Estrela da Babilônia

4 Capítulo 4 - Última noite em Ur


Notas iniciais
Enfim férias! Enfim um capítulo novo e um pouco maior que os anteriores!

Somente quando cheguei ao palácio que percebi que fiz algo ruim ao sair correndo e ainda querer ficar mais um tempo com minha mãe. Primeiro porque eu quebrei um protocolo que ainda considero imbecil e segundo porque minha rebeldia fez com que eu segurasse com força as mãos de Gemenanna para me livrar dela com puxões de dedos e pulsos. Se eu fosse mais velho ou mais consciente eu jamais teria feito aquilo! A pele de um idoso é fina, delicada como folhas secas, o que dizer da pele clara daquela serviçal que me criou que mal tomava sol? É claro que a primeira coisa que fiz foi me desculpar aos choros de uma forma totalmente irracional e intraduzível para a escrita, mas digo que minha intenção no momento era dizer “me perdoe, Gemenanna! Eu nunca mais farei isso! Alguém cura ela!” ou qualquer outra coisa do gênero, pois eu admito que uma das coisas que mais desesperam um ser humano é sentir o sangue de alguém em suas mãos por seu egoísmo e brutalidade quando não há intenção de ferir. Principalmente se o ferido é alguém que adoramos. Além disso há o simbolismo por de trás de sangue exposto: mau presságio. Na época eu não acreditava que sangrar alguém pudesse causar algo grandiosamente mal, mas hoje eu me pergunto se não foi o fato de sangrá-la que repentinamente mudou meu destino.

Após terem limpado e enfaixado as mãos de Gemenanna, lavado minhas unhas que ficaram com crostas de sangue seco e trocarem minhas roupas molhadas, fui para o meu quarto sem acompanhante algum. Eu estava triste a ponto de não querer ver mais ninguém. Na verdade, eu queria ver minha mãe, escapulir pelas janelas e vê-la, mas a idéia de que guardas e serviçais poderiam ser punidos pelo meu ato rebelde me fez ficar entre minhas almofadas coloridas com a cabeça sobre os joelhos e olhos fixos para a porta de acesso. Queria também ver a serviçal que eu machuquei e me desculpar com ela, mas eu não conseguiria encará-la naquele meu estado. E no fim eu sabia que ela diria que tudo estava bem, afinal, eu era o escravo do príncipe e podia fazer o que quisesse com ela e com todos os outros abaixo de mim. Aos poucos eu vi minha porta se abrir e vi umas das serviçais mais jovens colocar sua cabeça para dentro de meu aposento e dizer aos sussurros rápidos que o convidado Enkiamtu queria falar comigo, coisa que eu posso até ter achado estranho, porém não dei a mínima para meu próprio estranhamento. Assenti com a cabeça e o homem entrou surgindo como uma sombra atrás da moça. Eu particularmente esperava um cumprimento formal, mas aparentemente aquele estrangeiro não sabia ter cordialidades com alguém que não fosse o Patesi. Fazendo vista grossa, é claro, Enkiamtu era até mais informal que eu em relação ao “supremo líder”. Fez gestos bruscos com as mãos para a criada nos deixar e lá veio ele, rápido e nada calmo! Se eu não estivesse com a cabeça em outro lugar naquele instante eu teria me assustado mais rapidamente, principalmente quando ele já me abordou diretamente no grito:

– Fala acadiano?! – Ele gritou tão alto que minha cabeça zuniu e praticamente pulei sem sair do lugar ou abandonar a posição de criança entediada e emudeci por alguns segundos antes de estender a mão direita com a palma virada para baixo e girar levemente meu pulso para os lados. – Então ouviu sobre ser vizir em Larak!

– ... O senhor disse... – Eu comecei com um pequeno medo de falar. – Que eu ia junto com... O meu senhor, o príncipe... E... – Eu mal acredito como eu gaguejei tanto, mas admito que estava com medo dele. Muito medo. Ele era um convidado, logo eu não tinha autoridade alguma sobre ele, mesmo que eu fosse a quinta pessoa mais importante do palácio. – Eu sou... O escravo, vizir em treinamento... Eu... Só deduzi! Eu pensei em... Larsa! E Lagash!

