Estrela decadente
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa história fugiu muito do rumo original, socorro, mas apesar de tudo ela é meu bebezinho. Espero que vocês gostem. Me avisem qualquer erro, por favor.
Paz, amor e empatia.
Para: dumbsara@hotmail.com
Assunto: família
Sei que te enviei um e-mail há quatro horas e que ainda não o respondeu (possivelmente nem o viu), mas é que realmente preciso falar ou escrever sobre isso e, sinceramente, não consigo pensar em outra pessoa pra contar tudo o que estou sentindo.
Você já deve saber pelo meu e-mail anterior que minha mãe me disse que meu pai quer me ver.
É estranho, eu sei.
É incrivelmente bizarro.
Ela falou como se fosse algo simples e supérfluo, o problema é que não é. Não sei muito bem o que devo sentir em relação a isso. Estou tão assustada. Parece que a realidade me deu um soco na cara.
Criei na minha mente vários futuros possíveis para minha vida, e em nenhum deles envolvia o homem que deu o esperma pra que eu nascesse.
Já te falei superficialmente a história que tenho com meu pai biológico, né? Não consigo lembrar direito.
Mas enfim, acontece que preciso admitir para mim mesma que tenho inveja dos meus meios-irmãos. Eles têm pai e mãe presente. Sei que deveria considerar o Marcus como meu pai também, mas não funciona. Nem ele faz muito esforço pra que dê certo.
Minha mãe conheceu Marcus quando eu ainda era um feto morando em um útero. Tenho consciência de que quando nasci ambos ficaram muito felizes e Marcus talvez tenha me considerado como filha até certo momento, mas então veio Raquel e Renato.
Quando completei quatro anos minha mãe descobriu que estava grávida. Dê gêmeos. Um casal.
Ela sempre quis ter um casal. Marcus também.
Eu me tornei a filha descartável.
Não fui planejada, não fui esperada. Raquel e Renato foram.
Era de se esperar que, depois de mim, um ser humano do sexo feminino, viesse um garoto para que a família dos sonhos de ambos se concretizasse. Mas não.
Eles são filhos legítimos. Eu sou a bastarda.
Marcus me chama de “filha”, mas sei que não vê a hora que eu saia de casa. Ele expressa isso, mas não com palavras.
Raquel herdou o nome da nossa bisavó. Renato foi nomeado assim por culpa do Renato Russo que uniu Marcus com minha mãe através das músicas. Ao menos é o que dizem.
Quando pergunto porque meu nome é Iris ninguém sabe me dar uma resposta satisfatória.
Sinto-me como uma boneca de teste.
Fui feita pra que quando meus irmãos nascessem não tivesse aquela pressão de “pais de primeira viagem”. Eles já tinham uma boneca-humano pra saber como trocar a fralda, ou dar banho, alimentar e essas coisas.
Mesmo agora que tenho 15 anos percebo como continuam me tratando diferente.
Mas a questão é sobre meu pai biológico.
A palavra “pai” soa estranha. É meio surreal, mas minha mãe apenas virou-se para mim e disse que ele — o cara que doou meu esperma, como já mencionei — estava na cidade e queria me ver. Ela perguntou se eu queria vê-lo. É claro que eu quero, droga. Eu quero conhecer a pessoa que herdei as características quando se fala de genética. Quero saber se ele também tem aquela pinta estranha na base da coluna. Quero saber se ele tem o mesmo gosto musical, ou se tem problemas de comer o doce antes do salgado. Mas eu disse que não, e isso está me corroendo.
Disse que não quero porque fui rejeitada por 15 anos e não quero — não posso — ceder em cinco segundos. Apenas não. E meu progenitor se tornar apenas uma conversa fiada de 20 minutos? Não quero isso. Não quero que ele venha com papo furado.
Mas se ele realmente quiser me ver?
Mas e se ele apenas se sentiu obrigado e quis se passar de bom samaritano?
