O carro continuou avançando pela trilha de terra, e a floresta ficou mais densa a cada metro. A luz diminuía, mas o carro parecia compensar com faróis que ajustavam automaticamente a intensidade — o que seria útil se o medo de sermos assassinados por um garoto bonito e calado não estivesse pairando no ar.

— Você tá mesmo nos levando pra ver uma coisa secreta? — perguntou Darwin, desconfiada. — Porque tá parecendo mais “cena de abertura de documentário true crime”.

— Relaxa — disse Rômulo, com a voz mais calma do que deveria ser permitido. — Se eu quisesse matar vocês, teria feito no estacionamento da escola. É mais limpo e tem câmera.

— Reconfortante — murmurou Brad. — E ainda com consciência ambiental.

O carro parou num espaço aberto entre as árvores, com uma estrutura metálica meio escondida por trepadeiras e moitas estrategicamente desorganizadas.

— Isso... é um galpão? — perguntei.

— É um laboratório — corrigiu Rômulo, desligando o carro. — Abandonado. Oficialmente.

Ele saltou do carro com a leveza de quem não percebe o quão estranho é dizer “laboratório abandonado” e esperar que adolescentes o sigam com confiança.

— Eu não vou entrar aí sem saber se tem Wi-Fi — decretou Brad, cruzando os braços. — Eu tenho limites.

Donna já estava na frente da porta, segurando o trinco enferrujado com as duas mãos. Ela olhou pra trás e disse:

— Tem cheiro de tinta, metal... e formigas.

— Ok, isso é perturbador — disse Darwin, descendo do carro com cuidado. — Como assim formigas?

— Não as normais. As organizadas.

— Que ótimo — suspirei. — Uma criança sensível e um galpão que parece o cenário do Apocalipse Científico Parte 2. Isso vai dar super certo.

Rômulo empurrou a porta, que se abriu com um rangido cinematográfico. Por dentro, tudo parecia... estéril. Limpo demais pra algo abandonado. Luzes de emergência de tom azul-claro pulsavam em intervalos regulares no teto.

— Isso tá mais pra laboratório secreto de vilão da Marvel do que pra "abandonado" — comentei, olhando ao redor.

As paredes estavam cobertas de painéis digitais ainda funcionando em modo de espera. Uma bancada com tubos de ensaio fluorescentes e pastas lacradas ocupava o centro da sala.

— Meu pai disse que isso aqui era uma instalação da VIREX — explicou Rômulo. — Empresa de biotecnologia. Oficialmente falida desde 2021.

— Ah, sim — disse Brad. — Aquelas que "falem" mas continuam recebendo verba do governo pra fazer coisas tipo… sei lá, clones telepatas que controlam drones com o pensamento?

Rômulo não riu.

— Mais ou menos isso.

A gente ficou quieto por um segundo a mais do que o saudável.

— Tá, então — disse Darwin, rompendo o silêncio —, o que exatamente a gente tá procurando aqui? Ou você trouxe a gente só pra dar um susto estiloso?

Rômulo se aproximou de uma tela e passou a mão sobre ela. A tela acendeu, revelando imagens de mapas, assinaturas térmicas... e vídeos. Um deles mostrava uma menina levitando.

— Isso foi filmado na escola — disse ele. — Ontem. No pátio.

Ficamos todos em silêncio de novo. A menina no vídeo era pequena, ruiva, e parecia flutuar como se a gravidade tivesse esquecido de fazer seu trabalho. Ao fundo, a diretora gritava algo inaudível.

— Espera aí… — comecei. — Isso não é a Tereza da segunda série?

— A mesma — confirmou Rômulo. — E ela não é a única.

Ele passou para o próximo vídeo. Um menino empurrava a parede do refeitório com tanta força que ela cedia como papel. Outro mostrava um grupo de crianças olhando fixamente para uma árvore — que, segundos depois, pegava fogo espontaneamente.

— Isso começou em 2025 — disse ele. — Logo depois do Eclipse Triplo.

— Isso não é um nome de música da Lady Gaga? — murmurou Brad.

