Eternally Hunted
20 19 - A bruxa e o Renegado
Notas iniciais
O anjo caído estacionou sua BMW prateada em frente ao prédio abandonado em que o encontro fora marcado. Desceu e reparou em todos os detalhes do lugar — uma mania mundana que ele adquirira durante os anos; uma maneira de passar o tempo. Estava amanhecendo. Era por volta das 5h e não havia muita luz.
O prédio se encontrava em situações precárias. A tintura estava suja e soltando das paredes, as quais estavam em ruínas, cheias de rachaduras e mofo, fazendo o lugar feder terrivelmente. Parte do chão era de terra seca, parte em lama por causa das goteiras espalhadas pelo teto, e nesses lugares sua bota afundava no chão.
– Luandriel. — Uma voz soou do outro lado do prédio. — É bom revê-lo, irmão.
– Caliel.
O outro anjo surgiu na escuridão e foi como se acendessem uma luz no aposento.
– Você ainda a tem. — Luandriel comentou com o rosto inexpressívo. — Digo, a Luz Divina.
Caliel deu um sorriso morto, indo ao seu encontro.
– Sim. Demora um tempo para desaparecer. — Ele levantou as mãos e as pôs no lugar novamente. — Vejo que você a perdeu.
– Sim, a perdi. — O sotaque britânico soou alto e claro e ele riu de leve. — Passei tempo demais na Terra. Sou praticamente humano. — Sua voz tinha um certo tom de desprezo.
– Você lamenta ter caído? — Caliel perguntou, receoso.
– Você lamenta?
– Às vezes sim. Nosso Pai era tudo o que nós tinhamos, eEle é o bem mais precioso de todos. — O anjo caído soltou um suspiro. — Lamento perdê-lo.
– Pois eu não lamento. Nunca derramei uma gota de lágrima por tê-lo perdido. Não nasci para receber ordens, e isso era tudo o que ele queria me dar.
– Você sabe que nunca foi ele realmente. Os arcanjos dominaram o Reino. Eles quem mandavam lá. Eles que foram abusivos.
– Nós não viemos aqui para falar do Reino, viemos? Pois, se for por isso que estou aqui, vou embora agora mesmo...
– Não. Estamos aqui para falar da sua filha...
Luandriel se calou. Petrificou, na verdade. Não mexia um músculo, não respirava, não piscava. Seus olhos oscilaram para o chão, e ele abaixou a cabeça lentamente.
– Aconteceu algo a ela? — ele perguntou com a voz baixa.
– Não. Ainda não. Mas vai acontecer se você não ajudá-la.
Luandriel levantou a cabeça e encarou seu antigo Irmão, inclinando a cabeça para o lado e com as sobrancelhas arqueadas.
– Como?
Caliel inclinou-se sobre uma perna e inspirou. Ele havia preparado meio que um discurso para explicar melhor a situação, e era hora de dizê-lo.
– Maxine é o nome dela. — Ele falou antes de qualquer coisa. — Você sabia?
– Eu escolhi o nome.
Caliel ficou surpreso.
– Então você já a conhecia? Você já a viu antes?
– Quando ela era um bebê. Estive acompanhando seu crescimento, mas me afastei por motivos que não lhe interessam.
Caliel assentiu, sem demonstrar a mágoa pelas palavras de Luandriel. Ele pensou antes de prosseguir.
– Maxine é uma bruxa...
– Eu sei disso também. Afinal, viemos aqui para você ficar me dizendo coisas que eu já sei?
O que havia acontecido com Luandriel? Ele era um anjo, era doce e gentil, mesmo após a queda. Caliel se viu curioso o suficiente para descobrir o que havia de errado com ele.
– Não. Vim aqui lhe dizer que ela não está bem. E vou ser direto. — Caliel não pensou duas vezes ao lhe contar toda a verdade diretamente, e sua voz foi como uma navalha que dilacerava lentamente a pele de Luandriel. — Os poderes dela estão se manifestando, e ela não tem controle sobre eles. As Trevas estão caindo sobre ela e tudo que ela tem é você. Se você não ajudá-la, ninguém mais pode. E eu sinseramente acho que você deve se importar com ela.
Luandriel ficou calado. A respiração lenta. Ele não estava surpreso. Ele sabia que ela estava assim. Depois de quase um minuto ele finalmente falou.
– Isso sempre acontece. Ela deve aceitar seu destino e deixar que seus poderes a envoquem para as Trevas.
Caliel ficou atônito. Mas as palavras de raiva simplesmente saíram de sua boca quando Luandriel se virou para ir embora.
