Miranda Lancaster avançava graciosamente pela rua, depois de descer do ônibus, tentando não deixar que um palavrão escapulisse por seus lábios ao lembrar que seu carro ainda estava consertando. O vento frio agitava seu casaco e a fazia estremecer, embora estivesse devidamente agasalhada para o clima que fazia em Ravendale. Não andava depressa, mesmo que estivesse atrasada para o enterro de sua tia; ela era a irmã de seu pai, e Miranda não queria encara-lo ou a ninguém que estivesse no cemitério. Só iria até lá para depositar as flores em seu túmulo.

Como imaginava, ao adentrar o bonito e melancólico cemitério, avistou um pequeno aglomerado de pessoas de sua família paterna — com a qual nunca fizera questão de ter muito contato. Conseguiu ver seu pai, que à vista de todos tentava parecer um homem exemplar e ao seu lado estava a mulher que arranjara alguns meses após o divórcio com sua mãe. Seu meio-irmão Matthew estava ali, parecendo contrariado; sabia que ele não gostava de enterros. Havia um padre rezando — sua tia fora católica — e um aparente noviço o auxiliando.

Sentou em um túmulo afastado — com certeza seu dono não iria se importar—, permanecendo escondida dos olhares das pessoas e aguardou a cerimonia se encerrar. Não demorou muito, logo o caixão havia sido descido e o buraco coberto de terra. As pessoas foram embora. Seu pai permaneceu alguns momentos, trocou algumas palavras com o padre e o noviço, e então se retirou. Miranda permaneceu alguns minutos abaixada, aguardando, e quando era a única no lugar, se levantou. Caminhou com calma até o túmulo e encarou a lápide cinza.

— Olá, tia Caroline. — falou para o nada — Sinto muito não ter presenciado a cerimônia, mas você sabe quais os problemas que tenho com meu pai. Ainda não estou pronta para confrontá-lo. Sei que me entende, você também tinha problemas com seu pai. — colocou as rosas sobre o túmulo — Trouxe suas flores favoritas, rosas vermelhas.

E ficou ali, por mais alguns instantes, perdida em pensamentos e sentindo o vento bagunçar seus cabelos. Ainda não conseguia compreender como Caroline — uma nadadora e mergulhadora tão experiente — teria morrido afogada. Claro, era possível, mas ainda assim improvável. Sentiu um leve arrependimento por não ter se aproximado antes e olhado para o rosto pálido e sereno da tia uma última vez, mas balançou a cabeça clareando os pensamentos.

Se fosse sincera consigo mesma, admitiria que ainda estava tensa desde que presenciara o suicídio da mulher misteriosa quase uma semana atrás. Tinha pesadelos e muitas vezes não conseguia pegar no sono, o que quase a atrapalhava no trabalho, mas andava se recusando a voltar a tomar os calmantes prescritos desde que tinha quinze anos. Não queria pensar que estava sendo drogada por médicos.

Lançou o olhar para o lado direito, despretensiosamente, mas quase gritou ao notar um homem ao lado da grande faia que se encontrava ali, com suas folhas amareladas voando ao forte vento. Era um homem de sobretudo preto, cabelos pretos e olhos pretos. Suas botas eram perfeitamente limpas e sua pele tão pálida quanto a dela. Ele sorriu, exibindo dentes brancos e se virou, andando para longe. Miranda não perdeu tempo, o seguiu, correndo em seu encalço, quase tropeçando nos próprios pés, mas quando olhou atrás da árvore ele havia desaparecido.

Desaparecido no ar.

O que estava acontecendo? O que aquele homem sinistro estava fazendo ali, no enterro de sua tia Caroline? A última vez que o vira fora na noite em que a mulher se jogara da sacada e manchara a rua de sangue. Seria uma vingança, uma forma de assusta-la, por ela não ter informado onde ficava a rua 32? Possível, mas improvável. Por que um homem iria querer se vingar de uma meninota de 24 anos de aparência amedrontada?

Sentiu que sufocava e tentou respirar fundo, descendo as mãos para os joelhos. Crises de ansiedade se tornavam cada vez mais frequentes em sua vida. Mãos em seus ombros a ergueram para encontrar olhos esverdeados e preocupados.

— A senhorita está bem? — o homem perguntou, com voz calma — Tente respirar de forma bem devagar, não force os pulmões. — ela obedeceu — Isso. Inspire. Expire. Muito bom.

— Você é um padre? Oh, você é um padre! — Miranda murmurou, ao notar as vestes dele.

— Eu não sou um padre... — o homem tentou dizer.

— Eu não sou católica. — ela disse, sem pensar, entre respirações — Mas dizem que vocês padres são bons de ouvir e dar conselhos, ultimamente minha vida tem estado um caos e eu vi coisas que não deveria ter visto e...

— Acalme-se, acalme-se. — ele pediu, ao ver que ela voltava a ficar ofegante — Venha, vamos nos sentar. Com calma. — ele a guiou para a raiz da árvore, a colocando ali. Sentou ao seu lado — Continue respirando, quando estiver melhor iremos conversar. Respire.

Ah, ela agora — com a visão menos turva — o reconhecia. Apesar das vestes, ele era o mesmo cara que estivera com o padre que realizara a cerimônia do enterro. Supôs que fosse um noviço, já que era jovem. Era bonito.

— Qual o seu nome? — ele perguntou, gentilmente.

— Miranda. — respondeu — Miranda Lancaster. — ela não usava mais o sobrenome do pai ao se apresentar. Esse era o de sua mãe.

— Eu me chamo Aidan O'Malley. — sorriu — Está mais calma?

— Sim. — e era verdade.

— Ótimo, então vamos conversar. — seu olhar esbanjava serenidade — Tentarei ajuda-la.