Eternamente
61 Bônus de aniversário
Notas iniciais
Abri os meus belos olhos, e percebi que era o dia. O dia mais importante do universo: o meu aniversário! Hoje deveria ser feriado por isso. Eu, gostoso e lindo desse jeito, deveria ter um dia ilustre, porque eu não nasci, eu estreei. A idade? Não falo, porque gosto do mistério, mas saibam que eu sou como um vinho; quanto mais velho, melhor e mais gostoso. Não que eu esteja com a inscrição para o asilo por ser muito velho, mas não tenho os meus vinte e poucos anos.
Olhei para o lado, e a Emy não estava na cama. Isso poderia ser um sinal de que ela estaria preparando um café da manhã espetacular pra mim, com direito a tudo o que eu gosto de comer, inclusive ela. Hoje o playground daqui de baixo está aberto, e sem hora pra fechar.
Tomei um bom banho, passei aquele perfume que ela gosta, porque hoje é dia de maldade, coloquei um terno e desci. Estava tudo muito quieto para uma festa de aniversário. Sim, porque eu tenho certeza de que eles estão preparando uma festa para mim. Ai deles se não fizerem nada para mim.
Assim que cheguei à sala, não tinha nenhuma bexiga na parede, nem os sussurros da Emy para as crianças ficarem quietas. Isso não é um bom sinal. Sentindo cheiro de esquecimento de aniversário. Fui para a cozinha, e ela estava ali, tomando o café da manhã, sem nada especial, ou gritos de "surpresa", bexigas e nem um bolo. Nem um misero bolinho, mesmo se fosse sem glúten, lactose e sabor. Não tinha nada! Que tristeza!
— Bom dia! – cheguei sorrindo, porque quem sabe, né?!
— Bom dia, meu amor. – Emy sorriu de volta, e deu um gole em seu café.
Só isso? Cadê o: bom dia, meu amor e maior motivo da minha vida ser gostosa. Ou um, bom dia, seu gostoso lazarento e dono da porra toda, que me deixa louca de tesão. Não recebi nada disso, só um simples bom dia.
Tudo bem, porque os meus filhos irão lembrar-se do meu aniversário. Eles precisam se lembrar, porque eu fui o fornecedor. Se estão aqui no mundão, é porque o bonitão aqui forneceu a encomenda, e não desmerecendo o trabalho de parto da Emy, que eu fui um herói também nesse parto, mas isso vocês já sabem, né?
— Cadê a Sophie e o Lucas? – sentei-me, colocando café na minha xícara.
— Eu já chamei esses dois, mas parecem que não me escutam. – respirou fundo. — Sophie Campbell Hunter e Lucas Campbell Hunter, desçam agora, ou eu desligo o wi-fi, e jogo o aparelho na piscina. – ela gritou, olhando para a escada. — Não vão descer? Eu vou contar até cinco. Um, um e meio, dois, dois e meio, três, três e meio, quatro, quatro e meio, quatro e trinca e cinco, e...
— já estamos aqui, mãe linda. – disseram.
Escutei passos correndo em direção à cozinha, e sorri, esperando um parabéns para o papai lindo.
— Bom dia, papai. – os dois me deram um beijo no rosto e só.
Só isso? Isso é um jogo da vida comigo? Já sei. Eu fiz uma promessa de ficar sem comer chocolate, mas não aguentei dois dias, e quebrei a promessa, deve ser isso. A vida conspirando contra o meu aniversário, que é uma data que a gente come doce, então é um jogo de tabuleiro, do qual eu sou a peça principal. Um golpe da vida, mas eu não vou deixar a vida me dar essa rasteira. É o meu dia, e eu quero os meus parabéns.
— Então, me bateu uma vontade de comer um bolo. – joguei um verde para ver se amadurece a ideia que eu quero.
— Só comprar naquela padaria perto do escritório. – Emy disse, mastigando, e nem aí pra mim.
— Não sei se esse serve. É uma vontade de comer bolo de aniversário. De quem é o próximo aniversário? – perguntei entusiasmado.
— O nosso. – Sophie a Lucas responderam juntos.
— Verdade. Os meus bebês já estão ficando adolescentes. Passa tão rápido! – Emy sorriu saudosa, e mandou beijo para eles.
Para que o foco sou eu.
— Faz tempo que eu não vou a uma festa de aniversário. Acho que são as melhores, bexigas, docinhos, a surpresa que as pessoas fazem para o aniversariante. Acho tudo tão legal! – gente, mais direto que isso, só se eu gritar É O MEU ANIVERSÁRIO!
— Eu também adoro, papai. Bem que eu poderia fazer isso no aniversário do Nathan. Ele vai adorar! – o que a Sophie pretende fazer com o Nathan? Ah, ela pensa nele, mas se esquece do aniversário do pobre pai, que a ama incondicionalmente. É sempre assim mesmo.
Olhei para os três, e eles nem davam risadinhas de quem estavam escondendo alguma coisa. Não cochichavam, nem nada disso.