– Como você pode dizer uma coisa dessas? Maxine é sua filha! Você a pôs no mundo e fez isso com a mulher que amava. Não pode deixá-la assim.
– Eu não posso intervir no futuro. Nem tenho poderes para isso. Não é como se, se eu estalasse os dedos três vezes e ela deixaria de ser bruxa. Essa é a natureza dela, assim como a minha é ser um Renegado. — Luandriel discursou, inexpressivo.
– Você pode tentar! Tentar é a palavra certa. Então, tente. Sua filha está sofrendo. Ela não quer ser das Trevas, e ela tem um coração bom. Ela pode lutar contra isso e vencer, se você ajudar.
Luandriel balançou a cabeça lentamente.
– Não há nada que eu possa fazer! Entenda isso. Sinto muito decepcioná-la, mas eu não sou um bruxo, não tenho poder para isso.
– Oh, então apenas um bruxo pode fazer isso. — Caliel concluiu. — Então apenas me diga quem é.
– Não posso. Agora, adeus.
Caliel foi até ele e segurou seu ombro com tanta força que Luandriel encolheu de dor, mas manteve-se firme e não desviou.
– Quê houve com você, Irmão? — A palavra "irmão" o fez se encolher ainda mais. — Por que está agindo dessa forma? Você não é um covarde. Você enfrentou Deus! Você é um dos Renegados mais corajosos. Não pode se acovardar agora quando sua filha precisa de você.
Luandriel continuou parado no lugar. Caliel sentiu ele relaxar. Suas palavras finalmente foram duras o suficiente para convencê-lo.
– Eu vou vê-la. — Luandriel declarou, por fim. — Vou ver como ela está. Mas não há como deter isso.
Caliel o guiou para fora do prédio em ruínas com a mão em seu ombro, mas agora estava apenas apoiada.
– Tudo bem — ele disse enquanto entrava no carro de Luandriel -, desde que você tente.
Evan estava tão ansioso quando Maxine. Talvez até mais. Ela disfarçava o nervosismo fingindo uma calma assustadora que o deixava inseguro sobre o que ela estava pensando e como estava se sentindo.
– Ele chegará em minutos. — Evan avisou a ela e virou-se para todos os outros na sala. — Acho que devemos deixá-los à sós.
Dany, Enid, Cezar e Vine — que encontravam-se remoendo-se de curiosidade (Dany nem tanto, porque ele manteve-se ao lado de Maxine com sua mão presa a dela; e Cezar, que manteve-se olhando para eles fixamente com um olhar mortal), suspiraram com decepção.
– Não, não, Evan. — Maxine se agitou. — Por favor, não me deixe sozinha. Não sei se ele vai gostar de mim. Não sei nem se ele se importa...
– Shhh. — Dany acariciou a bochecha dela. — Ele se importa. Se não se importasse nem se daria o trabalho de vir até aqui. — A voz de Dany era tranquilizadora e fez se acalmar.
– Ele vai se sentir incomodado com esse monte de gente aqui. — Cezar falou. — Ainda mais vendo esse 'rapaz' fungando no pescoço dela. — Ele apontou para Dany com o queixo. — É melhor deixá-los sozinhos.
– Não! Evan, fica comigo. Por favor... Pelo menos você. — Maxine pediu, seus olhos brilhando com as lágrimas.
– Tudo bem. Eu fico — ele assentiu e virou-se para os outros. — Vocês vão para o escritório. Dany e Vine, sabem o que fazer.
Cezar o encarou com uma sobrancelha arqueada. Enid também o olhou com os olhos semicerrados, depois cutucou Cezar com o cotovelo.
– É, parece-me que somos os excluídos — ela falou num tom que Evan não soube entender. — Vamos para o jardim, lá é mais silencioso.
Cezar assentiu e a acompanhou até lá. Dany depositou um beijo na testa de Maxine e foi para o escritório com Vine.
Evan sentou ao lado de Maxine e pôs o braço sobre seus ombros. Ela escondeu a cabeça em baixo do braço dele.
– Eu esperei por esse momento por anos. Não consigo acreditar que vai realmente acontecer — ela falou e levantou a cabeça. — Ele é minha única esperança.
– Eu sei. — Evan sorriu. — Ele vai ajudar.
– Assim espero.
A conversa acabou. Aproximadamente cinco minutos depois uma BMW estacionou em frente a propriedade Wondervill. Evan sentiu Maxine estremecer e mudar a postura, sentando-se ereta no sofá.
