Emma esfregou os o olhos com a mão e entreabriu-os lentamente: esquecera-se de fechar a janela na noite anterior e agora o sol magoava-lhe a visão. Olhou para o relógio e viu que, se não se levantasse de imediato, não chegaria a tempo ao colégio. Com este pensamento, afastou os lençóis, calçou os chinelos e desceu as escadas.

Na cozinha, a mãe — Elizabeth Green — bebia o seu café e observava, com uma expressão tanto divertida quanto irritada, a sujeira que Jamie fizera ao colocar os cereais na tigela. Emma acariciou os cabelos ruivos do irmão mais novo e sorriu ligeiramente para a mãe.

– Bom dia, Emma. Há sumo de laranja no frigorífico. Apressa-te. — e, dizendo isto, apontou para o relógio na parede.
– Sim, mãe. — respondeu a rapariga, secamente, retirando do frigorífico o que precisava.

Ao sentar-se na mesa, notou que o irmão a olhava com curiosidade. Após beber um trago de sumo, sorriu-lhe amigavelmente e perguntou:

– Que é, Jamie? Queres perguntar-me alguma coisa?

O pequenino corou e voltou o olhar para os cereais, murmurando receosamente:

– É que... vais mudar de escola, não é? — Emma acenou afirmativamente e este continuou, apoiando o cotovelo gordinho na mesa. — Porquê? Zangaste-te com o Thomas?

Emma, ao escutar o nome do ex-namorado, mordeu violentamente o lábio. Terminaram por decisão sua, mas haviam sido as atitudes de Thomas a forçá-la a tomar essa decisão. Namoraram por três anos e Emma conhecia bem o carácter possessivo e ciumento do rapaz. No entanto, recentemente, os seus ciúmes tornaram-se insuportáveis, chegando a causar brigas violentas entre o casal, brigas essas que, algumas vezes, haviam levado Thomas a bofeteá-la. E isso Emma não era capaz de tolerar, por muito que o amasse.
– É... Eu e o Thomas... já não somos namorados. — tentou sorrir-lhe e terminou o seu pequeno-almoço apressadamente, evitando que o irmão tivesse tempo de lhe colocar mais alguma questão.

Preparada para sair, ouviu a voz da mãe a chamá-la do escritório:

– Emma! Vem cá! — a mãe estava sentada à secretária com um volumoso livro nas mãos e olhava a filha com ternura. Hesitou uns momentos antes de falar, como se necessitasse de escolher as palavras certas para começar. — Querida... por favor, tem cuidado. Se ele te procurar ou tentar entrar em contacto contigo...

– Sim mãe, eu telefono, grito por ajuda... — interrompeu Emma, num tom azedo.

– Muito bem. — o rosto de Elizabeth contraíra-se de preocupação. Embora ela nunca o admitisse em voz alta, Emma sempre fora a sua filha predilecta e aquela para quem, quase sempre, canalizava toda a sua atenção. O que se sucedera com Thomas havia-na deixado num estado de ansiedade tal que, actualmente, Elizabeth recorria a antidepressivos com mais regularidade do que aquela que gostaria. — Tem um bom dia, meu amor.
Emma depositou-lhe um beijo rápido na face e saiu.

A Primavera principiava a lançar as suas sementes, e a visão de um parque de flores coloridas frente ao seu novo colégio outorgou coragem e restituiu a boa disposição a Emma.

Tentando manter o sorriso que as flores lhe haviam provocado, pareceu a quem a via uma rapariga feliz, despreocupada e de bem com a vida.

Que assim pensassem, então. Era preferível isso aos olhares e sorrisos de pena que vira aos antigos colegas quando tomaram conhecimento da razão pela qual ela pedira transferência.

Melhor ainda, pensou ela, de qualquer maneira, eram uns idiotas.

Sentindo uma mão pousar-lhe no ombro, Emma deu um pulo de sobressalto. Atrás de si, uma rapariga de baixa estatura mas em excelente forma sorria-lhe numa boca de lábios finos e dentes pequeninos. Era realmente bonita: detinha caracóis negros, o que contrastava com os seus olhos verdes-claros de gata. O que realmente a distinguia da demais, porém, era a maquilhagem exagerada que utilizava e o piercing na sobrancelha direita. Olhando ainda mais minuciosamente, Emma reparou que ela tinha tatuado uma inscrição em árabe em ambos os pulsos. Quis questionar-lhe o significado; contudo, não julgou correto intrometer-se numa primeira impressão.

– Olá! — disse ela, após ter também procedido a uma análise atenta de Emma. — Chamo-me Kayla. E tu, novata? Qual é o teu nome?

– Emma Green. — de súbito, o toque estridente da campainha soou sob as suas cabeças e Kayla empurrou-a suavemente para o interior do edifício. — Há quanto tempo estudas aqui?

– É o meu segundo ano. O que eu realmente queria era estudar Artes, mas os meus pais.... Bom, tu sabes como são os pais. — meneou ligeiramente a cabeça e Emma sorriu em concordância. — Matricularam-me aqui e aqui estou eu, a estudar Economia. — bufou de aborrecimento e olhou depois para Emma, com um curto sorriso. — E tu? Porque vieste para cá?

