Eternally Hunted
4 3 - Nuvens negras
Notas iniciais
Faltavam duas semanas para o aniversário de 17 anos de Enid. Ela não estava ansiosa. Não faria diferença alguma ter ou não 17 anos. Só era um número a mais.
Na sexta-feira ela estava sentada na biblioteca da escola lendo um catálogo de Harvard. Tantos cursos, tantas dúvidas.
Na opinião da mãe dela, Rosana, ela devia fazer direito. Disse que não havia menina mais justa que ela, por isso, advocacia. Mas ela não se via como advogada.
Pelo pai dela, Felix, ela seguia a carreira dele e seria arquiteta. Mas Enid nunca foi muito boa em geometria, e quando via os desenhos dos projetos do pai dela ficava extremamente confusa. Tantas retas, números, e se apenas uma reta ficasse fora do lugar um prédio podia cair por culpa dela.
- Responsabilidade demais — ela murmurou para si mesma e riscou arquitetura do catálogo.
- Ei, veterana — disse a voz rouca de Cezar. — Falando sozinha? Não acha que é muito jovem para isso?
Enid deixou uma gargalhada nervosa escapar e gesticulou para que Cezar sentasse na cadeira de frente para a dela. Cezar tinha um olhar divertido. Naquele dia ele usava uma bandana preta e vermelha.
- Estou muito nervosa. Já estou no 3º ano e nem tenho ideia de qual curso vou fazer na universidade! — Enid falou e encostou a testa na mesa fria de ferro pintada de verde da biblioteca.
Cezar pegou o catálogo e deu uma lida.
- Caramba! Você já rodou quase todos os cursos daqui — disse ele, surpreso.
- Pra você ver! Estou desesperada!
- Relaxa — ele disse e Enid segurou o riso por causa do sotaque dele. — Você é uma menina inteligente, vai saber fazer a escolha certa.
Enid levantou a cabeça e jogou o cabelo para trás.
- Obrigada — disse e suspirou. — Tenho que pensar com calma — ela sorriu para ele. — E você, novato, vai fazer qual curso?
Cezar fez uma careta.
- Meu sonho é ser músico... Não penso em outra carreira além dessa. Não nasci para ficar preso em um lugar só, fazendo uma coisa só. Nasci para rodar esse mundo mostrando meu talento.
Enid levantou as sobrancelhas e fez uma cara de admiração.
- Ah, olha só, o novato é ousado! — ela exclamou e riu.
- Ousado? Não, acho que não. Sonhador, talvez. Determinado. Vou realizar meus sonhos. — Cezar exclamou e sorriu. — E você, veterana, ainda vai comprar os meus CDs!
Enid riu com ele e a sra. Watson, a moça da biblioteca, chamou a atenção deles pedindo silêncio.
- Ah, claro! Vou ser sua fã número um! — ela deu um tapinha no ombro dele. — E o meu CD MP3?
- Está quase pronto. É que eu estou fazendo com muito cuidado, sabe, para ficar bem-feito.
Enid sorriu para ele.
- Vai ficar demais, eu sei.
Eles levantaram e saíram da biblioteca juntos. Caminharam lado a lado e Enid percebeu que quase todo mundo estava olhando para eles com desconfiança. Mas as meninas encaravam Cezar descaradamente sem se importar com os namorados do lado.
- É, novato, parece-me que você está agradando a mulherada! — Enid disse, de brincadeira.
Cezar deu de ombros.
- Não me importo. Nenhuma delas tem algo que me atraia. Bronzeados falsos e minissaias não chamam a minha atenção — ele disse e depois olhou para Enid. — Acho que a personalidade tem que vir primeiro que a estética.
Enid olhou para o chão. Ela estava maluca ou aquilo foi uma indireta? Não, não, ele não podia se interessar por ela. Evan, ela pensou, Evan vai matá-lo se souber que ele estava dando em cima dela.
- Enid! — Angelin gritou aparecendo ao lado dela milagrosamente.
- Ange! — Enid exclamou e abraçou, grata por ela interromper aquele momento constrangedor.
- Ei, tenho um plano para atrair o... — Angelin parou quando viu Cezar a olhando. Ela meio que... paralisou.
- Oi — disse Cezar dando um sorriso simpático.
Angelin soltou Enid e olhou para ela pedindo ajuda.
- Hãããã... — Enid murmurou e depois gesticulou para Angelin. — Essa é Angelin, minha amiga do 2° ano.
Cezar, sem se importar com as bochechas extremamente vermelhas de Ange, a olhou de cima a baixo, a avaliando. Depois deu um sorriso malicioso olhando para as pernas de Angelin — que estavam bem expostas com a saia de pregas vermelha que ela usava, que ia somente até o meio da coxa.
