Kenny não era bonito, nem tinha dinheiro e status.

Anos atrás, Kuchel abriu um berreiro falando para ele que, “valia mais ter a alma bela do que um corpo agradável de se ver”. Aquilo soou mais como um insulto para seus ouvidos, pois ela tinha uma beleza épica, era amável e sabia muito bem disso.

Kuchel também estava ciente de que seu irmão não era um santo, tendo passado a infância presa nas travessuras dele.

Kenny, que adquiriu um interesse mórbido em corpos, e no subterrâneo havia muitos deles perdidos em decomposição, prontos para ele abrir. Em suas aventuras, Kuchel muitas vezes era arrastada para ver. E o cheiro grotesco de podridão passou a assombrá-la, tanto quanto o aroma metálico do sangue que passava a escorrer até o chão na medida que ele fazia os cortes, levando-a a vomitar. Para ela, seria improvável despertar seu poder. A fobia de sangue a colocava longe de qualquer briga.

Presos na Cidade Subterrânea, a vida deles era miserável, desprovida de qualquer luz do sol. Eles estavam condenados a viverem perseguidos como todos os outros Ackerman antes deles.

Naquela desgraça incessante, a avó deles acabou falecendo cedo por deficiência por falta de sol. Seus pais partiram não muito tempo depois, sendo assassinados pela polícia militar ao tentarem se rebelar. Já seu avô se foi apenas mais tarde, de velhice, tendo perdido quase tudo. Kuchel acabou indo se prostituir por falta de um emprego melhor. Onde antes havia um corpo bonito, as drogas e os homens trataram de arruinar.

Por uma dádiva, Kenny encontrou alguma felicidade na perseguição de seu clã, passando a matar um após o outro, aqueles que vinham atrás dele, clamando por sua morte.

Qualquer pessoa de bom senso saberia que deveria ficar longe de um assassino, ainda mais um que não parava de estripar policiais militares. Mas alguns eram ambiciosos, queriam o contratar para se livrar de outras pessoas, já outros decidiram pedir pelo assassinato de algum militar que estava colocando em risco seus negócios, oferecendo em troca um produto valioso, às vezes seria remédio, outras seriam armas. Kenny aceitou a mudança bem. Apenas um tolo iria recusar a oferta de um bom dinheiro, remédio e armas.

Por muito tempo as coisas continuaram assim. Kenny foi capaz de subir as escadas que levavam para a superfície e logo descobriu que aquele mundo embora cheirasse mais limpo e suave, não era tão diferente do subterrâneo. As pessoas ainda usavam rostos e sorrisos falsos, prontas para apunhalar alguém pelas costas e a podridão estava escondida em fachadas bonitas. Ele não se importou com isso, aproveitando ao máximo aqueles tempos de glória com um sorriso selvagem no rosto e um olhar fuzilante.

Kenny sentiu-se a pessoa mais forte e nada parecia ser capaz de o parar, enquanto seu poder continuou a subir sua cabeça.

Kenny percebeu, que talvez ele fosse o mais sortudo de sua família. Afinal, ele nasceu em um clã cujo o sangue estava amaldiçoado para despertar uma habilidade que o tornava bom em lutas, o melhor entre todos os seus oponentes e esse mesmo poder eletrizante permitiu que ele sobrevivesse, desde que estivesse disposto a usá-lo. E ao contrário dos outros membros de sua família, Kenny o usava, desde que o despertou sem moderação. Ele era movido por ele, sempre conseguindo sobreviver. Ser caçado não tornou sua vida mais infeliz, mas o permitiu sair em matanças e mais tarde criou sua renda fixa. Sim, Kenny era o mais sortudo deles.

Para ele só existiu o poder. Tudo se resumiu nisso. Quem tinha poder era aquele que criava as regras e comandava tudo, e os fracos não podiam fazer nada. Havia também diferentes tipos de poder, alguns eram herdados, já outros dependiam de uma boa grana.

*****

Após anos, ele voltou para o subterrâneo só para se deparar com o cheiro podre de carniça mofada em um quarto pequeno.

Ela estava morta, apodrecendo em uma cama e o preço de sua negligência repousava em uma criança que parecia com Kuchel em tudo, exceto a beleza inquietante. Kenny sentiu uma brisa fria. Era como se o fantasma dela tivesse voltado para o assombrar. Sua respiração ficou pesada e o garoto, o filho dela, o observava com um olhar gélido, desprovido de esperança. Nesse ponto, ele estava apenas esperando a morte chegar. Kenny se sentou no chão, ignorando a imundície do lugar, quase podendo ouvir a doce voz dela contra sua orelha.