E porque ele não apareceu nesses anos todos? Ou por quê me abandonou quando eu sequer conseguia respirar fora de um útero?
Não sei como responder essas perguntas.
Espero notícias suas.
Com amor,
Iris
Para: irisaddler@hotmail.com
Assunto: família
Acho que você nunca me escreveu assim de uma vez só. Até me assustei um pouco quando vi a quantidade de palavras, mas vamos com calma.
Primeiro: nós já discutimos sobre o conceito de família em algum momento, certo? Então não precisa chamar de família quem não te faz bem, chame-o apenas de parente, ou alguém que você tem uma ligação biológica :)
Fica mais fácil assim, certo?
E se você não sabe responder essas perguntas, como eu vou saber?
Nós nos conhecemos há uns 10 meses eu acho (parece tanto tempo), mas mesmo que nos conhecêssemos desde a infância, a única pessoa que pode responder essas dúvidas é você.
Não vou dizer que você deve vê-lo, mas também não vou dizer que não deve. Por que não pergunta a sua mãe como ele é? Talvez isso te incentive a conhecer ele ou não. Não sei, nunca passei por algo assim, mas acho que é o que faria e o que aconselho a fazer.
Mas se não quiser, tudo bem.
E não pense muito sobre Marcus e a relação que vocês têm. Já falamos sobre isso. Já falamos sobre tantas coisas. Sei como você se sente e lamento muito por isso. Queria poder fazer algo.
Ah, ouvi aquela música que você me falou. É muito boa. Estou ouvindo outras da cantora. Amo suas indicações.
Desculpe não poder escrever tanto. Preciso fazer um trabalho de gramática meio complicado, mas queria te responder logo. Depois nos falamos com mais calma, certo?
Abraço,
Sara
Para: dumbsara@hotmacil.com
Assunto: parentesco biológico
Eu não sei como falar com minha mãe sobre isso, ela nunca toca no assunto. Na verdade foi meio chocante porque sequer me lembro de ela alguma vez ter mencionado o cara que tenho parentesco biológico.
Mas vou pensar sobre isso.
E obrigada por me responder rápido, eu precisava disso.
E não tem problema, eu sei como você se dedica na escola — queria ser meio assim também, mas não consigo.
Espero que você vá bem no trabalho.
E me conte mais sobre a escola. Sempre estudei na mesma, não tenho muitas experiências em ser aluna nova.
Com amor,
Íris
Ps: suas indicações de filmes são mil vezes melhores
É deprimente que a única pessoa que realmente me conheça e me entenda esteja há dezenove horas de distância e nós nunca tenhamos nos visto pessoalmente. Sim, procurei saber quantos quilômetros nos separam. É doloroso que sejam tantos.
Mais deprimente ainda é que seus pais sejam tão controladores sobre redes sociais que as únicas que ela têm são secretas.
Conheci Sara no Twitter, mas ela raramente o usa. Nós nos comunicamos por e-mails. É uma forma bem primitiva, eu sei. Mas é a única possível. Se seus pais souberem que ela usa o computador que tem para fazer outras coisas que não sejam pesquisas para a escola...
Vou torcer para que isso nunca aconteça.
Preciso falar com Sara. Ela pode não me ver pessoalmente, mas sinto que é a única que me deixa tranquila.
Sei que existe a possibilidade de ela ser um velho de 80 anos pedófilo, mas que tipo de pedófilo passaria meses conversando sobre a vida e se tornando intimo? É tempo demais para se perder só com uma pessoa. E, de qualquer maneira, ela me faz bem. Não é como os outros, é especial.
Sara é, talvez, a única pessoa que conheço que escreve conforme as regras ortográficas na internet. É divertido, na verdade. Acabei entrando no jogo. Ao longo do tempo descobri algumas manias dela, como colocar alguns poucos emoticons aleatórios na conversa, ou terminar frases com “certo?”. Gosto de saber esses pequenos detalhes sobre ela, sinto como se fossemos intimas. E somos. Sara sabe mais coisas sobre mim do que qualquer outra pessoa. Sei que ela tem outros amigos (dentro e fora da internet), mas tenho apenas Sara.
