Eternal Sunshine

1 engang forga sa natten kan fade en dag.


Notas iniciais
música da fic: http://letras.mus.br/secret-garden-musicas/219262/traducao.html#legenda
é absolutamente necessário que vocês leiam a ouvindo. o link é do letras terra pra cair direto na tradução, já que é de uma dupla irlando-norueguesa, e pra vocês colocarem direto no "repetir", já que é só uma música e não uma playlist.
enfim. espero que gostem. fiz com amor.

Eternal Sunshine

X

Você se acostuma com uma coisa, as pessoas confiam em você, e um dia você acorda e não sabe mais se é quarta ou quinta-feira.

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A chuva está batendo na janela, e você olha fixamente. É cedo, você murmura. É cedo, tão cedo. Manuela está lá fora, em algum lugar, em qualquer lugar. Perdida, debaixo da tempestade; quiçá até no epicentro do furacão! Manuela, você pensa, tristemente, Manuela provavelmente está morta agora. E dir-lhe-ão: bem feito, Manuela, bem feito! Bem feito! Mas espero que esteja viva. Posso ser a única na cidade, mas espero honestamente que esteja viva.

O quarto todo cheira a rosas, e você se sente num velório, velando um caixão vazio. O perfume dela — de seu doce anjo — nunca lhe incomodou, mas incomoda agora. Deseja que fosse cheiro de fruta. Deseja que fosse cheiro de verão. Mas não é.

É rosa. Rosa amarela, como a que você agarra, os espinhos machucando-lhe os dedos, como se ela fosse lhe salvar. Não ia. A rosa não faz milagres, você sabe. É flor qualquer, mas não é flor comum. É flor de Manuela.

É como se ela estivesse ali.

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—Qual teu nome?

— É Manuela. Como a santa.

— Cheiras engraçado, Manuela.

— Engraçado?

— É cheiro de rosa. Eu gosto.

(sorriso)

X

Manuela era luz do sol. Ela balançava seus pezinhos com unhas pintadas de azul no ar, às vezes dançava em círculos a sua volta, pulava na cama. Criança. Manuela era criança, criança simplesmente. Nunca cresceu. Nunca quis crescer. Quando você a conheceu, ela estava numa espécie de pedestal. Ela era alta, inatingível e inalcançável. E, no sorriso de chocolate e no perfume de rosa, você encontrou a paz. A paz em formato de flor.

— Você quer ver uma coisa bonita?

— Quero. — mais que tudo no mundo.

— Então vem comigo. — ela sorriu.

Existia um lugar, além daquele bosque escuro, onde ficava um lago, uma represa, seja lá o que fosse aquilo. E era a coisa mais linda do mundo, a coisa mais perfeita que você já tinha posto os olhos... O sol reluzia nos olhos verdes de Manuela e você sentia vontade de gritar.

— A água é transparente, vê?

— Vejo.

— Dá pra nadar. — ela disse, já arrancando a blusa e o short jeans, e entrando na água gelada, os pequenos pelos do braço arrepiados. — Você não vem?

Meu deus, ela era linda.

— Estou indo. — você entrou na água, bem mais delicadamente, até a cintura, mas ela te puxou pela perna e você afundou completamente. — Meu deus, Manuela!

— Você precisa ser feliz! — ela gritou, rindo e jogando água em você. — Ser feliz, feliz, feliz!

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Você me fez feliz, Manuela.

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Começa a chover, é segunda feira, e antes que você sequer entre no quarto, antes que termine de subir as escadas... Ao ouvir a primeira gota de chuva bater no telhado... Você sabe o que te espera no parapeito da janela.

A rosa amarela. E nada mais.

X

Com o passar do tempo, aquele rio cheio de pedras, aquele lago enfeitiçado, se tornou seu ponto de encontro. Sempre que você chegava lá, Manuela te esperava, sentada na mesma pedra coberta de musgo, balançando os pés de unhas azuis, usando um biquíni colorido ou um sutiã amarelo com uma calcinha que não combinava. E você sempre sorria. Sempre sorria. Porque Manuela era a mulher mais absolutamente fascinante que você havia conhecido na vida.

— Manuela. — ela estava no mundo da lua, arrancando uma pétala da florzinha atrás da outra, murmurando bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me... — Manuela.

— Sim?

— Manuela, eu acho que eu... Não sei.

— Acho que deveríamos tomar um banho, Sofia. Banhos no lago sempre melhoram qualquer astral. — um sorriso, e depois de alguns segundos ela já havia escorregado para dentro d’água e desaparecido. Ela era escorregadia como uma serpente, e igualmente letal. Mas era doce. Tão doce. Manuela era seu anjo.

