Eternally Hunted
18 17 - O circo está armado
Notas iniciais
Enid observava a chuva do lado de fora. Caía com força, fazendo um barulho alto quando tocava o telhado. Trovões e relâmpagos enfeitavam o céu.
Eram 3h. Ela mantinha os olhos abertos atentamente, observando o céu e tentando não adormecer, mesmo quando o sono estava quase a vencendo. Ela não podia dormir. E não ia.
Quando seus olhos estavam quase fechando, ela se levantou de súbito. Andou pelo quarto até se despertar. Quando o sono havia a deixado, sentou-se na janela para olhar a chuva. Talvez assim as horas passariam mais rápido.
Olhando a chuva ela tomou uma decisão. Ia para a escola. Assim ela poderia espairecer, pensar em outra coisa além desse sonho que a perturbava. Não importava o que sua mãe iria dizer, nem o que Evan ia achar. Ela ia. Ponto.
Um relâmpago acendeu o céu, fazendo tudo ficar branco. Enid fechou os olhos com força. E quando os abriu novamente, Caius estava parado diante dela. A sua cor pálida estava destacada na escuridão, fazendo-o sobressair-se na frente do jardim da casa. As gotas da chuva pousavam nele e escorriam, sem molhá-lo.
Enid quase gritou. Abafou o grito com a mão e fechou a cortina da janela, correndo para a cama logo depois. Cobriu-se com o edredom até a cabeça e ficou trêmula, rezando para que ele saísse do seu quintal, da sua cabeça, dos seus sonhos, da sua vida.
Ouviu a janela se abrir e se encolheu ainda mais.
– Enid. — Ele a chamou. O som da sua voz era ainda mais assustadora do que o som dos trovões. — Não irei entrar se você não quiser.
– Eu não quero. Saia daqui! — ela gritou, ainda debaixo da coberta.
– Eu irei. Só queria saber como você está. Soube que você anda tendo pesadelos.
Enid queria socar a cara dele. Como era irônico! Era ironia demais para um ser só.
– Tudo isso por sua causa! — ela exclamou, descobrindo-se. — Olha o meu rosto. Olha o meu estado físico! Eu não consigo dormir por sua causa!
Ele deu um sorrisinho mínino e piscou um olho.
– Então eu tiro seu sono...
Enid se levantou e caminhou até rapidamente. Quando chegou bem perto, aproximou o rosto do dele perto o suficiente para não suportar o cheiro de eucalipto.
– Eu te odeio — sussurrou.
O rosto de Caius ficou inexpressivo. Ele manteve-se sério, mas dava para ver que ele estava tentando se controlar.
– Ódio é um sentimento muito forte, cara humana.
Ela o ignorou.
– Odeio você — disse, dessa vez o desafiando. — Odeio.
– Está certa disso? — ele perguntou.
– Estou muito certa disso. Ódio é exatamente o que eu sinto por você. Desprezo. Nojo. Repulsa. — Abaixou o tom de voz de um jeito que a deixou ainda mais desafiadora, para convencê-lo totalmente de que ela o odiava. — Odeio você, seu verme asquerozo.
Aquelas últimas palavras foram o suficiente. O circo estava armado.
O primeiro movimento de Caius foi o suficiente para Enid sentir seu pulso quebrar. Ele apenas segurou a sua mão e girou tão rapidamente que Enid sentiu apenas a dor do choque.
Segurando esse mesmo pulso quebrado, ele a jogou pela janela, que ele abriu com a mente. Enid caiu na grama de costas. Sentiu uma dor lascinante na coluna, na nuca e no pulso. Tentou gritar, mas sua garganta estava tampada, como se houvesse mãos em volta dela, fazendo-a não conseguir respirar.
Caius ficou diante dela, assistindo. Um pequeno sorriso diabólico mantinha-se em seu rosto enquanto Enid sentia o ar se esvair de seu pulmão.
Não havia mais ar. Não havia mais como resistir. O pulmão de Enid se apertou tanto que ela não conseguiu resistir. A última coisa que ela viu foi o rosto de Caius distorcido de prazer ao vê-la fechar os olhos pelo que parecia a última vez.
Primeiro ela piscou. Depois abriu os olhos. Esperou-a voltar a piscar para finalmente falar com ela.
– Como você está? — Evan perguntou.
Enid inspirou fundo, acostumando-se com a claridade do ambiente. Reconheceu o quarto de Evan pela mobília.
