Notas iniciais
aaaaaa eu tinha me esquecido, mas eu fiz uma playlist no spotify há muito tempo atrás, com músicas que lembram muito a Iris, então se alguém quiser ouvir vou deixar o link aqui -> https://open.spotify.com/user/johnhherege/playlist/1A4kbp49FK9sQMIstabFHR boa leitura ♥ paz, amor e empatia

Tantas vezes imaginei como seria ter Sara falando meu nome em voz. Mas nada se comparava à sensação de realmente estar vivendo aquilo.

— Você é exatamente como pensei. — ela disse.

Queria tê-la ao meu lado acima de tudo, mas apenas o fato de estar ouvindo o som da sua voz já era a melhor sensação do mundo.

Eu estava extremamente assustada até segundos antes de vê-la. Mas, incrivelmente, tudo estava bem em instantes.

Nós combinamos de estarmos online às uma e meia, e quanto mais perto chegava mais nervosa eu ficava. Como não havia ninguém em casa, tomei a liberdade de dar alguns pulinhos na sala de estar e gritar com o travesseiro na cara pra abafar o som.

Fico feliz que ninguém presenciou a cena.

— Tenho algo pra te mostrar. — falou. Seu rosto saiu do alcance da WebCam, então eu via apenas uma parede branca. Quando voltou, Sara trazia em sua mão uma folha de papel. Ela parecia estar sentada em uma cadeira de frente para uma mesa, assim como eu. Mas ela estava tendo uma visão do meu quarto e eu apenas de uma parede. — Olhe.

— É... Eu ali? Nossa. Que incrível.

— Somos nós. Em formato de meninas super poderosas.

— Por que eu sou a Lindinha e você é a Florzinha?

— Sua cor favorita é azul, não é? A minha é vermelha.

— É lindo, você quem desenhou?

— Não, deuses. Quem me dera saber desenhar assim. Eu contei pra Amanda que nós nos veríamos hoje, então ela fez isso.

— Amanda.

— Minha amiga da escola.

— Você fala pras suas amigas sobre mim?

— Bem, apenas pra Amanda. E você?

— Ah, não. Diga pra Amanda que adorei.

— Eu direi. Ela falou que você parece ser muito legal. Passei a tarde toda ontem na casa dela. Aquilo ali é um pôster do Kurt?

Eu me afastei um pouco para o lado, pra dar uma visão melhor da minha parede.

— Uau. São muitos pôsters. Tem até de Harry Potter. Meus pais não me deixam fazer nada disso.

— Eu roubei aquele ali de Jogos Vorazes da minha irmã. Ela nunca sentiu falta. Eu estava pensando em comprar tinta spray e escrever algo bem ali.

— Como uma frase?

— Pensei em eu não sou como eles, mas posso fingir.

Sara sorriu. Ela ficava tão bem assim.

— Nós poderíamos tatuar isso. — comentou.

— Vai parecer tatuagem de casal.

— Nossa, sim! Eu adoro isso. Não importo se algumas pessoas acham brega. Bem, contanto que não seja o nome da pessoa, tatuagens de casal são lindas. Amo aquelas que se completam, sabe?

— São tão fofas.

— Sabe o que poderíamos fazer? Tatuar a data em que conversamos pela primeira vez. É só procurar no Twitter. Que tal no pulso? Ficaria lindo. E misterioso, sabe? Então nós poderíamos dizer uma coisa diferente cada vez que alguém perguntasse o significado da data, então ninguém jamais saberia o real motivo. Apenas nós.

— Sara, está parecendo que somos um casal. Você está viajando um pouco.

Eu ri, mas aquilo estava me deixando sem graça.

— Ah, Iris. — era tão bom ouvir meu nome sair de seus lábios. — Por que eu tenho a impressão de que você está triste com algo?

Não sei como ela captou aquilo nas minhas palavras, mas agradeci mentalmente, então contei o que aconteceu com Aristóteles na sala.

Sara pareceu brava, o que achei amável.

— Aquele babaca de merda, pra que fazer isso?

— Eu não sei. Me sinto muito idiota. Ele sempre faz esse tipo de coisa comigo. Nunca entendi o motivo.

— Não é sua culpa. Há babacas em todos os lugares, mas não é como se pudesse encontrar um repelente pra esse tipo de coisa.

— Obrigada por nunca dizer que isso é culpa minha.

— É apenas a verdade.

— Minha mãe diria que estou levando tudo muito a sério demais e que foi apenas uma brincadeira.

— Você não controla seus sentimentos. Além do mais ninguém é obrigado a levar as coisas na brincadeira quando não é assim que se sente.

Era em momentos assim que eu mais queria abraçar Sara.

