Estágios da Insanidade
3 Dia
III
DIA
Dias haviam passado sem novidade alguma desde então e no amanhecer daquele dez de outubro um mal pressentimento assolava s gêmeas que já haviam aprendido a não ignorar esses instintos.
Sentadas lado a lado na cama já arrumadas com plena consciência que Esther e Michael aguardavam-nas perto da porta, Arya e Anna continuavam lá, por vezes entrelaçando as mãos, sem qualquer pensamento realmente nítido em sua mente.
Três batidas leves na porta foram audíveis.
— Arya? Anna? Vocês estão bem? — A voz de Karen soou, e logo em seguida a porta foi aberta. Atrás da cunhada o irmão que acabara de voltar de uma viagem e Esther e Michael. Os olhos de ambos focados nelas duas, tal como os de Oliver.
— Nós... só... estamos bem. — As garotas falaram juntas, levantando-se, apenas para bambearem e caírem no chão, inconscientes.
Numa velocidade inatingível para um humano normal Oliver foi até lá conseguindo com certo sucesso levanta-las, e com o auxílio de Michael depositar ambas na grande cama.
Logo Soren, Lucifer e Lilith estavam no aposento e todos olhavam fixamente com preocupação as gêmeas McClarie na cama. O médico da família, o Dr. Ethan Fox (que como filho do falecido medico anterior rapidamente conquistara a confiança de Oliver) logo olhou para todos eles.
— Elas têm alergia a algo em comum?
— Tudo. — Todos na sala responderam ao mesmo tempo, e o médico foi o único a rir da coincidência.
— Elas se expuseram a alguma dessas coisas recentemente? Elas estão com um resfriado que devido a uma série de fatores ocasionou febre. Eu recomendo descanso.
E logo em seguida saiu da sala, Oliver sentou-se na cama, mexendo nas madeixas claras das irmãs, o olhar em sua face não poderia ser definido como nada mais do que preocupação. Ele depositou um beijo leve na testa de cada uma, reparando no quão quente a pele delas estava, e como a pele normalmente clara como porcelana havia adquirido um tom avermelhado como se houvessem passado muito tempo no sol.
Adormecidas por um tempo incontável, as garotas rajavam milhões de conflitos com seu subconsciente. Um nome em especial aparecia em seus pensamentos.
Um dia se passara sem novidades ou melhora no quadro das garotas, e Oliver já estava desesperado e talvez por impulsividade ele se viu obrigado a chamar aquela pessoa para sua casa naquele exato momento.
No lado de fora da Mansão a Carruagem parava e sem acompanhamento nenhum, a mulher de longos cabelos dourados e olhos cinzentos descia com um sorriso na face. Aquela era Emerald Rain, a madrinha de Oliver McClarie, uma mulher da mais alta classe que tal como o afilhado e toda sua família tinha muitos segredos.
Assim que a porta foi aberta por Michael e Esther ela não pode deixar de demonstrar surpresa, a normalmente tão vazia e quieta Mansão McClarie estava com diversas pessoas a mais. Da última vez que ela viera até o local, antes mesmo do aniversário de dez anos das gêmeas haviam apenas dois empregados, e a família McClarie, agora ela podia ver: o Dr. Fox, a Condessa Ryans e seu filho, a família Phillips, além de Liliith, Lucifer e Soren.
— O que houve aqui? — Indagou, cada vez mais pensativa em relação a convite do afilhado.
— Condessa Rain, me acompanhe. — Michael e Esther falaram juntos conduzindo a mulher até o quarto das gêmeas. Karen estava sentada numa cadeira próxima a cama, cantarolando uma cantiga antiga, Oliver estava na cama junto com as adormecidas gêmeas, ele acariciava os rostos de ambas, ora ou outra depositando um beijo na testa das mesmas. Emerald não pode deixar de se surpreender com a cena, por mais que soubesse de tudo que acontecera com os McClarie nos últimos anos.