“Não ouse deixá-lo morrer”.

Seus pelos se arrepiaram. Sem outra escolha, Kenny decidiu cuidar do pirralho até ele aprender como se virar sozinho. Depois disso, não seria mais sua responsabilidade. Ele não era seu pai, nem era adequado para aquele papel e muito menos queria ficar bancando a babá.

Nesses tempos, seus punhos se fechavam com força sempre que tinha que se controlar, era cansativo e sem graça.

Kuchel deveria ficar mais que feliz com o resultado. Ele havia falado para ela não inventar de ter um filho! Uma criança nascida na pobreza, naquelas condições horrendas, não conseguiria ser feliz e nem Kuchel tinha como alimentar uma boca extra. Mesmo morta, sua irmã conseguiu causar problemas.

*****

Voltando para a superfície, Kenny permitiu-se respirar livre, sentindo o aroma de flores e cavalos.

Levou um tempo inacreditável até que Levi foi capaz de despertar seu poder, mas ele despertou. Sua boca secou. Foi numa simples briga de bar. Só podia ser brincadeira. Kenny passou por toda aquela dificuldade, martelando ensinamentos pela milionésima vez, incentivando dia após dia, ano após ano, só para o garoto ir lá e despertar. Ele tinha quase perdido a esperança. Demorou demais. Kenny suspirou e o farfalhar de folhas o deixou mais calmo. Não havia mais nenhum motivo para permanecer na vida do garoto. Ele já estava crescido.

Aos poucos, Kenny recuperou sua antiga rotina. Ninguém o preparou para o que vinha depois.

O policial que o encurralou, tinha a gola de sua camisa desarrumada, disse fazer parte de um grupo secreto e queria o contratar. Kenny levantou a sobrancelha e enrugou o nariz.

“O Rei é na verdade um titã e a verdadeira família real são os Reis.” Sua voz soava desesperada como se estivesse fazendo um último apelo.

Kenny franziu a testa, cerrando os punhos. Não acreditando nem um pouco na história. Aquelas eram as palavras de alguém que tinha perdido sua mente. Ele estava lidando com um bêbado, de todas as coisas. Antes que ele pudesse pegar sua faca, o homem agarrou seu braço, num lamento lamentável.

“A família Reis é a verdadeira família real! Precisa acreditar em mim... o Rei pode se transformar em um titã”. O homem continuou divagando. "Eles se escondem atrás de um falso rei, mesmo sendo a verdadeira realeza. São uns covardes que controlam tudo, precisa acreditar em mim, eu preciso da sua ajuda para mudar tudo. Se conseguirmos os tirar do poder, podemos começar uma revolução… ".

Era um canto insano proclamado por alguém que não conseguiu provar nada.

Kenny não tinha mais certeza do porquê decidiu aceitar aquela história. O dinheiro pareceu atraente. Não havia muito o que se fazer. Um pedido de assassinato contra a suposta realeza ainda era um trabalho, embora o preço oferecido pela cabeça do Rei deixou a desejar.

Ele sentiu seus músculos ficarem pesados e olhou para o céu, pensativo, mas sua cabeça decidiu começar a doer, enquanto suas ideias e planos se formavam. Por um mês, ele planejou o assassinato perfeito.

Kenny queria que eles pagassem caro. Foi devido aos malditos Reis que sua família caiu na desgraça. Ele cerrou os punhos, mesmo que não fosse aquela geração responsável pelo início de seu infortúnio, eles ainda contribuíram para a sua continuação e ida ao subterrâneo.

Aquela era a oportunidade perfeita.

Por cem anos, seus antepassados foram perseguidos pelo Rei. Embora o líder do clã foi executado levando todos os segredos para parar o conflito, eles ainda não se tornaram livres.

A polícia continuou mexendo com eles, os acusando de coisas que não tinham feito e, na primeira desgraça, sua família foi parar no lixão. Foi muito justo que Kenny fosse se vingar de todos eles. Ele estava nas alturas só de imaginar todos eles mortos.

Nos dias que antecederam a emboscada, ele os investigou, aprendendo pequenas coisas da boca do povo. Eles tinham a fachada de família normal e bondosa, eram amados pelos camponeses mais próximos que não sabiam da verdade. Ainda assim, Kenny ouviu o rumor de que Rod Reis se deitava com prostitutas. Já Uri Reis era mais misterioso, pareceu que ninguém o conhecia muito bem.

