Eternal Heart
5 Capítulo 4 - Blood
Notas iniciais
E então se passaram mais três dias.
Três dias!
Sabe, eu nunca me interessei por crianças. Bom, sou uma vampira. Crianças são uma das coisas vetadas quando se tem o corpo congelado. Pelo menos, era isso que todas as vampiras do mundo sabem. Menos eu. Infelizmente, ou felizmente. Ainda não sei.
Mas, enfim, mesmo quando eu não era uma vampira, não me interessava por crianças. Talvez por que eu tenha 16 anos. Mas, na minha época, uma menina de 16 anos já era praticamente comprometida. Porém, eu nunca quis filhos. Bebês são chatos e barulhentos. Mas o que me incomodava mesmo era a parte da gravidez. Quando eu era humana, eu sabia que teria uma vantagem, eu teria nove meses para me acostumar, e teria nove meses para gostar de estar grávida e simpatizar com crianças. No caso de vampiras, são apenas dias. Eu pareço ter, no mínimo, cinco meses. Carlisle disse que se continuar assim, em menos de uma semana, o monstrinho nasce.
Alice e Jasper ainda tentam mostrar o lado lógico da coisa. Afinal, eu continuo com sede, e a coisinha não me deixa beber sangue. Carlisle tentou me dar até sangue humano, mas o monstrinho recusou. Sangue animal, então... Ninguém sabe o que a coisa quer.
Eu estava deitada no sofá, com a cabeça no colo de Victor, com Rosalie supostamente falando com o monstrinho na minha barriga.
É, ela deu para isso. Na verdade, Esme também acha que o treco escuta.
Bom, se ele escutasse, poderia me deixar beber sangue. Eu estou com muita sede. Mas só de pensar em qualquer sangue, sinto aquela coisa estranha na barriga. Carlisle disse que isso é enjoo, mas como eu não como comida, não tem como embrulhar, e sem nada no estômago não tem como me fazer vomitar.
Eu tentava não respirar quando Victor estava por perto, era como se minha sede aumentasse com a presença dele, mas também era como se o monstrinho se irritasse com a ausência dele. Enfim, o problema é que eu não podia ficar sem respirar por muito tempo, a coisinha sentia falta de ar, e eu precisava me lembrar de respirar fundo.
— Ah! — coloquei a mão na barriga quando a pontada me deixou praticamente fora de circulação.
Aquilo teria quebrado minha coluna se ela também não fosse congelada.
— Vai ficar tudo bem – Rosalie disse, passando a mão por minha barriga enquanto eu voltava a apoiar a cabeça no colo de Victor.
— Quando? – perguntei, e é claro, ela não soube responder.
Carlisle e Esme sentavam no chão, e encaravam a TV, sem realmente vê. Emmett assistia ao baseboll, e xingou, mesmo sabendo que iria acontecer, quando Rods quebrou a perna durante a partida.
Victor acariciou meu cabelo.
Eu imagino que seja difícil para ele. Ter que escolher entre duas coisas. Eu sabia que o que ele dizia sobre crianças, era apenas para não me deixar culpada.
Ele continuava mexendo em meu cabelo. Aquilo era bom, mantinha o monstrinho quieto. Mas a sede não passava, e eu sabia que era isso que o incomodava: a sede.
— Não sei mais o que fazer – Carlisle disse, reparando quando eu parei de respirar. – O feto...
— Bebê – Rosalie corrigiu.
Ela realmente irritava com isso.
— O bebê não bebe nenhum tipo de sangue, mas sente sede – ele continuou.
— Angel disse que não acha nem um pouco atraente os tipos sanguíneos que você trouxe, e podemos ver que nem o bebê – Rose disse, acariciando minha barriga.
— Mas ela ainda quer enfiar os dentes no Victor... – Emmett disse, rindo. – Nem nessa situação isso muda.
Todos riram, menos eu e meu pai.
Eu estava mais preocupada com os pensamentos de Carlisle, e ele com os próprios. Levantei-me enquanto a ideia era processada em sua cabeça, e então ele abriu a boca para dizer, e eu o interrompi antes da primeira palavra.
— Nem pensar – eu disse, e todos me encararam.
