Etérea
3 Capítulo 3 - Aberração
Notas iniciais
Luana se arrumava como quem iria para um funeral. Pelo menos era como estava se sentindo. Selene, que permaneceu calada ao seu lado, estava tão incomodada quanto, apesar de estar mais conformada. Para as duas era um absurdo caçar alguém pelo crime de existir. Mesmo que fossem criaturas medonhas, matar algo por medo do desconhecido é ridículo.
– Meu plano era conseguir meu cargo de detetive e permanecer como detetive. Não tenho nenhuma intenção de subir de cargo e meus superiores sabem disso... – O medo estava estampado no olhar da menina. – É por conta de terem declarado guerra contra a Oposição não é?
– Sim, eles vão chamar a atenção para você e tirar deles. Estão te usando como escudo e isso é ridículo. O único motivo pelo qual eles conseguem fazer isso é porque ninguém sabe que apesar de você ter telecracia até o nível 7, você só consegue a usar até o 3.
– Mas tem uma pessoa que sabe e que está no conselho. Como ela pôde fazer isso comigo?! Minha própria mãe! – Luana segurava fortemente suas lagrimas de raiva. – No final não interessa não é? Se for pra jogar eu tenho que ganhar, vamos totalmente sabotar essa missão. – Luana transformou a raiva em resolução e agora estava sorrindo de canto de rosto, um sorriso extremamente malicioso.
. . .
Luana vestia um longo vestido preto longo com um de seus casacos típicos, lilás, por cima, nos pés sapatos pretos de salto altos e seu cabelo preso um coque, só com a semi franja solta na frente do rosto. Selene usava um vestido parecido, mas sem o casaco na frente. Na cintura uma faixa grossa roxa marcava sua cintura. Entraram num escritório e sentaram em duas cadeiras em frente da mesa de trabalho.
– Sejam bem vindas! – Cumprimentou um homem alto de roupa preta social com um sobretudo longo e totalmente preto. – Creio que já recebeu a noticia.
– Sim, recebi o recado. Obrigada pela promoção. Soube que eu já tinha um trabalho pra fazer. – A jovem foi curta mas seu sorriso sarcástico foi longo. – Mas que honra receber as ordens diretamente de Ravi, o Comandante do Distrito Federal. Quer dizer, a gente geralmente recebe o cargo de alguém de um no máximo dois cargos acima. Mas Chefe espiritual para uma Agente Ômega? Tempos turbulentos esses que estamos passando. – O olhar da jovem exalava veneno.
– Se fosse depender de mim você não teria sido promovida; você não é idiota, sabe que eles te promoveram porque agentes entram em batalhas e detetives não. Mas não poderia me importar menos de terem te promovido. Vai tornar a minha vida mais fácil tendo alguém com o seu poder podendo fazer o trabalho duro. – Ele sorriu cinicamente.
– Então acho que não tenho nada pra fazer além de aceitar a sua missão. Aliás qual seria ela mesmo? – Ela trocou o sorriso por uma cara de nojo.
– Achamos a localização de uma aberração vivendo num sítio à 20 km do plano, você deve ir lá executar ou prender ele e todos os que o acobertaram. Toda a informação que você precisa saber está neste arquivo, pode pegar e se retirar. – Ele estendeu uma pasta com arquivos para a jovem e depois virou na cadeira para o lado começando a ler alguma coisa. As duas se levantaram e se retiraram do local. Antes de entrar no carro, Luana pára olhando fixamente para o chão.
– Quanto você acha que eu consigo resistir antes de perceberem quão realmente fraca eu sou? – Ela olhou para a amiga com medo.
– Eles nunca vão perceber, não enquanto eu estiver do seu lado. – Selene falou com um sorriso seguro. – Agora vamos que a gente tem muito trabalho pela frente. Luana deu um sorriso largo e entrou no carro.
. . .
Luana havia lido o arquivo durante o percurso para o local que para o qual fazer a investigação. Ela ficou preocupada com o que estava se metendo quando percebeu qual família estava envolvida, os Lupins. Feras Fenrir de linhagem mais antiga do que os próprios registros, eles são uma força latente dentre a comunidade sobrenatural. O representante político de todas as feras na Tríplice do Poder é o primogênito da família e isso por si só já diz muito.
– Selene, a gente tá pisando em casca de ovo aqui, qualquer movimento errado e a gente se lasca. – Luana falou séria.
– Querida, esse povo pode ter mais influência, mas eu sou a filha do dragão, além de meu pai ser o ex Líder da Divisão Mitológica, eu tenho força pra caramba e se eu terminasse meu treinamento de clã, só Gaia sabe o quão forte eu ficaria. Na minha humilde opinião, a fracote do grupo podia, no mínimo, confiar na minha força. Assim, de leve. – Selene falou rodando os olhos.
– Tá, eu não me preocupo mais. Não ta aqui quem falou. – Luana falou levantando a mão para cima como quem não tem culpa.
– Bom mesmo. – Selene retrucou.
As duas se dirigiram à portaria do local onde uma jovem de mesma idade, com cabelos castanhos lisos e franjinha estava sentada apoiada numa espada absurdamente grande e de olhos fechados, mas claramente atenta. Selene verificou o local enquanto Luana encarou a jovem.
– Ah! Mikaela, é você! – Luana falou sorrindo. A jovem que estava sentada apenas abriu os olhos e retribuiu o sorriso. – Então é aqui que você está trabalhando? Nossa, não te vejo desde o internato.