O policial não havia especificado quem era o rei, nem como diferenciar os dois irmãos. Não teria muita importância, quando ambos fossem assassinados.

Kenny lambeu os lábios em antecipação. Além da vingança, seria sua chance de se mostrar o mais forte. Seria poético eliminar toda a realeza, depois ameaçar o governo real para que ele se tornasse o novo verdadeiro Rei, enquanto o fantoche que fingia ser o rei iria continuar no mesmo lugar para todos verem. Kenny sorriu largamente, já sentindo o gosto de um mundo comandado por ele. Não haveria ninguém para o dar ordens, ninguém verdadeiramente forte para o desafiar. O mundo perfeito, onde ele não viveria recebendo ordens.

Kenny pode ter deixado para lá o papo do Rei ser um titã. Quem acreditaria nisso apenas ouvindo da boca de uma única pessoa? Contos de fadas não eram para ele. Muito obrigado.

Foi sua queda. Quem diria que aquele maldito policial estava falando sério?

Ele não estava nem um pouco preparado para lutar contra um titã. E em um piscar de olhos, pela primeira vez, sua vida estava nas mãos de outra pessoa.

Kenny implorou e insistiu como uma ferra encurralada, apostando tudo na empatia. O rei, em um momento de simpatia, abaixou a guarda, libertando-o para o chão. Kenny lançou uma faca direto para a cabeça dele, mas ele usou seu braço para se proteger.

Acuado diante da morte.

Sua vida deveria ter terminado ali.

Culpado por todos os seus pecados.

Mas ali, naquele dia, no gramado

Kenny se viu assustado,

E o rei se ajoelhou ao chão molhado.

Fazendo um clamado chocante.

Kenny nunca tinha imaginado ser perdoado.

Tocado pela gentileza de outra pessoa.

Num salto de clareza e tomado por uma certeza,

Kenny viu-se inspirado em ajudar.

Uri Reis era rico, tinha status, era bonito e queria criar um paraíso.

Tão diferente dele e ao mesmo tempo cativante.

Com aqueles cabelos loiros, Uri era o rei, tinha o poder e um titã em suas mãos, mas ainda escolhia ser gentil com até mesmo um assassino enviado para o matar. Uma contradição de tudo que Kenny conheceu na vida. Uri parecia ser um bendito anjo vindo direto do céu para o seduzir. Talvez ele fosse. Aqueles seus olhos calorosos mostravam um brilho sobrenatural. Kenny sentiu um arrepio percorrer o corpo, por mais ridículo que fosse. Ele era mesmo um Deus?

Rod Reis e o pessoal da polícia secreta pareciam acreditar fielmente que Uri era algum Deus encarnado em forma humana. Ele mordeu os lábios só de pensar.

Kenny logo desenvolveu um interesse visceral em Uri, que beirava carnal.

Como seu novo guarda-costas, Kenny passou a segui-lo para todos os lugares, memorizando sua agenda e perseguindo-o até mesmo entre os cômodos da mansão.

Rod não deixava de o repreender, falando que não havia necessidade de ele estar tão grudado no rei. Afinal, todos os outros guardas mantinham uma certa distância e uma etiqueta adequada. Era a diferença entre chefe e subordinados, a realeza e plebeus.

Na maioria das vezes, ele estava contente em pelo menos manter a parte da distância, mas no final, ele sempre seria um rebelde e um cão não tão facilmente domando. E qual era o ponto de escutar Rod Reis? No final, Uri ainda tinha a palavra final e Kenny sempre foi uma criatura curiosa. Deixe os outros lidarem com as formalidades. Ele era diferente.

Suas primeiras conversas foram estranhas. Ele não desanimou, ninguém além dele pareceu se importar com o fato de que o rei levantava com os olhos inchados com a respiração pesada, nem ligavam com sua cabeça muitas vezes abaixada, ou então ignoravam a maneira como Uri não prestava atenção nas pessoas ao seu redor. Kenny pareceu ser a exceção, pois seus olhos pareciam gravitar em sua sombra. Fez sentido. Ele era a novidade, aquele que jogava as regras fora. A mudança deveria ser fascinante.

Em sua nova rotina, sempre que Uri passava muito tempo sentado em seu escritório, ou na biblioteca, Kenny se jogava no primeiro acento chique que encontrava.

Na primeira vez, aconteceu no escritório numa tarde ensolarada, e o rei apenas levantou as sobrancelhas sem o reprender, demorando um minuto inteiro para voltar sua atenção para a papelada, manchando seus dedos com tinta.