— Vamos, meninos, eu preciso ir trabalhar, porque hoje o dia vai ser cheio. Tenho reunião com os professores, um monte de papelada na escola, e devo chegar mais tarde em casa. Eu devo trazer as crianças, porque eles vão sair no mesmo horário que o meu. – beijou-me, pegando a sua bolsa. — Pode fazer o jantar, meu amor?
E ainda quer me dar serviço no dia do meu aniversário? É duro, hein?!
— Faço! – se eles já tinha se esquecido mesmo, porque eu vou ficar implorando por um mísero parabéns.
— Obrigada, meu amor. Vamos, crianças. – virou-se para eles, mas voltou a olhar pra mim. — Nossas mães saíram, então nada de pedir para que elas façam o jantar. Parece que foram conversar com um cliente, para resolverem o cardápio do Buffet do aniversário dele.
— Isso! – sorri, achando que ela se lembraria do meu.
— Isso o que, Gabe? – não, ela não se lembrou.
— Isso é bom pra elas. Pode ir, Emy, eu termino tudo aqui, e depois vou para o escritório.
— Ok! – beijou-me novamente, e os três saíram.
Pois é. Eu, uma pessoa maravilhosa, de corpo e de alma. Que trabalha honestamente, que paga as contas em dia. Que não faz bullying com ninguém, e não me olhem assim, porque eu não faço mesmo. Um homem incrível, bonito e muito modesto, não ganhou nem aplausos da minha família. Mas tudo bem, sem problemas. A vida é como uma roda gigante; uma hora você vomita, outra hora você é vomitado.
Nem a nossa secretária do lar me deu parabéns, mas já fiquei conformado com a irresponsabilidade dessas pessoas. O jeito era ir trabalhar mesmo. Droga!
***
Nem o meu pai. Nem o homem que me forneceu para a minha mãe, me deu parabéns. Tudo bem que ele saiu e entrou em reunião o dia todo, e que ele se esquece de algumas coisas, mas é o meu dia. O dia do único filho dele. ÚNICO! Imaginem se ele tivesse um monte de filhos então, já que com um único filho não se lembra.
Estou sentado na minha sala, olhando para a tela do Google. Até o Google me deu parabéns, menos as pessoas que eu amo. Não que eu não ame o Google, já que ele me salva de cada pergunta que me fazem. Então, obrigado Google, vamos comemorar juntos, já que foi o único até agora.
Nem os meus amigos, a chatinha da Beck, nem o Nathan, meu afilhado olhador de filhas alheias, a Lara, que é um doce de menina, nenhum deles me ligaram ou vieram até aqui. Bem que dizem que a gente não pode ter tudo o que quer.
No meu horário de almoço, eu comprei um cupcake, e cantei para mim. Ofereci ao Google, mas ele não pode comer mesmo. É bom que sobra mais. Liguei para a escola, e a Emy estava em reunião. Perguntei para a secretária se ela tinha mencionado alguma coisa relacionada a aniversário, e ela disse que não. Que a Emily está em reunião desde que chegou, e não mencionou nada. Ainda perguntou se era aniversário dela. Não, querida! É o meu aniversário!
Eu já estou conformado que eles esqueceram mesmo. Eu nem ligo, porque eu nem gosto de festa. Mande uma mensagem para a minha esposa ingrata, avisando que já estava indo embora. Desliguei tudo na minha sala, e sai. Vou é beber todas para esquecer esse dia terrível! Mentira, eu não vou beber, senão a minha mulher me mata.
***
Estacionei o meu carro, e desci, indo em direção a porta da sala. Destranquei, e acendi a luz. Puta que pariu, tomei um susto da porra com o que eu estava vendo.
— SURPRESA! – gritaram.
Ah, esses filhos de uma mãe solteira fizeram uma festa surpresa pra mim, e eu gritei feito uma garça. Estava tudo decorado, com bexigas douradas. DOURADAS! Essas bexigas são caras! Estava repleto delas, com o meu nome, de coração, de estrela e a minha idade, que não vem ao caso agora. Toda a minha família estava presente, principalmente a minha esposa esquecida, e os meus filhos ingratos.
— Parabéns, meu amor! – Emy me beijou na frente de todos, e o playground acordou. — Que você tenha um dia maravilhoso, de muita paz, amor, saúde e felicidade. Que você continue esse homem maravilhoso, que me faz feliz a cada segundo, que me completa e me apoia. Eu te amo muito. – beijou-me novamente. — Ah, mais tarde eu quero brincar de gangorra nesse brinquedão ai. – sussurrou no meu ouvido, e eu sorri. Hoje tem!
Todos vierem me cumprimentar. Meus filhos, minha mãe, meu pai, meus amigos, meu afilhado olhador de filhas, Lara, Beck, a chatinha, meus colegas de trabalho, até o George, irmão da Peppa pig, e todos estava aqui, e a estrela do dia era eu.
— Eu achei que vocês tinham se esquecido do meu aniversário. – falei para todos.
— E tem como esquecer, Gabe? Você ficou avisando um mês antes que o seu aniversário estava chegando. – Alex respondeu.
— Mando mesmo, e se reclamar, eu já começo a avisar o do ano que vem.
