Estrela da Babilônia

2 Capítulo 2 - O enviado de Larak


Notas iniciais
Uia! Eu realmente não esperava escrever o segundo capítulo tão cedo! Mas, fazer o quê? A inspiração e a animação estão do meu lado! Lembrem-se: sobre as palavras estranhas ou citações de estranhamento, nas notas finais eu explico tudo e que esse conto é totalmente o ponto de vista do protagonista. Boa leitura!

Quando eu fiz dez anos e o príncipe fez treze, algo de estranho ocorreu e que eu só entendi quando era muito tarde. O Patesi recebeu um visitante de pele escura que falava uma versão diferente de nosso idioma e sem unir tanto as palavras e foi isto que me confundiu. Para ouvir os assuntos do estado o príncipe e eu nos dávamos até bem: ele se escorava pelo lado direito da porta e eu pelo esquerdo e quando não fazíamos isso apenas colávamos nossos ouvidos nas portas grossas. Hoje eu vejo que fazer aquilo era inútil, já que a maioria das portas estavam tão velhas e gastas com buracos aqui e ali que o som passava livremente. Mas, fazer o quê? Éramos crianças e eu não sei se fazíamos isso por instinto ou por brincadeira.

O estranho disse que se chamava Enkiamtu, eu acho, uma variação bem estranha para a junção de “Enki” e “Namtu” e também uma presunção enorme de quem lhe dera aquele nome na minha opinião, pois usar nome de deuses não é a melhor coisa do mundo segundo os ensinamentos do Patesi. Enkiamtu falava depressa, fazendo pausas e com um acréscimo imenso de sons, tanto que eu entendi uma das frases dele como sendo “você mistura manteiga com pedra ovo e mexe bunda com mar e cumbuca morte da ilha da rainha da ilha rainha morte da rainha da ilha” ou algo parecido que me faz soltar aquele riso reprimido de torcer a cara por completo. Não sei se meu príncipe entendeu o que o estranho estava falando ou se ele nesse ponto era mais maduro que eu, mas eu pude ver ele baixar os olhos para os pés descalços com uma tristeza que eu nunca vi naquele rosto moreno com algumas sardas sobre o nariz e testa. Confesso que isso me assustou e me fez sentir um rastro de pena que durou somente dois segundos. Ouvi o Patesi dizer algo em outro idioma e Enkiamtu também, e pelo modo como a conversa fluía agora eu entendi que Enkiamtu não falava nosso idioma naturalmente. Falavam palavras em acádio e eu não entendi nada além de coisas soltas, afinal, eu mal começara a me interessar nessa língua estrangeira que as serviçais diziam que em boa parte do império fora de nosso reino o falava, mesmo que o oficial fosse o “parsa”, o elamita e um outro que servia de língua franca e que agora não consigo me lembrar, já que nunca o usei.

De repente as portas se abriram e nós, os moleques bobos do palácio, fomos ao chão pelo impacto da abertura da porta que, por ser pesada, eu jamais achei que poderia ser aberta como se fosse feita de pano! O laço de minha saia de linho se desfez assim como os adereços de cabeça de meu príncipe voaram para longe dos cabelos negros. Eu esperava que o Patesi nos punisse por estarmos ouvindo a conversa por de trás da porta. Não, não havia meios de dizer que nós só estávamos passando e não sabíamos que eles estavam naquela sala, primeiro porque éramos dois barulhentos até no andar, segundo porque o Patesi dissera que não queria ser incomodado e todos ali sabiam o lugar que ele recebia as pessoas de fora. Ele não nos puniu como eu acho que gostaria, pois as primeiras coisas que eu ouvi foi o estranho dizendo de forma bem pausada para que eu e o príncipe entendêssemos:

– Qual dos dois é seu filho?

O Patesi não disse nada, apenas apontou para o príncipe que agora se sentara no chão e colocava de volta os adereços dourados sobre a cabeça. Nisso eu vi o olhar do homem sobre mim e naquele instante eu definitivamente fiquei com medo de ver seus olhos grandes e escuros pousados sobre minha figura pequena que tentava fechar de volta o nó da saia.

– Suponho que ele seja o futuro vizir. – Disse o estranho ao apontar aquele dedo negro com uma longa unha branca para mim. – Então ele vai também.