Na segunda, aproveitou-se de que Rod não estava e se sentou para almoçar com ele, alegando fazer companhia. Uri ficou em choque com o queixo caído, não havia muitas pessoas que fossem tão ousadas. Kenny sorriu, satisfeito com o resultado e lançou um olhar divertido. Então, o rei pediu para os servos trazerem mais um prato.

Na terceira vez, o sol já estava se pondo, enquanto Uri folheava um livro perto de uma vela. Kenny estava o observando por um tempo, entediado, então pulou numa cadeira, ficando confortável de frente para o rei, mas ele estava tão imerso na leitura que nem percebeu. Alguns metros atrás, o vento frio entrava por uma janela, dando calafrios e trazendo uma dorzinha chata nas costas. Kenny suspirou e de repente arrancou o livro das mãos de Uri, por um momento suas mãos se tocaram, ambos se encararam.

“Me devolve, por favor” Uri disse, mantendo o rosto sério, sem se mover. “Estava na parte boa, como vou encontrar a página certa agora?”

Kenny riu, segurando o livro mais perto. “Por que você não vem pegar?” Seus dedos ásperos acariciaram as páginas. Perguntou-se se havia algo bom lá dentro, lutando contra a vontade de abri-lo.

“Kenny, por favor”.

“Cuidado, as pessoas podem pensar que você está implorando” Devagar, Kenny se levantou. “Será que devo o queimar?” Ele moveu sua mão para a vela.

A cara de pânico de Uri foi impagável, em um instante ele saltou da cadeira pulando em sua direção. Kenny se afastou da mesa, sorrindo. Uri o seguiu, apressado, enquanto Kenny levantou o braço que segurava o livro.

“Me dá!” Uri tentou alcançar, ficando nas pontas do pé.

Kenny colocou um dos braços ao redor da cintura dele, deixando-o ter o livro com o outro, só para fechar um abraço com os dois braços, o prendendo.

“Agora, eu tenho você” disse, colocando seu nariz naqueles cabelos macios. Eles cheiravam à luz do sol e hortelã. Kenny sentiu também o aroma de café vindo da boca de Uri. Não era daqueles cafés baratos. Por instinto, ele molhou os lábios com a língua. “O que vai ser?”

O coração do rei acelerou.

“Me solte”.

“Mas você me segurou na sua forma de titã, por que eu não posso te abraçar apenas um pouquinho?” Sua voz estava rouca, fazendo parecer mais um sussurro na calada da noite.

Houve um suspiro audível. “Kenny, eu não... não quero jogar algum tipo de jogo”

“Isso não é um jogo, é diversão, coisa que até mesmo você precisa”. Ele se afastou um pouco, soltando seus braços, querendo ver seu rosto. Seus olhos azuis eram iluminados por um brilho estrelado. A curiosidade tomou conta. “Me responde, você é um Deus?”

Uri piscou. “Não, eu sou apenas uma pessoa. Desculpe te desapontar.”

Kenny riu.

“É mesmo? Homens comuns não costumam ser capazes de se transformar em um titã”.

“Hum” resmungou pensativo. “Eu sou o rei, não acho que isso me qualifique como comum. Além disso, você também tem o poder dos titãs dentro de si, só não percebe”.

“É mesmo?” Kenny se inclinou para mais perto, puxando Uri para seu peito. De certa forma, ele já sabia que o rei poderia não ser um verdadeiro Deus literal, embora fosse difícil acreditar que não havia alguma força por trás de sua mansidão. Ninguém guardava seu poder escondido, apenas para si, como os Reis, e uma habilidade como a deles já deveria ter elevado suas cabeças nas alturas. “Não me lembro de ter virado um titã”.

“Não assim,” Uri arrastou seus dedos, brincando com os botões do casaco de Kenny, que achou o gesto estranho. “Nossas habilidades são diferentes, você é capaz de saber exatamente o que fazer em uma luta, já eu tenho as memórias dos meus ancestrais, o titã fundador e posso usar a coordenada”.

Kenny bufou. “São três poderes, enquanto eu só tenho um. Isso não é justo. Você deveria usar sua gentileza e deixar alguns deles para as pessoas comuns, meu rei”.

*****

Os dias passaram e suas semanas se tornaram calmas, numa serenidade sem fim. Era esquisito para ele se acostumar com a calmaria, mesmo com seu tempo gasto na presença do rei, quando antes tudo o que ele tinha era suas lutas pela sobrevivência.