- Olá, Angelin. É um prazer conhecê-la! — ele disse demorando-se ao olhar para os lábios pintados de rosa dela.
- O-oi! — Ange gaguejou, trêmula e deu um sorriso forçado para ele. — Olá! Hum, Cezar, certo?
Ele assentiu e a aproximou para dar dois beijinhos nas bochechas dela.
- Prazer — ele disse e depois simplesmente se afastou indo até o bebedouro que estava ali perto.
Angelin se segurou para não gritar e puxou Enid pelos corredores a levando para o banheiro feminino. Lá dentro ela deu um gritinho feliz, ignorando as meninas que se maquiavam no espelho.
- Enid do céu! Ele falou comigo! — ela exclamou entre risinhos. — Cezar falou comigo! Se apresentou para mim!
Enid riu dela e deu de ombros.
- Parece que ele gostou de você — ela disse e Angelin soltou mais um gritinho.
- Vocês são amigos, não são? Convide ele para ir na festa de hoje a noite, por favor! Vá com ele, mas lá eu vou ficar com ele! — ela sorriu e correu para fora do banheiro deixando Enid sozinha.
Quando ela saiu do banheiro deu de cara com Cezar, que sorriu para ela.
- Novato, pensei que meninas de minissaia não o atraiam! — Enid disse e riu.
Cezar deu de ombros.
- Para um compromisso não. Mas, poxa, eu sou homem! E aquela Angelin não têm pernas, têm monumentos que andam!
Enid fez uma careta e riu.
- Não fale sobre pernas femininas comigo, Cezar! — ela pediu.
Ele riu com ela e assentiu. O sinal da última aula da sexta tocou.
- Nos vemos depois, novato. — Enid disse e se despediu com um aceno.
Cezar acenou de volta e se virou para andar pelo corredor.
Só quando estava na sala de aula que Enid se lembrou do pedido de Angelin. Mas, com certeza, Cezar ia à festa. Todos iam.
A noite chegou rápido demais e Enid se arrumou para a festa. O banho morno a animou para ir, apesar de ela sentir que não devia ir. Um pressentimento ruim.
Não vá, uma voz repetia na sua cabeça. Mas, afinal, o que poderia acontecer de errado em uma festa cheia de adolescentes?
Bebidas, drogas, sexo, talvez. Mas não era algo a temer. Então por que diabos toda vez que ela pensava que estava indo para lá sua pele arrepiava e ela sentia como se uma pedra de gelo inteira tivesse derretendo no seu estômago?
Ela jogou um chiclete de menta na boca e sorriu. Nada de errado ia acontecer lá — assim ela esperava. E acabou de se vestir completando o visual de vestido roxo e jaqueta de cashmere branca com uma sapatilha de couro preta.
Quando desceu as escadas encontrou com Lion, Rosana e Karl sentados no sofá vendo "Procurando Nemo" pela centésima vez.
- Hum, tá bonita! — Karl disse com sua voz infantil de 4 anos de idade.
- Verdade. Vai se encontrar com meu genro? — Rosana perguntou e deixou escapar uma risadinha.
Enid achava legal que Rosana gostasse do namorado dela, mas chamá-lo de genro?!
- Não, mãe. Vou a uma festa de boas-vindas na casa de Riley Cooper — ela explicou e pegou as chaves do carro na mesinha de centro. — Tchau, família.
- Ei, moça bonita? — Lion a chamou. — Esteja em casa antes da meia-noite.
Enid sorriu.
- Do jeito que essas festas são eu vou estar aqui antes das dez.
Ela saiu de casa rindo. Entrou no seu confortável Civic cor de vinho e acelerou até a casa de Riley Cooper.
Os Cooper moram em um casarão construído por eles mesmos no bairro chique da cidade. Era uma casa grande e verde com piscina e quadra de tênis. Nada que surpreendesse naquela área. As casas dali eram mansões com pelo menos cinco quartos.
Enid estacionou quase no final da rua por causa das dezenas de carros que já estavam estacionados ali.
O frio na barriga veio de novo, mas de um jeito que fez Enid tremer de frio. Ela se olhou pelo espelho.
- Qual é o meu problema? Isso é sósó uma festa! — ela disse para si mesma.
Alguém bateu na janela do carro a assustando. Mas ela se acalmou ao ver que era Cezar.
- Ei, novato — ela o cumprimentou saindo do carro.
- Veterana. Essa é a segunda vez que a pego falando sozinha... Você está me preocupando — ele disse seriamente mas Enid percebeu que ele prendia o riso.
