Notas iniciais
Eu amo essa história e vou continuar a escrevê-la mesmo que fique ruim. Fim.

Romulo me levou em casa, fomos conversando animadamente no carro, meu gestual mais evidente que o normal com a empolgação de estarmos de bem outra vez.

– Qual sua cor favorita? — ele perguntou, seus olhos em um tom bem claro de lilás, tão lindo.

– Nesse momento? — perguntei, timidamente.

– Sim — ele disse, quase sem tom.

– Roxo ou lilás? — mordi o lábio.

Ele riu, seus olhos indo para um tom mais claro ainda de lilás.

– Gosta de chocolate? — ele perguntou.

Fiz que sim.

– Prefiro morango, mas gosto de chocolate — eu brinquei.


Rômulo estacionou diante da minha casa, mas ficou sem pressa de desligar o carro. O silêncio parecia cheio de coisas que a gente não tinha coragem de dizer. Eu tamborilava os dedos no joelho, nervosa, até que ele me chamou de novo:


– Darwin…


Arrepiei só pelo jeito como ele disse meu nome.


– O quê? – perguntei baixinho, tentando disfarçar meu coração acelerado.


– Eu gosto… de falar com você. É diferente.


Senti meu rosto corar, e quando levantei os olhos, os dele estavam fixos em mim, agora num castanho quente, profundo, quase impossível de sustentar.


Por impulso, toquei o queixo dele, e ele inclinou-se devagar. O beijo aconteceu suave, tímido no começo, depois mais seguro, como se nossos mundos finalmente tivessem encontrado encaixe. O tempo parou ali, naqueles segundos.


Quando nos afastamos, ele riu baixinho.


– É… – ele disse, a voz rouca – agora tenho certeza de que gosto mais de morango…


– Bobo – murmurei, rindo também, antes de abrir a porta.


Saí do carro leve, quase flutuando, o coração explodindo de felicidade.


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– Mãe! – gritei, batendo a porta atrás de mim.


– Shhh! – ela veio correndo, com o Prim adormecido nos braços. – Quer acordar o santo menino?


Coloquei as duas mãos na boca, mas não aguentei: abracei minha mãe por trás e sussurrei no ouvido dela:


– Eu acabei de dar meu primeiro beijo!


Soltei-a e girei pela sala como uma bailarina desengonçada. Minha mãe ficou com os olhos arregalados, a boca aberta num sorriso incrédulo.


– Ai, meu Deus! – ela deixou escapar um gritinho, balançando o Prim, que resmungou. – Foi o garoto-vampiro?


Revirei os olhos, rindo.


– Ele não é um vampiro! Eu acho…


Ela riu alto, se jogando no sofá. Eu peguei o Prim do colo dela, ajeitando-o com jeito até que voltasse a dormir.


– Você é melhor com ele do que eu – mamãe comentou, ainda rindo, mas os olhos brilhando de curiosidade. – Agora fala: como foi?


Sentei-me ao lado dela, ainda abraçada ao bebê adormecido, e comecei a contar cada detalhe, sem economizar nos sorrisos. Contei sobre as perguntas bobas, sobre o olhar dele, sobre a forma como me chamou de “Darwin” como se fosse o nome mais bonito do mundo.


– Foi perfeito – terminei, suspirando, sentindo o rosto corar de novo.


Mamãe me olhou com ternura, a mão afagando meu cabelo.


– Filha… só te peço uma coisa: que você nunca tenha medo de viver o que é bonito. Mas também nunca esqueça de cuidar do seu coração.


Engoli em seco, emocionada, e me joguei no colo dela, rindo e chorando ao mesmo tempo.


– Mãe, você é a melhor do mundo.


– Eu sei – ela respondeu, fingindo modéstia, me fazendo rir de novo.


E assim ficamos, eu com o coração disparado, ainda saboreando o gosto doce do meu primeiro beijo.


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Fiquei ali, no colo da minha mãe, ainda com o Prim adormecido nos braços, rindo sem parar. Dentro de mim, tudo parecia em festa: o coração acelerado, a pele arrepiada, a lembrança fresca do beijo que parecia ter aberto um mundo novo.


Talvez amanhã tudo voltasse ao normal – escola, fofocas, responsabilidades. Mas, naquela noite, deitada no sofá, entre o calor da minha mãe e o peso leve do meu irmãozinho, eu senti que alguma coisa tinha mudado para sempre.


