Estudo sobre os trouxas
6 Parte 6
Parte 6
Hermione acordou antes mesmo do despertador tocar.
Na verdade, acordou três vezes durante a madrugada, o que era absolutamente ridículo para alguém que já havia enfrentado coisas muito piores do que uma excursão para Londres. Ainda assim, lá estava ela, sentada na beirada da cama, conferindo pela quarta vez a mochila que levaria: caderno, canetas, dinheiro trouxa, documentos, o roteiro do professor Cross e uma lista própria, muito mais organizada. A questão era a visita, crescera lá. Seria sua companhia: Draco Malfoy.
Conferiu tudo de novo dando atenção às roupas que levava também, se seriam suficientes para aqueles poucos dias.
Não era apenas ansiedade. Era responsabilidade. Ou pelo menos era isso que dizia a si mesma já que sempre fora uma pessoa responsável, principalmente ao ter amigos como Harry e Rony.
Gina, ao vê-la conferir a mochila novamente, murmurou:
- Sabe o nome disso? — Hermione apenas lançou um olhar para a amiga e respondeu, olhando novamente para a mochila.
- Responsabilidade, compromisso e…
- Eu diria que está mais relacionado com um colega usando gravata verde e prata, vestindo-se de forma elegante, alto, que mudou de lado na guerra. Iria por esse caminho — Gina riu ao ver que a amiga não falou mais nada, mas continuava a conferir desnecessariamente a mochila.
Às cinco da manhã, o grupo se reuniu em Hogsmeade. O céu ainda estava escuro e a maioria dos alunos parecia arrependida de ter escolhido aquela disciplina. O professor Cross, ao contrário, parecia feliz demais para alguém acordado naquele horário.
- Bom dia, estudiosos do mundo sem magia! — anunciou, batendo palmas. — Hoje vocês observarão, registrarão e, principalmente, evitarão qualquer uso desnecessário de varinhas. Londres está cheia de trouxas e eu não quero preencher relatórios para o Ministério.
Draco Malfoy apareceu alguns minutos depois, vestindo roupas trouxas que, apesar de simples, pareciam ter sido escolhidas por alguém que considerava “misturar-se à multidão” uma afronta pessoal. Calça escura, camisa bem passada, casaco impecável. Até tentando parecer comum, ele parecia como Gina classificou acertadamente: elegante.
Hermione notou isso, claro. E ficou irritada por ter notado, obviamente. Então, xingou mentalmente sua amiga por nomear bem claramente seus pensamentos.
- Bom dia, Granger — ele disse, parando ao lado dela. Trazia uma expressão de profundo sofrimento.
- Bom dia, Malfoy. Dormiu bem?
- Não, Granger. Pessoas civilizadas não saem de uma vila às cinco da manhã para estudar. — ele respondeu, olhando rapidamente para baixo. Os olhos dos dois se encontraram por segundos. Draco não sustentou o olhar dela e olhou para o horizonte, de forma superior.
- É uma excursão, Malfoy.
- É uma punição com itinerário — ele respondeu de forma rápida. Hermione tentou não rir, mas falhou um pouco. Aquele som, apesar de discreto, fez com que Draco olhasse novamente para Hermione. Ele conseguiu disfarçar muito bem e manteve a expressão severa, mas sentiu “algo” diferente dentro de si ao ver o sorriso da grifinória. “É apenas a Granger”, disse mentalmente.
O caminho até Londres foi longo. O professor Cross havia planejado parte da viagem com transporte bruxo discreto e parte com transporte trouxa. Segundo ele, para que a experiência fosse “progressiva e segura”. Draco discordou da palavra segura assim que precisou passar por uma catraca.
- Por que essa grade está tentando me impedir de viver?
- Ela não está tentando impedir você de viver. Está lendo seu bilhete — Hermione explicou pacientemente.
- Um pedaço de papel decide se posso passar?
- Mais ou menos — ela disse, incerta. Depois emendou — É, é isso.
- E vocês chamam isso de civilização? — diante desse comentário maldoso, Hermione puxou o bilhete da mão dele, passou no local certo e a catraca se abriu.
- Pronto. Pode passar, Malfoy.
Draco olhou para ela e depois para a catraca, desconfiado.
- Isso foi magia.
- Foi tecnologia — Hermione rebateu, rapidamente, passando o próprio bilhete em seguida.
- Diferença muito conveniente quando não se sabe explicar.
