Estrela Solitária

5 Capítulo 3: Bad Boys


Notas iniciais
Enters Yusuke Urameshi.
Capítulo 3: Bad Boys

—Ayu,meu amor,seu sorvete derreteu de novo!

—Tudo bem,eu preciso maneirar mesmo.

As duas estavam sentadas à mesa da cozinha, uma diante da outra, há cerca de meia hora.Reiko fitava a mulher mais velha, refletindo.Não era raro Naomi Fujiwara chamá-la pelo nome ou apelido de sua mãe,Ayumi,e não corrigir o engano.

—Você não vai mais sair?

—Só quando vovô chegar.

—Eu vou ficar bem sozinha, querida, pode ir.

A garota apenas sorriu.O modo ingênuo e distraído da avó lhe chamava muito a atenção.Ela era realmente daquele jeito?Ou será que necessitava ser?

—Ele chegou!

A mulher foi depressa cumprimentar o marido, dando-lhe um beijo no rosto e um abraço demorado.

—E eu já estou de saída!—Anunciou a loira,também abraçando o avô.

—Aonde vai à uma hora destas?

—Uma amiga pediu pra eu ir até a casa dela.Está com uns problemas e quer conversar com alguém.

—Tudo bem,mas já é meio tarde tarde!Eu vou levar você e depois buscar.

Reiko sorriu com gosto.Kenichiro Fujiwara não se conformava com o fato de que sua netinha era uma das últimas pessoas no mundo a precisar de proteção.E ela adorava,precisava desse cuidado tão dispensável e indispensável ao mesmo tempo.

—O irmão dela pode me trazer de volta.E não esqueça do alarme!Toque à qualquer hora e eu estarei aqui tão rápido quanto o Super-Homem poderia estar.

Ele pareceu um tanto inquieto, como se a lembrança de algo ruim tivesse vindo à tona.

—Nada disso.Deixo você lá, e quando for a hora,telefone e eu vou buscá-la.Do contrário,desligo o maldito alarme,e pronto!

—Nós temos um acordo,caro colega,conforme a Lei Familiar.—Ela ergueu as sobrancelhas.—Porquê não janta e pensa na próxima condenação enquanto vovó me leva até a casa da Shizuru?

Ele cruzou os braços, solenemente.—Está decidido, iremos os três!

***

Yusuke Urameshi vestia um espesso casaco verde-escuro e levava as mãos dentro dos bolsos do jeans enquanto caminhava pela noite fria.Mesmo assim,seus dedos estavam congelando.

A mãe,Atsuko,tinha deixado um bilhete na porta da geladeira: “Precisei viajar à trabalho!Se não for pra escola,pelo menos cuida do nosso lar!”

Ele entrou na primeira casa de jogos que apareceu.Apostara consigo mesmo ser capaz de ficar longe das bebidas alcoólicas nos dias ímpares do mês,porém,felizmente,possuía outros vícios com que se distrair.

***

—Conta logo qual é a brincadeira!

—Só um minuto,Kazuma,sim?—O tom educado apresentava certa austeridade.

Kuwabara estava grudado à porta do banheiro, enquanto lá dentro, Reiko se trocava.Ao sair, ela vestia calças compridas pretas e um largo moleton cinza.Seus maravilhosos cabelos estavam presos num rolo,amassados dentro de um boné preto.

—Você não sai daqui enquanto não me contar o que está aprontando!—Ele afirmou,desconfiado,enquanto desciam às escadas.—Porquê está vestida desse jeito?

—Eu só tenho um encontro com uma pessoa que meu avô não aprovaria,satisfeito?

Ele se postou diante da porta de entrada,resoluto,expressando um valente ar de responsabilidade.

—Não me diga que vai espionar a ação das gangues outra vez!Porquê se for,eu irei junto!

—Hoje não.Realmente,eu tenho um encontro.