Os olhos grandes do homem se estreitaram ao passo que ele cruzou os braços na frente do próprio corpo. Ele era ótimo para ler as pessoas e pegou minha mentira no ato. Eu tinha acabado de inventar que deduzi tudo aquilo e mesmo que eu enganasse algumas pessoas com facilidade, Enkiamtu simplesmente notou minha mentira como se a palavra para “mentiroso” estivesse pintada em minha testa com letras enormes e realçadas com hematita para ficar um vermelho bem chamativo!

– Em nenhum momento eu disse que você iria para Larak para seu rei enquanto estávamos na sala. Nem mesmo usei “la” em algo para que você pensasse em Larsa ou Lagash.

Era o jeito carregado de puro eufemismo de ele dizer: “Quem te disse isso foi um serviçal mais velho, ou o vizir do seu rei, porque sei que seu rei não abriu a boca para você sobre isso. Me fale logo quem te contou sobre para onde seria a viagem.” É óbvio que fiquei de boca fechada sobre o assunto. Ficamos nos encarando por alguns segundos, coisa que para mim durou dias. Enkiamtu, além de alto, forte e de alguma forma assustador, não piscava uma única vez! Parecia um dos pequenos ídolos que eu possuía em meu quarto em um pequenino altar: de olhos grandes e sem pálpebras aparentes para que se fechassem em algum momento. Depois de um silêncio imenso eu acredito que ele percebeu que não iria arrancar nenhum nome de minha boca a menos que me torturasse, coisa que ele não poderia fazer. Mas, nada o impedia de tirar a espada da bainha em sua cintura e me ameaçar. Considerando que eu era só um pirralho assustado até pensei que iria morrer se me recusasse a contar quem me deu aquela informação e não me passou pela cabeça que se ele me matasse não seria eu que ficaria com problemas.

Minha sorte era que ele logo relaxou a postura e sentou-se sobre o canto de minha cama de almofadas e acredito que ele agiu como deveria ter agido desde o início: foi um pouco amigável comigo. Menos assustador, na verdade.

– Existem traidores em todos os lugares, menino. A partida do príncipe não é de fato um segredo, mas a notícia não deveria sair do palácio. – Ele suspirou antes de prosseguir. – Entretanto, ninguém deveria saber com exatidão para onde ele vai. Nem mesmo você deveria saber.

– Por quê?

– Vamos fazer uma hipótese: – Ele balançou os dedos quando ergueu as mãos para dar uma ideia que eu deveria usar minha imaginação. Na época eu não entendi porque não conhecia a palavra “hipótese” e nenhum sinônimo para a mesma. – Se ninguém ouvisse que vocês estão indo para Larak, exceto eu e o rei, e de repente durante a viagem um grupo de persas nos aborda! É claro que eles vão perguntar para onde estamos indo!

– Não justifica nada. É só a gente mentir e dizer que vamos pra Susa.

Enkiamtu fez uma expressão estranha: apertou os olhos e abriu a boca no que eu achei que era um sorriso, mas eu admito que ele não parecia nada feliz ou com razões para sorrir. Acho que ele não acreditou em minha inocência.

– Menino, você nunca viu um persa na vida, viu?

– Nunca vi ninguém que tenha vindo de fora de Ur. – Nesse momento eu acabei saindo da posição encolhida que estava. Apesar de ainda estar levemente assustado ou triste, eu relaxava muito facilmente. – Só você.

– Todos os jovens persas dos cinco aos vinte anos aprendem três coisas importantes para eles: cavalgar, atirar com arco e flecha e a sempre dizer a verdade. Eles sabem quando alguém está mentindo ou não.

– ... Deixa ver se eu entendi... – Eu pedi um tempo para pensar, coisa de alguns segundos que eu passei acariciando meu próprio queixo como se já tivesse alguma barba. – Se não soubéssemos e disséssemos que não fazemos idéia para onde vamos, eles veriam que é verdade. É isso que você quer dizer?

Ele bateu palmas de forma baixa e lenta. Na hora eu achei que ele estava me parabenizando e não me chamando de bobo.

– Não vai ser punido por isso, eu acho, mas o que fez foi muito imprudente de sua parte, Hili Mushen.

– Hilmushen. – Eu o corrigi. – Hilmushen, tudo junto.

– Que seja. – Ele realmente não se importava muito em falar corretamente, isso era notório. – Você podia estar triste o quanto estivesse, querer ficar com aquela moça o quanto quisesse, mas deveria ter ficado de bico fechado. Eu sei exatamente como é esse sentimento e você é um menino extremamente mimado para um futuro vizir!