– É só o filho de uma ex-sacerdotisa, não acho que chegue a ser um bom vizir, mas temos educado-o para tal, o garoto é inteligente até certo ponto. – O Patesi falou com um deboche que eu nunca ouvi ele dizer. Pelo que eu entendi o príncipe iria para algum lugar e o Enkiamtu queria me levar junto enquanto o meu senhor desejava que eu ficasse. Por quê? Eu nunca soube ao certo, afinal, onde o príncipe vai o “amigo”, “escravo” e futuro vizir deve ir também. – Hilgahaan, aquela que agora tece roupas na rua principal é a mãe dele.

– Hilgahaan! – Enkiamtu disse ao sorrir e coçar o queixo redondo adornado com uma barba grossa. Ele certamente já tinha dormido com minha mãe. – Me lembro dela!

Pronto, agora eu tinha certeza. O pior veio em seguida: o Patesi imitou o gesto do visitante e direcionou os olhos para o teto. Na época eu só pensei uma ofensa muito grande, um bordão para surpresa, mas hoje eu me pergunto se eu não era um meio irmão bastardo do príncipe. Sinceramente? Se eu for, eu espero que todo aquele caráter digno de um tirano só tenha sido herdado da mãe dele!

Nesse instante o príncipe foi para o quarto dele e eu para o meu, ambos de nós acompanhados por serviçais.

Logo que entrei em meu aposento com paredes de calcário laranja, teto de lápis-lazúli decorado com leões e auroques dourados, cortinas de seda amarela com bordas de ouro que vinham de um distante lugar ao oeste e as mais diversas estátuas de deuses feitas em argila com as mãos unidas eu tive certeza que essa era a última vez que eu veria meu quarto. As serviçais começaram a puxar todos os tecidos que eu usava como roupas, todos os pedaços de carvão que usavam em meus olhos, minha prancha de madeira que eu usava para apoiar a argila que servia para anotar minhas lições, minha cunha, minhas sandálias feitas de couro cru de boi e todas as minhas jóias, incluindo as que se encontravam em meu corpo naquele instante. Puxaram todos esses objetos de seus devidos lugares e os arrumaram dentro de caixas douradas com entalhes de leões e auroques com uma tranca contendo a feia face do deus Pazuzu. De fora da caixa só ficaram uma túnica marrom longa com diversos desenhos de flores quadradas em suas bordas com linhas amarelas de lã, as únicas sandálias extremamente abertas que eu tinha feitas com couro de auroque, alguns pares de anéis de mão e pé, um par de braceletes dourados enfeitados com jaspe laranja e granada, um par de tornozeleiras e brincos pesados que faziam o formato de grandes cachos de uva com suas folhas caindo soltas sobre os frutos que, além de machucarem minhas orelhas, até raspavam em meus ombros. Por fim um diadema que eu nunca vira antes fora posto junto de toda aquela riqueza: um diadema com fios cheios de contas de lápis-lazúli, granada, jaspe e água-marinha com terminações de folhas douradas e um grande pombo de ouro com suas asas abertas. Por acaso queriam me vestir como se eu fosse uma encarnação da deusa Inanna? Chegava a ser estranho.

Notas finais
Enki e Namtu são deuses sumérios, o da terra e o do destino respectivamente e dar nomes com origem divina é quase considerado uma blasfêmia a menos que você seja da família real. Como eu disse no capítulo anterior, a língua dele é aglutinada e o fato de fazer pausas em lugares errados, dar mais fonemas e juntar onde não há junção muda totalmente o sentido das palavras. Naturalmente os "escravos de príncipe" acabavam se tornando vizires e, até como vemos hoje em dia, não é tão bom ser "filho da puta". Auroques são touros extintos no século XVII d.C. e eram muito maiores e selvagens que os bois que vemos hoje e este touro é um dos símbolos divinos do panteão sumério, assim como o leão e o pombo são dois símbolos diretos à deusa Inanna. O deus Pazuzu ás vezes era posto em trancas e placas para evitar que coisas ruins entrassem nos lugares que sua estátua ou face era posta, desde portas de casas à algumas caixas de grande porte. Até o próximo capítulo!