– Sim, sou segurança dos Lupins, posso perguntar o que diabos você tá fazendo aqui? – Ela olhou desconfiada.
– Então, acabei de ser promovida e me mandaram investigar o local, sim, eu não acho que é uma boa idéia mas não tem nada que eu possa fazer. Só cumprindo ordens... Pode mostrar para a gente o local? – Luana falou.
– Nossa você tá na defensiva hoje, hein?! Relaxa, eu te guio pelo local. Aquela é a sua famosa guarda costas? – Ele perguntou apontando para Selene.
– Sim, sim. Desculpa, é que eu to meio irritada, mas enfim. Vamos fazer logo o trabalho. – A menina falou cruzando os braços e fechando os olhos.
– Quanto mais cedo terminarmos isso, melhor. – Selene completou.
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As três jovens seguiam pelo local, passando por várias locações. As instalações eram grandes e inúmeras, eram maiores que uma pousada e o local parecia uma pequena vila. Por todo lado que passavam, olhares mortíferos as encaravam. Não gostavam que pessoas de fora fossem lá e faziam questão de demonstrar isso.
Seguiram calmamente por todo o sítio, ficaram horas nisso; visitaram chalés novos e habitados e outros abandonados, mas ainda assim em ótimo estado. Não havia nenhum dos rastros de aberração citados no arquivo que Luana lera. Nada mesmo. Isso era muito suspeito, quase como se soubessem de sua visita.
Luana ficou aliviada com isso, se não havia o que investigar não precisaria completar o serviço. Chegaram ao lugar mais isolado das premissas e olharam em todo o canto. Nada. Suspirou aliviada e começaram a seguir o caminho de volta quando ouviram um guinado. Olharam para trás e um homem grande e musculoso arrastava um jovem menor, porém tão musculoso quanto. Esse jovem tinha pêlos nos braços e mãos cinzas com garras estranhas, na cabeça cabelo espesso e duro, com orelhas de lobo que combinavam com o rosto prolongado e o focinho curto. Era medonho. Os olhos de Selene e Luana se arregalaram e quando menos esperavam Mikaela foi com tudo para cima do homem.
Selene e Luana estavam recuadas enquanto a outra separava os dois. Assim que o fez, Mikaela se abaixou ao lado do jovem mestiço de homem e lobo vendo se o mesmo estava bem. Então pegou um chifre que estava na sua cintura e assoprou pela sua ponta fazendo um barulho alto que se podia ouvir de longe. Em menos de um minuto o local estava cercado de fenrirs e alguns em forma humana. Um homem enorme se colocou entre a aberração e o homem que havia o arrastado até ali. Era o líder da família, Gabriel Fúria de Gaia.
– Como você pôde? Foi você que delatou Fred para o Ministério? – A voz mostrava desapontamento.
– Como vocês conseguem viver com um monstro entre vocês? Acha que eu ia aceitar isso? – O homem tinha um olhar furioso, nesse ponto ele já estava sendo restringido por outros dois Duas-Peles.
– Acha que vamos fazer o quê agora? Vamos entregar ele? Pedir desculpa e implorar por nossas vidas para o Ministério? – Gabriel retrucou.
– HAHAHAHAHAHAHA! Você não entende, não é? As duas mulheres atrás de você são incrivelmente fortes e não tem como esconder a morte delas. A única coisa que podem fazer é exatamente isso. Esse merda e a namoradinha dele vão receber o que merecem. – Mesmo estando preso ele sentia como se tivesse vencido.
Todos se voltaram para o olhar a dupla que ainda estava espantada com o que estava acontecendo. Todos começaram a falar sobre matá-las ou prendê-las, um alvoroço estava começando a se formar. Alguns começaram a se aproximar devagar das duas. Selene estava de prontidão à frente de Luana. À qualquer momento uma grande batalha podia se desencadear.
– CHEGA! – A voz da telepata ecoou alto calando a todos. – SE vocês aparecem protegendo uma aberração, é exatamente o que vocês podem fazer: renderem-se. Acham que não iam ser caçados se sumíssemos? Sabem o quão valiosas somos para o governo?! Tolos, todos vocês!
Ninguém falou mais nada, o medo estava estampado no rosto de todos. Luana andou até Mikaela, se abaixou e sussurrou em seu ouvido. – Fuja com ele para o mais longe que você conseguir, não interessa como, apenas o faça. – As duas se encararam e ela balançou a cabeça concordando.
Luana agora se dirigiu ao resto em seu tom alto e intimidador de antes. – Eu falei: SE! SE eu tivesse visto. Hoje eu não vi nada, nem o informante que passou a dica para meus superiores, nem provas e muito menos uma aberração. Só vi uma família grande e isolada do resto do mundo, nada mais, nada menos. – Agora se aproximou do chefe da matilha. – Lembre-se de hoje e não se esqueça da sua dívida. Cedo ou tarde, eu vou cobrar. – O Homem apenas abaixou a cabeça como sinal de respeito, concordando com a menina.
Luana deu uma última olhada no traidor daquela família, depois se virou e seguiu com Selene em direção à entrada. Enquanto se afastavam, conseguiam ouvir o som dos lobos arrancando e dilacerando a pele do dedo-duro que gritava de dor e fúria. Não sobraria nada dele para contar algo. Nada mais foi dito entre Luana e Selene naquele dia.
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