Vamos dizer que minha calmaria foi para o Vasto Caminho com essa última observação. Eu nunca gostei que falassem “sei como se sente” ou que me comparassem com outras pessoas, mas o que mais me tirou do sério foi o fato de ser chamado de mimado! O que aquele estrangeiro idiota sabia sobre minha vida senão o fato de ele ter deitado com minha mãe?! Se eu fosse mimado eu não apanharia do príncipe todos os dias só porque ele queria! Se eu fosse mimado eu não trataria as serviçais bem! E se eu não fosse um bom futuro vizir eu já teria sido posto para esfregar o chão!

– Você não sabe como me sinto! – Gritei, praticamente cortando sua fala. Confesso que no passado minhas emoções eram bastante instáveis, coisa que ia da alegria para a raiva em um segundo. – Ninguém pode entender a dor dos outros!

Os olhos negros daquele homem de pele escura e nariz largo piscaram brevemente antes de gesticular com sua mão de unhas brancas para que eu me acalmasse. Não consigo me lembrar se existia calmaria ou uma leve tentativa de encontrar paciência na expressão dele, porém eu admito que suas palavras seguintes foram muito pacientes e acredito que ele resolveu dizê-las em uma tentativa de me forçar a ter alguma simpatia por ele, ou talvez empatia, coisa que eu achei que ele talvez sentisse por mim, mesmo com o jeito brusco de ser. Essa é, particularmente, é uma boa memória que tenho desse sujeito.

– Eu também fui afastado de meus familiares quando era um menino. – Coçou a própria barba no queixo ao dizer essas palavras e ajeitou o pequeno turbante de linho branco ao continuar o relato. – Eu vim de um lugar bem distante daqui, além de onde a Terra do Xá vai, bem ao sul, até mais ao sul das pirâmides de larga entrada e de paredes íngremes como os espinhos de um limoeiro.

– Seu nome não é Emkiamtu, então?

– Não é.

Pelo tom em sua voz eu tive a certeza que ele não iria me dizer seu real nome mesmo se o próprio Patesi perguntasse. Quando ele suspirou e continuou contando sua história eu deixei de ter “apenas certeza” para ter “certeza absoluta”.

Ele passou a me descrever o lugar de onde ele veio: disse que grandes árvores cresciam em meio a uma relva parda que não existia perto de Ur, dizia também que mais ainda ao sul existia uma mata fechada e fresca, cheia alimentos que também não existiam aqui. Me contou que quando era garoto um mercador que veio de Kush, um reino ao norte desse lugar que ele vinha, o tal das pirâmides em forma de espinho, mostrou pedras que brilhavam como se fossem as próprias estrelas em diversas cores, formas e tamanhos. Até comentou que as pedras mais bonitas e raras que adornam as cabeças de nossos nobres são feias e opacas perto daquelas que ele viu. Ressalto que ele mais descreveu sobre a beleza etérea dessas pedras excelentes para o fabrico de jóias do que de fato me falou sobre sua terra ou infância. Notei no olhar do negro homem que existia uma luz, uma luz de uma criança vendo algo maravilhoso ou apenas um adulto tendo a mais vívida lembrança de algo incrível. Tão incrível que ele interrompeu seu relato para me perguntar diretamente:

– Hilmushen, que pedra acha mais bonita?

– Lápis-lazúli. – Eu não demorei em responder e ainda assim ele percebeu minha mentira. – É a cor dos olhos de nossos deuses.

– Lápis-lazúli, a cor dos olhos dos deuses. Essa é sua melhor desculpa para que eu não note sua mentira?

– ... É uma pedra verde... – Eu resolvi dizer a verdade. Aquele homem sabia ler muito bem as pessoas e no fundo eu já tinha aceitado que ele só queria me animar um pouco depois de minha explosão e acabei deixando-me levar pela conversa. – E brilhante.

– Esmeralda? – Eu neguei com cabeça. Eu não sabia o que era uma esmeralda, mas não era esse nome que eu conhecia. Então ele tentou mais uma vez: – Berilo?

– Ela é bem escura. O supremo Patesi tem uma dessas em um dos anéis.

