Eternal Clash: Reinos Espectrais
3 A Primeira Colisão
O ar entre os dois exércitos vibra como cordas de um instrumento prestes a se romper.
Do céu descem sete figuras aladas, armaduras de luz sólida reluzindo como sóis em miniatura. Suas asas não são de penas, mas de lâminas de energia pura, cortando o vento sem esforço. À frente deles, uma mulher de cabelos prateados flutua com a espada já desembainhada — uma lâmina que parece feita de estrelas condensadas. Seus olhos são frios, julgadores. A marca no braço de Kairos pulsa em resposta, reconhecendo-a como a origem do farol.
Do solo, emergem treze formas sombrias. Algumas humanoides, outras nem tanto: garras que rasgam a terra, caudas espinhosas chicoteando o ar, olhos que brilham como brasas em fornalhas antigas. O líder é um demônio alto, pele negra como obsidiana rachada, chifres curvados como uma coroa quebrada. Ele sorri ao ver os chifres de Kairos — um sorriso faminto, quase orgulhoso.
Ambos os grupos param a cem metros de distância um do outro. E de Kairos.
Lyrien se coloca ao lado dele, as mãos tremendo, mas a voz firme.
— Serafins da Legião Dourada — sussurra, indicando os anjos. — E do outro lado... príncipes do Círculo das Cinzas. Nenhum dos dois deveria estar aqui ao mesmo tempo. O tratado pós-Ruptura proíbe confrontos diretos no plano mortal.
— Tratados quebram — responde Kairos, baixinho. Ele sente o peso dos olhares de ambos os lados como correntes. — E eu sou a desculpa perfeita.
A serafim de cabelos prateados dá um passo à frente no ar. Sua voz ecoa como sinos de cristal, mas carregada de autoridade absoluta.
— Abominação marcada pelo Céu e manchada pelo Abismo. Entregue-se ao julgamento divino. Sua existência viola as Leis da Pureza. Resistência apenas prolongará o inevitável.
O demônio obsidiano ri — um som grave que faz o chão rachar ainda mais.
— Que lindo discurso, Seraphiel. Mas ele carrega nossa essência também. O garoto pertence ao Abismo tanto quanto ao seu céu hipócrita. Afaste-se, ou vamos lembrar vocês por que perderam a última guerra.
Os anjos erguem as lanças em uníssono. Os demônios mostram os dentes.
Kairos sente algo novo dentro de si: não medo, não raiva. Clareza.
Ele dá um passo à frente, sozinho, entre os dois exércitos.
— Nenhum dos dois me terá — diz, voz calma, mas carregada de algo que faz o ar estremecer. — Não hoje.
A serafim franze o cenho. O demônio inclina a cabeça, intrigado.
— Você acha que pode nos desafiar, mestiço? — pergunta ela.
— Não estou desafiando — responde Kairos. — Estou recusando.
Ele ergue ambas as mãos.
A marca celestial brilha intensamente. Ao mesmo tempo, os chifres liberam uma aura rubra escura. As duas energias não lutam mais dentro dele — giram, se entrelaçam, formam algo novo.
Uma onda de força explode a partir dele, não destrutiva, mas delimitadora. O chão ao seu redor se marca com um círculo perfeito: metade dourado, metade negro, entrelaçados como yin e yang antigo. O ar dentro do círculo fica pesado, intocável.
Anjos e demônios tentam avançar. Não conseguem. É como se uma parede invisível os repelisse — não com violência, mas com autoridade absoluta.
A serafim golpeia a barreira com a espada estelar. A lâmina ricocheteia, soltando faíscas que queimam o ar. O demônio soca com uma garra flamejante. O impacto ecoa como trovão, mas a barreira nem treme.
Ambos os líderes recuam um passo, surpresos.
— Isso... é poder de Mediador — murmura Lyrien, olhos arregalados. — O Círculo de Equilíbrio. Eu só li sobre ele em fragmentos proibidos.
Kairos baixa as mãos. O círculo permanece, pulsando suavemente.
— Vocês dois mentiram sobre a Grande Ruptura — diz ele, olhando alternadamente para os líderes. — Os Mediadores não escolheram lado. Vocês os caçaram por isso. E agora querem terminar o trabalho.
Ele respira fundo.
— Mas eu não sou como meus ancestrais. Eles tentaram manter a paz. Eu... vou impor o equilíbrio.
O demônio ri novamente, mas agora há cautela no som.
— Grande discurso, garoto. Mas você está sozinho.
Kairos sorri — pequeno, cansado, mas genuíno.
— Será?
O ar acima dele se rasga.
Uma fenda espectral se abre, maior que qualquer uma que ele já viu. Dela, não saem monstros nem horrores. Saem ecos.
Sombras translúcidas de guerreiros antigos. Armaduras misturando placas angelicais e runas demoníacas. Rostos marcados por cicatrizes de ambas as guerras. Eles não são sólidos, mas sua presença é real — fragmentos de Mediadores que nunca puderam descansar, atraídos finalmente por alguém capaz de sustentá-los.
Dezenas. Talvez centenas.
Eles se posicionam ao redor do círculo, silenciosos, vigilantes.
O exército angelical hesita. O bando demoníaco rosna, mas não avança.
A serafim ergue a espada novamente, mas sua voz vacila pela primeira vez.
— Isso muda nada. Você ainda é uma ameaça.
— Talvez — responde Kairos. — Mas agora sou uma ameaça que vocês dois terão que enfrentar juntos... ou recuar.
Silêncio pesado cai sobre o campo.
Então, algo inesperado acontece.
No céu distante, uma sombra colossal passa — asas vastas, silenciosas. O Vigília Dracônica não desce, apenas sobrevoa, observando.
Sua mera presença é o suficiente.
A serafim baixa a espada, lentamente.
— Isso não termina aqui — diz ela, voz fria. — Os Reinos Superiores não esquecerão.
O demônio dá de ombros, mas já recua para a fenda abissal.
— Nem o Abismo, garoto. Você é interessante. Vamos ver quanto tempo dura essa bravata.
Um a um, anjos sobem de volta aos portais dourados. Demônios mergulham nas rachaduras rubras.
Em minutos, o campo fica vazio. Apenas Kairos, Lyrien e os ecos silenciosos dos Mediadores ancestrais.
O círculo de equilíbrio se desfaz. Os ecos se curvam levemente para Kairos — um gesto de respeito — antes de se dissiparem no ar, retornando ao Véu.
Lyrien olha para ele, sem palavras.
Kairos cai de joelhos, exausto. O esforço de manter o círculo e chamar os ecos o drenou completamente.
Mas ele ri. Uma risada baixa, quase incrédula.
— Eu... eu os enfrentei — sussurra. — E eles recuaram.
Lyrien se ajoelha ao seu lado, tocando seu ombro com cuidado.
— Você fez mais que isso. Você os forçou a lembrar que têm medo de algo.
Ela olha para o horizonte, onde o sol se põe sangrento.
— Mas eles vão voltar. Mais fortes. Organizados. E agora sabem do que você é capaz.
Kairos ergue o rosto. Os chifres ainda estão lá. A marca ainda brilha. Mas pela primeira vez, ele não os vê como maldições.
— Que voltem — diz ele, voz rouca mas decidida. — Da próxima vez, estarei pronto.
Longe, muito acima das nuvens, o Vigília Dracônica emite um som grave — quase um aprovação — antes de desaparecer no crepúsculo.
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