Notas iniciais
Deus, cinco meses sem postar. Que vergonha! Acho que vocês já devem estar cansados das minhas desculpas, portanto, aproveitem o capítulo!

Meu relacionamento com Renesmee estava às mil maravilhas. Pelo menos, era nisso que eu acreditava. Tudo parecia estar em uma harmonia tão perfeita que era difícil de crer.

Depois de tantas batalhas e consternações, a situação atual nos dava esperanças de que estávamos a um passo da tão almejada paz. Eu não poderia estar mais feliz. Desde que minha família e eu estivéssemos bem, nada mais importava. Nessie estava completamente segura junto a mim e grávida de Sophia, nossa primeira filha. Mesmo que eu soubesse dos riscos que a gravidez podia oferecer caso as necessidades da pequena híbrida não fossem supridas, aquela já era uma grande realização.

Eu imergia em um sono profundo. Ness dormira envolta pelos meus braços, portanto, fora muito fácil para que eu também pudesse adormecer. Sua temperatura elevada, quase tão tórrida quanto a minha, exercia grande efeito sobre mim, abolindo qualquer tensão que me afligia.

De repente, ouvi uma batida ruidosa ao longe. Estava tão exausto que não me dei ao trabalho de verificar o que quer que fosse. Tornei a repousar, concentrando-me apenas em meus sonhos e na fragrância doce de mel e lavanda que emanava de Renesmee.

Apertei Nessie entre meus braços, mas foi um ato completamente inútil. Não havia nada sob meus braços além do vazio que preenchia o ambiente. Abri os olhos abruptamente, sobressaltando-me ao perceber que Renesmee não estava em nossa cama. Esquadrinhei cegamente o ambiente ao redor, não identificando sua presença em nenhum local do cômodo.

Levantei-me imediatamente e caminhei pelo quarto, apenas para me certificar de que minhas conclusões não foram precipitadas. E realmente não foram. Ness não se encontrava no recinto. Nem ali, nem em qualquer outro aposento do segundo andar.

Desci as escadas em espiral dois degraus de cada vez, já receoso. Renesmee sumir em meio à escuridão da madrugada sem nenhum aviso prévio não poderia ser um bom sinal. Revirei a cozinha e a sala de estar, procurando-a minuciosamente por cada móvel, inclusive os bastante improváveis. Não me importava. Meu único e maior desejo era conseguir encontrá-la.

Segui rumo à entrada do pequeno sobrado. Fitei de um lado a outro do bosque negro diante de mim. Nada. Nenhum rastro da híbrida. Corri ao redor do perímetro da residência, meu rosto tomado por uma cor pálida como giz. Eu não gostaria de parecer tão atemorizado, contudo, havia infinitas possibilidades, principalmente quando Renesmee nem sequer deixara um bilhete revelando seu paradeiro.

Retornei à varanda frontal, apoiando-me nas tábuas brancas que a circundavam para que eu pudesse recuperar o fôlego. Era incomum uma pessoa como eu, que possui um metabolismo tão acelerado, cansar-se. Porém, quando o pavor entrava em jogo, tudo poderia acontecer.

Metamorfoseei-me em minha forma de lobo, o tecido das roupas dançando aos frangalhos pela brisa suave. Minha intenção era ir até a mansão Cullen e comunicar aos sanguessugas sobre o acontecido. Minha agonia parecia até mesmo infantil. Porém, eu havia prometido à Renesmee que a protegeria em quaisquer situações, portanto, aquele não seria o momento em que eu a deixaria na mão.

Iniciei uma corrida rumo à mansão, minhas patas lançando lascas de terra e gramínea atrás de mim. Meu maior desejo se resumia em ver Renesmee bem e segura, novamente no conforto dos meus braços. Porém, algum mau pressentimento fazia minha cabeça zunir.

Antes que eu me aproximasse de meu destino, um odor familiar me atraiu. Algo doce e ao mesmo tempo floral, algo como... mel e lavanda. Estaquei de imediato. Naquele momento, eu soube que Ness estava muito próxima dali. Inspirei profundamente, meus instintos apurados constatando que o aroma vinha da direção sul.

Nem sequer me dei ao trabalho de raciocinar antes de disparar rumo à fragrância. Tudo ao meu redor não passava de um vislumbre disforme enquanto eu forçava meu corpo a correr de forma mais eficaz. Era difícil me localizar em meio à escuridão total da floresta. Portanto, apenas permiti que minha aptidão de lobo agisse por mim.