- E quando não se está aberto para entender — emendou em voz baixa. Draco ouviu, porém ficou em silêncio, porque no fundo, sabia que ela estava certa.
Quando chegaram a Londres, já perto das onze horas, Draco parou no meio da estação e olhou ao redor. Pessoas caminhavam em todas as direções, malas rolavam pelo chão, vozes ecoavam, anúncios saíam de alto-falantes, crianças corriam, adultos reclamavam, máquinas apitavam.
Ele ficou quieto. Hermione observou o rosto dele com atenção. Não havia deboche ali. Pelo menos não naquele instante. Havia espanto.
- Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo? — ela perguntou.
- Como alguém encontra o próprio caminho aqui?
- Lendo placas — ela falou, apontando para algumas. Ele seguiu o olhar dela.
- Placas? Vocês confiam a locomoção humana a placas?
- Aliás, também há placas no mundo bruxo, Malfoy — ele ignorou o comentário acertado dela — Também perguntamos quando estamos perdidos.
- Humilhante — Draco disse, soltando a respiração, sem parar de olhar ao redor. Especialmente para os alto-falantes. Hermione riu novamente. Draco olhou para ela de lado e, por um segundo, pareceu satisfeito por ter provocado aquilo novamente.
O professor Cross reuniu o grupo perto da saída. Teriam algumas horas para observar os transportes, almoçar, andar por algumas regiões da cidade e visitar lojas trouxas. Depois seguiriam para o hotel, que, segundo ele, era “perfeitamente trouxa na aparência e discretamente enfeitiçado contra gracinhas de estudantes bruxos”.
- Ou seja — Draco murmurou -, um lugar sem magia para impedir magia.
- Você está começando a entender a complexidade do mundo para além da sua vida bruxa, Malfoy — Hermione comentou.
- Não me provoque antes do almoço, Granger — ele falou e seguiu o professor. Hermione notou que provocá-lo causava uma boa sensação em si.
A primeira parte do passeio foi pelas ruas próximas. Hermione explicava sem perceber que explicava demais: semáforos, faixas de pedestres, pontos de ônibus, placas de trânsito, carros, táxis, buzinas, vitrines, bancas de jornal. Draco fazia anotações com uma caneta que segurava como se ainda estivesse decidindo se gostava ou não dela. Não queria assumir que não precisar ficar molhando o tempo todo no tinteiro era uma vantagem.
- O homem vermelho parado significa que não podemos atravessar — Hermione disse, apontando para o semáforo.
- Um boneco luminoso dá ordens aos pedestres? — Draco indagou, novamente.
- Sim. — Hermione respondeu, sem querer se estender.
- E todos obedecem? — nesse exato momento, um homem atravessou correndo, antes do sinal abrir. Uma buzina soou alta e depois palavrões. Hermione suspirou.
- Quase todos.
- Fascinante. Até os trouxas desobedecem às próprias invenções.
- Da mesma maneira que bruxos desobedecem às próprias leis e criam motivos para perseguir quem consideram diferentes.
Draco abriu a boca para responder, no entanto, não tinha o que responder. O semáforo de pedestre ficou verde e ele simplesmente seguiu Hermione.
Em uma loja de departamentos, Draco observou aspiradores, torradeiras e luminárias como quem avaliava criaturas perigosas. Hermione precisou impedi-lo de tocar em quase tudo. Ele garantiu que tinha instinto de sobrevivência. Ela lembrou que ele havia discutido com uma catraca.
Depois do almoço, o grupo caminhou pela região de compras. Hermione comprou alguns lápis coloridos e um bloquinho pequeno para complementar seus registros. Draco fingiu não prestar atenção, mas observava cada escolha dela: as capas, as cores, o cuidado em comparar preços, a rapidez com que calculava o dinheiro.
- Por que você precisa de tantos tipos de caneta? — ele perguntou, sem se conter.
- Porque cada uma serve para uma coisa — Hermione respondeu como se fosse óbvio.
- Todas escrevem — ele argumentou, cruzando os braços.
- E todas as poções são líquidas, nem por isso você usa qualquer uma. Cada uma tem sua função.
Draco ficou em silêncio.
- Essa foi baixa — ele disse, depois de alguns segundos.
- Foi didática. E só está falando isso porque ficou sem resposta. Acredito que não está acostumado a isso, não é, Malfoy? — ele apenas virou de costas. Hermione sorriu consigo mesma e foi atrás dele, acompanhando o grupo em seguida.