– Quase preta? – Só de ele me perguntar eu fiz que sim com minha cabeça. – Turmalina Olho de Gato. É de fato uma pedra bem bonita, mas já viu uma pedra que é transparente? – Movi minha cabeça para o lado, incrédulo na existência de uma pedra transparente como água limpa em uma tigela de metal, afinal, ele não tinha citado uma pedra assim nas que foram apelidadas de “estrelas”. Então ele me explicou: – É uma pedra quase branca, mas que se pode ver através dela. Algumas até são um pouco azuladas! O nome dessas pedras são “diamantes”! O valor é alto e serve para enfeitar coroas de reis e rainhas. Sabe qual é a melhor parte? Elas nunca quebram! São tão duras que uma arma feita com elas seria indestrutível!

Enkiamtu ficou um bom tempo me detalhando qual a diferença entre um diamante e um cristal simples, me disse o que eram rubis, safiras, turquesas e diversos tipos de jaspe e quartzo, as quais ele descreveu como mais simples e menos brilhantes. Até fiquei sabendo que o granito era composto de mica, quartzo e mais um outro tipo de pedra que ele me falou. Nessas horas eu estava bem animado e já tinha baixado minha guarda natural. Eu sorria para cada maravilha que Enkiamtu me contava até ele finalmente voltar ao assunto que o levou a falar das pedras.

Sua história daria um bom relato se eu soubesse mais do que ele me contou, mas não creio que ele gostaria que ela fosse contada. Disse que esse mercador de pedras ofereceu condições melhores de vida, riquezas e conforto para quem fosse buscá-las abaixo do solo em Kush. Acabou me contando que seu pai e irmãos acabaram morrendo nos buracos em que buscavam essas pedras junto com mais algumas pessoas. Soltou um rápido “por isso eu sei como você se sente” no meio do relato e prosseguiu contando que se aventurou por Kush como artesão e posteriormente quis aprender a atirar com arco e flecha, coisa que parecia ser incrível pelo modo que ele falava, mas eu não me interessei muito por essa arma. Depois disso acabou querendo terminar o relato ao fazer menção de se erguer e é óbvio que eu acabei impedindo-o. Queria saber como ele se tornou Enkiamtu, como foi parar em Larak e como conheceu minha mãe. Se pensam que passou pela minha cabeça a ideia de que ele poderia ser meu pai, saibam que não passou. Até agora eu não pensei sobre isso e tenho apenas uma observação: definitivamente ele não era meu pai.

Quando aprendeu a montar em um cavalo ele disse ter ido para as capitais de Meroé e Napata. Segundo ele mesmo, sendo quase adulto naquela época, ele tinha que começar a fazer algo na vida, algo mais do que fazer “produtos da vaidade humana”. Queria conhecer o mundo, tal como eu, em algum lugar em meu ser, queria também. Descreveu como eram as pessoas desses lugares, ressaltando que quanto mais ao norte ia mais claras as pessoas ficavam ao passo que seu nariz também ficava com uma ponte maior. Contou até que na borda do Egito Persa próximo ao mar vermelho acabou conhecendo um escultor que parecia ter uma batata enorme no lugar do nariz e um pintor com a ponte do nariz tão maior que a ponta que dava o aspecto quadrado das fuças dos grandes felinos. Disse que existe um outro lugar que desce para o sul mais próximo de nós e ressaltou como os tecidos lá são extremamente coloridos, as pessoas modestas e principalmente ressaltou o quanto eram bonitos os olhos das mulheres que ele descreveu como “grandes, brilhantes, contornados com galena e sombreados com ocre”. Depois ele disse ter realmente conhecido os persas. Disse que eles eram bem parecidos com uma mistura dos homens que viu no Egito com um marinheiro que dizia descender de algum povo unicamente marinheiro. Disse que até fez uma pequena amizade com esses depois de entrar por vontade própria em algumas de suas cidades grandes (que foram erguidas pelo povo que acreditávamos descender) e perguntou se sabiam o caminho para Susa e estes apontaram para uma direção que até aquele momento Enkiamtu admitiu não ter certeza se ele errara o caminho ou apontaram uma direção errada de propósito, porém era óbvio que ele acreditava na primeira hipótese. Por esse erro foi parar em Larak e foi bem recebido lá. O Patesi de lá tinha idéias iguais ao meu Patesi e acolheu Enkiamtu como um ajudante que poderia servir de vizir quando seu filho, o príncipe, lhe desse um neto. Por esse mesmo Patesi é que recebeu o nome que tinha agora. Internamente eu agoniei pela blasfêmia, mas me atendi ao fato que o neto desse Patesi que o acolheu era justamente a noiva do meu príncipe e por coincidência era só dois anos mais velha.