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Por que me abandonou, Manuela? Nós não fomos felizes? A rosa amarela me é a única coisa que restou. Só elas, nada mais.

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— Seus cabelos, Sofia. Seus cabelos são a coisa mais linda que eu já vi. — uma pausa, um sorriso. — A coisa mais linda.

— São normais.

— Não, não são. Depende da luz, da água, do mundo, da vida. Podem ser loiros, podem ser ruivos, podem ser escuros. Meus cabelos sempre são negros, mas os seus, ah, os seus não. Os seus são a beleza de verdade. Você é bonita de verdade. A mulher mais bonita — ela encostou a mão no seu rosto, e se afastou. — que eu já toquei.

X

Ela está morta, Sofia, morta, os murmúrios não param, eles me seguem por todos os cantos, e eu vejo Manuela em cada espelho, ela está no corredor, está na cozinha, está no nosso lago?

X

— Me diga, Sofia. Me diga alguma coisa, qualquer coisa.

— Você é linda, Manuela.

— Linda? — os olhos azuis dela lhe encararam e lhe viram a alma.

— Linda, linda, tão linda.

X

— Um dia... Se você me abandonar... Eu juro que eu te mato. Eu juro, Sofia.

— Se um dia você me abandonar, Manuela, eu te mato. — o som da respiração dela era música. — E depois me mato.

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Cheira à chuva. O quarto inteiro cheira à chuva e o carpete está molhado, mas você ignora tudo isso, e segue reto, esperançosa — um bilhete, deus, nem que seja um bilhete! — em direção à sua janela. Você se lembra de tê-la fechado. Você quase poderia afirmar que a trancou. Mas a rosa está lá, amarela, viva, recém colhida de um jardim, cheia de seus espinhos. Você a pega entre os dedos e aperta, e o sangue escorre. Escorre vermelho.

E então você chora.

X

— Você acredita em magia?

— Eu acredito em fadas. Acredito que elas estão aqui, nesse lago. Que elas estão aqui, por baixo da sua pele — ela sorri bem perto do seu rosto, apontando para a sua bochecha — em algum lugar. Eu acredito que fadas são lindas.

— Lindas?

— Sim, lindas. Encantadoras. Maravilhosas. Feitas de magia e felicidade.

— Parece lindo.

— Parece você.

X

Por que você foi embora, Manuela? Por que foi embora e me deixou só rosas?

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— Um, dois, três. — ela pulava amarelinha, tinha desenhado o jogo todo num lugar mais estável nas pedras, com um giz que você nem sabia onde ela podia ter arranjado. Você estava muito ocupada com medo de que ela escorregasse no musgo e caísse para se juntar a ela, mas definitivamente não estava ocupada demais para notar o sorriso infantil nem o cheiro de perfume que coloria o ar de amarelo. Amarelo como seu cabelo num dia de vento, Sofia.

X

Era uma tarde ensolarada e vocês estavam deitadas uma do lado da outra, às margens do lago, deitadas no que parecia ser grama. Passavam o cigarro uma para a outra, trocando sorrisos e toques acidentais. Fraternais, alguém diria. As duas são tão próximas. Tão absolutamente próximas.

Foi na água gelada que você a beijou pela primeira vez.

X

Eu estou velando um caixão vazio, Manuela. Um caixão que você deixou vazio. Que você me pede para encher de rosas amarelas que você me deixa na janela.

X

A chuva parou, e a rosa ainda está na sua mão. Você ainda está debruçada sobre o parapeito da janela. Manuela está morta. Você olha para o céu, depois para o chão, e então para o céu de novo. A chuva já vai voltar... E com ela, a rosa. O destino é cruel, Sofia. Ele age de maneiras misteriosas. Manuela está morta.

Manuela está morta. Morta.

X

Foi numa manhã de chuva que ela desapareceu. Numa noite, ela estava do seu lado, na sua cama, dormindo suavemente, os cabelos fazendo uma cortina cor de noite em volta do seu rosto. Você a velava, e ela parecia tão calma. Tão em paz. Sorrindo delicadamente. E então, você adormeceu.

Quando você acordou, ela não estava mais lá. Apenas as cortinas esvoaçando, a flor no parapeito, o carpete molhado e o cheiro de chuva que empesteava todo o lugar.

X

Manuela está morta, Sofia. Está morta.

Você hesita por um segundo — um segundo ínfimo — e uma gota de sangue cai da sua mão e suja o chão.

E então você pula.

Notas finais
pra quem quiser ter uma ideia melhor de como é o lago/rio/etc delas: http://i2.listal.com/image/1134279/600full-my-summer-of-love-screenshot.jpg | http://uk.web.img3.acsta.net/r_640_600/b_1_d6d6d6/medias/nmedia/18/35/52/98/18830641.jpg
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!