O amanhecer em Eldhaven é interrompido por um som que ninguém ouvia há gerações: trombetas celestiais, claras e frias, ecoando das montanhas ao sul.

Kairos está no topo da paliçada, ajudando a reforçar uma seção danificada, quando o primeiro clarão dourado rasga o céu. Portais se abrem em sequência perfeita, como flores de luz desabrochando. Dela descem não guerreiros, mas arautos — seres alados de armaduras imaculadas, rostos serenos, carregando estandartes brancos com o símbolo da Balança Divina.

Ao mesmo tempo, o chão ao norte treme. Fendas rubras se abrem em linha reta, exalando enxofre e calor. Delas emergem figuras encapuzadas montadas em bestas de obsidiana, bandeiras negras ondulando com o emblema da Coroa Partida.

Não são exércitos invasores. Ainda não.

São emissários.

Torvald sobe ao lado de Kairos, o rosto endurecido.

— Os dois lados ao mesmo tempo — murmura. — Nunca vi isso. Nem nas histórias.

Mira chega correndo, trazendo Lyrien que se materializa completamente, as asas tremendo.

— São arautos de trégua — explica a fada, voz tensa. — Quando vêm juntos, é porque querem negociar antes de destruir. Mas a trégua só dura até o pôr do sol.

Os dois grupos param a exatamente quinhentos passos da paliçada, um de cada lado. O ar entre eles vibra com tensão contida.

Um arauto celestial avança, asas douradas abertas. Sua voz ressoa como harpa multiplicada.

— Povos da terra impura! Trouxemos palavra dos Reinos Superiores. O abominável que chamais de Mediador deve ser entregue para julgamento. Em troca, vossa vila será poupada e relocada sob proteção celestial.

Do lado oposto, o arauto demoníaco — uma mulher de pele vermelha, chifres elegantes, olhos como brasas — dá um passo à frente, sorrindo com dentes afiados.

— Habitantes de Eldhaven! O Abismo oferece termos melhores. Entreguem o híbrido e receberão poder, terra fértil nas bordas inferiores e proteção contra os hipócritas alados. Recusem, e os anjos não poderão salvá-los de nossa ira.

Silêncio absoluto cai sobre a vila.

Crianças são levadas para dentro das casas. Guerreiros empunham armas, mas ninguém se move.

Kairos desce da paliçada e caminha até o portão principal. Torvald tenta detê-lo, mas ele balança a cabeça.

— Eu faço isso.

O portão se abre. Kairos sai sozinho, parando no centro exato entre os dois arautos.

Os chifres captam a luz do sol nascente. A marca no braço brilha com intensidade constante.

— Digam a seus mestres — começa ele, voz firme e alta o suficiente para ser ouvida por todos na vila e pelos emissários — que não serei entregue. Nem ao Céu, nem ao Abismo.

Os dois arautos trocam um olhar — o primeiro sinal de surpresa.

O celestial fala primeiro.

— Sua existência é uma violação. A paz só retornará com sua remoção.

A demoníaca ri.

— Paz? Vocês querem monopólio. Nós queremos expansão. Ele é apenas a desculpa. Mas podemos dividir: metade da alma para cada lado.

Kairos sente as vozes antigas se agitarem dentro dele, não em pânico, mas em clareza.

Ele ergue ambas as mãos.

O Círculo de Equilíbrio se forma novamente, maior desta vez, abrangendo toda a vila de Eldhaven. Metade dourada, metade negra, entrelaçadas. O ar dentro dele fica intocável, protegido.

Os arautos tentam avançar. Não conseguem. Suas montarias recuam involuntariamente.

— Não há divisão possível — diz Kairos. — Porque eu não pertenço a nenhum de vocês. E esta vila também não.

Ele olha diretamente para o arauto celestial.

— Vocês oferecem proteção? Vocês caçaram essas pessoas por gerações.

Virando-se para a demoníaca:

— E vocês oferecem poder? Em troca de correntes disfarçadas de liberdade.

Então, ergue a voz para que toda Eldhaven ouça.

— A partir de hoje, nós escolhemos um terceiro caminho. Não submissão. Não servidão. Autonomia.

Um murmúrio se eleva atrás dele — orgulho, medo, esperança misturados.

O arauto celestial franze o cenho, as asas tremendo de raiva contida.

— Isso é rebelião aberta. O sol se pondo trará a guerra.

A demoníaca sorri, mas há algo novo no olhar: respeito relutante.

— Guerra então. Mas saiba, Mediador: o Abismo admira coragem. Talvez ainda possamos conversar... quando os anjos sangrarem.

Os arautos recuam. Portais e fendas se fecham com estrondo.

A trégua termina ao pôr do sol.

Kairos volta para dentro da paliçada. O Círculo se desfaz lentamente.

Torvald o espera, espada na mão.

— Então é guerra — diz o velho guerreiro.

— É — confirma Kairos. — Mas agora é nossa guerra. Em nossos termos.

Mira organiza as crianças e os não-combatentes. Ferreiros acendem forjas. Arqueiros sobem às torres.

Lyrien se aproxima, olhos brilhando.

— A mensagem se espalhou mais rápido do que pensei — sussurra. — Três outras vilas já mandaram corvos. Estão vindo. Não muitas pessoas ainda, mas o suficiente para reforçar as muralhas.

Kairos olha para o sol, que já começa a descer.

— Quanto tempo até o pôr do sol?

— Cinco horas — responde Torvald.

— Então temos cinco horas para nos preparar para a primeira batalha de verdade.

Ele sobe novamente na paliçada, olhando para o horizonte sul e norte.

No céu distante, nuvens douradas se acumulam. No chão, fumaça rubra começa a subir.

Mas acima de tudo, quase invisível, uma sombra vasta passa lentamente — o Vigília Dracônica, silencioso, vigilante.

Não intervém.

Apenas observa o que o último Mediador fará quando a guerra finalmente chegar às portas dos mortais.