Nessas horas o sol já estava se pondo no oeste e ele finalmente pareceu finalizar o relato com uma única frase que para mim soou como um pedido de desculpas:

– E há onze anos eu ouvi alguém dizer que existia movimentação em Ur e há sete anos sou bem próximo de seu Patesi. Se não fosse por mim, acredito que você seria um vizir aqui mesmo em Ur.

Essas foram as últimas palavras dele antes de bagunçar meus cabelos como um irmão mais velho ou um pai faria e, dessa vez, conseguiu sair de meu quarto sem que eu o impedisse. Se ele estava tentando se livrar de mim falhou lamentavelmente, pois o segui o enchendo de perguntas, mais especificamente se o deserto era difícil de atravessar, se iríamos a pé, como cruzaríamos os rios Eufrates e Tigre... E acredito que Enkiamtu ficou extremamente feliz por termos cruzado o caminho de Gemenanna e o velho vizir do meu Patesi cujo nome nunca decorei por conta de nossa pouca convivência. Devia ser algo como “homem imortal”, então certamente começava com “Lú”.

– Velhos amigos! – A animação na voz dele era tanta que eu até me assustei. Nem mesmo quando se mostrou animado durante nossa longa conversa estava animado daquela forma. Na verdade, não estava nem com a metade da metade daquela animação. – Que surpresa agradável! O jovem vizir Hilmushen estava procurando vocês dois!

Eu não sei o que abriu mais: o racho de minha saia longa quando acabei dando passos para trás ao tentar me esconder atrás da figura do convidado, os olhos dos velhos ou minha boca que quase, quase protestou, mas no fim... Achei melhor ficar calado.

Enkiamtu deu meia volta e foi embora, me deixando sob o olhar do vizir do meu Patesi e Gemenanna. Eu sabia que precisava me desculpar. Consegui em partes me desculpar enquanto mantinha meu rosto voltado para o chão e segurando meus próprios dedos, balbuciei que estava arrependido, nada alto até que o velho senhor desse os ombros e me deixasse só com a serviçal pelo simples fato que ele sabia que eu não tinha nada para falar com ele. Velho esperto. Quando ele se foi, Gemenanna pousou as mãos em meus ombros, coisa que me fez olhar para ela e encontrar a cortina cinza dos seus cabelos. Quando viu que tinha minha atenção total ela disse em uma voz calma que não tenho certeza se me deixou ainda mais preocupado ou me acalmou de vez:

– Tudo bem, Hilmushen. Tudo bem.

Me lembro que conversamos sobre o que eu fiz, o que deveria fazer dali para frente, o quanto ela gostava de mim e como jamais iria me esquecer... A única coisa que vale a pena destacar de nossa última longa conversa é que eu era o filho que Gemenanna nunca teve e o quanto ela iria pedir por minha proteção quando me tornasse um vizir em Larak e que, se os deuses fossem generosos comigo, me dariam três escravas pessoais de idade igual ou inferior à minha. Os eventos daquela noite não foram de fato importantes, foram iguais a qualquer noite: o patesi e sua rainha sumiam das vistas, Enkiamtu sumiu para um quarto reservado, os serviçais continuaram fazendo suas tarefas e o príncipe... Espere, ele não se dirigiu para o quarto dele. Descobri isso quando o encontrei em meu quarto! Confesso que quase não o reconheci sem todas as quinquilharias preciosas que amarravam nele. Estava abaixo de algumas almofadas, quase totalmente escondido e eu, muito inocente, sorri e disse-lhe:

– Eu sei que está aí! Não vai conseguir me assustar!

Eu esperava que ele pulasse da pilha de almofadas que era minha cama e me ofendesse, mas não. Ele apenas mandou que eu cerrasse a porta usando as mãos para dar-me essa ordem e eu que não era bobo demais acabei obedecendo-o. E acredite! Ele estava assustado! Eu nunca tinha visto meu senhor assustado antes, mas é claro que não demonstrei um pingo de preocupação. Eu era obrigado a ouvir suas reclamações, não de fato me importar com elas. Logo que me sentei sobre as almofadas já ia começar meu discurso ensaiado que o que ele quisesse me dizer ele deveria falar porque de minha boca não sai segredo algum e etc, etc... Não deu tempo, ele me soltou uma pergunta:

– Viu sua mãe sem seu pai por perto? – Dei uma risada curta quando ouvi ele dizer isso. Teria ele se esquecido que a identidade de meu pai era um mistério? Foi a primeira vez que achei graça em ser um filho sem pai. E acho que pela minha reação ele realmente entendeu que a pergunta dele fora idiota demais para vir de alguém mais velho e, no caso dele, obrigatoriamente mais inteligente que eu. – Sabe o que as leis falam sobre isso?