— Foi um evento astronômico. Eclipse solar, lunar e de Júpiter ao mesmo tempo. Ninguém deu muita importância. Até... isso começar a acontecer. Os dons. As manifestações.

— Mas por que só agora tá vindo à tona? — perguntei.

— Porque no começo parecia só uma onda de TDAH com glitter — respondeu Rômulo. — Até que começaram a sair faíscas literais das mãos das crianças.

— E você? — perguntou Donna, sem se mover do canto dela. — Você também tem um dom?

Rômulo olhou pra ela, sério.

— Tenho.

— Qual? — perguntou Darwin.

Ele hesitou por um momento, e quando falou, foi sem tom de piada:

— Eu lembro de tudo. Cada coisa que já vi, ouvi, li ou senti. Desde o dia que nasci.

Brad soltou um assobio, impressionado.

— Uau. Parece útil. E horrível.

— É — concordou Rômulo. — Eu me lembro de coisas que preferia esquecer.

A sala ficou em silêncio outra vez. Mas não do tipo tenso — era aquele silêncio estranho, onde todo mundo entende que tem mais naquela história do que ele está contando.

— Tá. E o que a gente faz com isso tudo? — perguntei. — Porque, tipo… parece que viramos figurantes de uma série sci-fi que passou do piloto.

Rômulo sorriu, pela primeira vez de verdade.

— A gente começa a investigar. E a sobreviver. De preferência, com estilo.

— Então é tipo Scooby-Doo com poderes — resumiu Brad.

— Isso ou X-Men versão ensino fundamental — completou Darwin.

Donna levantou a mão devagar.

— Tem mais formigas vindo.

— Maravilha — murmurei. — Nada diz "missão secreta" como formigas psíquicas numa instalação esquecida do governo.

Rômulo apertou um botão no painel. As luzes da sala mudaram de azul para vermelho.

— Hora de ir.

— Pra onde agora? — perguntou Brad, já correndo pra porta.

— Pro início de tudo — disse Rômulo, olhando pra mim.

— Que é?

— O porão da escola.


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A gente voltou pro carro com aquele tipo de silêncio que só acontece quando todo mundo viu algo que não sabe classificar: fenômeno paranormal? Experimento militar? Início do apocalipse? Ou só mais um dia típico na vida de adolescentes traumatizados?

No caminho de volta, Brad olhou pela janela e disse, casual:

— Se eu morrer hoje, quero que escrevam "morreu com estilo, mas contra a vontade" na minha lápide.

— Você nem vai morrer — respondi. — Só vai descobrir que a escola guarda segredos sombrios no porão. O que pode dar errado?

— Tudo — disse Donna, com a tranquilidade de quem prevê desgraças como hobby.


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A escola à noite era outro mundo. Aquela arquitetura que de dia parecia só ultrapassada agora parecia conspiratória. Tipo: "Alguém já foi enterrado aqui, certeza." As luzes dos postes oscilavam. As sombras nas janelas pareciam... móveis demais.

— Quem tem a chave do porão? — perguntou Darwin.

Rômulo ergueu um molho de chaves prateadas e disse:

— Achei numa gaveta trancada da sala da diretora. Tava junto com um bilhete que dizia “só em caso de emergência sobrenatural”.

Silêncio.

— Tá brincando? — perguntei.

— Tô. Mas que tava escondida, tava.

A gente entrou pela lateral da escola, onde ficava o acesso de funcionários — ou, como Donna chamou, "o caminho dos horrores". Descemos por uma escada mal iluminada, até uma porta de ferro com placa escrita à mão: “Proibido. Mesmo. Sério.”

— A placa é bem convincente — disse Brad. — Vamos ignorar?

— Óbvio — respondeu Rômulo, já enfiando a chave.

A porta rangeu como se estivesse implorando pra ser deixada em paz. O porão era mais espaçoso do que qualquer um imaginaria. Estantes velhas, caixas empilhadas, aparelhos de TV com tubo e... cabos. Muitos cabos. Indo pra um painel enorme no fundo, que piscava em verde e laranja.

— Isso não devia estar aqui — disse Darwin.