O odor descrevia uma rota tortuosa e se intensificava a casa metro percorrido. Meus músculos ardiam, mas não me permiti parar por um segundo sequer. Apenas prossegui como se minha vida dependesse daquilo.

O sonido de vozes fez-se presente. Parei de supetão, minhas unhas cravando na grama alta abaixo de mim. Os abetos de troncos corpulentos não me permitiam ver além, contudo, pude identificar o tom aveludado de Renesmee proferindo palavras que não consegui compreender. Um alívio inexplicável se instalou em mim, mas que se dissipou assim que reconheci uma segunda voz feminina.

Um rosnado agoniado irrompeu dos meus lábios, seguido de um estalido produzido por quem quer que estivesse acompanhando Nessie do outro lado do paredão de árvores.

– Temos companhia – anunciou a voz desconhecida.

Gani, colocando-me involuntariamente em posição de ataque. Meus pelos da nuca se eriçavam à medida que o sonido abafado dos passos parecia se aproximar.

– É Jacob – murmurou a dona da voz. Pude notar um brilho escarlate em seus olhos enquanto ela se esgueirava pelos troncos das árvores, tentando certificar-se de sua afirmação. Porém, a escuridão não me permitia identificar sua silhueta com precisão.

– Ele nos seguiu? – indagou alguém, provavelmente Bella.

Senti-me seguro o bastante para avançar alguns passos, na tentativa de compreender a situação, ou, então, saber por que diabos Bells, Renesmee e sabe-se lá quem faziam na floresta em meio ao breu da madrugada.

– Droga! – Ness praguejou baixinho quando consegui avistá-la. Seu rosto pousou entre as mãos enquanto ela balançava a cabeça em total descrença. Contive o impulso de atirar-me em seus braços ao vislumbrar seus longos cabelos cor de cobre reluzirem sob a luz da lua. – Eu deveria ter me certificado de que ele estava dormindo! Eu prometi a mim mesma que não deixaria mais ninguém se envolver!

Queria correr para confortá-la quando a vi sucumbir em lágrimas compulsivas. Porém, meus pés pareciam estar soldados ao chão, não permitindo que eu me movesse. Portanto, Bella fez o serviço por mim. A vampira aproximou-se de Renesmee e envolveu seus ombros em um gesto carregado de preocupação.

– Jacob, precisa sair daqui! – sibilou Bella. Apesar de estarmos a uma distância considerável em meio à clareira que nos envolvia, pude ouvi-la de forma impecável.

Bufei em um gesto reprovativo ao seu pedido. Pude sentir o olhar furioso de Bells arder em minha pele. Ela poderia me socar caso desejasse, mas prometi em meus pensamentos que não iria embora até descobrir o que afligia Renesmee. Ou ao menos desvendar quem era a garota dos olhos bizarros que se encontrava tão imponente em seu vestido de linho.

– Ele não me reconhece – balbuciou a garota.

Franzi a testa. Como ela sabia? Com exceção de Edward, apenas os outros membros da matilha podiam compreender meus pensamentos. Contudo, o que mais me surpreendeu foi a face de Nessie iluminar-se de esperança.

– Jacob – disse Bella, o tom de voz reverberando mata adentro. – Por favor, vá. Garanto que esquecer essa noite seja o ideal a se fazer.

Controlei-me para não mostrar os dentes. A postura repentinamente austera da sanguessuga indicava o quanto estava impaciente, mas me recusei a sair de forma tão veemente que seria impossível me convencer do contrário.

– Jake... – dessa vez foi Renesmee quem murmurou, a voz ainda embargada.

– Ele não irá embora enquanto não se certificar de que você está a salvo – comentou a garota, os olhos avermelhados adquirindo uma coloração cada vez mais intensa.

Será que dá para deixar minha mente em paz?

– Como quiser – disse ela, dando de ombros.

Ness desvencilhou-se do abraço de Bella e caminhou em minha direção. A híbrida ainda trajava seu pijama de cetim, que se aderia à pele alva conforme a direção do vento. Seu olhar era tão suplicante que meu peito pareceu ser apunhalado. Ela parecia frágil sob as feições melancólicas, o que me fez querer tomá-la para mim e embalá-la como uma criança.

– Ei – Renesmee agachou-se diante de mim, acariciando minha pelagem densa com a ponta dos dedos. Em seguida, dedilhou minha face com a mesma graciosidade de quando compunha suas músicas no piano. – Está tudo bem, meu amor. Eu estou bem. Siga as instruções de mamãe, Jake. Vá embora. Por mim.