– Calma. Eu vou recebê-los. — Evan disse a ela. Maxine balançou a cabeça para ele. — Só relaxa.
Ele foi até a porta e a abriu. Viu Caliel descer do carro seguido de um homem alto e forte. Sua pele era bronzeada num tom bem claro. Quando ele se aproximou mais, Evan não escondeu a surpresa. Maxine era idêntica a ele.
– Evan. — Caliel o cumprimentou com um abraço leve com batidas nas costas. — Como está?
– Preocupado. — Evan lançou um olhar incerto ao anjo caído Luandriel. — Entre.
O anjo desviou dele como se ele fosse nada e entrou na casa. Evan assistiu Maxine se levantar e ajeitar o leve vestido de renda rosa que usava e colocar o cabelo atrás da orelha. Viu também Luandriel vacilar em seus pés e se aproximar.
– Oi — disse Maxine, a voz tão suave que pareceu um miado felino.
– Olá. — A voz de Luandriel era seca, dura, isenta de emoção. — Maxine, não? Sou Luandriel.
– Eu sei — ela se sentou novamente, e Luandriel sentou-se na poltrona mais próxima. — Fico feliz por você ter decidido vir. Eu realmente preciso que você...
– Vamos ao ponto. — Luandriel a cortou, e Evan a viu se encolher. — Caliel me contou tudo. Eu não sei o que fazer.
Evan entrou rapidamente e sentou ao lado dela. Dali ele tinha uma visão perfeita para notar a aparência física de Luandriel. Seu rosto era bem masculino, o maxilar marcado, as sobrancelhas grossas e curvadas, fazendo-o parecer estar com raiva. Os olhos eram de um castanho tão claro quanto o mel e não havia nenhuma ruga sequer, nem uma marca de idade. Maxine tinha o mesmo olhar felino. Os lábios eram carnudos e em uma linha reta.
– Como assim? Você não... — Maxine começou, mas sua voz falhou e ela se calou.
– Não há nada que possa se fazer? Nem um feitiço? Nada? — Evan perguntou.
– O que aconteceu nos deixa sem opções. Então eu proponho que você apenas faça treinamentos de controle mental. Nada mais.
Maxine estava decepcionada e Evan a sentiu estremecer novamente.
– Então... Eu não... Eu vou... — As palavras saíam quase incompreendíveis de sua boca. Evan segurou sua mão para acalmá-la. — Não há esperanças...
– Sim. Há. — Caliel disse de repente, fazendo todos olhar para ele. — Há uma maneira.
Luandriel lançou a ele um olhar cruel, esticando-se. Seus ombros pareciam estar maiores naquela posição, e ele parecia querer atacar Caliel.
– O que você sabe? — Maxine perguntou a Caliel.
– Nada. — Luandriel rosnou entre os dentes. — Ele não sabe de absolutamente nada porque não há nada para se saber.
– Você não pode fazer isso, Irmão. Não pode. Conte a ela. Isso não vai ficar escondido por muito tempo mais, de qualquer forma. — Caliel se aproximou do anjo caído enfurecido. — Conte, ou eu conto.
– Eu não deveria ter te contado isso. — Luandriel levantou-se e encurtou a distância entre eles, que pareciam ter esquecido que Evan e Maxine ainda estavam ali. Quando o rosto de Luandriel estava bem próximo do de Caliel, sua voz saiu tão baixa e arrebatadora que fez Caliel se encolher. — Traidor.
E então ele se retirou. Caminhou até a porta lentamente com seus passos pesados. Caliel sentou-se ao lado de Maxine e segurou a mão dela.
– Isso é uma maldição... — ele começou a dizer, mas em menos de um segundo ele foi lançado para longe dela.
Luandriel estava o pressionando contra a parede com as mãos em seus ombros e um rosnar animal saía de sua boca.
– Você. Não. Dirá. Nada. — Ele rosnou.
– Então você mesmo conte — a voz de Caliel estava baixa e rouca, pois ele estava sem ar.
– Certo, certo. Vocês não vieram aqui para isso, vieram? — Evan disse afastando os dois. — Chega. O assunto aqui é outro. — Ele virou-se para Luandriel. — E você — apontou para ele -, se não disser nada será inútil sua presença, então, pode retirar-se daqui.
Luandriel olhou para ele de loslaio. Depois olhou para Caliel, seguido de Maxine. Seu lábios disse uma palavra silenciosa e então ele cedeu. Andou até ela e sentou-se ao seu lado em distância considerável.