Kenny ainda caçava alguns rebeldes em nome da coroa. Sua salvação. Aos poucos, os policiais que sabiam sobre ele se acostumaram a ter um Ackerman ao seu lado e Rod continuou o detestando, tornando claro em todas as suas ações.

“Um assassino de baixa classe não deveria ficar tão próximo do rei” falava com o nariz empinado e um ar de arrogância.

“É mesmo?” Kenny zombou, enjoado da pompa. O idiota só poderia querer ele longe para que ninguém tivesse controle sobre Uri. Embora, como ele chegou à conclusão de que Kenny era uma ameaça, continuava um mistério.

Em vingança, ele andou apressado até o escritório do rei. Como nas outras vezes, Kenny revelou sua conversa com Rod.

“Meu irmão faz o mesmo com você”. Uri apontou, rindo um pouquinho. “É chato ter que ficar ouvindo vocês reclamarem um do outro”.

Kenny rangeu os dentes, sentindo-se inquieto. "Seu irmão é o tipo de pessoa que seria capaz de inventar coisas só para se safar." Um dia Kenny ainda passaria a faca em seu pescoço, mas por enquanto ele estava preso em ter que o aturar.

“Não se preocupe, eu sei quando Rod está tentando se safar” Uri apontou, se inclinando para perto. Ele estava em pé perto da janela. “Quando erramos crianças, ele tinha o costume de jogar a culpa em mim, mas nosso pai acabou percebendo”.

“Que triste.” Kenny ficou vermelho de raiva, Uri merecia um irmão melhor e não a tranqueira que era Rod Reis. Ele ficou feliz, sabendo que pelo menos uma pessoa tinha defendido Uri. Pelo que ouviu, Amélia Reis havia morrido por causa de uma doença quando seus filhos ainda não tinham completado dez anos. “Tenho certeza que Rod tentou te convencer de me enviar para a capital, ou coisa parecida”.

“Ele fez, mas acontece que não quero você longe de mim” murmurou. “Eu achei que ele já tinha desistido".

"Ele não vai desistir tão cedo" Rod era mimado e um dia acharia um jeito de mandar Kenny para a capital. Por enquanto, ele ficaria quieto, ciente de que, com Uri contra suas ideias, não havia como ferrar com Kenny. "Você deveria sair comigo".

O silêncio reinou sobre eles por longos segundos, até que Uri o quebrou com seu choque. "Sair? Por quê?"

"Não estou dizendo que você deveria fugir comigo." Ele se apressou, não querendo ser entendido errado. “Só sair por uma noite. Tenho certeza de que podemos deixar Rod louco com isso e vai ser divertido."

"Oh..." "Você quer sair comigo para irritar meu irmão" Seus olhos escureceram como se tivessem sido tomados por uma tristeza. Uri ficou quieto por um momento. "Tem certeza de que não gosta secretamente do meu irmão?".

Kenny engasgou, horrorizado. "Não seja idiota, o que tem para gostar nele?” A própria imagem mental fez seu corpo congelar. Ele deveria considerar isso uma piada? “De onde tirou isso? Eu só quero o deixar puto e passar um tempo com você funciona muito bem. Vamos lá, não vai ser tão horrível assim."

"Não sei” disse, tentando disfarçar a irritação, não funcionou. “Prefiro sair com alguém que não esteja fazendo isso devido ao meu irmão."

Kenny estreitou os olhos, não entendendo onde ele queria chegar. "Rod é apenas a consequência e não a causa. Quer saber, amanhã de noite vou te sequestrar e vamos nos divertir juntos. Você pode pagar a conta."

"Sabe que dia é amanhã?" Ele pareceu irritado.

Kenny não tinha a mínima ideia. No Subterrâneo, poucos feriados eram comemorados e ele nunca se deu o trabalho para ligar com coisas tão triviais. Embora fosse mais fácil assaltar e passar despercebido por grandes multidões. "Não. É importante?"

"Deixa pra lá.” Ele deixou Kenny sozinho.

Kenny franziu a testa, perguntando-se que animal havia mordido Uri para o deixar tão irritado. Ele nunca tinha o visto assim. E seu encontro estava de pé? Parte dele estava aflito, pensando que amanhã poderia ser o aniversário da morte de Amélia Reis. Isso explicava a reação de Uri.