– As leis que ninguém mais segue? – Perguntei ainda rindo. – Meu príncipe, se todo mundo seguisse as leis do grande Hamurabi, eu não estaria aqui ou teria uma marca bem feia em alguma parte minha.

O príncipe se mostrou sério diante de mim. Inocente era eu que não compreendia que algumas pessoas de fato ainda se lembravam de algumas leis que não fossem as mais fáceis como a da “se um homem destrói o olho de outro homem, o mesmo deve ter seu olho destruído” e as seguiam muito bem. Com aquela voz igual a que eu fazia para Gemenanna sobre nossos sagrados deuses ele me disse:

– “Se alguém, na ausência de seu pai, tem contato com sua progenitora, dever-se-á queimá-la ambos”.

Naquele instante não sabia se eu deveria rir ou ficar sério, então mordi os lábios para apagar os traços de meu sorriso e admito que tive dúvidas se o contato era sexual ou só visual, mas preferi acreditar na primeira ideia porque no fim das contas algumas daquelas leis estavam tão ultrapassadas que não valia a pena segui-las, isso sem citar que pelo menos metade delas não se encaixava na nossa realidade. Confesso que em toda minha vida só pensei nisso duas vezes. Devo ter ficado uns bons minutos encarando-o sem dizer nada porque me lembro de tê-lo visto piscar três vezes, coisa que ele nunca fazia.

– Mas e você? – Estava vacilante na hora que perguntei isso a ele, mas prossegui com minha dúvida: – Você vê sua mãe direto e reto. Você não está quebrando essa norma também?

O esperado era que ele me desse um tapa no rosto, que dissesse que ele era o único príncipe herdeiro e é lógico que ninguém ficaria contra ele. Porém ele fez um pouco diferente: inverteu a ordem de minha descrição do que ele sempre fazia. Uma coisa que eu nunca gostei em minha terra natal é que as unhas de toda a realeza era cortada longe do limite da carne, algo que consegue arranhar uma pessoa facilmente na minha opinião. Os riscos que se avermelhavam em minha face não doíam de fato, mas ardiam bastante depois que a dor do tapa passava. Porém há algo bom em ser o escravo daquele príncipe: já estava tão acostumado com suas agressões que eu acredito que isso endureceu meu rosto o suficiente para não ser o estereótipo chato do escriba que só sabe escrever e que a brisa o derruba.

Enfim, o importante disso tudo é que eu fiquei pensando como o príncipe se lembrava de uma lei que pelos meus cálculos não estava em vigor há pelo menos uns mil anos e que ele ficou me enchendo a paciência, como sempre, com suas palavras de suposto aviso. E sendo altamente sincero, preferia que ele me batesse e calasse a boca de uma vez. Principalmente quando ele disse duas leis a respeito de adoção:

– Você foi pego do colo de uma meretriz, então basicamente é como um irmão mais novo! E o que você faz? Você corre para ela! Filhos de meretrizes, uma vez adotados, não podem jamais serem reclamados! – Cheguei a abrir a boca para tentar protestar contra ele, mas o príncipe prosseguiu: – E o filho, adotivo ou não, que diz ao seu pai “tu não és meu pai” deve ter a língua cortada! Sua sorte é que meu pai não sabe os detalhes do que aconteceu lá fora!

Naquele instante eu não quis ter as unhas curtas de roídas só para arranhar-lhe a face, só para ele saber a sensação deliciosa que ele sempre, sempre deixava em meu rosto. Também me lembro de ter fechado meus punhos, mas minha principal lembrança é a pequenina raiva que passei a sentir daquele pirralho remelento que simplesmente entrou em meu quarto para me atazanar e eu estava certo que ele fez isso porque em Larak seria uma coisa terrível me tratar da forma que ele me tratava em Ur. Ora essa, Larak só seria a casa dele quando ele fosse o patesi e até lá eu teria de ser tratado de igual para igual.