— Oliver? — Ela falou, fitando as duas garotas adormecidas ao lado do afilhado.
Ele finalmente lhe olhou, forçando-se a sorrir para a mulher. Cuidadosamente saiu da cama e se aproximou dela, acompanhado de Karen.
— Madrinha. — Ele falou, os olhos de um azul quase negro faiscaram por um instante, quando ela se aproximou. — Perdoe-me por ter lhe chamado mas, presumo que você possa fazer alo em relação a situação de minhas irmãs. Lembra-se de Arya e Anna não é? E eu também gostaria de lhe apresentar Karen, minha esposa.
— Primeiramente, não peça perdão já que eu claramente posso ajuda-las o certo foi me chamar. E sim eu lembro-me das duas. E é um prazer finalmente conhecer-lhe Karen, sabe eu era muito próxima de Andrew e Sarah, e eu fico feliz que pessoas como vocês estejam no lugar que eles deixaram.
A mulher pegou a mão direita de Karen, tocando de leve a aliança para então abraçar-lhe de leve, logo em seguida juntamente com Oliver sentou-se na beira da cama, onde as gêmeas pareciam presas em delírios.
Emerald tocou a testa de Anna, fazendo o mesmo com Arya em seguida, para logo em seguida fitar Oliver e Karen.
— A febre delas não está tão alta o que é bom. Eu tenho algumas recomendações...
Na mente de Arya tudo se resumia a um grande quebra-cabeça, de milhões de peças que depois de muito esforço ela conseguira montar.
— Andrew, pare! As crianças estão olhando. — Uma risonha Sarah McClaarie tentava impedir o marido de botar uma porção a menos de vegetais da comida dos filhos, que “escondidos” riam torcendo pelo pai.
— Sarah, nós queremos que elas melhorem, não que vomitem. — Ele falou retirando com a colher mais um ingrediente da sopa.
— Crianças venham até aqui. — Sarah murmurou derrotada, assistindo os três filhos sentarem-se educadamente lado a lado na mesa, por mais que ela suspirasse por ter pedido para que eles ficassem nos quartos poucas horas antes.
Três pratos de sopa foram colocados na mesa, e cada um puxando a colher adequada para isso começou a comer, sem reclamar, parecendo até mesmo estarem gostando do resultado da tentativa dos pais.
— Eu só espero que eles melhorem logo. Odeio quando ficam resfriados. — O casal falou em uníssono, enquanto se sentavam a frente das crianças cada um puxando um prato de sopa para si.
Enquanto essas memorias rodeavam a mente de Arya, Anna finalmente acabara de completar seu próprio quebra-cabeça.
— Vamos, pequenos. — A voz de Andrew soou, quando lentamente os três herdeiros McClarie adentraram o cômodo, a enorme e espaçosa cama na qual os três foram deitados ficava em frente a lareira, e as cortinas esbranquiçadas escondiam das crianças a terrível tempestade que acontecia do lado de fora.
Sarah sorriu para eles quatro, e com ajuda de Andrew trouxe uma bandeja repleta de biscoitos de chocolate e cinco copos com leite.
Cada um sorriu puxando um biscoito, porém Oliver foi o único a avançar, já que aparentemente não sentira o quão quentes os biscoitos recém-saídos do forno estavam.
Anna puxou um dos copos, sorrindo logo após tomar um gole com uma mancha de leite ainda na face, Arya riu fazendo tal como o irmão e puxando um biscoito só que ela mergulhou-o no copo de leite a após tirar o excesso do liquido ela comeu-o.
As garotas acordaram juntas, lá estavam Oliver, Karen e a mulher que após um segundo elas conhecera como a Condessa Rain, a madrinha de Oliver.
A frente delas uma bandeja com uma sopa foi depositada, pouco atrás dos dois pratos de sopa haviam biscoitos e dois copos de leite.