– Caliel está certo. É uma maldição — ele disse num tom que anunciava que seria uma longa conversa.
– Continue. — Maxine pediu.
– Vou começar do início. Da minha queda. — Pausa. — Eu caí por motivos não compreensíveis por vocês. Eu não queria ser expulso do Reino. Eu queria, como dizer... "subir de cargo". Eu não me conformava em ser apenas um serafim. Eu queria ser um arcanjo. Fui expulso por isso.
"Durante a minha queda eu entrei em crise. Pensei e pensei, tentando achar um jeito de voltar. E quando finalmente cheguei ao solo, após dias, procurei por qualquer fonte de ajuda.
– A queda dura, geralmente, vinte dias. — Caliel o interrompeu rapidamente.
– Sim. — Luandriel assentiu. — Passei anos, décadas, séculos procurando por uma forma de voltar. E foi assim que conheci sua mãe.
"Tamara era uma bruxa realmente poderosa. E linda. Vivia no interior de Ohio, esncondida de tudo e todos. Sua avó, Casandra, a escondia. Ela sofreu o mesmo que você, mas ela se invocou. Seus poderes eram claramente fortes, e eu queria que ela me ajudasse. Eu havia descobrido que as bruxas são sábias.
"Tamara tentou me ajudar. Fez pesquisas, procurou pelo Livro dos Anjos, mas nada fazia sentido. Foi então que eu percebi que já não dava importância para isso, porque eu queria ficar. Ficar com ela.
"Passamos anos juntos. Éramos como um casal comum, só que ela era uma bruxa e eu um Renegado. E ela engravidou. Fiquei apreensivo no início, pois eu sabia sobre os nephilins e que a geração de bruxas Uri iria continuar com a filha de Tamara. Me perguntava se era possível existir uma bruxa nephilim. Você nasceu saudável, forte. Então era possível.
"O seu nascimento foi um caso que circulou vários lugares, dispertando o interesse e curiosidade de muitas criaturas. Foi então, quando você fez 2 anos que ele foi até a nossa casa. Fingindo-se de bom-moço, bem educado, bem apessoado. Disse que era um curioso, e depois sua máscara caiu. Ele era um bruxo muito poderoso. Queria investigá-la para depois juntar-se a você para criar a criatura mais poderosa de toda as Trevas.
– Oh, não... — Maxine sussurrou.
– Sim. Ele se chamava Sirius. Não concordamos com o que ele disse, e então ele rogou uma praga. Uma maldição. Você nunca terá controle sob si própria e nunca se invocará para a Luz porque ele conjurou isso. Enquanto você não se juntar a ele, a maldição se manterá viva e acesa como uma lâmpada.
– Então... Não há outra maneira?
– Não. Uma maldição assim só pode ser quebrada pelo próprio bruxo que a conjurou. E você deve bem saber que Sirius nunca vai se submeter. Nunca. Pois ele não volta atrás. Isso é meio que o lema dele.
– Quando ele me encontrar algo vai acontecer? Ele pode fazer algo contra mim? — Maxine estava mais tensa do que demonstrava.
– Não exatamente. Ele não vai ferí-la. Ele precisa de você. — Luandriel, para a surpresa de todos, acariciou o rosto de Maxine. — Você, de longe, é a bruxa mais poderosa que pode existir, porque você tem o sangue de um Renegado e de uma descendente do Trono D'Males. Se juntar você ao Grande Mago (como ele se auto-denomina), a criatura que irá nascer será... Um demônio perigoso e poderoso. E isso é o que Sirius mais quer. Um herdeiro tão poderoso quanto ele, mais poderoso, na verdade.
– Então... Então eu... — Maxine se levantou e correu para fora da casa.
Evan logo correu atrás dela, mas algo estava errado. Ele não conseguia sentir suas pernas correrem. Estavam dormentes. E então o chão começou a tremer violentamente e um círculo de fogo nasceu em volta da propriedade. Ninguém podia passar por ele.
– Ei, o que houve? — Caliel gritou, se aproximando.
Evan caiu no chão, com tontura.
– Maxie... Ela... Eu não consigo... — As palavras engasgaram na garganta de Evan.
– Droga! — Luandriel rosnou. — Ela não pode usar os poderes. Se ela os usar, Sirius vai achá-la.
– Precisamos fazer alguma coisa. — Caliel disse.
– Urgentemente. Ele pode controlá-la, e se isso acontecer... — Ele fez uma pausa dramática que fez com que Evan estremecesse. — Ela nunca terá controle sobre si mesma. E Maxine nunca mais será a mesma.
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