Marta cresceu sem saber o que era afeto, o que era até mesmo amor. Mas como ela saberia? Ela nunca teve família. Cresceu presa em um orfanato, nunca conseguiu ser adotada. A mesma possuía uma condição: um leve grau de autismo, algo quase imperceptível. Mas isso era o bastante para que ela nunca fosse vista como normal, sempre que a viam enxergavam apenas essa condição. Sempre alegavam que não tinham estrutura para cuidar de uma pessoa assim.

O tempo passou, e já com seus 18 anos, infelizmente ela teve que se virar pois o orfanato além de não poder mais estar cuidando dela pela sua idade, eles já estavam ficando sem recursos e teria que ser fechado. Sendo assim, ela começou a ter que pedir ajuda, comida, água, roupa, e cobertor para suportar o frio. Ela sabia o que precisava e o que tinha que fazer. Sempre muito gentil, mas as pessoas a viam como um incômodo, nunca como um semelhante, ela até tentou não perder sua essência, mas como o tempo ela via que nunca tinha o respeito e reconhecimento que ela queria, ela só queria ter um lugar para chamar de lar.

Com o tempo ela foi se rendendo aos vícios, trocou tudo que tinha para tentar amenizar a dor que sentia, agora com seus 25 já aparentava estar fatigada e puída, já não davam essa idade a ela. Ela vagava de casa em casa, em cada estabelecimento. Eles a xingavam, expulsavam e até jogavam coisas em sua direção, a viam como um estorvo. Ela sentia o desprezo, por mais que não entendesse o porquê daquilo tudo. Ela repetia incansavelmente.

— Ninguém me entende. Não entendem. Nenhum deles. Nunca entendem. — murmurava para si mesma de forma obsessiva.

— Procure se libertar desse demônio. Tudo tem seu propósito. Ele vai te libertar dessa doença se você crê. — Uma jovem passou com um sorriso simpático enquanto seu colega fazia uma careta de nojo enquanto desviava a moça do caminho da visível ameaça sem teto.

— Não chegue perto disso. Não sabe que doenças pode pegar. Provavelmente está assim porque quer. Vamos embora antes que ela roube sua bolsa. — desdenhou puxando a colega pelo braço para longe da cena patética.

Ela em um de seus últimos atos de desespero, gritou em meio a uma multidão que a viam como nada, que não reconheciam como ninguém, que não era vista. Mesmo implorando em meio a lágrimas por ajuda. Ela então puxa uma faca e corta a propria garganta. A multidão se afasta horrorizada com o que acabara de presenciar. Uns tiram fotos, outros filmam, mandam áudios, conversam entre si, rezam, clamam por uma divindade.

O corpo fica ali por horas, sendo alvo de críticas. Com o tempo, tiraram o corpo dali, ele já tinha sido abusado demais. Ela foi levada, sem saber nem se foi enterrada, se teve um velório, uma recordação, mas quem se recordaria dela? Quem iria se importar? Ela não era ninguém importante, nunca chegou a ser. Mas agora ela era vista como a coitada, que não teve ninguém. E as mesmas pessoas que a viam como um estorvo diziam que ela era uma pessoa afável, que descansasse em paz.

Hipócritas, não?

Ela nasceu, cresceu e morreu como indigente.

Sem ser vista ou ouvida e tratada como um ser humano.