Em uma livraria, Hermione diminuiu o ritmo sem perceber. Livrarias sempre faziam isso com ela. Era como se o mundo ficasse um pouco menos barulhento entre as estantes. Draco a seguiu, menos impaciente do que gostaria de admitir, afinal estar entre livros o deixava calmo. Era o lugar de Hogwarts que ele gostava de estar, pois lembrava sua mansão — era lá que ficava quando não queria ser incomodado por seu pai.
- Trouxas têm muitos livros — ele comentou.
- Sim — Hermione falou, de forma automática, seus olhos percorrendo os diferentes títulos.
- Mais do que eu imaginava.
- O que você imaginava?
Ele demorou a responder, enquanto esperava, Hermione pegou um livro da prateleira. A resposta honesta seria mal educada, mesmo depois de tantas mudanças. E talvez fosse justamente por isso que precisasse ser dita.
- Menos — falou, dando de ombros e demorando um pouco a encará-la.
Hermione fechou o livro que havia aberto.
- Menos inteligência? Menos história? Menos cultura? — a paciência indo embora.
- Granger…
- Não, Malfoy. É isso que você quer dizer quando se surpreende com uma livraria cheia? Que esperava menos de um mundo que não usa varinha? — Ela baixou a voz, mas não a intensidade. Respirou fundo, fechou os olhos e se acalmou novamente — Eu sei que está tentando. Eu sei mesmo. Mas, às vezes, você fala como se o mundo em que eu nasci fosse uma versão defeituosa do seu.
Draco apertou os dedos ao redor da caneta. Ele fora educado para pensar daquela forma e desfazer os anos que fora moldado a pensar assim não era uma tarefa fácil.
- Eu não quis dizer isso — falou, simplesmente.
- Talvez não. Mas disse sem palavras, Malfoy.
Ela se afastou antes que ele respondesse. Draco ficou parado entre duas estantes, olhando para os próprios sapatos trouxas como se eles pudessem oferecer algum conselho. Não ofereceram.
Por quase uma hora, fizeram os registros separados. Draco tentou acompanhar um colega sonserino por dez minutos, mas desistiu quando percebeu que o outro estava mais interessado em reclamar do cheiro da rua do que em estudar. Então caminhou sozinho.
Viu uma mulher explicar pacientemente a uma criança como esperar o sinal abrir, um homem idoso segurar a porta de uma loja para uma moça com muitas sacolas, dois adolescentes rindo enquanto dividiam batatas fritas em um banco, pessoas comuns resolvendo problemas comuns sem uma única faísca de magia.
E, por algum motivo irritante, pensou em Hermione.
Pensou nela aos onze anos, atravessando uma parede para entrar no mundo dele. Pensou em como deveria ter sido assustador aprender sobre poções, feitiços, criaturas, fantasmas, quadros que falavam, famílias que julgavam seu sangue antes mesmo de saber seu nome. Pensou em como ele havia passado anos rindo do espanto dela, sem nunca considerar que o espanto dele, agora, era muito menor do que o dela tinha sido.
Merda.
Pedir desculpas era, sem dúvida, uma invenção pior do que aquele monte de aparelho que viu anteriormente. Encontrou Hermione novamente na livraria, sentada em um canto perto da seção infantil, fazendo anotações. Havia um copo de chá ao lado, já meio frio.
- Granger.
Ela não levantou os olhos.
- Malfoy.
- Posso sentar?
- A cadeira é pública. Algo bastante trouxa e democrático — o sarcasmo era palpável e mesmo não conhecendo muito bem Hermione, conhecia o suficiente para saber que aquele tipo de resposta não era do feitio dela. Ele sentou-se. Por alguns segundos, ficaram apenas ouvindo o barulho discreto da loja.
- Eu me expressei mal — Draco começou. Hermione ergueu os olhos.
- Isso é um pedido de desculpa?
- É uma tentativa. Não me interrompa ou talvez eu perca a pouca habilidade emocional que consegui reunir.
Ela fechou o caderno devagar, mas não disse nada. Draco respirou fundo.
- Eu fui educado para olhar para este mundo como se ele fosse menor. Fraco. Sem importância. Hoje eu vi muita coisa que não entendi e, como sempre faço quando não entendo, tentei parecer superior. Só que você tem razão. Eu não estava falando de objetos. Estava falando de onde você veio.
Hermione olhou para ele por um longo instante.
- E? — Draco soltou o ar com força. Ela não facilitaria, pensou consigo mesmo. Afinal, ela ainda era uma grifinória.