—Sei...—Kuwabara corou.—Com uma menina,por isso está camuflada,não é?—O garoto sussurrou,com ar cúmplice.

—É,com uma menina...nós ainda estamos nos conhecendo!Se der certo,eu apresento ela pra você,muito em breve!

—Então eu te acompanho,onde vocês marcaram?

Mais essa!

—Ela vai ficar brava se me vir com você.Sabia que ela morre de ciúmes da nossa amizade?

Kuwabara arregalou os olhos.—É mesmo?!

Reiko agarrou-lhe pelos ombros.—Tá,agora deixa eu ir senão perco a namorada antes do primeiro encontro!Toma,guarda minha bolsa,tchau!

A garota saiu, deixando-o pensativo.Kuwabara colocou a mão no queixo, fazendo uma alegre careta.“Tomara que dê tudo certo...claro,as pessoas tem direito ao amor,não importa que sejam duas mulheres,dois ho...êpa,peraí,dois homens?!Bom,desde que não seja comigo,tudo bem!”

—Tem uma barata andando em você!

Berrando, o grandalhão deu um salto,estapeando o próprio corpo.

—AAAHHH, QUE NOJO, QUE...ué...!Não tem barata nenhuma!, Shizuru,pára de me sacanear!

A moça deitou-se no sofá, segurando uma lata de cerveja.—A Reiko já foi?

—Já!—Livre do susto e da zanga, Kuwabara deu um sorriso sem graça.—Parece que arrumou uma namorada, e se o avô souber...

—Ela não é lésbica.—Shizuru balançou a cabeça.

—Claro que é!Ela mesma confirmou!

—Eu sinto de um monte de coisas que você não sente, maninho, pra variar!

***

No recinto abarrotado de gente,a mistura das vozes não atrapalhava sua concentração.Diante da máquina,Yusuke jogava equilibrando um cigarro entre os lábios e batendo os pés contra o chão.

—Parece que alguém entrou pelo cano...

—Tomara que não chamem os tiras,senão eles vão perturbar todo mundo!

Só então o rapaz olhou para a entrada.Havia um círculo afoito de pessoas.

“Oba,encrenca!”

Ele se dirigiu ao local,com a sacola de brindes do jogo pendendo de seu braço,mas só o que encontrou foi uma garota chorando em transtornado silêncio.Parte de sua blusa estava rasgada,e em sua face esquerda havia um grande hematoma.Ela abraçava o próprio corpo,tanto para tentar se cobrir quanto para se proteger de um perigo agora invisível.

—Vamos chamar a polícia!

—Não,nada de polícia!—Ela balançou a cabeça com força,de repente ganhando determinação.

—Você conhece o cara que te atacou?

—O que ele fez exatamente?

—Eu posso levar você à delegacia,se quiser...

—Parece que ele só conseguiu dar uns tapinhas e uns arranhões...

—Podemos levar você pra casa,gata,sem problema!

—Por mim a gente procurava esse safado e enchia de porrada!

—Que tumulto é esse?!

—Essa garota foi agredida por um tarado!

—Que bizarro,cara...

—Como se fosse a primeira ou a última!Vamos desinfetando,aqui não é entidade de assistência!

Era o gerente da casa de jogos.Yusuke o fitou com raiva,antes de agarrar-lhe pelo colarinho.

—Tá por fora,tio,acabou de virar!Vai buscar água pra moça,anda!

Urameshi largou o homem bruscamente,que assustado ao reconhecê-lo como o delinqüente mais barra-pesada do distrito,foi correndo cumprir a ordem.

—E vocês,bobões,podem ir dando o fora!—Ele abriu caminho entre os curiosos,atirando o cigarro fora.—Tão deixando ela com mais medo ainda!

Algumas pessoas protestaram.Só queriam ajudar!Outros,que estavam ali apenas para quebrar a rotina,quiseram iniciar uma discussão.

—Vai terminar o serviço, Urameshi?

