Eterna Memória
1 Desejo de Consolo
O desejo de ser lembrada somente é respeitado quando sua vida inteira é merecida ser contada em histórias, você honrou essa ideologia com graça, eu hei de me lembrar de você até este mundo virar pó.
(...)
Haviam se passando décadas no porto de Liyue onde ela vivia, e mesmo com os anos se passando e ela ficando cada vez mais velha, sua curiosidade estranha ainda permanecia nela, e cada verão se tornava cada vez mais convincente de que ela estava certa em pensar que aquela enciclopédia ambulante não era natural, não era perfeitamente humano como deveria ser.
Ficou como a septuagésima sétima gerente da funerária de Liyue tempo o suficiente para saber que o tempo não perdoa a aparência de ninguém e que a vida de todos tende a desbotar com a sua passagem lenta pelo ciclo de um ser vivo, ela não era exceção, evidentemente até mesmo seu humor latejante havia se perdido conforme envelhecia, suas costas não acompanhavam mais a vontade intrínseca de seu coração de brincar e se divertir com algumas travessuras com seus velhos amigos.
Sim, ela sentia saudades desse tempo, onde ela tinha todos ao lado dela, quando aquele viajante carismático retornou com sua irmã, como havia prometido, ela foi no casamento dele com a majestosa Ningguang, foi uma cerimônia tradicional, a irmã de Aether era uma pessoa agradável, mas ela assim como seu irmão e Zhongli passavam uma impressão para ela que eram muito mais do que seres humanos, que cada um desse três tinha algo de diferente, talvez por ela própria poder ver o desconhecido ela podia julgar eles assim.
Ela viu, como viu tudo se passar diante dela, ela viu aquele jovem leitor de cabelos azulados se tornar ainda mais digno e subir na hierarquia de Liyue, viu aquele exorcista de coração frágil se provar merecedor de reconhecimento, as filhas dele eram suas conhecidas, moças adoráveis e adoráveis.
Ela viu muita coisa se desbravar diante de seus olhos, mas o que ela mais desejou não foi concedido.
Zhongli não envelheceu nem um pouco, ele continuava com a mesma aparência, enquanto ela criava rugas, ele permanecia, enquanto seus cabelos ficavam prateado desbotado, ele permanecia, enquanto sua coluna se dobrava ele permanecia, sempre permaneceu, o tempo e a vida nunca passaram por ele.
Ela já sabia o motivo disso, embora não pudesse nem sequer ter ideia de como iniciar esse tipo de conversa com ele, de alguma forma ela entendia seu segredo. Ele havia se cansado dessa vida de divindade, e havia escolhido permanecer humano.
— Senhora Hutao, não se deve ficar com a janela aberta no inverno. — a voz profunda e apática de Zhongli chamou sua atenção, ela estava há um bom tempo fitando o mesmo documento em sua mesa que nem notou o vento gélido invadindo sua sala, o homem deu a volta atrás dela e fechou sua janela, a deixando livre do risco de se resfriar, como atencioso. — Obrigada Zhongli, eu não havia percebido. — ela tossiu com isso, talvez foi realmente a melhor coisa ele ter agido, ela nem havia notado que poderia ficar ruim com uma temperatura assim, a idade era prejudicial de fato. — Você está sempre atento a mim, hein? — A senhora Hutao tinha o péssimo costume de se deixar levar a lugares perigosos, agora eu vejo que só mudou para situações. — Zhongli começou a lhe servir chá verme, como ela havia adquirido essa preferência ao longo dos anos, ele ocasionalmente lhe trazia um pouco, em seu horário de trabalho que cada vez mais exigia dela. — Você deve se cuidar, senhora Hu-tao, não têm mais idade para brincar de aventureira.Ela sorriu e brincou com a ponta de seus cabelos acinzentados com os dedos, enrolando num nó e observando a cor. — A idade... De fato Zhongli, eu não tenho mais idade para isso, o tempo passa e meus costumes mudam, mas os seus continuaram os mesmos desde então, você sempre foi minha sombra e meu mentor, o meu guardião.
Zhongli lhe estendeu o chá em silêncio, enquanto ambos se olhavam nos olhos, até Hutao quebrar o contato com um sorriso estalado.
— Obrigada por permanecer do mesmo jeito, ano após ano, isso me motivou a continuar aqui, a fazer o que fazia desde jovem. — Hutao admitiu isso enquanto bebia, observando o homem dar a volta e se sentar em outra cadeira enquanto conversavam. — Como é a sensação, se posso perguntar? — Qual sensação? — questionou de volta o homem, talvez um pouco taciturno demais, um pouco melancólico e saudoso, conforme observava as expressões cansadas e antigas de Hutao se formarem em um sorriso igualmente cansado.Ela tinha a chance de perguntar, a chance de realmente falar o que sentia sobre ele, de falar como ela o admirava e o respeitava por ter escolhido descer e viver como um humano, por mais que não fosse um, ela queria lhe parabenizar e lhe saudar pela escolha digna que havia feito, mas acima de tudo queria se entender, queria descobrir em si mesma porque a ideia de um dia não estar mais com ele doía tanto em seu coração mole e cansado, mas ela não teve essa coragem, era um contraste muito forte pois em seus anos jovens ela tinha coragem para tudo que há nesse mundo.
Ela mudou, e ele permaneceu o mesmo, a estátua de sua salvação, a pose digna e composta que ela nunca teria a capacidade de replicar, e acima de tudo, o amor genuíno que sentia por todos em sua volta.
Ela queria falar sobre isso, mas não pôde, não conseguiu.
Então agiu de outra forma, ela decidiu ao menos, lhe dar um consolo para sua mente.
— Zhongli, pode me prometer uma coisa? — ela questionou humilde, com a voz branda e os olhos aguados. — O que você desejar de mim. — a resposta foi rápida e convicta, ele honraria o pedido dela. — Quando eu morrer, promete nunca se esquecer de mim? Não importa quantos séculos se passem?Ele ficou em silêncio, a expressão indo de triste, para alguma coisa que ela não entendia, ele parecia ter voltado no tempo, como se ela tivesse feito ele retornar a um passado distante e perdido, ela não soube o que sentir ao ver ele tão melancólico.
— Todas as pessoas que me pediram isso antes de você, eu nunca as esqueci, e todas aquelas que também nunca me pediram tal favor, eu não as esqueci também, você têm a minha palavra que quando o dia que nossos caminhos se desprenderão um do outro, você queimará como um fogo brando e caloroso em minhas memórias nas noites frias, me aquecendo com o riso e sua alma, eu lhe prometo.Ela derramou uma singela lágrima com isso e riu, o mais alto que podia, para aquecer a sua própria alma, sim, ela queria ouvir algo parecido, ela queria um consolo de qualquer forma, ela podia nunca andar com ele em vida, como sua parceira destinada, mas talvez uma parte dela, sua essência sempre abrigaria um espaço em Zhongli, de algum jeito ou de outro, ela seria eterna.
Ela era abençoada por um Deus ser tão gentil, verdadeiramente.
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