Era como se tivesse descoberto que o amor não era só nas páginas dos livros ou nas músicas que eu dançava. Ele podia ser real, palpável, doce como morango e quente como um olhar castanho que se perde no meu.


Sorri sozinha, certa de que nunca mais esqueceria aquele dia. Meu primeiro beijo. Meu primeiro segredo dividido com minha mãe. Minha primeira certeza: eu estava pronta para viver.


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Cheguei na escola com o coração ainda batendo mais rápido que o normal. Darwin me esperava encostada no portão, braços cruzados, mas o sorriso de quem já tinha sacado tudo.


— Você tá diferente — ela disse antes mesmo de me dar bom-dia.


— Eu? — tentei disfarçar, ajeitando a mochila no ombro.


Ela revirou os olhos. — Vai, desembucha. Não adianta, Joana. Eu te conheço desde a época que você não tinha dentes da frente.


Soltei uma risadinha nervosa. — Tá… mas você promete não fazer escândalo?


— Juro pela minha coleção de batons holográficos — levantou a mão como se fosse um juramento solene.


Olhei pros lados, respirei fundo e sussurrei: — Eu beijei o Rômulo.


O grito de Darwin foi tão alto que três alunos da oitava série se viraram curiosos. Eu quase enfiei a cara na mochila.


— Ai, meu Deus, você beijou o vampirozinho! — ela pulava de alegria. — Conta, conta, foi bom? Teve língua?


— Darwin! — cutuquei seu braço, tentando não rir. — Você parece mais animada do que eu!


— Porque eu sou romântica incurável, oras. Agora fala: os olhos dele mudaram de cor?


Arregalei os meus. — Como você sabe disso?


Ela deu de ombros, como se fosse óbvio. — Eu reparei, ué. Ontem, quando ele tava brigando com o John, eles ficaram laranjas. Eu achei que era reflexo da luz, mas… sei lá.


Engoli em seco. Eu também tinha visto.


Antes que eu pudesse responder, senti aquele friozinho na nuca. Virei devagar, e lá estava ele, Rômulo, parado a poucos passos de nós. Sorriu, meio tímido, e por um instante juro que vi: seus olhos estavam âmbar, como brasas escondidas.


Pisquei, e já estavam castanhos de novo.


Darwin me cutucou, arqueando a sobrancelha. — Tá vendo? Eu não tô maluca.


Eu não disse nada. Só senti meu coração acelerar, dividida entre o doce do romance e o arrepio do desconhecido..


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O professor de matemática rabiscava equações na lousa, mas eu só conseguia olhar pro reflexo do vidro da janela. Rômulo estava duas fileiras atrás, exatamente na diagonal. Eu sabia porque sentia. Como se tivesse um radar só pra ele.


“Concentra, Joana”, pensei, mordendo a ponta do lápis.


O skyped vibrou na palma da minha mão. Disfarcei, escondendo o quadrado luminoso atrás do caderno.


Era dele.


Rômulo: “Você tá linda hoje.”

Eu: “Você nem consegue me ver daqui direito.”

Rômulo: “Eu não preciso ver.”


Mordi o lábio, tentando não sorrir. Darwin percebeu, claro. Ela cutucou meu braço e arregalou os olhos, pedindo detalhes. Balancei a cabeça, negando, mas não adiantou: ela já sabia.


O professor percebeu meu silêncio e, como sempre, resolveu implicar.


— Joana, venha resolver a questão 12 no quadro.


“Ótimo.” Quase suspirei. Me levantei, tentando ignorar o riso de Darwin atrás de mim. Enquanto andava até a frente, o skyped vibrou de novo, escondido na manga do casaco.


Rômulo: “Queria estar no seu lugar. Assim, eu teria uma desculpa pra olhar pra você o tempo todo.”


Minha mão tremia tanto que errei até a primeira linha da equação.


O professor pigarreou. — Mais atenção, senhorita Joana.


— Sim, senhor — respondi, mas o sorriso já escapava do canto da boca.


Quando voltei pro meu lugar, Darwin cochichou:


— Se você desmaiar de paixão antes do intervalo, me avisa.


Eu ri baixinho, mas, por dentro, estava uma bagunça. Porque, no fundo, eu sabia: havia algo em Rômulo que não era só romance adolescente. Era algo maior, perigoso… e inevitavelmente atraente.


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O sinal do intervalo soou, e a sala virou um formigueiro de vozes, risos e passos apressados. Eu estava pronta para correr até minha árvore quando uma gritaria tomou conta do corredor.