O jovem não encontrou fôlego para responder,e tampouco para começar uma pancadaria.Ele despiu o casaco e o colocou sobre os ombros da menina,ainda observado pelos demais.Ela continuou intimidada,mas ergueu o olhar.

—Qual seu nome?

—Esquece,eu só quero ir embora daqui!

O gerente estava de volta,muito ressabiado.Yusuke pegou a garrafinha plástica de água,tirou a tampa,e ofereceu à outra,que permaneceu imóvel.

—Olha...—Ele baixou a voz,de modo que a conversa ficasse apenas entre os dois.—...eu não quero chamar a polícia e não me interessa o que aconteceu.Só quero saber o seu nome.

—Eu quero ir embora...—Ela balbuciou,ainda trêmula,porém um tanto mais calma.

—Certo...—O estudante olhou ao redor,contrariado.—Fora,saiam daqui!

Logo,cada um tinha ido cuidar da própria vida.Yusuke Urameshi fitou a garota,mas ao invés da comoção e simpatia,o rapaz teve um pequeno choque de ressentimento:ela o observava com ar inofensivo,mas ele podia ver em seus olhos a explícita desconfiança.Pelo visto,a marca de sua fama era muito forte.Nem se lembrava de algum dia já tê-la visto!

—Não vou te morder!Tá legal?!Nenhum daqueles imbecis mexeu um dedo,então,agora,você só tem à mim!Vai,me diz,qual é o seu nome?

—Kaoru...Kaoru Motomiya...

Após soprar as palavras,a mulher simplesmente foi se encolhendo,até sentar no meio fio,abraçando as pernas e descansando o queixo sobre os joelhos.Seu olhar triste abrangeu toda a rua,perdido,como se procurasse algo e soubesse que não encontraria ali.

Finalmente,o bad boy arranjara o que fazer.Suspirando,meio resignado,meio impaciente,sentou-se ao lado de Kaoru Motomiya.

Não muito longe,Reiko tinha acabado de descer do ônibus. Ela começou a caminhar olhando para todos os lados,até resolver relaxar.Acariciou o telefone celular e o aparelho de alarme que estavam no bolso do moleton,pensando nos avós.E se não conseguissem apertar o botão à tempo?

Fujiwara sacudiu a cabeça,perturbada.Se fosse para viver assim,era melhor ir ao Makai e ajoelhar-se,esticando o pescoço.

Passou na frente de um bar bem agitado e mal freqüentado.Ouvira falar que Yusuke passava a noite bebendo e batendo nos outros ‘bebuns’.

“—Ele só tem pose!”,dizia Keiko Yukimura.Reiko ficou em dúvida,observando a entrada do ‘inferninho’.Youkais errantes também se reuniam naqueles lugares.

Nenhuma boa notícia valeria passar por isso!Até porquê se estivesse bêbado,o máximo que ia arrancar dele seriam relatos exagerados de proezas delirantes.

Percorreu mais dois quarteirões,procurando seu alvo,até que foi observada com curiosidade por alguns sujeitos ao passar debaixo das luzes dos postes.

—Nossa,ela é muito linda,olha só!

Reiko baixou os olhos.Odiava comentários sobre sua aparência.Parecia que todos só enxergavam isso quando olhavam para ela.

A garota se concentrou no sentimento de irritação.Deixou a vontade reprimida de xingá-los sufocar-lhe,apenas sua mente trabalhava,instigando a misteriosa força invisível a explodir todas as lâmpadas que iluminavam a rua.No escuro,ninguém mais poderia observá-la.

Yusuke Urameshi estava começando a se desesperar.Kaoru Motomiya chorava,agonizante.Ao se virar para o lado,sem saber mais o que fazer,seus olhos bateram na pessoa que estivera parada ali,há poucos passos de distância.

—Oi!—Ela sorriu,com a elegância descontraída que lhe era peculiar.—Algum problema?