Ele saiu do escritório, caminhando por um corredor cheio de grandes retratos de membros da família Reis, descendo as escadas em direção à cozinha. Lá dentro, Emília lavava a louça. Ela era uma das poucas que não tinham medo dele. Kenny achou que era devido à idade avançada.

"Preciso saber quando Amélia faleceu" Exigiu com a voz grossa, sem se importar de ter chegado de fininho e quase matar alguém de susto.

Emília deu um pulo, deixando um prato cair, felizmente ele não quebrou. "Foi no final de setembro. Você poderia não entrar tão rudemente." Ela cerrou os punhos.

Ele ficou quieto por um instante, ignorando o pedido dela. "E o pai de Uri?" Se não fosse a mãe, tinha que ser o pai.

"Foi no dia 20 de março, Uri se tornou o rei naquele mesmo dia, você já deveria saber disso, já que vive colado em sua sombra." Ela voltou a lavar a louça, virando seu corpo, murmurando baixinho só para si.

"Então, talvez alguém morreu perto dessa data?"

"Não que eu saiba. Por que você não pergunta para vossa majestade?"

Kenny mordeu o lábio. Se ninguém tinha morrido, o que incomodou Uri? Começou quando mencionou Rod uma última vez na conversa. Ele cerrou os dentes, enquanto esfregava o pescoço. Era culpa de Rod. Kenny sentiu vontade de gritar para todos ouvirem. Respirando fundo, tentou se acalmar. Não adiantava fazer uma cena.

Na manhã seguinte, ele procurou Uri em vão. Pareceu que o rei decidiu o evitar, levantando cedo, saindo de cavalo sem nenhum guarda para sabe-se lá onde e ainda deixando um aviso para não ser seguido. Kenny quase ficou bravo, se não fosse sua preocupação e confusão com o ocorrido.

Ele andou pela mansão fumegando, se resignou em esperar e, para passar o tempo, numa mesquinhez, invadiu o quarto de Uri.

O lugar cheira limpo e havia uma estante inteira dedicada a livros. Kenny nunca tinha entrado antes, seria difícil explicar o que ele estava fazendo ali, se fosse pego. O quarto estava bem organizado e não pareceu ter nada demais. Havia um enorme retrato da família

Reis na parede, uma escrivaninha, um sofá, duas cadeiras confortáveis e um cômodo inteiro destinado a roupas e sapatos.

Kenny suspirou, sem muita vontade de explorar o quarto. Então, se lançou na cama, afundando em cobertores quentes.

A hora passou com Kenny deitado na cama macia, sentindo os restos da fragrância de Uri. Era ridículo. Ele sentiu a vontade de estrangular alguma coisa. Como tudo se desfez em uma única conversa?

Os minutos passavam cada vez mais lentos.

Kenny esticou as pernas, andando de um lado para outro.

Primeiro, ele começou a explorar o quarto procurando algum segredo obscuro. Nas gavetas da mesa, apenas encontrou um jogo de xadrez, alguns baralhos, um caderno antigo e a agenda de compromissos. Nenhum dos dois tinha algo útil dentro.

Então, ele voltou sua atenção para o cômodo dos armários. Uma pessoa poderia se esconder lá dentro sem ser detectada. Havia um armário só para botas, outro só para sapatos, um para camisas, já outro para casacos. Kenny rangeu os dentes. Gente rica tinha muitos luxos. Em um dos armários, encontrou dois grandes baús de madeira. Seus olhos se iluminaram, mas logo perderam o brilho quando, abriu um deles e só encontrou mais livros.

Sério? Uri não tinha uma vida.

Sua surpresa, venho com o outro baú, esse continha um traje estranho e uma espada fina. Kenny ficou admirado observando a espada de perto. Ela era diferente daquelas usadas pelos militares, era uma arma quadrada, longa e bem mais leve. Aquela espada era a cara de Uri.

A porta do quarto se abriu, fazendo um barulho irritante. Kenny não tinha certeza se era uma empregada, ou se Uri enfim estava de volta, então, em silêncio e devagar, colocou os baús de volta em seus lugares, fechando a porta do armário. Ele andou em passos suaves até a porta do cômodo e espiou para ver quem era.

Uri estava majestoso, só com uma camisa fina, já seu casaco havia sido largado numa cadeira.

“E aí, cansou de me evitar?” Kenny questionou, tornando sua presença conhecida. Uri deu um pequeno pulo. Ele sorriu e entrou no quarto. “Fiquei entediado esperando, então decidi procurar o seu pornô, mas não achei porcaria nenhuma”.

“Kenny.” Sussurrou Uri, com o rosto ficando vermelho. “Você leu alguma coisa?”