— Bem-vindos ao cérebro escondido da escola — disse Rômulo. — Foi aqui que instalaram o “Sistema de Monitoramento Comportamental Integrado”.

— Que é basicamente um nome bonito pra “Big Brother com Wi-Fi ruim” — traduzi Brad.

Nos aproximamos do painel. Tela antiga, com arquivos datados de 2024. Havia pastas chamadas “Anomalias Confirmadas”, “Avaliação Genética”, “Mapa Neurológico”, e uma última chamada: “Projeto Cíclico”.

— Cíclico? — repeti. — Cíclico tipo... ciclos naturais?

Rômulo clicou.

A pasta abriu uma sequência de relatórios. Um deles mostrava gráficos cerebrais de crianças. Outro, desenhos de padrões no céu. E o último... uma linha do tempo. Começando em 2025. Marcando datas, nomes de alunos... e ativação de habilidades.

— Eles estavam monitorando os alunos desde antes de qualquer coisa começar — disse Darwin, boquiaberta. — Como sabiam?

— Eles não sabiam. Apostaram — disse Rômulo. — A VIREX testou um “catalisador ambiental” no bairro inteiro em 2021. A gente era o grupo de controle.

— Catalisador... tipo veneno? — perguntei.

— Tipo suplemento vitamínico interdimensional. Algo que “prepara o corpo pra evolução cognitiva espontânea” — explicou Rômulo, sarcástico. — Ou seja: testaram em gente real. Em crianças. A gente.

— Você sabia disso tudo? — perguntei, num tom que tava entre espanto e indignação.

— Algumas partes. Tô montando o quebra-cabeça ainda.

Donna se ajoelhou diante de uma das caixas no canto da sala. Pegou um caderno encapado com couro desgastado e sem nome.

— Tem cheiro de tempo — disse. — E café velho.

Ela abriu o caderno. Era um diário. As páginas tinham letra cursiva perfeita e desesperada.

"Hoje, a Tereza flutuou de novo. Não dormi. O diretor sugeriu usar medicamentos. Mas o que é uma criança que flutua, senão um aviso? Algo tá voltando. Algo antigo. Algo que os arquivos do Projeto Cíclico não explicam. Eu tive um sonho. O tempo se dobra. Alguém vai lembrar de tudo. Alguém vai esquecer o que não deve."

Silêncio de novo.

— Quem escreveu isso? — perguntei.

— Não diz. Mas parece ser de um professor — disse Rômulo, virando as páginas. — Ou talvez... da fundadora da escola. Olha isso.

Na contracapa, uma foto colada com fita adesiva antiga. Uma mulher de jaleco sorria, segurando uma prancheta. Ao lado dela... Rômulo. Só que uns quinze anos mais velho.

— Isso é você? — perguntei, assustada.

— Eu acho que sim. Mas não sou eu ainda.

— Isso é bizarro até pra gente — disse Brad. — E olha que a gente acabou de descobrir um sistema de espionagem escolar subterrâneo.

De repente, a tela piscou. Uma nova mensagem apareceu:

"Ciclo Iniciado. 4 Anomalias Ativas. 6 em Latência. Protocolo Sigma acionado."

— O que é o Protocolo Sigma? — perguntou Darwin.

Rômulo pareceu realmente surpreso.

— Eu não sei. Isso é novo.

As luzes do painel começaram a piscar num padrão estranho. E, ao fundo, no fim do corredor de concreto... um som de passos. Arrastados. Pesados.

— Ah, ótimo — disse Brad, recuando. — O monstro veio verificar a frequência escolar.

— Todo mundo pra trás — disse Rômulo. — Se correr, corre em silêncio.

— A gente vai correr?! — perguntei.

— O plano era investigar — disse ele, puxando uma lanterna. — Mas às vezes o plano muda.

E foi assim que descobrimos que o porão da escola não era só uma base secreta. Era um ponto de acesso.

Pra quê, a gente ainda não sabia.

Mas os passos estavam se aproximando.

E eles não vinham sozinhos.


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Claro, vamos abrir a porta do terror com humor, ciência mal explicada e uma pitada de desespero adolescente. Segura aí, que o que tá chegando no porão não é professor em plantão noturno, não.