- Não se preocupe, não sou maluca — ela disse e depois deu a volta no carro para andar ao lado dele até a casa.
Ele estava vestido com um sobretudo preto que estava aberto, casaco de gola V azul-marinho de lã, calça jeans e toca preta. Misterioso, sexy, sofisticado. Ele sabia como se vestir.
- Você está linda — ele disse a ela.
Enid o olhou. Ele parecia distraído.
- Você também — ela disse e depois suspirou. — Parece que você não está ansioso.
- Ansioso? — ele deu uma risada rouca. — Não. Nem queria vir, mas estava curioso sobre as festas americanas.
Enid pôs a mão no ombro dele, como se o consolasse.
- Se não se controlar vai sair tão bêbado que não vai conseguir dar dois passos sem cair — ela disse.
Cezar arregalou os olhos, espantado. Enid assentiu, respondendo a uma pergunta que ele ia fazer e sorriu.
- Pensei que menores de idade não podiam beber — ele disse, finalmente.
Enid riu da inocência dele.
- Aham, mas isso nunca impediu ninguém de beber e se drogar até desmaiar. E agora a maioria tem 18 anos.
Enid suspirou. Para alguns ter 18 anos era o paraíso. Mas ela ainda ia fazer 17 anos, e não via graça nisso. Pelo que ela entendia não precisava ser maior de idade para encher a cara. Pelo menos não na Morrison High School.
O som estava tão alto na casa que o chão tremia. Era por isso ou porque os adolescentes bêbados pulavam feito um bando de malucos ao som da música eletrônica que não fazia sentido algum.
Em apenas vinte minutos as pessoas ofereceram drogas, bebidas e uma pílula pequena e branca que Enid em sabia o que era para ela. Cezar havia sumido na multidão com Angelin, Gabe estava dançando até o chão no meio da pista de dança improvisada, Dany estava com uns garotos vendo a coleção de carros de Riley Cooper. Ou seja, ela estava sozinha. Sozinha e sentada numa pedra no jardim da casa enquanto alguns casais se pegavam atrás das árvores e dos arbustos.
O celular dela tocou e ela ficou feliz ao ver que era Evan.
- Oi — ela cantarolou.
- Uau! Essa música está alta! — Evan exclamou e riu. — Caramba, como eu queria estar aí.
- O que você está fazendo?
Enid se ajeitou na pedra esperando que aquela conversa durasse muito tempo.
- Jogando xadrez com Vine. — Evan respondeu dom a voz cheia de tédio. — É como uma terapia para eu treinar minha concentração.
- Xeque-mate! — Enid ouviu Vine falar. — E parece-me que o treinamento não está adiantando de nada.
- Vine, por Deus, vamos ver tevê! — Evan implorou. — Até o History Channel é melhor que isso.
- Não. Vamos de novo. Se esforce, rapaz. Enquanto você não me ganhar eu não paro o jogo.
Enid ouviu Evan gemer e riu.
- Isso é injusto. Está vendo Enid, você está se divertindo em uma festa e eu jogando xadrez!
Enid riu ainda mais e depois suspirou.
- Essa festa está uma droga! Estou sozinha no jardim vendo a lua, acredita?
- Se você quiser eu vou te buscar.
Enid balançou a cabeça, inutilmente porque Evan não podia ver.
- Não. Tudo bem. Vou para casa depois.
- Desliga esse celular, Evan! Presta atenção no jogo! — Vine disse.
Evan suspirou.
- Depois nos falamos, amor. Te amo.
Enid jogou um beijo pelo celular.
- Também te amo. Beijo.
Quando Enid guardou o celular na bolsa um vulto preto passou na sua frente. Ela tomou um susto,mas não gritou. Olhou para todos os lados procurando o vulto preto, mas não havia ninguém ali. Ficou olhando para a lua, esperando que alguém a encontrasse ali e conversasse com ela. Ainda eram 21h e ela já estava quase atingindo o grau máximo de tédio.
O vulto passou novamente. Dessa vez mais devagar e Enid pode vê-lo melhor. Era como uma capa preta passando numa rapidez sobrenatural. Ela ficou atenta.
Uns segundos passaram e o volto passou novamente. Dessa vez ela o viu indo para os fundos da propriedade. Era maluquice, mas ela o seguiu.
O vulto sumiu atrás de uma árvore. Ela se aproximou da árvore lentamente, os passos amassando a grama do quintal. Ela olhou atrás da árvore. Nada.
Aquilo era uma brincadeira. Ou efeito do um copo de energético que ela tomou. Mas, como diz Gabe, não dá para ficar bêbado tomando um copo de bebida.
