Eternal Clash: Reinos Espectrais
2 O Reconhecimento do Abismo
O Vigília Dracônica paira no ar como uma montanha viva, imóvel, mas com uma presença que faz o vento parar de soprar. Seus olhos de fogo branco não piscam. Apenas observam Kairos, como se estivessem lendo cada fragmento de alma que ele carrega — celestial, demoníaca, mortal, mediadora.
Lyrien permanece à frente dele, o corpo tremendo, mas a voz firme.
— Ele hesitou — sussurra ela, sem tirar os olhos do dragão. — Isso nunca aconteceu. Nenhum registro do Véu Espectral menciona um Vigília hesitando.
Kairos sente o peso daquele olhar ancestral perfurando-o até o núcleo. Não é raiva. Não é medo. É algo pior: compreensão absoluta.
Dentro dele, as vozes dos fragmentos presos se agitam novamente, mas agora com urgência, como se soubessem que o tempo está se esgotando.
Fale com ele. Não com palavras. Com verdade.
Ele dá outro passo à frente. Lyrien tenta segurá-lo, mas sua mão atravessa o ombro dele como névoa — o Véu a está puxando de volta, punindo-a por interferir demais.
— Kairos, não... — ela começa, mas a voz se desfaz no ar.
Ele está sozinho agora, de pé diante da criatura que existe para corrigir erros cósmicos.
A marca celestial no braço brilha com intensidade dolorosa, como se tentasse queimá-lo por dentro. Os chifres espectrais, agora sólidos, pesam em sua cabeça como uma coroa de ossos antigos. Ele ergue a mão — não em ameaça, mas em saudação.
E então, faz o que as vozes pediram.
Mostra a verdade.
Não esconde o demônio que absorveu. Não rejeita a marca que o condena. Não nega o sangue Mediador que corre em suas veias.
Ele se abre.
Uma onda invisível se expande a partir dele — não poder destrutivo, mas revelação. As fendas espectrais ao redor se alargam, mostrando vislumbres de outros reinos: céus dourados manchados de sangue angelical, abismos ferventes com correntes quebradas, ruínas de mundos que os Mediadores outrora protegeram.
O Vigília Dracônica inclina a cabeça, lentamente.
Um som grave escapa de sua garganta — não rugido, mas ressonância. Como o toque de um sino que existe desde antes do tempo.
E então, algo impossível acontece.
O dragão baixa a cabeça.
Não em submissão. Em reconhecimento.
As asas se fecham contra o corpo colossal. O fogo branco nos olhos se suaviza para um cinza perolado, antigo e cansado.
Ele fala.
Não com voz, mas diretamente na mente de Kairos — uma presença tão vasta que quase o derruba de joelhos.
Você não é o erro. Você é o lembrete.
As palavras ecoam como trovões distantes.
Os Reinos Superiores mentiram. O Abismo se calou por medo. Os Mediadores foram caçados porque eram a única verdade que ambos temiam.
Kairos sente lágrimas quentes escorrendo pelo rosto — não sabe se são suas ou dos fragmentos que choram através dele.
Eu fui enviado para corrigir o desequilíbrio causado pela Grande Ruptura. Mas o desequilíbrio não é você. É o silêncio que veio depois.
O Vigília ergue o olhar para o céu, como se visse além das nuvens, além das dimensões.
Eles virão agora. Ambos os lados. Porque você existe.
O dragão estende uma das asas, não em ataque — mas como abrigo. A sombra cobre Kairos completamente, protegendo-o de algo que ele ainda não vê.
No horizonte, pontos de luz dourada começam a surgir — portais celestiais se abrindo. Ao mesmo tempo, o chão treme com rachaduras rubras, fendas abissais se formando.
Anjos e demônios, atraídos pelo farol que ele se tornou.
O Vigília fala uma última vez, com uma nota de algo que quase parece... tristeza.
Você será caçado novamente, último Mediador. Mas desta vez, o equilíbrio não permitirá seu extermínio. Eu vigiarei.
Então, com um bater lento de asas que faz o ar cantar, o dragão ancestral sobe, desaparecendo entre as nuvens como se nunca tivesse estado ali.
Kairos cai de joelhos, exausto.
Lyrien reaparece ao seu lado, agora mais sólida, o Véu tendo perdoado sua transgressão.
— O que... o que ele disse? — pergunta ela, voz rouca.
Kairos ergue o rosto. A marca celestial ainda brilha, mas não queima mais. Os chifres permanecem — parte dele agora, não possessão.
— Ele disse que a guerra recomeça — responde Kairos, com uma calma que não sentia antes. — E que desta vez, eu não estou sozinho.
No horizonte, os portais celestiais se abrem completamente. Figuras aladas descem, armaduras reluzindo com luz implacável.
Do chão, formas sombrias emergem — garras, chifres, olhos vermelhos famintos.
Ambos os lados, vindo por ele.
Kairos se levanta.
Pela primeira vez, não foge.
Olha para os dois exércitos que se aproximam e sorri — um sorriso pequeno, cansado, mas real.
— Que venham — diz ele, voz firme. — Eu esperei a vida inteira por isso.
Fale com o autor