— Mas, Iris, você já pensou em contar sobre essas coisas pra diretoria?

Me mexi, meio desconfortável, na cadeira.

— Não sei. Quero dizer, já. Mas não é nada realmente grave, não é? E como eu poderia provar? Além do mais, depois disso acredito que eles apenas implicaria mais ainda comigo. E é uma cidade pequena, todos ficam sabendo das coisas. Não quero principalmente que minha mãe saiba disso.

— Olhando por esse lado, talvez esteja certa. Mas e o professor não fez nada?

— Aristóteles não é totalmente burro. Ele nunca faz essas merdas grande quando tem um professor por perto, ou se faz é apenas disfarçado de brincadeira. Eu seria a fresca da história se reclamasse disso.

— Isso é tão errado. Se ele faz essas coisas justamente pra você se sentir desconfortável, deveria ser punido. E é tão sem motivo.

— Não vamos falar sobre isso, por favor.

— Apenas saiba que você pode me contar qualquer coisa sempre, ok? Por mais que eu queira dar um soco nesse babaca toda vez que me diz essas coisas. Não guarde tudo pra você. Eu estou aqui.

— Obrigada. Isso significa muito pra mim. Você é incrível.

— Sempre à disposição. Mas então, e o assunto da tatuagem? O que acha no pulso?

— Tá falando sério?

— Claro que sim.

— Bem, nesse caso eu preciso dizer que no pulso é bem clichê.

— O que sugere?

— Na parte de dentro do braço. Aqui. Ou nas costelas.

— Nas costelas deve doer.

— Vai doer de qualquer jeito.

— Você tem razão. É um bom argumento. Mas há lugares que doem mais.

— Acho que sim. Sabe o que eu sempre quis fazer?

— O que?

— A capa de In Utero. Aquele anjo. Bem, não sei se é um anjo realmente, mas eu adoro.

— Amo esse álbum. É o meu favorito.

Nós conversamos por mais três horas. Sara me mostrou seu quarto e eu mostrei o meu à ela. Nós rimos tanto sobre coisas bobas. E, juro, há tempos que não me sentia tão viva como me senti enquanto ouvi sua voz e vi seu belo rosto através da tela do computador.

Sara me contou histórias sobre a infância e como o seu irmão quebrou o braço caindo da bicicleta. Contei como foi quando fui ao cinema pela primeira vez e que quase zerei uma prova de matemática semana passada (Sara me disse para não me preocupar tanto com isso e estudar muito para a próxima). Nós discutimos sobre astrologia em algum momento, e sobre teorias de Donnie Darko. Nossos signos combinam. Falamos sobre filmes recentes e então, antes mesmo que eu notasse, surgiu o assunto poemas.

— Você sempre se nega a me mostrar qualquer coisa que escreve. — ela disse.

— Não é nada demais. Você vai achar bobo.

— São poemas! Escritos por você! Não tem nada de bobo.

— Não importa.

— Importa sim. Se eu fizer carinha triste você fala um para mim? Como uma serenata só que virtual.

— Não sei se seria bem uma serenata. Além do mais, eles não têm nada de relevante. São infantis, até.

Sara continuou insistindo, mas apenas ri das suas tentativas.

— Um dia eu te mando algo. Não tenho coragem de te falar em voz alta.

— Eu vou cobrar.

— Estou contando com isso.

Me impressionei como as coisas entre nós duas fluía tanto. Aquilo não acontecia com ninguém.

Em um momento falávamos sobre Segunda Guerra Mundial, e então logo em seguida sobre nosso sabor de sorvete preferido.

Essa é, sem dúvida, o melhor tipo de conversa. Nada como conversar com alguém que te entende profundamente.

Eu não me sentia assim há tanto tempo.

Infelizmente, Sara teve que dizer adeus. Nós ficamos cinco minutos dizendo tchau e como tudo aquilo não devia acabar mais.

— Nós precisamos fazer isso novamente.

— Com certeza. Espero que uma oportunidade dessas venha logo mais uma vez.

— Eu gosto tanto de estar com você.

— Eu também, Iris. Eu também. Amo você.

Sorri para a câmera, então nós olhamos uma para a outra e, por um momento, era como se ela estivesse ali comigo.

Falamos sobre nos vermos pessoalmente, mas isso era um sonho distante ainda. Nenhuma tinha dinheiro para ir a outra cidade sem o consentimento dos pais. E como vou dizer para minha mãe que quero ver uma garota que conheci na internet?

Ela nunca me entenderia.

O mesmo acontece com Sara.

Quando encarei a tela do computador e sua imagem não estava mais lá, me senti triste, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

Gostaria que as coisas fossem diferentes. Muito diferentes.