O rapaz fitou Reiko Fujiwara com muita surpresa,quase boquiaberto.A colega de escola tirou o boné,sacudindo seus longos cabelos.

—Er...essa menina,ela...—O bad boy gaguejou,apontando para Kaoru e olhando para a loira.—Ó,não fui eu quem fiz isso,não,pode perguntar!

Reiko se agachou,muito próxima à Urameshi.—Porquê ela está assim?

—Eu tava aí dentro jogando,quando começou a confusão aqui fora.Parece que ela foi atacada por alguém...—Ele falava em voz baixa,pressuroso.—...disse que queria ir embora,mas agora não sai do lugar e nem diz o que aconteceu!Eu tava aqui esperando,né,pra ver se ela saía do transe...pra variar tinha uns idiotas aqui,enchendo o saco!

O moreno aspirou um perfume fresco,marcante.Os olhos azuis tão cristalinos o fitavam com uma intensidade calorosa.

—Ela disse como se chama?

—Kaoru Motomiya.

—Certo...Yusuke,será que você pode se afastar um pouco,por um momento?...Talvez ela se abra mais comigo do que com você.

—Claro!

Os dois se levantaram ao mesmo tempo,e ele notou o quanto era mais baixo,embora naquele momento isso não lhe interessasse.A outra ia deixá-lo,mas parou de repente.

—Obrigada por ter feito companhia à Kaoru.

Ela deu-lhe uma piscadela sem afetação,e se dirigiu à menina,deixando-o de braços cruzados,observando a cena,intrigado.‘Obrigada’ pelo quê?Elas nem se conheciam!

—Kaoru...meu nome é Reiko Fujiwara...eu estava passando,e resolvi parar pra conversar...

Nada de resposta.A outra apenas fitou-a nos olhos,com absoluta tristeza.

—O Yusuke,ali...ele foi legal com você?

Um breve aceno de cabeça indicou que sim.Reiko sorriu.

—É difícil encontrar pessoas gentis,ainda mais num lugar cheio de idiotas como esse...eu fico muito grata...

A jornalista amadora havia ficado de joelhos,diante da moça.Falava-lhe como o avô lhe falava muitas vezes,com suavidade e firmeza,paciência,mas objetividade.

—Você consegue andar?

A garota, que vestia calças jeans,assentiu.—Po...posso...

Reiko esperou,mas Kaoru não falou mais.

—Está frio...e precisa cuidar desse machucado...

—Eu não vou pro hospital,eles vão chamar a polícia!

A loira ficou apreensiva.Motomiya estava quase em choque.Parecia que ia desmaiar a qualquer momento.Seu olhar fixava-se sobre a estranha que tinha “parado para conversar” implorando por cuidados, mas só se pudesse ficar quieta.Senão, arrumaria forças só o diabo saberia de onde, e fugiria.

—Como você quiser, nada de hospital.O melhor nessas horas é o calor de casa mesmo.

Teria de conquistar a confiança dela se quisesse ajudá-la.Chamou por Yusuke.

—Oi?

—A sua casa é perto daqui?

—É sim.

—Teremos de levá-la pra lá,tudo bem?

—Claro!

—Kaoru-san...—Reiko voltou-se para ela.—...você concorda em ir?

A moça olhou para Yusuke de soslaio,com receio.

—Você não quer?

Kaoru sacudiu a cabeça.Urameshi bufou.

—Eu não faço parte de nenhuma dessas turmas,sou a minha própria gangue!

—Isso é tranqüilizador, mas se ela não quer ir, então não irá!—Decidiu Reiko,apanhando o telefone e discando um número.—Alô?...Boa-noite, SenhoraYukimura?...Aqui é Reiko Fujiwara, uma colega de escola da Keiko, como vai a senhora?...Será que vou incomodar se aparecer por aí agora?...Certo, muito obrigada...até logo!