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Os passos ecoavam cada vez mais perto.

Toc. Toc. Shhhk. Toc.

Definitivamente não era alguém com pressa. Era alguém — ou alguma coisa — que sabia que a gente não tinha pra onde correr. Devagar o suficiente pra dar tempo da nossa imaginação pirar. E claro que pirou.

Rômulo desligou o painel, num estalo. O porão mergulhou num breu úmido e tenso.

— Fiquem atrás das estantes — sussurrou.

— Se for um fantasma, a estante não vai impedir — sussurrou Darwin.

— E se for um zumbi? — perguntou Brad, agachado. — Tem cheiro de zumbi. Ou de queijo vencido.

— O que exatamente te dá parâmetro pra diferenciar esses cheiros? — sussurrei de volta.

Toc. Toc. Shhhk.

A porta rangeu.

Alguém — ou algo — entrou.

Dava pra ouvir respiração. Funda. Molhada. Como se respirasse pela garganta e não pelo nariz. Ou nem respirasse do jeito certo. E aí...

CLIC.

A coisa acendeu a luz.

Era humano. Mais ou menos. Vestia o uniforme de segurança da escola, mas sua pele... não era exatamente pele. Era um tipo de membrana translúcida com pontos luminosos sob a superfície. Tipo um vaga-lume se misturando com um polvo transparente — só que numa sexta-feira muito errada.

Seus olhos eram... inexistentes. Onde deviam estar, havia sensores girando. Como câmeras antigas tentando focar.

— Isso é... — comecei.

— Um agente do Protocolo Sigma — sussurrou Rômulo. — Eles são parte do sistema. Meio gente, meio máquina, meio... glitch biológico.

— Isso dá um e meio. — Brad.

— Exatamente. E é isso que assusta.

O bicho andou até o painel. Passou os dedos membranosos nas teclas, como se estivesse sentindo resquícios digitais. Ele estava procurando a gente.

Mas aí, algo estranho aconteceu.

O bicho parou.

Virou a cabeça direto na direção onde eu estava escondida.

E falou. Não com voz. Com um som que apareceu na minha cabeça, como se alguém tivesse plugado o Google Tradutor direto no meu lobo frontal:

"Observadora 03 identificada. Atividade neural em expansão. Ordem: neutralizar."

— Neutralizar?! — sussurrei em pânico. — EU NÃO ASSINEI ISSO.

Brad me puxou antes que eu saísse correndo.

O chão tremeu. O bicho avançou. Mas antes de ele chegar na gente...

BUM.

O painel explodiu. Literalmente. Faíscas, fumaça, cheiro de plástico derretido e ego ferido.

E no meio disso tudo: Donna.

Ela tinha conectado um fio de força direto da bateria do equipamento num tubo que não devia estar sendo tocado por adolescentes sem EPI.

— Eu li sobre isso no fórum de nerds paranormais — disse ela. — “Se tiver um ser sintético do governo, sobrecarregue o sistema. Eles odeiam isso.”

O bicho gritou. Ou tentou. Foi mais um som de modem morrendo de susto. E colapsou. Os sensores apagaram. A membrana perdeu a luz.

Mas o susto não tinha acabado.

Do corpo do bicho saiu um pequeno drone. Rápido. Pequeno. Tipo um carrapato de metal com asas.

Voou pelo porão e subiu pela escada.

— Isso foi uma câmera de emergência — disse Rômulo. — Eles sabem que estivemos aqui. O que era segredo virou missão.

— E agora? — perguntei, meio sem ar, meio com crise existencial.

— Agora a gente corre.

E a gente correu.


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Saímos da escola ainda vivos, mas oficialmente caçados por um projeto secreto do governo, ou da VIREX, ou de alguma sociedade paralela que claramente não faz reuniões com coffee break.

Mas no fundo, algo estranho pulsava em mim.

Aquela frase... “atividade neural em expansão”.

Eu sentia algo crescendo na minha cabeça. Como se o susto tivesse ativado alguma coisa.

Como se o ciclo tivesse começado dentro de mim.

Ou como se eu já soubesse demais — e fosse tarde pra voltar atrás.