Ele riu. “Então eram os livros, eu estava procurando algo mais visível”. Uri soltou um suspiro de alivio. Kenny deixou ele acreditar que seus livros estariam seguros num futuro próximo. “Acho que um dia eu devia te dar um brinquedo para você poder se divertir”.

“Isso não é necessário.”

“Hum” Kenny duvidou, era melhor dar uma coleção inteira do que deixar o rei viver uma vida medíocre, sem emoção e indigna de seus títulos.“Por que ficou tão irritado quando te convidei para sair?”

“Não foi nada”

Kenny cerrou os punhos, sentindo a paciência evaporar e deu dois passos para frente “Nada? De repente você saiu sem levar ninguém, tudo porque te convidei para sair”.

“Pelo que entendi, era só para irritar meu irmão, qual é o ponto de sair?” disse. Kenny queria protestar, mas Uri continuou irritado. “Se quer mesmo saber, não Kenny, eu não estou bravo com você nem te evitando, só fui dar uma volta e, pelo que me lembro, você estava me incentivando a sair mais.”

“Mas sair sem ninguém?”

“Sem ninguém.” Ele confirmou, movendo com a mão os cabelos do rosto.

Kenny cruzou os braços. “Por que agiu de forma estranha quando te convidei?”

“Pareceu que você gostava do meu irmão e estava fazendo ciúmes nele. Embora, ele gosta de mulheres.”

Seus olhares se cruzaram. De repente, Kenny não conseguiu conter a gargalhada e suas risadas escandalosas encheram o quarto. Alguns segundos depois, quando conseguiu conter os risos, ele guinchou. “De todas as coisas, você foi acreditar que eu gosto do seu irmão idiota.”

Kenny quis vomitar só de pensar em estar envolvido com Rod. A náusea tomou conta e ele tampou a boca com as mãos, enquanto se sentava na cama.

“Não é tão absurdo assim.” Uri protestou, jogando-se ao seu lado, levando suas costas para a cama. E o perfume doce de hortelã quase fez Kenny se lançar ao seu lado e encostar em seu corpo. Uri virou o rosto vermelho para o lado. “Vocês não paravam de reclamar e estavam sempre procurando um motivo para mais um conflito.”

“É claro que sim, nós não nos demos bem, mas isso não significa que tenho alguns sentimentos ocultos por ele. Quer dizer, às vezes tenho vontade de o matar, mas não vou fazer isso ainda.” Vendo o olhar horrorizado de Uri, ele tentou o acalmar. “Não vou fazer nada. Eu sou leal a você. Mas se aquele desgraçado algum dia passar dos limites e falar mal de você, Uri, então talvez vai ter que me convencer a parar.”

“Não quero que ameace minha família.”

“Eu não estou, só estou dizendo que ele me dá nos nervos.”

Aproveitando que Uri estava deitado, ele levou suas costas para a cama, se deitando ao seu lado. Uri ficou calado e a lista de coisas que Kenny podia fazer e se safar aumentou.

“Sair com você ainda está de pé?” Uri quebrou o silencio depois de um tempo.

“Sim.”

*****

A noite enluarada revelava as estrelas cintilantes, e elas brilhavam triunfantes em contraste contra a escuridão que tentava as engolir. Havia mais pessoas na rua do que Kenny esperava. Sempre em dois. Esquisito. Ele estava pronto para entrar em um bar, quando Uri o puxou, segurando sua mão calejada.

“Esse não. Os membros da guarnição costumam o frequentar.”

Kenny deu um aceno com a cabeça. Ele não tinha a intenção de ser exposto como a lenda urbana da capital, embora perdoado pelo rei, apenas um grupo seleto sabia disso.

O rei também pareceu desejar não ser reconhecido como um aristocrata. No pior cenário ele teria que usar o apagamento para ambos poderem ficar em paz.

Eles andaram por um tempo com Uri guiando o caminho com seus passos lentos, sem pressa para chegar no destino. Suas mãos estavam entrelaçadas com as dele. Kenny não se importou, mas sentiu seu coração acelerar. Patético e ao mesmo tempo extremamente emocionante.

O bar de escolha era limpo e seu cheiro de lavanda adornava o ar.

“Está lotado.” Kenny sentiu a necessidade de apontar. A maioria eram casais bem arrumados, embora ainda havia alguns sozinhos jogando com seus grupos de amigos. “Talvez fosse melhor escolher outro?”