- E foi errado — o loiro completou num tom um pouco mais baixo.
- Isso continua sendo muito pouco — Hermione insistiu. Draco revirou os olhos e voltou a encará-la;
- Eu sei — ele respondeu, mais baixo ainda. — Mas é verdadeiro. Não estou pedindo que esqueça o que eu disse. Estou pedindo a chance de aprender antes de falar como um idiota.
Hermione pareceu lutar contra um sorriso.
- Você está admitindo que falou como um idiota? — dessa vez o tom dela que era levemente superior.
- Não se acostume.
- Tarde demais. Vou registrar no meu caderno.
Ela pegou a caneta e escreveu alguma coisa. Draco inclinou-se para tentar ler, mas ela puxou o caderno para perto do peito.
- É particular.
- Aposto que é ofensivo. Se é sobre mim, tenho o direito de ler.
- É pedagógico. E não, se eu escrevi, você não tem direito nenhum de ler.
- Depois do seu movimento, até os elfos têm direitos.
Dessa vez, ela riu de verdade. Draco sentiu um alívio tão grande que quase ficou irritado consigo mesmo. Ele levantou-se para que Hermione não notasse o rubor que surgiu em sua face.
No fim da tarde, o professor Cross levou o grupo para um passeio de ônibus. Draco subiu para o segundo andar com a mesma expressão de alguém embarcando em uma criatura instável. Sentou-se ao lado da janela e, por alguns minutos, esqueceu-se de reclamar.
- Então? — Hermione perguntou, sentando-se ao lado dele. — Veredito sobre ônibus de dois andares?
- Os trouxas pegaram uma carruagem, colocaram outra em cima e decidiram atravessar ruas cheias de máquinas metálicas. Estou impressionado com a coragem coletiva.
- Antes de reclamar desse transporte, sugiro que você dê uma volta no Noitibus — o rapaz ficou em silêncio, pois jamais entraria naquele ônibus.
Quando chegaram ao hotel, já estava escurecendo. O prédio parecia comum, com recepção iluminada, carpete discreto e um cheiro forte de produtos de limpeza. O professor Cross explicou que alguns funcionários eram bruxos e que os andares reservados para os estudantes tinham feitiços específicos para impedir azarações, poções, trasgos em miniatura e “qualquer outra ideia que parecesse engraçada depois das dez da noite”.
Draco recebeu um cartão para abrir a porta do quarto.
- Onde está a chave?
- Essa é a chave — disse Hermione. Ele olhou para o cartão, depois para ela.
- É um retângulo — afirmou, achando que podia ser alguma brincadeira ou teste do seu professor.
- Um retângulo muito útil — Hermione explicou — Antigamente usávamos chave, mas agora usamos esses cartões. É mais seguro e fácil de guardar.
- Vocês confiam quartos à retângulos?
- Funciona. E são cartões, já te disse.
Hermione mostrou como passar o cartão na fechadura. A luz verde acendeu e a porta abriu. Draco ficou quieto por um instante, como se tivesse sido pessoalmente derrotado por outro objeto trouxa. Afinal, tinha que concordar, aquele objeto era mais prático de carregar que chave.
- Não diga nada — ele avisou, quando notou que ela abriu a boca.
- Eu não disse.
- Sua cara disse — Draco emendou ao ver a expressão divertida de Hermione.
- Minha cara é muito inteligente.
- E muito convencida.
Hermione sentiu o rosto aquecer e entrou no próprio quarto antes que ele notasse, mas não foi rápida o suficiente. Draco sorriu sozinho e entrou em seu próprio quarto.
Depois de um banho rápido e de alguns registros organizados, Hermione desceu para jantar com o grupo. Draco falou pouco e escutou mais. Quando alguém da Sonserina comentou que os trouxas precisavam de “aparelhos para tudo”, ele apenas ergueu os olhos e respondeu que bruxos também precisavam de varinhas para quase tudo. Hermione parou com o garfo no ar. Draco não olhou para ela. Talvez por vergonha. Talvez porque soubesse que ela estava olhando.
A mesa silenciou por alguns instantes e depois a conversa foi retomada por pequenos grupos e todos em voz baixa. Depois do jantar, o professor Cross permitiu que os alunos ficassem por um tempo em uma pequena área externa do hotel, desde que não se afastassem. O ar da noite estava úmido e frio. Hermione foi até lá para respirar um pouco, levando o caderno contra o peito. Draco apareceu alguns minutos depois.