— Apaga! — alguém gritou. — Tá pegando fogo!

O corredor inteiro se espremeu para ver. Um dos armários estava em chamas. Mas não era um fogo comum. As labaredas eram azuis, vibravam como se tivessem vida própria, faiscando partículas metálicas no ar. Quase… bonito demais.

— Deve ser algum dos “dotados” fazendo gracinha — murmurou Darwin, cruzando os braços. — Aposto uma barra de chocolate nisso.

Ela estava certa. Não era raro, em 2050, que adolescentes com dons perdessem o controle. Mas os professores e inspetores eram treinados para lidar com isso. A escola até tinha protocolos.

Ainda assim, algo me fez travar.

Rômulo.

Ele não estava assustado como os outros. Não recuou, não chamou ajuda. Estava parado, imóvel, olhando fixamente para o fogo. E os olhos dele… não eram castanhos. Nem lilás. Nem nada humano. Estavam exatamente da mesma cor das chamas.

Por um instante, juro que vi as labaredas responderem ao olhar dele, dançando ao mesmo ritmo da sua respiração.

Quando os inspetores chegaram com os extintores, o fogo simplesmente… desapareceu. Nada de fumaça, nada queimado. Como se nunca tivesse acontecido.

— Fogo fantasma — cochichou alguém atrás de mim. — Acontece com os instáveis.

Mas eu sabia que não era um “instável” qualquer.

O skyped vibrou na minha mão. Tremendo, abri a mensagem.

Rômulo: “Não tenha medo.”

Levantei os olhos. Ele me olhava do outro lado do corredor, sério, quase implorando.

Eu engoli em seco. Como não ter medo… se no fundo eu sabia que ele não era apenas “um dos dotados”?


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O corredor demorou a voltar ao normal.

As pessoas ainda falavam alto, exageravam versões, inventavam teorias como sempre acontece quando ninguém sabe de nada — mas eu só conseguia pensar em duas coisas:

o fogo azul…

e os olhos de Rômulo.

— Você viu aquilo, né? — murmurei, sem perceber que estava segurando o braço de Darwin forte demais.

— Vi — ela respondeu, séria por um segundo… o que em Darwin era algo grande. — E posso afirmar com toda certeza científica da minha intuição: isso não foi “só mais um dotado descontrolado”.

— Foi o que então?

Ela deu de ombros.

— Problema.

Engoli em seco. Eu sabia o suficiente sobre os dons para entender que “problema” não era só figura de linguagem. Desde as primeiras manifestações, lá por 2025, muita coisa tinha avançado… mas muita coisa ainda assustava.

As pessoas se acostumaram a viver com dons. Alguns eram simples: telepatia leve, manipulação sonora, força ampliada, percepção emocional. Outros, mais raros, eram… perigosos. Existem registros, fichas, protocolos, exames. As escolas têm treinamento, planos de contenção, salas especiais. Mas mesmo assim…

Às vezes, surgia algo novo.

Algo que não estava nos arquivos.

Algo que os cientistas diziam que “não deveria existir”.

— Você acha que foi… espontâneo? — perguntei, sentindo minha voz diminuir. — Tipo aqueles casos de manifestação atrasada?

— Se foi, tadinho de quem estava perto — Darwin comentou, mas estava tensa. — Jo, aquele fogo não queimou nada. Ele escolheu não queimar. Você percebeu?

Eu percebi.

E percebi outra coisa.

Ele olhou para mim antes de tudo sumir.

Como se estivesse pedindo ajuda.

Ou… tentando esconder alguma coisa.

Um frio percorreu minha espinha.

— Joana — Darwin sussurrou, aproximando-se — aquele garoto tem alguma coisa grande. Não é dom comum de fogo. Nem de controle térmico. Aquilo ali parecia…

Ela hesitou.

— Vivo.

Antes que eu pudesse responder, o skyped vibrou novamente.

Rômulo: “A gente precisa conversar. Não sobre a gente. Sobre… isso.”

Meu coração acelerou.

Não era drama adolescente.

Não era só romance.

Eu tinha acabado de tropeçar num segredo que não pertencia só a ele…

mas talvez a algo muito maior do que qualquer um de nós entendia.

E, pela primeira vez, eu tive certeza:

Esse fogo não começou naquela escola.

Ele começou anos atrás.

E agora… estava chegando até mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.