– Apeteceu-me mudar de ares... — baixou o olhar e fingiu consultar algo no seu horário. — Quantas turmas de Economia existem aqui?

–Duas. — Kayla olhou-lhe por cima do ombro de forma a conseguir espreitar-lhe o horário. — Oh, fantástico! Somos da mesma turma. Vem, por aqui.

Emma deixou-se conduzir pelos corredores atolados de gente e preenchidos de barulho, tentando em vão memorizar todos os rostos e nomes das pessoas que Kayla lhe ia apresentando. Chegaram, enfim, a uma sala de paredes amarelas cheias com folhetos informativos. A rapariga apontou-lhe uma carteira vazia e sentou-se um pouco mais à frente, segundos antes da voz grossa e autoritária do professor interromper o barulho e a miscelânea de conversas que se elevavam na sala de aula.

– Bom dia, turma. O meu nome é Samuel Davies e serei vosso professor de Economia. — um aluno contou em voz alta uma qualquer piada acerca de um economista que gemia números durante o sexo, à qual o professor, nada incomodado, respondeu. — Certo Jake, agradeço a tua participação. Recordarei-me disso quando me encontrar com a tua mãe mais tarde.

Toda a turma riu e Jake, corado de embaraço, deslizou para baixo na cadeira. Emma não conseguiu evitar rir também, aliviada pela boa disposição do professor.

Finda a aula, enquanto arrumava o material na mochila, ouviu Kayla conversar com um pequeno grupo de rapazes e, antes de conseguir passar a porta, esta chamou-a.

– Ei, vem cá! Quero apresentar-te o Francis, o Henry e o Edward. — pelo brilho nos olhos dela, percebeu que um desses rapazes tinha, sem dúvida, o seu coração. — Pessoal, esta é a Emma.

Terminadas as apresentações, o grupo abandonou a sala de aula e sentou-se no jardim do recreio.

Francis, notoriamente encantado por Emma, aproximou-se dela com o intuito de iniciar uma conversa.

– És nova aqui, certo? Porque mudaste? Não gostavas da tua antiga escola?

– É... mais ou menos isso. — Emma queria a todo o custo evitar revelar os verdadeiros motivos da sua transferência, pelo que tentou desesperadamente desviar o rumo da conversa. — Então Francis, não é? Porque estás a estudar Economia?

Ele reparou na repentina mudança de assunto, mas nada disse a propósito. Suspirou alto e encostou-se para trás, apoiando os cotovelos na relva húmida de Abril.

– Fui meio que forçado a isso... O meu maior desejo era estudar Literatura. Mas, ao que parece, os meus pais tinham outros planos para mim. — olhou-a tristemente e concluiu, com um ligeiro encolher de ombros. — C'est la vie.

Após mais uns minutos de conversa, Emma sentiu-se realmente impressionada com Francis e simultaneamente contente por ter feito amizades logo no primeiro dia.

No regresso a casa, Kayla fez questão de a acompanhar. Conversaram animadamente sobre variados assuntos até que, ao dobrar a esquina que conduziria à casa de Emma, a outra estacou subitamente e disse, alegremente.

– Ouve, hoje à noite vai haver uma festa no colégio. Sabes, aquilo de festejar o início do ano lectivo. — fez uma careta divertida e continuou. — De qualquer maneira, seria bom para ti se viesses. Conhecerias mais gente e conseguirias ambientar-te melhor a como as coisas funcionam aqui.

Emma hesitou uns momentos antes de dar uma resposta. Realmente seria ótimo se fosse, pois teria oportunidade de estabelecer contactos e, melhor, passar mais tempo com Francis, que era algo pelo qual ela ansiava bastante. No entanto, duvidava que a mãe a autorizasse. Desde a sua relação conturbada com Thomas, ela havia-se tornado superprotetora, e o facto de esta sair com desconhecidos para uma festa noturna não a aprazeria de todo, visto que Elizabeth Green nunca fora apologista desse género de divertimentos.

– Está bem. Tentarei ir.

Kayla despediu-se com um enorme sorriso, saindo depois em corrida:

– Estarei aqui pelas 22h. Até logo, novata!

Quando Kayla desapareceu no fundo da rua, Emma entrou em casa e pousou a mochila no chão. Tinha começado bem; melhor do que aquilo que esperava. Espreitou em todos os compartimentos: estava sozinha. Provavelmente a mãe teria ido buscar Jamie à escola.

Pegando numa maçã e levando-a à boca, subiu as escadas para o seu quarto.

Lembrou-se então que se realmente queria causar uma boa impressão na festa, devia ir vestida apropriadamente. E penteada também...

Com isto em mente, colocou-se frente ao espelho e agarrou a escova, penteando os longos cabelos avermelhados. Distraidamente, desviou o olhar para a janela e o que viu fê-la largar a escova e a maçã que comia e levar ambas as mãos à boca, abafando um grito.

Do outro lado da rua, encostado a uma árvore, Thomas observava-a.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.