“Não, vamos ficar, os outros também devem estar assim.”

“Tem certeza? Vai ser difícil encontrar um lugar para sentar.”

“Tenho.”

Ambos arranjaram um lugar na bancada, a banqueta não era a mais confortável, mas não havia outra opção. Uri pediu por um vinho, sem se importar com o preço alto e Kenny supôs que esse era mais um luxo de gente rica.

A bebida seca desceu por sua garganta queimando, era bem melhor do que uma cerveja.

"Você não vai perguntar nada?"

Kenny piscou, sem entender. "Do que está falando?"

"Não sei. Você costuma ser curioso."

O silêncio reinou entre eles, por um momento, e Kenny tomou mais um gole de vinho.

"Acho que nunca conheci uma pessoa tão esquisita, misteriosa e impressionante como você, Uri. Na metade do tempo, não consegui nem entender como sua cabeça funciona."

"Ah." "Achei que talvez você poderia querer saber que dia é hoje."

Kenny deu de ombros. "É dia dos casais." Ficou visível com a quantidade deles saindo para gastar dinheiro à toa.

“Na verdade, é Dia dos Namorados." Uri corrigiu. "Te incomoda ter me convidado numa data dessas?"

"Não."

Ele entendeu porque Uri ficou irritado após o convite. Sua cabeça girou. Não foi por causa de Rob?

"Você ficou irritado porque achou que eu gostava do seu irmão." Kenny disse, tentando juntar as peças. Não pode ser, Uri não ficou com ciúmes. Não era como se o rei fosse se apaixonar por um mendigo como Kenny. Ele sentiu a garganta ficar seca.

"Na verdade, não."

Kenny não ficou aliviada com a resposta, embora devesse. O rei era intocável, majestoso e fora de alcance. Ele nunca teria a chance de o tocar. Suas mãos estavam muito manchadas de sangue para ficar com alguém tão bendito.

Uri cutucou o casaco de Kenny, tentando fazê-lo prestar atenção nele. "Fiquei irritado porque pensei que você passou todo o tempo comigo tentando fazer ciúmes em Rod."

Kenny arregalou os olhos. "Isso foi estúpido. Mas acho que já sei como vou calar a boca de Rod. Vai ser só dizer que você pensou que nós estávamos gostando secretamente um do outro." Ele riu, imaginando a cena. "Ele vai ficar tão chocado, que vai entrar uma mosca na boca dele."

"Kenny" Uri disse com um sorriso falso, como se a fúria da humanidade tivesse reencarnado nele. "Não mencione mais meu irmão nunca mais."

"Mas por quê? Até você pode errar e cair em suposições."

De repente, Uri fechou o espaço entre eles, selando seus lábios em um beijo forte de dente com dente. Rapidamente, Kenny abriu a boca, permitindo o acesso da língua de Uri, que mapeou sua boca em um beijo intenso.

Ele nunca tinha sido beijado assim. Na verdade, era sempre Kenny que iniciava os seus beijos. Nunca sequer o ocorreu que Uri pudesse jogar as regras e a boa decência fora para o beijar em um bar infestado por gente.

Kenny agarrou Uri, intensificando o beijo e arrastando ambos para fora de suas banquetas, derrubando uma delas no processo.

Antes que eles pudessem ficar sem fôlego, o barman rugiu. "Se vocês já terminaram podem pagar a conta. Ninguém está interessado em seu show."

Na cidade das muralhas, os recursos teriam um rápido prazo final se a população crescesse muito veloz. Por isso os relacionamentos do mesmo sexo eram permitidos pelo governo real. Mas nem todos eram fãs. Era extremamente desaconselhável demostrar afeto íntimo em público e a punição viria para aqueles do mesmo sexo.

Uri impediu Kenny de dar um soco no barman e se apressou para pagar a conta. Eles saíram fugidos do bar.

"Nunca pensei que você era capaz de chamar a polícia desse jeito." Kenny gargalhou, levando consigo a garrafa do vinho.

"Será que ele vai mesmo os chamar?"

"Vai saber?" Ele sorriu, colocando um dedo em seu lábio. "O barman convocou a polícia para prender o rei porque ele beijou um assassino. É hilário!" Kenny riu.

"Não brinque com isso."

Ele puxou Uri para mais um beijo, mapeando seu corpo com suas mãos. "É melhor você querer dormir comigo."

Uri sorriu.


Notas finais
Era só para ser uma fic curta de quase 3.000 palavras, mas esqueci que minhas estimativas acabam dando o dobro.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.