Estrelas no Espelho - Concurso de Halloween
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Sou fascinado por sua espécie — confessou ele prensando-a na árvore.
Ela olhou-o aterrorizada, sentindo uma fisgada de dor em seu peito enquanto as palavras dele eram proferidas. Não conseguia lhe responder, o ar faltava em seus pulmões.
— Durante anos te persegui e te observei. Sempre estive contigo e nunca percebeste. — falou bem perto de seu rosto, trazendo mais uma fisgada de dor alucinante que palpitava no abdômen da jovem.
— Quem és? — disse com dificuldade.
— Eu sou o seu demônio. — sorriu malignamente. — Mas logo desejará não saber.
A menina arregalou mais os olhos, e gritou de agonia sentindo seu corpo ser invadido pelo medo. Já não se lembrava de nada, nem mesmo de como havia ido parar em uma floresta. Via tudo nublado enquanto sentia como se arrancassem sua espinha. Em meio a uma floresta sombria como aquela o que menos gostaria de ver seria um demônio. Uma criatura que era mais feia do que qualquer pessoa possa imaginar.
— Estive nos piores momentos da sua vida. — ouviu-o sussurrar. Podia claramente perceber seu próprio choro. O choro da depressão que entrou desde que seu pai morrera enquanto caçava na floresta. E desde então, só o que lhe resta é sua mãe.
— Mas é com os melhores que gosto de brincar. — os dentes afiados agora estampavam o rosto desfigurado do ser das trevas.
A menina olhou procurando pelo dono da voz, porém nada viu. Olhou para suas próprias mãos, e nada de anormal havia acontecido com elas. Quando levantou novamente seu rosto, reconheceu seu quarto e sua mente recordava de tudo novamente. Estaria livre de seu pesadelo?
— Mãe? — chamou, descendo as escadas á procura de alguém.
Olhou pela janela da sala e viu sua mãe observando as estrelas com uma menina de vestido branco e cabelos claros. Automaticamente se reconheceu na cena. Saiu correndo até chegar a tempo de ver um amontoado de estrelas se formando em dentes afiados que vinha em direção á sua mãe e sua outra eu. Correu mais ainda na tentativa de interromper a morte de sua mãe. Queria mudar a trajetória da história. Queria sua mãe viva, não suportaria perdê-la novamente. Tarde demais, a cena de sua protetora sendo engolida enquanto clamava por ajuda nunca seria apagada de sua memória. Mil vezes sonhou com isso, mil vezes havia tentado e mil vezes havia falhado. Quantas mais ela aguentaria?
— Faça parar! Por favor! — gritou para o tal demônio que também estava lá.
Ele a olhou e estalou os dedos, trazendo a imagem de uma estação de trem velha e aparentemente abandonada. A menina já chocada com a cena anterior deixou as lágrimas escaparem. Quando se virou viu várias pessoas com feições macabras agindo como zumbis e gritando em sua frente, a fazendo recuar sentindo o frio do medo invadi-la novamente. Correu atrapalhadamente em direção contrária, dando de cara com o construtor de seu pesadelo.
— Eu avisei que se arrependeria — falou a tomando pelo braço.
— O que quer de mim? — indagou com a voz fraca diante a aproximação dos dois.
— Deixe-me te guiar. Somente me ouça e me siga, e então tudo isso acabará de uma vez por todas. Eu prometo. — disse com convicção para ela.
Ao ouvir aquilo a menina relaxou seus músculos e então um calafrio percorreu seu corpo; e ignorando todo o horror que sua aparência trazia a ela, o olhou nos olhos e se sentiu ligada á aquele ser. E não o culpou pela dor que sentiu.
Ofegante, a menina acordou. Não percebendo que se tratava de um sonho, correu até o banheiro se encarando no espelho. Ouvia incessantemente a mesma voz, repetindo sempre a mesma frase. Ela já quase não tinha forças para nada, sua mente e seu corpo já não aguentavam mais aquele ciclo vicioso que a cada noite a matava mais um pouco.
Olhando novamente para o espelho viu as malditas estrelas tomarem conta do objeto, e automaticamente se lembrou das palavras que ouvira em seu sonho. Decidiu que obedecê-lo seria melhor do que sonhar novamente. Despiu-se e entrou na banheira. Observou seu secador ligado na pia, e seguindo a voz de seu sonho levou sua mão até ele fazendo-o cair na água, matando-a logo em seguida.
O demônio então, sorrindo, viu sua alma se materializando ao seu lado; chegando perto disse á ela: — Muito bem!
A menina já se sentindo liberta de seu pesadelo o disse: — Você me libertou. O que quer em troca?
— Nada mais do que obedecer somente mais uma ordem minha — a acariciou o rosto com suas grandes unhas. — A minha nova ordem é quem aterrorize todos que um dia entrarem no banheiro sem acreditar que podem morrer ali mesmo. Ou até mesmo os que acreditam. E a partir de agora, seu nome será Loira... A Loira do Banheiro — ela assentiu enquanto sorria, e desde então, cumpre essa ordem.
Fale com o autor