Havia algo em sua expressão facial que quase me fez aquiescer, mas não foi o suficiente. Nessie levou uma das mãos no espaço entre minhas orelhas e o afagou.

Não quero vê-lo machucado. É perigoso, transmitiu ao menor toque.

Senti as veias das têmporas pulsarem sob a pele. Se havia riscos, como eu poderia abandoná-la? Desde os votos matrimoniais, comprometi-me a amá-la e a ampará-la em toda e qualquer situação. Havia jurado fidelidade não apenas perante a ela, mas a todos aqueles que tiveram a oportunidade de comparecer ao evento. Não poderia me dar ao luxo de rompê-los. Não agora, quando, apesar de suas insistentes recusas, Renesmee necessitava de meu apoio.

Meus olhos decaíram para suas mãos cálidas, em especial para a aliança banhada em ouro que envolvia o dedo anelar do membro esquerdo. Renesmee acompanhou meu olhar, percebendo uma nota de determinação moldar meu rosto.

– Jacob – sua voz, agora, assumia um tom vacilante. – Por favor.

Balancei a cabeça em discordância. Um gemido de desgosto irrompeu de seus lábios, mas não me deixei abater. Eu estava convicto de como deveria agir, e Ness não me faria mudar de ideia.

– Esqueça, Nessie – disse Bella, um tênue sorriso iluminando o rosto. – Você sabe como Jake é... obstinado, se essa for a denominação correta para alguém tão cabeça-dura.

A híbrida abafou um riso com a mão espalmada, gesto suficiente para que meu corpo e alma fossem imersos em uma densa camada alívio. Era fascinante a capacidade que Renesmee possuía de extasiar a todos, inclusive àqueles cujo coração era frio como mármore. Como uma semi-vampira, talvez aquela fosse uma de suas habilidades especiais, bem como seu dom de transmitir os pensamentos ao menor toque ou, mais recentemente, à menor aproximação.

A sanguessuga loira ainda nos observava ao longe, os enormes olhos carmim identificando-a na penumbra. Muito provavelmente aquilo se tratava de uma sensação vaga, mas, por um momento, imaginei ter visto um sinal de decepção em sua face. Ela pareceu notar, uma vez que desviou os olhos de modo quase automático, e sua expressão assumiu o mesmo teor pétreo de minutos atrás.

– Tudo bem, Jake, você fica – a postura de Ness moldava-se em algo totalmente contrafeito, e não pude deixar de reconhecer o biquinho se formando em seu lábio inferior. – Mas se alguma coisa acontecer a você... – ela deixou a frase no ar, hesitante em continuar. Em seguida, recomeçou: – Se alguma coisa lhe acontecer, eu...

– Nada vai acontecer, meu bem – Bella interveio e, apesar da convicção incontestável, sua voz era branda. – Cuidaremos do caso. Tudo vai dar certo, não se preocupe.

Se eu ao menos soubesse o que diabos Bells tinha tanta intuição em afirmar que não aconteceria...

– Acho que devemos algumas respostas a ele – disse a sanguessuga, aproximando-se como um flash, a fala inexpressiva e sinistra.

Finalmente alguém teve o bom senso de atender aos meus anseios.

– Disponha – ela balbuciou com desdém.

Revirei os olhos mentalmente. Um telepata em minha vida bastaria, e eu ficaria excepcionalmente grato.

– Ainda posso ouvir você.

Rosnei, um silvo tenebroso irrompendo entredentes. Exibi as presas pontiagudas, contudo, a sanguessuga manteve-se impassível. A postura permaneceu impecavelmente ereta, e não havia quaisquer resquícios de abalo em seu rosto provido de uma beleza fatal. Resisti ao ímpeto de golpeá-la. Meus ânimos estavam à flor da pele naquela noite, e eu não estava disposto a encarar maneiras tão peculiares de provocação.

– Jacob! – Bella censurou-me, fuzilando-me com os olhos topázio. – Temos coisas mais essenciais para nos preocuparmos agora.

A vampira loira levou as mãos ao ar, na defensiva. Apenas funguei irritado, minha respiração se condensando no ar.

– Precisamos que tenha a mente aberta, Jake – murmurou Ness, tamborilando os dedos sobre a perna seminua. – Eu fiz algo imperdoável, mas não tive escolha. Você não se lembra de Leona – maneou a cabeça na direção da sanguessuga, – por um motivo.