– O que eu estou fazendo aqui? — Ela perguntou, ainda grogue.
– Te trouxe aqui para se recuperar. Pode demorar um pouco.
Ela mexeu o braço e encolheu-se.
– Ei, não se mexa muito. O pulso ainda está quebrado. — Evan segurou a mão dela e fez uma massagem delicada. — Mas vou pôr no lugar. Você vai sentir muita dor no início, mas vai melhorar. Posso?
Enid olhou para sua mão na dela, inspirou fundo, agarrou um travesseiro com a mão boa e assentiu.
Com um movimento inesperadamente rápido, a mão dela estava de volta ao lugar. Enid sentiu a dor e gritou.
– Shhh. — Evan a abraçou, reconfortando-a. — Tudo bem. Tudo bem.
Enid se agarrou a ele e chorou. Chorou por minutos. Ele deixou-a desabafar destribuindo beijos no seu pescoço e ombro, acalmando-a. Quando as lágrimas cessaram, ela o beijou.
Um beijo lento, calmo, mas excitante. Evan acariciou as costas dela com o dedão, fazendo círculos. Pôs a mão embaixo da blusa, e continuou o movimento.
Enid usou a mão boa para agarrar o cabelo dele e puxá-lo para mais perto, aprofundando o beijo. Mas acabou aí. Enid não estava em condições para fazer sexo. E Evan não ia forçá-la.
– Eu te amo — sussurrou no ouvido dela.
– Eu te amo — ela sussurrou de volta.
– Você pode confiar em mim. — Evan continuou. Ele ia tentar fazê-la dizer a verdade. — Então confie.
– Eu confio.
– Não. — Ele a soltou e a fez olhar nos olhos dele. — Você não me contou que o Caius estava te perturbando.
Ela assentiu. Deitou-se na cama e Evan deitou ao lado dela.
– É hora de contar a verdade — ela disse. — Vou contar tudo. Mas, por favor, não brigue comigo.
– Claro que não. Agora diga.
Enid contou tudo a ele. Desde o acordo que eles fizeram há semanas. Contou que estava tentando enganá-los, fazê-los crer que ela ia realmente entregar a chave a eles. Contou que Caius ficou mais próximo. Contou que ele tentou abusar dela, e que ela quase cedeu. Mas que acordou do tranze a tempo. Contou que naquela noite ele havia vindo tentar fazer algo com ela novamente, mas que ela o afastou, o xingou e disse que o odiava. E... ele havia tentado se vingar.
– Juro que eu não queria enganá-lo, mas eu estava com medo de que ele fizesse algo a você. — Ela balançou a cabeça várias vezes e um lágrima rolou de seus olhos. — Desculpa, Evan. Eu não devia... Eu não queria... Eu te amo e...
Evan apenas a beijou. Enid se acalmou e retribuiu o beijo.
– Está tudo bem — ele sussurrou. — Não precisa se desculpar.
Ela colocou as mãos na cabeça, e arregalou os olhos.
– Não, Evan, não está nada bem! Agora o Caius sabe que eu estava enganando eles. Não tem mais como atrasá-los. Eles virão atrás da chave!
Evan pensou por uns segundos e depois olhos no fundo dos olhos dela.
– Isso não é problema. — Evan disse e sorriu. — Quando eles virem, estaremos preparados.
– Evan, você não está entendendo! Eles são poderosos. Eles são perigosos.
– E daí? Eu sou poderoso, e posso ser perigoso. — Os olhos dele brilharam. — A chave é minha. Eu sou o guardião. Eu vou protegê-la com minha vida. E você sabe — ele piscou para ela -, eu sou imortal.
Enid sorriu e Evan ficou satisfeito. Não queria enganá-la, mas se dissesse que há meios de matá-lo, ela ficaria preocupada. Então ele escondeu isso e orou para que nada acontecesse.
Saab estava escondido na escuridão do escritório esperando uma chance de descobrir onde a chave estava quando Evan entrou e sentou-se diante de Vine.
– Vamos ter que reforçar a segurança da chave — ele disse.
– Isso não é problema. Eles nunca imaginariam onde está. — Vine sorriu. — E onde está nunca poderiam pegar.
Saab pensou. Pensou e pensou e pensou. Só havia um lugar onde eles não poderiam entrar para pegar a chave. Mas qualquer outra pessoa podia entrar e pegá-la.
Estava na hora de visitar a igreja.
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