- Está me seguindo, Malfoy? — ela falou, sem olhar para o sonserino.
- Eu estava aqui primeiro.
- Mentira — não resistiu e olhou. Draco deu de ombros, concordando em silêncio. Ela riu, balançando a cabeça.
Ficaram lado a lado perto de uma mureta baixa. Ao longe, Londres continuava acesa. Carros passavam, pessoas atravessavam a rua, janelas brilhavam em prédios altos. Nenhuma daquelas luzes vinha de varinhas.
- É estranho — Draco disse, de repente.
- O quê?
- Perceber que existe um mundo inteiro funcionando sem nós.
Hermione olhou para ele. Havia algo diferente em sua voz. Menos arrogância, talvez.
- Sempre existiu.
- Eu sei. Quer dizer, agora eu sei um pouco melhor.
Ele tirou do bolso um pequeno bloco de notas. Hermione reconheceu como um dos que havia visto na livraria.
- Comprei isto.
- Você comprou um caderno trouxa? — ela não disfarçou o tom de surpresa ao ver o objeto.
- Não faça essa voz. Foi uma decisão acadêmica.
- Claro. — Hermione sorriu.
- E também comprei canetas. Duas — ele emendou depois de um tempo — Talvez três.
- Malfoy, isso é praticamente uma aceitação completa do mundo trouxa em sua vida.
- Não exagere, Granger. Continuo tendo padrões.
Ela pegou o bloco quando ele ofereceu. Na primeira página, havia algumas frases escritas com letra elegante demais para alguém fingindo desinteresse:
“Coisas que Draco Malfoy entendeu hoje:
1. Aviões continuam absurdos, mas aparentemente funcionam.
2. Catracas são inimigas naturais.
3. O mundo trouxa faz barulho, mas não é vazio.
4. Hermione Granger fica insuportável quando tem razão.
5. Pedir desculpas não mata. Infelizmente.”
Hermione leu duas vezes. Quando terminou, estava sorrindo.
- Isso é surpreendentemente bom.
- Eu aceitaria “brilhante” — Draco sugeriu, o tom esnobe novamente em sua voz. Mas dessa vez Hermione gostou. E sorriu.
- Não se empolgue — ela disse, disfarçando, tardiamente, seu sorriso.
- Você sorriu. Vou considerar uma vitória.
Uma chuva fina começou a cair. Primeiro quase nada, depois o suficiente para fazer alguns alunos correrem de volta para dentro. Hermione ergueu o caderno sobre a cabeça por instinto e Draco fez o mesmo com o próprio casaco, cobrindo os dois antes que ela protestasse. Ficaram próximos. Perto demais para fingir que era apenas por causa da chuva.
- Isso é desnecessário — ela disse, mas não se afastou.
- Preservação de material acadêmico — Draco argumentou, um discreto sorriso irônico nos lábios.
- Claro. O caderno.
- Obviamente o caderno — ele repetiu, sem tirar os olhos dela.
Hermione olhou para cima. Draco estava com algumas gotas presas nos fios claros e uma expressão que não parecia deboche. Parecia hesitação. Isso talvez fosse mais perigoso.
- Malfoy…
- Granger…
Nenhum dos dois continuou, pois a porta atrás deles se abriu de repente.
- Senhor Malfoy, senhorita Granger — a voz do professor Cross surgiu com uma alegria absolutamente inconveniente. — Espero que essa situação meteorológica esteja contribuindo para o trabalho de vocês.
Hermione afastou-se depressa. Draco olhou para o professor como se considerasse seriamente a possibilidade de enfrentar Azkaban por alguns segundos de paz.
- Estávamos apenas falando sobre chuva, professor — Hermione mentiu, corando.
- Claro. Chuva é um fenômeno fascinante. Agora, para dentro. Antes que eu precise registrar no relatório que dois monitores-chefes foram derrotados por uma garoa.
Draco inclinou-se levemente para ela antes de entrar.
- Seu mundo continua estranho — ela sorriu.
- E o seu continua atrasado em algumas coisas.
- Então talvez eu precise continuar estudando, Hermione.
Draco passou por ela, sentindo-se estranhamente leve. Sorriu sozinho ao entrar em seu quarto, tocando o próprio peito. Pansy tinha razão. Ele estava completamente ferrado.
Hermione seguiu instantes depois, inebriada por ter ouvido Malfoy falar seu nome. Teve a incômoda e prazerosa sensação de que algo havia mudado entre eles.
Fale com o autor