As garotas se fitaram confusas mas seguindo todos os apelos lhes transmitidos apenas pelo olhar elas começaram a comer, e após terem terminado, elas finalmente sentaram-se.
— O que aconteceu? — A voz de Arya soara rouca, e ela se perguntou por quanto tempo dormira. Oliver tocou a testa de ambas, colocando um grande sorriso no rosto em seguida.
— Graças aos céus vocês melhoraram. — Oliver falou abraçando-as apertado.
— Oliver as garotas acabaram de melhorar, não as mate por asfixia.
— Condessa Rain. — As garotas murmuraram em tom respeitoso, buscando por Michael e Esther com os olhos.
— Sabem que podem me chamar de Tia Emerald, queridas.
— Certo, Condessa Rain é preferível. — Murmuraram juntas novamente, os olhos fixos em Oliver, que entendendo o pedido abraçando-as novamente.
— Que dia é hoje? — Indagou Anna, aconchegando-se mais nos braços do mais velho.
— Doze. — Karen respondeu, sentando-se na cama, fazendo com que Arya se a puxe para mais perto, aconchegada no meio dos dois, logo Anna pulou para o seu lado. Na cama a ordem era a seguinte agora: Karen, Anna, Arya e Oliver, Emerald Rain saiu silenciosamente do quarto com um sorriso no rosto.
— Caso queiram visita-las venham amanhã. A família McClarie precisa de privacidade. — Ela falou em bom som para todos ali, com um sorriso mínimo nos lábios, lembrando da última vez que pronunciara aquelas palavras, naquela frase.
Aquele dezenove de outubro estava chuvoso, embora um clima tão agradável quanto na mais bela das tardes da primavera reinava na Mansão McClarie, Andrew McClarie segurava Anna enquanto ajudava Oliver a segurar Arya enquanto Sarah apenas sorria para elas, ainda deitada na cama, já haviam se passado quatro maravilhosos dias desde o nascimento de suas filhas.
Naquela manhã Emerald Rain e seu jovem e ainda levemente inexperiente mordomo, Michael Orczy, foram visitar a família McClaire, e por longas hora sela interagiu com a duas bebês, o afilhado e os amigos, quando ela decidiu voltar para casa, haviam diversas pessoas na sala da Mansão ansiosas para parabenizarem o casal, mas ela vira quando saíra , eles precisavam de mais tempo sozinhos.
— Caso queiram visita-las venham amanhã. A família McClarie precisa de privacidade.
Todos se retiraram, e assim que a Condessa Rain saiu lá estava ao lado da Carruagem o homem de cabelos e vestes negras com penetrantes olhos dourados.
— O mordomo de uma das garotas me lembra muito de você, Michael.
— Deve ser uma coincidência. — Ele falou, com um sorrisinho nos lábios enquanto auxiliava a mulher a subir na carruagem.
— Ele até mesmo chama-se Michael...
— O mundo é pequeno Condessa, meu nome é comum, e minha aparência não se diverge muito da que a maioria da população tem.
— Deve ser apenas isso... Vamos para a Mansão na cidade, acho que um encontro entre você e ele seria algo interessante... — E assim os cavalos começaram a andar e logo a carruagem já não era mais avistada e as voes de uma Condessa e de seu mordomo pareciam ter cessado.
Dentro da Mansão os empregados da casa estavam na cozinha, a comida poderia ser terminada em questões de minutos, então temporariamente apenas olhares eram trocados.
A tensão no local era palpável e todos pareciam um tanto hesitantes em botar a remédio que o Dr. Fox passara na comida das gêmeas.
Já no quarto assim que as gêmeas e até mesmo Oliver adormecera, Karen se viu fitando-os, sentindo o peito aquecer-se apenas pela chance de estar ali, com sua família. E, talvez pela maior das coincidências, não muito tempo depois de ela pensar aquilo e cair no sono, as portas da Mansão foram abertas e Michael e Esther se viram obrigados a recepcionar aquela mulher de olhos azuis claro e cabelos de um verde escuro.