– Se ele soubesse que você sequer encontrou-a e até não quis voltar com a escrava... – Como eu quis mandá-lo se calar naquela hora... Eu sabia o que ele ia dizer... E ele disse. – Meu pai arrancaria seus olhos! Até porque pra escrever você não precisa ver mesmo. – Ele falava, falava... E eu não podia pará-lo. – E no fim ele só teria que pagar metade do seu preço pra mim! Ou seja, nada!

Eu quis interrompê-lo e perguntar se ele por acaso estava dando uma de amigo e me avisando das consequências ou se ele estava me ameaçando. E logo descobri que ele era um chantagista de primeira assim como era a rainha e o patesi. “Filho de uma puta” eu pensei, mas nunca cheguei a dizer isso porque seria muita hipocrisia de minha parte.

– Agora, eu posso dizer que você só viu ela e voltou amigavelmente com a escrava por vontade própria se me fizer um favor! – Eu devo ter pedido para Lamashtu sugar o sangue dele enquanto dormia em minha mente quando o príncipe disse isso. É claro que eu assenti com a cabeça antes de ele prosseguir. – Você vai dizer que qualquer dano que eu causei ao meu pai foi feito sem querer.

Eu fiquei entre a lei que punia por levantar falso testemunho que me mataria ou as que arrancariam meus olhos e minha língua. Não, não pensei na de me queimar porque aquilo simplesmente não estava em vigor. Acabei tendo de perguntar o motivo daquilo tudo.

– Você brigou com o supremo Patesi e bateu nele. É isso?

– Isso.

– ... “Ceeeeerto”... – Entre o riso e a incredulidade acabei ficando no meio do muro em que deixa aquela expressão no mínimo estranha e idiota no rosto. – E é por isso que você está aqui?

– É.

Acabei explodindo em gargalhadas.

– Filho de uma puta! – Ouvi o príncipe dizer. – Presta atenção! Meu caso é sério!

– Sim! Sim! Muito sério! – Foi mais ou menos o que eu disse enquanto rolava pelas almofadas. – Entre eu cego e mudo e você maneta... Ah! Você nem usa as mãos pra nada mesmo!

Se eu visse aquela cena que aconteceu depois disso eu acharia estranha e engraçada: um menino parrudo descendo a mão em um pirralho magrelo dando risadas é no mínimo muito esquisito! É claro que estava machucando, até cheguei a sangrar pelo meu nariz e ganhar uns três ou quatro hematomas nas costas, mas eu estava gargalhando! E o meu príncipe irritado me mandando levantar falso testemunho com a desculpa que se eu dissesse que vi que “foi sem querer” ninguém iria me contrariar e mesmo que eu fosse descoberto o patesi não me mataria.

Cansado de me bater e eu quase sem conseguir respirar pelas risadas ele me puxou para onde estava o patesi. Aparentemente ele seria o juiz do caso. Foi algo rápido, coisa de quatro ou cinco perguntas trocadas entre pai e filho e uma feita diretamente a mim se eu tinha visto o que aconteceu e sob o olhar do príncipe acabei por mentir. Após isso não restou nada de minha noite, só o tempo que eu tinha para dormir antes de partir para Larak pela manhã.

Naquela noite eu mal preguei o olho, pois ele ficou aberto e fixo em algo que eu deveria ter reparado antes: o anel de seixo foi encaixado em meu polegar esquerdo. Até hoje eu não consigo me lembrar quando o coloquei ali, apenas sei que ele ficou e ninguém questionou a presença dele na minha mão.

Aquele dia foi o primeiro que fui acordado antes do sol e me coloquei de pé sonolento para que as criadas que me acordaram pudessem me banhar e, pelo que eu entendi, me preparar para uma longa viagem.

Eu finalmente iria embarcar em uma aventura, mesmo que essa jornada fosse esperada.

Notas finais
Eu gostaria de esclarecer que o nome "divino" do personagem Enkiamtu não está usando o idioma sumério e sim uma das variações assírias para "Namtar", ficando assim "Namtu". (Eu deveria ter dito antes, mas deixa quieto.) Vasto Caminho é o mundo dos mortos segundo os sumérios e... Pela descrição é tipo um inferno. Sobre as leis citadas aqui são realmente tiradas do código de Hamurabi. Até o próximo capítulo!