Bella agachou-se ao meu lado, afagando a região acima da pata dianteira. Estreitei os olhos para ela ao perceber que o gesto não se tratava de algo com vistas a me reconfortar, mas, sim, para restringir meus movimentos. Seus dedos fecharam-se ao redor do membro, uma pressão gélida e desconfortável. Ela também não parecia satisfeita ao ter de fazer aquilo, mas manteve a serenidade.

– Leona é uma dos Volturi – disparou Renesmee, cautelosa.

Remexi-me sob os dedos de Bella, a informação apunhalando-me como um golpe no estômago. Tentei avançar sobre a sanguessuga, mas Bells saltou em meu tronco, fazendo-me despencar no orvalho úmido antes de qualquer reação. Uivei, o som reverberando pela clareira. Porém, Bells não cedeu, tampouco se moveu. Seu antebraço estava posicionado contra a concavidade abaixo do meu pescoço, empurrando toda a extensão corporal para baixo. Havia uma ruga em sua testa devido à compenetração, mas, ainda assim, certo pesar impregnava sua face.

– Jake! – exclamou Nessie, beirando o desespero. A híbrida debruçou-se sobre nós, os joelhos desprovidos de qualquer camada de roupas raspando no solo. Contudo, o ferimento, com a mesma velocidade que se formou, expelindo gotículas de sangue, foi cicatrizado. – Tudo bem, ela está aqui para nos ajudar.

Contorci-me em espasmos, ganindo. Renesmee certamente estava maluca ou, talvez, influenciada. Os Volturi jamais nos estenderiam a mão, seja qual fosse a situação. No entanto, havia algo em suas feições que levava cada átomo do meu corpo a crer no argumento.

Bella pressionava-me cada vez mais à medida que eu tentava me desvencilhar, o que fez Ness adentrar um estado de completa angústia.

– Mamãe, chega, por favor.

Nessie tocou meu rosto com o dorso da mão. Eu podia enxergar a verdade emanando de seu semblante, como se fosse quase palpável.

– Renesmee está sendo sincera, Jacob – disse Leona, aproximando-se de mim tal qual uma velha conhecida. Como se, de repente, eu não houvesse feito menção de atacá-la minutos atrás. – Existem certos impasses nos rondando, e precisamos que esteja disposto a nos ouvir.

– Sei que não está confortável com tudo isso, mas é importante que não se deixe levar pela rivalidade entre clãs... não agora... não com Leona – Nessie declarou por fim, a voz assumindo um potencial mais severo desta vez.

Meus músculos relaxaram quando a híbrida diminuiu a distância entre nós.

– Eu confio em você.

O murmúrio foi suficiente para que Bella afrouxasse a pressão dos seus braços em torno de mim. Pelo jeito, ela também parecia confiar. Tomei a liberdade de me levantar a passadas lentas e receosas, ainda temendo que qualquer movimento da sanguessuga pudesse despertar meus instintos. Renesmee havia me dado crédito, e eu não iria decepcioná-la.

Leona não parecia amedrontada. Muito pelo contrário. Carregava consigo uma fisionomia tenaz, segura de si. Rosnei ao passar por ela, ato que fez Bella assumir uma posição de ataque de modo imediato. Contudo, não avancei. Somente fitei-a como uma presa a ponto de ser arrebatada.

Mantenha a mente aberta, repeti milhares de vezes em meus pensamentos, apesar de minhas entranhas estarem comichando, insinuando que eu a decapitasse enquanto ainda houvesse a oportunidade.

– Não me considero um membro dos Volturi, se é isso o que te preocupa, Jacob. Não mais – assegurou-me a loira, uma leve brisa envolvendo-a e agitando as pregas do vestido. – Desculpe-me por invadir sua mente, mas precisávamos entender o que se passava. Meu poder é muito semelhante ao de Edward, porém, a área de alcance que abranjo é muito mais restrita. Só consigo decifrar os pensamentos de uma pessoa por vez, isso se eu me permitir. Não consigo decodificar as mensagens instantaneamente, preciso me concentrar unicamente no indivíduo de quem colherei as informações – seus lábios moldaram-se em um sorriso amargo. – Bem, acredito que isso não seja de seu interesse. Apenas queria que você compreendesse que não sou qualquer tipo de ameaça. Estou aqui para protegê-los da ira de Heinrich, meu irmão.

– Jake, trevas e incertezas se aproximam a cada segundo – balbuciou a híbrida. Franzi o cenho. Renesmee jamais se dirigiu a mim através de enigmas. – Há um exército reunido contra nós.

E então, tudo tornou a sucumbir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.