— Não! – gritaram.
— Então o Gabe está ficando mais velho. Dá até para ver que o cabelo está caindo. Coitado, vai ficar calvo logo, logo. – Beck já chegou provocando.
—Beck, como diz aquele lindo pensador, que no caso sou eu mesmo, se cabelo fosse para ser tão importante, não nascia no cu.
— Gabe! – Emy me repreendeu, olhando para os nossos filhos, que riam sem parar.
— Merda, falei cu! – droga, falei merda e cu, mas é tudo a mesma coisa. São irmãos mesmo.
— Gabe! – lá vem bronca da Emy.
— Desculpem-me. – sorri.
— Adivinha de quem foi a ideia da festa surpresa, tio. – Lara falou.
— Só tinha que ter saído da cabecinha da minha linda esposa.
— Não! Foi ideia da minha mãe, tio Gabe. – Lara respondeu.
Olhei para a Beck, que ria de mim. Ah, então foi ideia da sem noção da vida. Ela vai se arrepender.
— Foi uma surpresinha, querido. Eu só queria ver os eu desespero ao perceber que todos tinham se esquecido do seu aniversário. Foi hilário quando a Emily me contou que você ficava jogando umas indiretas para eles, e que você comprou um cupcake para você mesmo. Eu tinha que ter filmado isso.
Filha da mãe! Então foi ideia dela. Ah, Beck, você entrou para a minha lista negra.
— Eu nem estava ligando para a festa. E, não, eu não estou ficando mais velho, eu estou mais experiente, e a minha experiência vai querer vingança. – olhei pra ela, que bebia o seu champanhe.
Ela não me falou nada, só riu de mim, e foi parar ao lado do Alex. Ela sabe que está ferrada comigo.
— Ok, vamos parar com essa picuinha. Vamos comemorar, porque hoje é um dia de alegria. – mamãe falou, e eu corri para os salgadinhos.
Eu até estava planejando guardar alguns para comer mais tarde, senão todo mundo come e não tem mais para mim. Saiam daqui, abutres de salgados. Eles são meus!
Estava tudo tão lindo, até o bolo infantil que a Beck mandou fazer, já que ela ficou encarregada apenas de fazer o pedido do bolo, e essa mocoronga manda fazer um bolo infantil com o tema Peppa pig.
— Um bolo infantil, igual a idade mental do Gabe. – falou, rindo de mim.
— Eu não acheiruim, porque o importante é o sabor, não o que está por fora. Eu até gostei do tema, porque já temos o George – aponto para o George, que sorri com a brincadeira — E a Peppa está bem diante de mim – apontei para a Beck, que fechou a cara, ficando nervosinha.
— Olha aqui, Gabe, eu...
— Ok! Vamos cortar o bolo, porque eu quero doce. – Emy parou a nossa briga.
Começaram a cantar parabéns, e eu estava no meu momento deuso total. Flashes no meu rosto, fotos com todos e sorrisos para lá e pra cá.
Cortei o bolo, e fiquei até com medo da Beck ter colocado veneno, mas se fosse pra morrer, eu não morreria com fome, e ainda morreria feliz.
***
Depois da festa, todos foram embora. Deixamos a limpeza para a empresa que irá fazer isso amanhã de manhã. Ganhei presentes, porque sou maravilhoso, e mereço presentes. Mas, o melhor presente, é olhar para essas três pessoas que me completam. A linda família que eu construí, e que amo acima de qualquer coisa nessa vida. A mulher que eu amo, que me fez enxergar o homem que eu escondia por trás daquela máscara de mulherengo, e os meus filhos, que me fizeram sentir um amor absoluto e fora do normal. Um amor tão forte, que me faz ser capaz de protegê-los contra tudo e contra todos. Meus três maiores amores na vida, pelo qual eu sou capaz de tudo, sem pensar duas vezes.
Assim que os meus filhos foram para o quarto deles, a Emy me puxou para o nosso, e eu já sabia o que iria acontecer. Tranquei a porta, e ela me arrastou para o meio do quarto.
— Eu já te dei a um presente, mas esse é especial, só você irá sentir, e sei que vai gostar ainda mais.
Puta que pariu! Será que ela está grávida?
— Não, Gabe, eu não estou grávida, querido. Respira!
Não que eu não a queira grávida, mas Emy grávida é sinal de quase minha morte.
Ela tirou uma venda da gaveta, e olhou pra mim. Ai, meu Deus! Acho que eu já sei o que irá acontecer.
— Hoje eu vou te vendar e te prender, meu aniversariante. É o meu presente de aniversário, parte dois. – mordeu os lábios, e sorriu.
E foi nesse dia, que uma mulher me vendou e me prendeu completamente, mas eu já estava cega e presa e ela mesmo, então não fez diferença. E olha que o negócio foi bom, principalmente aquela parte que... Ah, não vou contar, quem sabe um dia eu não revelo o que aconteceu na minha festinha particular. Enfim, viva os meus... Ah... Parabéns pra mim, o Gabe gostoso. E parabéns para a minha criadora, que sem ela, eu não existiria. Até logo.
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