neste caminho e logo só há de se preocupar com o destino dos homens. Serás enredado por seus problemas e esquecerás de tua missão.

— Ora, o que devo fazer então? Fingir que não sinto suas dores? Fechar meus olhos e partir quando forem esmagados pelos ímpios? O objetivo de lutar contra o Senhor do Escuro é fazer aquilo que é certo, Curumo. Derrotá-lo não é um fim em si mesmo.

— Temos ordens a seguir. Pretendo cumpri-las.

— Pode fazer o que quiser. Não é meu dever fazer o mesmo.

Seus olhares se chocam, as faíscas quebrando o silêncio por um momento. Ambos apertam seus cajados com mais força.

— Se pensas que permitirei que faça o que bem entende…

Antes que o Branco terminasse sua sentença, Pallando bateu suas mãos sobre a mesa. Um vento intenso adentrou a barraca e derrubou o chapéu de ambos os Magos, chamando sua atenção.

— Tomaremos uma decisão após lidar com aquilo que procuramos. Esqueçam as desavenças por hora. A missão é mais importante.

***

Seguiram viagem no entardecer seguinte. Foi suficiente para que os cavalos tivessem algum descanso.

Singraram léguas lépidas pelo deserto. Não tardou para que o marasmo se abatesse sobre suas existências: por mais que avançassem, era como se a própria realidade se recusasse a se desvelar diante de seus olhos. Tudo se mantinha perfeitamente idêntico, a eternidade das dunas se reerguendo a cada hora, sua calidez recaindo sobre seus mantos. Sequer uma rocha, um cacto, um escorpião se erguia em desafio: era uma tela simples, erigida por um artista pouco talentoso. O tempo ali percorrido já parecia se estender indefinidamente, a noite caindo e se aprofundando — ainda que o calor não arrefecesse. Os cavalos reduziam o ritmo.

As gotas de suor já rolavam quando Pallando ergueu a voz.

— Há algo errado — anuncia.

— Não te precipites — rebate Curumo, impaciente. — Seguimos o Sol em sentido correto e tomamos as devidas precauções. O deserto é traiçoeiro.

— Não, Curumo. Já tenho forçado a visão há muito tempo. Vejo uma densa camada de névoa, mas é como se jamais a alcançássemos.

— Não está sugerindo que nós estamos presos em um feitiço, está? — Alatar tem certo teor ranzinza.

Todos eles cessaram seus dizeres por um momento. Curumo procurava evidências capazes de sustentar ou desbancar a teoria de seu companheiro, os olhos saltando de um lado para o outro. Pallando segurava com força as crinas de seu animal, respirando pesadamente — seu olhar permanecia estático, atento como o de um predador. Foi Alatar, entretanto, quem apenas suspirou e, puxando o cajado, o bateu contra o chão.

— Chega de truques. Mostre-nos o que quer mostrar.

Bastou que dissesse tais palavras para que as areias do deserto se agitassem. Veio vento forte e o vermelho se ergueu sobre os Magos, seu uivo ecoando em suas mentes. O calor se fez ainda mais intenso, as gotas de suor evaporavam antes de tocar o chão. Fechando os olhos, os três tiveram de se segurar com dificuldade conforme os cavalos relinchavam e se erguiam em duas patas.

Fogo. O cheiro era inconfundível. Assim que veio, a fumaça se uniu ao vento e pareceu torná-lo ainda mais intenso. Pallando foi o primeiro a cair no chão — Curumo, o último.

A tempestade de areia se erguia aos céus como uma torre. Aprisionados sob a tormenta, os Magos sequer podiam ver adiante. A fumaça parecia se impregnar em suas roupas e invadir seus pulmões. Dentes cerrados, eles tentavam, a muito custo, se erguer, enquanto a ventania os arrastava para longe. Foi o Mago Branco quem primeiro conseguiu se pôr de pé e, batendo o cajado, bradar:

Basta!