— Quem são vocês? — Ela indagou, um sotaque alemão se fizera nítido, e os olhos azuis pareciam buscar alguma coisa.
— Perdoe-nos pela indelicadeza. Eu sou Esther Muller, trabalho por Anna McClaire...
— E eu sou Michael Muller, o humilde mordomo de Arya McClarie. Presumo que você seja Margareth Miller.
— Sim, sim... mas vocês não quiseram dizer que servem a Andrew e a Sarah McClarie, porque se bem me recordo Arya e Anna não devem ter muito mais do que dez anos agora...
— Você é realmente uma péssima tia, Srtª. Miller... — Uma voz ssou na imensidão da sala, e assim que a mulher levantou o olhar, ela viu quatro pessoas descendo as escadas. Haviam duas garotas de baixa estatura, e um casal, todos tinham faces serias e não pareciam estar dispostos a conversarem harmoniosamente.
— Quem são vo...
— Vê? Ao menos recorda que seu sobrinho já tem dezoito anos, idade o suficiente para herdar o cargo de Conde McClarie. — Oliver falou novamente, trazendo Karen e as garotas para mais perto de si.
— Oliver? É realmente você? Desde quando é tão insolente? Onde estão seus pais?
— Eu claramente sou o atual Conde McClarie; eu em momento algum vi insolência em minha frase, apenas veracidade e sobre a localização daqueles que sucederam a mim e a minha esposa...
— Esposa? Você não se parece com a Lena.
— Eu me chamo Karen McClarie, e presumo não conhecer você. — Karen falou, um sorrio frio tomando seus lábios.
— Onde estão seus irmãos? As gêmeas e o bebê que Sarah esperava?
— Nós duas estamos aqui. — Sorrisos ácidos por parte de Arya e Anna foram distribuídos, enquanto as duas, acompanhadas do Conde e da Condessa McClarie, desceram, mas dois degraus da grande escada. — E caso isso não seja de seu conhecimento, meu nome é Arya e o de minha irmã é Anna, por mais que de você prefiramos Condessa Winter e Condessa Brown.
— Sarah! Andrew! Seus filhos são crianças realmente imaginativas, e onde está o pequeno?
Oliver sorriu para a mulher virando-se na bifurcação, tal como as mulheres que lhe acompanhavam.
— Andrew e Sarah McClarie estão mortos. O bebê de quem fala não chegou a nascer. E nada do que falamos aqui é imaginação ou fantasia. Até porque duvido que ainda haja alguma criança que crê nisso, dentro dessa casa. Michael, Esther guiem nossa convidada até seus aposentos. Logo eu, minhas irmãs e minha esposa iremos até lá.
No escritório que os três irmãos dividiam, sorrisos eram trocados, Oliver e Karen bebericavam um dos finos vinhos que quase nunca eram degustados, as garotas também tomavam aproveitando que esse tinha pouco teor alcoólico e que elas já haviam se acostumado a esse tipo de bebida..
— Acho que nosso pais não aprovariam isso! — Anna falou com um falso tom preocupado.
— Os mortos nada podem fazer. — Oliver respondeu.
— E mesmo que pudessem, nosso pais nunca foram muito fãs da Tia Margareth... — Arya falou.
— Eu proponho um brinde. — Karen falou com um sorrisinho irônico nos lábios, antes de levantar a própria taça, seguida pelos três irmãos McClarie.
Naquele momento nada mais importava para a família McClarie, laços demais os uniam e por mais que fosse o de vingança que prevalecesse naquele momento, eles sempre estariam próximos daquele modo. Porque haviam muitos motivos pelos quais a família McClarie era temida e a união era um deles.
Naquele momento os olhos de todos pareciam faiscar, num ódio profundo que poderia ultrapassar décadas e continuar com enorme intensidade.
“Legacy McClarie
Union and Truthfulnessl”
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