Estrela decadente
8 Capítulo 8
Eu estava na biblioteca, sentada no chão. Tinha feito amizade com a bibliotecária, acho. Ela me via muito ali. Nos cumprimentamos, tive a impressão de que ela esperava que eu dissesse algo, mas apenas fui aonde sempre vou.
Quando me sentei no chão, quis ficar ali para sempre. Não sei exatamente dizer porquê, mas era um bom lugar para se estar, apenas com os livros em volta de mim e o piso gelado.
Além do mais, sabia que Aristóteles ou a turminha dele nunca iriam para ali. Não era o tipo de lugar que eles habitariam sem obrigação.
Chequei meus e-mails.
Nada.
O fim de semana veio e se foi. No fim, Sara não cumpriu com sua promessa.
Eu sabia que havia a remota ideia de ser proposital a falta de comunicação por parte dela, porque se ela apenas quisesse parar de falar comigo, não precisaria tentar dar explicações, apenas pararia. Mas de qualquer maneira era doloroso de ver a caixa de entrada vazia.
Eu precisava das palavras dela. Me mantinha firme quando lia as letras e a imaginava escrevendo em seu computador, mas o que eu faria sem aqueles bons momentos que Sara me proporcionava?
Quando vi que alguém se sentou ao meu lado, quase gritei, mas apenas encarei assustada a pessoa.
Era Rafael.
Aparentemente, a biblioteca não estava funcionando mais como um escudo, uma forma de evitar certas pessoas.
— Oi.
Não respondi.
— Iris.
Silêncio.
— Você pode falar comigo? Você está bem? Eu perguntei se eles te machucaram, mas não sei se confio na resposta deles. Eu estou preocupado, sabe.
— Não se preocupe comigo.
Eu não seria nada flexível com ele.
De maneira alguma mostraria ser fraca perto dele.
Não interessa se, no fim, foi Rafael que parou com aquilo. Ele está no grupo. Ele faz parte, querendo ou não.
— Eles te machucaram? Sei que passaram dos limites. Você sabe muito bem. Até Ari sabe. Fiz prometerem nunca mais fazerem algo do tipo.
Não é como se você pudesse controlá-los.
Nós ficamos um breve momento em silêncio. Rafael esperando por uma resposta e eu apenas ali, cada vez me sentindo mais defeituosa.
— Por que é amigo deles? — perguntei.
Ele claramente não esperava por aquilo.
— Eu vejo vocês. Eu observo. — falei. — Você é melhor que eles. Eles não passam de babacas. Eles estão te intoxicando.
Rafael desviou o olhar para longe dali. Ele estava pensando, percebi. Algo passava pela sua mente.
— Você contou para alguém? Alguém está sabendo?
Então me dei conta. Rafael estava apenas averiguando se seus amiguinhos seriam punidos por algo que diziam ser apenas uma brincadeirinha em suas mentes.
— O que vão fazer se eu contar? — quando isso saiu da minha boca, me arrependi na hora. — Vão me estuprar? Me matar?
— Não é nada disso... Iris!
Levantei-me.
— Eu me enganei. Você é igual a eles.
Rafael me encarou.
— Você é cumplice. Fez aquilo comigo também. Sabe do que estou falando.
E então saí.
Não consegui assimilar nada das últimas aulas que tive. Tudo pareceu passar tão rápido e ao mesmo tempo tão lendo, como um sonho distante e cruel.
Chegava a ser ridículo que me perguntasse se o que fizeram comigo tinha me machucado.
Aquilo estava me comendo por dentro.
Quis dizer para Rafael que eu tinha contado sim, e que eles pagariam pelo que fizeram, mas então seria mentira e mais cedo ou mais arde descobririam.
O que eu supostamente deveria fazer?
Na maior parte do tempo sequer consigo admitir para mim mesmo o que ocorreu naquela sala. É tão repugnante e ao mesmo tempo parece tão surreal.
Como um acidente de carro. Você nunca acha que vai acontecer com você até que aconteça. E então não há como impedir.
Mas eu não poderia impedir, não é? Nesse tipo de coisa não há um cinto de segurança para me proteger. Minhas ações ou comportamento não teriam interferido naquilo, mas não consigo tirar essa sensação de culpa de dentro de mim.
E se, afinal, eu tivesse mesmo como impedir e apenas fico dizendo mentiras para mim mesma?
Fiquei pensando muito sobre aquilo. Ouvi músicas e eles não tinham mais o mesmo significado. Pareciam sussurrar segredos para mim. Segredos incompreensíveis. Segredos sujos.
Pensei em coisas que nunca havia pensado antes. Era assustador.
Em algum momento, jurei que alguém disse meu nome, mas então olhei para trás e não havia ninguém.
No jantar, as coisa pareciam ainda mais complicadas. Eu nunca estive tão desconfortável perto daquelas pessoas.
Elas nunca pareceram tão distantes para mim.
— O que há de errado com você, Iris? — minha mãe perguntou.
— É mais fácil pedir o que não há. — comentou Renato.
Então, levantei da mesa.
— Esquisita. — ouvi-o dizer.
Não fiquei brava. Na verdade, apenas usei como desculpa para sair dali.
Ultimamente parecia que o próprio ar me sufocava, me prendia.
Tomei meu quinto banho enquanto pensava sobre Renato e Raquel, como as coisas pareciam ser tão diferentes para eles.
Meus meio-irmãos definitivamente possuíam uma visão do mundo completamente diferente de mim, e isso certamente era influência de criação.
Por exemplo, nenhum deles se sentiria acuado em contar algo para seus pais.
Nenhum deles ficaria em dúvida sobre como é a pessoa que você herdou características físicas.
Coloquei o chuveiro na temperatura mais alta possível e senti as gotas de água quente se chocarem contra meu corpo.
Como seria se aquela água virasse ácido? Será que, finalmente, toda a sujeira seria tirada de mim?
No fim, meu corpo voltaria a ser limpo como um dia foi? Ou eu descobriria que sempre fui suja daquela maneira?
Eu sabia que tomar vários banhos seguidos não ajudariam em nada, mas o que poderia fazer?
Que outros métodos deveria tentar?
Outros métodos. Sim.
Lembrei de Miguel, de como deve ter sido fácil, no final.
Mas cortar os pulsos não é algo que me agrada muito. Faz tanta sujeira, e parece demorar demais, além de que sempre tem a chance de alguém aparecer e não te deixar terminar as coisas. Teria que ser mais eficiente.
Tiro na cabeça estava fora de cogitação, porque havia um problema: eu não tinha arma e não fazia ideia de onde conseguir.
Saltar de um lugar alto também era meio difícil por questões de a) não tem lugar alto o suficiente aqui e b) tenho medo de não conseguir fazer direito e acabar apenas aleijada.
Enforcamento me agoniza. A dor deve ser aterrorizante. Nunca gostei muito desse estilo.
Não... Se eu algum dia fosse tirar a minha própria vida, seria diferente.
Mas eu não faria aquilo, apenas era reconfortante, de alguma maneira, pensar que tudo aquilo poderia acabar.
Eu queria apenas me sentir no controle da minha própria vida por um momento.
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