— Angel, pode dar certo – Carlisle insistiu.
— Não. Eu não vou fazer isso. É perigoso. Da última vez eu quase não parei. E se eu quiser mais? Isso vai acabar mal. Tipo, bem mal mesmo, Carlisle!
— Temos que tentar. Se der certo...
— É, e se der certo? O que vai fazer? Drenar ele? Carlisle, ficou louco?
— Vamos fazer um teste, e então... – ele insistiu.
— Não!
— Vocês podem dizer do que estão falando? – Victor pediu.
— Eu quero testar uma teoria... – Carlisle começou.
— Bem perigosa, por sinal – o interrompi.
— Que teoria? – Victor perguntou.
— Sério, falem logo! – Rosalie disse.
— Carlisle quer que eu tome o sangue do Victor – eu disse.
— Isso pode dar certo, Car? – Esme perguntou, se levantando do chão junto com meu pai.
— Talvez. Ela não sente repulsa com o sangue dele. E pelo fato de ele ser o pai, o feto tem o mesmo sangue, deve estar sintonizado com ele.
— Eu acho que devemos tentar – Rosalie disse. – Sua teoria tem sentido, Carlisle.
— Como vocês podem não ver problema nisso? – perguntei, mas é claro que me ignoraram.
Enquanto eles discutiam, e falavam sobre minha possível morte ou a do monstrinho, eu tentava voltar a cinco dias atrás. Quando a minha vida não estava numa corda bamba totalmente desequilibrada.
O engraçado é que, no fundo, eu sabia que alguma coisa ruim iria acontecer. Talvez seja premonição por causa das visões, ou até mesmo por eu ser vampira. Não sei, mas, para mim, parecia estranhamente inevitável enfrentar a morte. Eu já tive muito mais experiências de quase morte do que é necessário para uma vida imortal, como se eu realmente estivesse marcada pelo desastre. Eu escapei vez após outra, mas ela continua vindo atrás de mim. E, acredite, isso não é exatamente uma coisa a qual você se acostuma. Ainda assim, eu sentia que dessa vez era algo diferente. Sabe, você pode correr de alguém que você tenha medo, você pode tentar lutar com alguém que esteja ameaçando o que você ama.
Todas as minhas reações sempre foram direcionadas a esses tipos de assassinos – os monstros, os inimigos. Porém, quando você ama a pessoa que está te matando, não te restam muitas opções. Isso para não dizer que na verdade não te resta nenhuma. Afinal, como você poderia correr, como você poderia lutar, quando fazer isso machucaria o que é mais importante para você? Se sua vida fosse a única coisa que você precisa dar, como você seria capaz de não dá-la? Se fosse alguém a quem você realmente ama?
Eu não podia simplesmente fazer o que Carlisle sugeriu. Seria a morte certa para Victor. Eu não conseguiria parar.
— Não posso beber o sangue dele – falei, me decidindo.
— Pode e vai — Rose se intrometeu.
— Não sou masoquista — rebati.
Carlisle e Victor se levantaram e foram em direção à biblioteca/sala de hospital.
— Não vou beber — falei, cruzando os braços.
Rose revirou os olhos.
É claro que vai— ela pensou.
Alguns minutos se passaram enquanto nós duas nos encarávamos.
Victor voltou com Carlisle, ele tinha um curativo no braço.
Olhei para a TV, ignorando todos eles.
— Angel, por favor. Não me force a te amarrar — Rosalie disse.
Revirei os olhos.
Ela me deu o copo. Tentei não olhar para ninguém enquanto o pegava. Aquilo era... Estranho, esquisito, masoquista! Você entendeu, né? Sem contar que, por eu amar o Victor, aquilo era considerado canibalismo. É como comer o seu gatinho de estimação.
Não que Victor seja de estimação.
— Angel — Rose suspirou.
Olhei para o líquido vermelho no copo, minha garganta doía, o monstrinho em minha garganta saltitava de ansiedade.
Respirei fundo e desejei não ter feito aquilo. O cheiro entrou por minhas narinas e eu nem precisava me olhar no espelho para saber que meus olhos estavam da mesma cor que o líquido no copo.
Tampei a respiração, e bebi o sangue...
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