Queria que nós duas pudéssemos conversar mais. Gosto de sentir sua presença, não me interessa se não é física.
Sempre que lembro do controle que os pais dela impõem eu agradeço por ter um computador só para mim.
Mesmo que troquemos poucas palavras, são as melhores do meu dia. Não sei como conseguiria chegar até aqui sem ela. Sara me mostrou que não preciso fingir ser outra pessoa. Não preciso ser alguém que não sou apenas para agradar outras pessoas e ter amigos.
Falsos amigos.
Nossas primeiras conversas são sobre o ensino médio. Ela já está no segundo ano, mas comecei o primeiro há pouco tempo. Meu nervosismo era angustiante. Cada vez mais perto da faculdade, da vida adulta.
Sara é boa em me deixar bem.
Ao contrário das pessoas que me cercam fisicamente.
Minha mãe costuma dizer que eu não faço nada. Muita gente fala isso, pra ser sincera. E isso me irrita pra caralho.
Não é que eu não faça nada, apenas não faço nada que interesse para eles. O meu tudo é o nada deles.
É uma coisa meio complicada. Não gosto muito de pensar nisso.
Outra coisa interessante que Sara me ensinou sobre a escola é que você precisa se dar bem com os professores para ter nota boa. É uma coisa super ridícula, porém é a verdade. Se você não se dá bem com algum professor, por exemplo, ele vai ser bem inflexível na hora de te dar um desconto por um trabalho mal feito, ou por um material de estudo esquecido. São coisas que vivenciei na pele. A minha sorte é que, onde estudo, os professores do fundamental e do médio são praticamente todos diferentes, então tenho a chance de puxar o saco da maioria e ficar com uma boa nota no geral.
Por isso tento ser o mais agradável possível, mas não em excesso. Razoável. Na verdade, tento ser assim com as pessoas no geral. Mas há um garoto com quem não consigo ser sequer decente.
Aristóteles. Era de se esperar que alguém com esse nome fosse... Não sei dizer, inteligente? O ponto é que ele sempre encontra algo para implicar comigo. Mas nunca tão abertamente. É sempre nas entrelinhas.
O demônio dos detalhes.
Raramente alguém encontra esses demoniozinhos.
Esses dias Aristóteles fez uma piada bem inconveniente sobre mim, no meio da aula.
A sala inteira riu. Eu não.
Minha mãe diria para levar na esportiva. Ela é outra praticante dos demoniozinhos.
— Sente direito, não é assim que uma menina deve se comportar. — ela disse, para comprovar o que eu estava pensando naquele exato momento. Isso acontece muito. Começo a pensar sobre Sara e quando vejo já estou refletindo sobre diversos assuntos.
Nunca gostei de ficar no mesmo espaço que minha mãe, Marcus e meus meio-irmãos. Mas preciso passar por isso várias vezes durante o dia. Sinto-me como uma estrangeira no próprio país.
Marcus tem o costume de ficar com o jornal na mesa, enquanto jantamos, e era o que fazia. Raquel e Renato falavam sobre alguma coisa que envolvia a escola. Eu encarava meu jantar.
Coisas típicas assim.
Estava pensando sobre falar com minha mãe sobre “o cara que tenho parentesco biológico e que quer me ver”. Mas acho que não deveria trazer o assunto à tona logo enquanto todos comiam. Por isso esperei até eu começar a lavar a louça, porque sabia que eu e ela ficaríamos sozinhas na cozinha. Eu tirando a gordura dos pratos e ela arrumando a bagunça.
Três vezes eu abri a boca para falar, mas não saiu som algum. Na quarta, ela viu que eu queria dizer algo.
— O que foi? — estava me encarando, daquele jeito meio impaciente que geralmente usava para falar comigo.
— Nada.
Essa é a história de como fracassei novamente.
Mas eu poderia tentar outra vez no dia seguinte.
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