O vulto passou atrás dela tão rápido que a fez cair no chão e derramar tudo o que estava na sua bolsa. O choque foi tão intenso que ela não conseguiu se mexer. Ficou sentada na grama fria com os olhos arregalados e tremendo.
Que diabos era aquilo? O vulto parou diante dela. Enid se preparou para gritar, e então o vulto virou uma sombra escura e embaçada. Olhava para o chão. Para os pertences de sua bolsa... Estava checando.
E depois, com a mesma rapidez que apareceu, sumiu.
Enid olhou para o alto e viu as nuvens escurecendo ainda mais. Ficaram tão negras que a luz da lua não passava por ela. E Enid se viu sozinha sem enxergar nada a sua frente no quintal de um estranho.
O vulto voltou. Parou diante dela. Onde ele parou o céu escureceu ainda mais. Ele pareceu encará-la.
Enid quis gritar. Clamar por ajuda. Mas sua voz parecia estar engasgada e quando ela tentou gritar saiu um gemido de desespero.
O culto se aproximou. Ficou mais perto. Enid via a hora de seu peito explodir. O grito ficou entalado na sua garganta. O vulto estava tão perto que ela podia sentir o cheiro que vinha dele. Eucalipto.
- Enid!
O gritou saiu da garganta de Enid com toda a potência. Ela fechou os olhos com força esperando a morte, mas apenas uma mão fria e macia a tocou.
Com muito receio ela abriu os olhos. Viu Cezar, assustado, a observando.
Enid tremia violentamente. Os olhos estavam esbugalhados. Ela estava sentada no chão do jardim de um estranho. Ok, agora ela realmente parecia uma louca.
- Tudo bem? — Cezar perguntou.
Enid o encarou, confusa. Olhou para o céu. As nuvens estavam escuras, mas não tanto quando antes. Cezar seguiu o olhar dela e sorriu.
- Vamos, entre. Parece que vai cair uma tempestade.
Enid deixou ele levantá-la. Mas depois o segurou com força, com medo de que o vulto voltasse.
- Você está bem? — Cezar perguntou novamente.
Enid balançou a cabeça nervosamente. Vendo que aquilo vazia ela parecer ainda mais apavorada, ela forçou um sorriso.
- Uhum — murmurou, enfim. — Eu... caí.
Cezar a observou e depois deu um sorriso mínimo.
- Você não está com cara de quem só caiu.
Enid deu uma risada nervosa e Cezar a olhou como se ela fosse louca. Ok, ela estava agindo como uma.
- Eu imaginei ter visto algo — ela disse num sussurro tão baixo que ela achou que Cezar não ouvira. — Mas não tinha nada. Aí eu caí.
Cezar percebeu que ela estava mentindo. Mas não perguntou nada. Apenas a ajudou a juntar as coisas da bolsa dela em silêncio.
- Vou para casa. — Enid disse, a voz estava trêmula ainda.
- Não, não. Você não está em condições de dirigir. — Cezar falou como um pai dando um sermão. — Eu te levo para casa.
- Mas e o meu carro? — Enid perguntou, mas ela não queria ir para casa sozinha. E se o vulto voltasse?
- Seu amigo, o Dany, pode levar de volta para a sua casa. Você não está bem, Enid. Já imaginou se você bate o carro? Deus me livre — ele a conduziu até a moto dele.
O frio gelava os ossos de Enid. Ela tremia agora de frio. Sendo muito gentil, Cezar pôs seu casaco nela e vestiu uma jaqueta de motoqueiro. Enid sentiu o cheiro dele, cheiro de perfume amadeirado, e sentiu-se mais segura. Mas isso não impediu que ela o segurasse com um pouco mais de força no caminho de volta para casa.
- Tem certeza de que você está bem? — Cezar perguntou ao parar a moto na frente da casa de Enid.
Ela assentiu. Não temia tanto mais. Ainda tremia de medo, mas não estava apavorada.
- Estou bem. Foi só um susto — ela disse e se aproximou de Cezar.
Ela o abraçou com força. Um gesto que agradecia pela carona e por ele tê-la salvado do vulto. Ele retribuiu o abraço, meio hesitante, mas a apertou contra si. Enid percebeu que ele estava preocupado.
- Tenho que ir — disse ele e deu um beijo no alto da cabeça dela. — Tchau, veterana.
Enid sorriu para ele.
- Tchau, novato.
Enid entrou em casa quase correndo. Ainda era 22h40min. A família ainda estava sentada no sofá, mas dormindo diante da tevê.
Ela subiu as escadas em silêncio. Fechou a janela do seu quarto, só para garantir que o vulto não voltasse.
Enid sentia que essa aparição misteriosa era apenas o começo de uma tempestade que acabaria com a calmaria.
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