Sob seu grito, a tempestade se dividiu em duas colunas distintas, abrindo em torno dos magos uma espécie de grande corredor. Estavam entre duas revoltas paredes de areia. Alatar e Pallando logo se meteram de pé, mas já não havia sinal dos cavalos — então, se puseram a correr.

***

Levou longos minutos para que escapassem, alcançando enfim terras mais calmas e se refugiando em uma gruta. Ofegavam. Alatar e Pallando se deitaram sobre a pedra fria, lançando olhares ao teto; Curumo se projetou sobre o cajado com dificuldades. Demorou algum tempo para que alguém abrisse a boca.

— É impossível — disse o Mago Branco. — Uma criatura como essas não poderia, jamais, ter esse poder. Não sobre todos nós.

— Qual é a sua brilhante teoria? — ironiza Alatar.

Curumo o encara com algum desprezo.

— Que sejam dois, quiçá três deles — responde. — E você deveria se atentar à tua língua antes que eu o faça se arrepender.

O Mago Azul se ergue de súbito. Um vento cortante se faz ouvir, invadindo a caverna com ímpeto desmedido.

— Ora, quem você…

— Está errado, Curumo — Pallando, mais uma vez, se intromete. — Não são dois, tampouco três. É um só, mas não é um balrog.

Os dois se voltam para o terceiro, percebendo que ele já havia se levantado e estava do lado de fora, ao relento, sobre as areias.

— O que quer dizer?

— É O Um.

Há um momento de silêncio estupefato. Eles também se aproximam a passos rápidos, buscando ver o que havia tomado sua atenção.

— Não seja insolente — rebate Curumo. — Jamais esperaria que logo você diria algo como…

— Ele está certo.

A voz de Alatar já não tem o tom irônico de antes. Ao contrário, carrega toda a sabedoria que aquele sujeito era capaz de demonstrar — embora, volta e meia, os outros se esquecessem. O Mago Branco ergue as sobrancelhas, mas o questionamento morre em sua garganta ao olhar na mesma direção que os demais.

Sobre as areias do deserto, se erguia um pequeno lago, com umas poucas pedras e árvores ao redor. Brilhava sob a luz das estrelas, a lua refletida em sua superfície. Suas águas eram tão límpidas quanto o mais puro dos cristais. A visão era estonteante, sobretudo em meio ao deserto maldito em que se encontravam; apesar disso, ele ainda não havia entendido. Mas como poderia? Não estivera lá naquele dia, tanto tempo atrás.

— Um oásis?

— Mais que isso, Curumo. Cuiviénen — diz Pallando.

— Milênios atrás, foi aqui que os elfos despertaram — conclui Alatar.

O lugar era, agora, muito distinto do que fora um dia. As terras do entorno eram, naqueles tempos, férteis e belas, e não havia deserto; agora, amaldiçoadas pela perfídia daqueles que haviam renegado o amor e a luz, se tornaram secas e feias. Mas Cuiviénen ainda conservava todo seu resplendor — quiçá ainda mais que naqueles tempos, posto que agora ressaltado pelo contraste com o que havia no entorno.

Era claro que não fora o inimigo que os trouxera ali.

Reflexivos diante do que viam e da grandiosidade d’Aquele que os criara, os Magos permaneceram calados por um momento. Se permitiram observar o resplendor da lua refletida sobre as águas, conforme o céu, devagar, se tingia de vermelho e dava espaço ao alvorecer.

Foi Pallando quem traduziu a mensagem em palavras.

— Estaremos em paz até a conclusão de nossa tarefa — anuncia. — Qualquer diferença que tiverdes entre vós, resolverão somente quando tivermos terminado.

Os outros dois assentiram em concordância.

— Alatar, leia as estrelas, por favor — pede Curumo.

Se aproveitando dos últimos instantes nos quais elas permaneciam visíveis nos céus, o Mago Azul olhou para cima e, após breves murmúrios, se colocou a caminhar.

Os demais o seguiram pelo deserto.

Notas finais
Obrigado pela leitura!