O restaurante da família Yukimura ainda estava aberto.Reiko passara o braço por sobre os ombros de Kaoru, sentindo seu leve tremor durante quase todo o caminho.

—Yusuke!O que aconteceu?

Era Keiko,aproximando-se.

—Também tô doido pra saber!—O rapaz vinha à frente.

—Nada de perguntas...tem muita gente aí dentro?—Foi Reiko quem perguntou.A outra fitava Kaoru Motomiya com preocupado interesse.

—Tem,mas vamos entrar!

Urameshi abriu passagem.A senhora e o senhor Yukimura estavam ocupados,atendendo as mesas e preparando pratos,respectivamente,enquanto a filha do casal conduzia os recém-chegados à casa da família.

Yusuke foi o último a subir às escadas.—Você vai nos contar o que houve?

—Ela vai...—Reiko voltou-se para ele,com alguma inquietação despontando em sua calma.—...quando ficar mais à vontade.

A loira levou a menina a sentar-se no sofá,enquanto Keiko saía da sala de estar.Yusuke ainda de pé,olhando ao redor,segurava a garrafa de água recusada por Kaoru Motomiya.

—Coloca no rosto dela.—Yukimura retornara,instantes depois,com uma bolsa cheia de gelo.Fujiwara comprimiu-a sobre o machucado,até que a moça decidiu fazê-lo por si mesma.

—Você quer se deitar?

Kaoru fitou a solícita Keiko,abrindo apenas o olho direito.—Não...obrigada...

—Bem,se vocês não precisarem mais de mim,eu já vou!

—Espera!

Ele levantou o polegar para sua amiga de infância.—Qualquer coisa me liga,eu tô indo pra casa,até amanhã.Tchau, Fujiwara...força,Kaoru.

O bad boy desceu ruidosamente as escadas, alcançando a saída antes de ser visto pelos pais de Keiko.

***

—O próximo é...Andy Lau!Andy Lau...quer uma intimação por escrito,cara?!

Era um ginásio subterrâneo improvisado,com arquibancadas de metal e grandes holofotes cobrindo toda a área.Repleto de pessoas,na maioria homens,contava com uma grande arena quadrada,guarnecida por arame farpado entrelaçado em barras de suporte nas extremidades.A distância entre os fios paralelos,dispostos na horizontal,não atrapalhava a visão do público e nem permitia que algum lutador tentasse fugir.A ‘cela’ possuía uma cúpula confeccionada em ferro,envolto pelo mesmo material da cerca.

‘Andy Lau’ levantou-se do banco de pedra e deixou a ala dos desafiantes calmamente,fitando o chão.Tinha ouvido aquele nome numa conversa entre duas humanas taradas,enquanto tentava ignorar o aborrecimento que o tal do ‘metrô’ lhe causava.

Gostava mais de viajar de carroça,sentindo a brisa bater contra seu rosto,ou planando pelos céus pilotando as geringonças do bando de seu primo.A vida no Makai poderia ser ferrada,mas tinha seu lado divertido.

Agora,ele atravessa o ‘Corredor do Adeus’,como fora batizada a passagem estreita que os novos lutadores usavam para chegar à arena e enfrentar um veterano.

—Ele vai pegar esse teu rabinho de cavalo e fazer você voar!

Arago preferiu não olhar para os homens que o cercavam e correr o risco de descobrir o autor da gracinha.Poderia matar à todos,mas de que adiantaria amontoar cadáveres e sair dali sem um centavo no bolso,perseguido pelo Reikai?

O homem,de estatura mediana,corpo forte e olhos castanhos tentou erguer o olhar,mas uma estranha reserva o deteve.As vozes dos humanos o incomodavam além da raiva que seria normal.Sentiu-se mais uma vez dentro do metrô,observando a paisagem estéril e limitada,cercado por pessoas tão diferentes e distantes,num passeio monótono.

Ele subiu no ringue.A porta de acesso foi trancada à cadeado.O outro lutador desafiava-o com gestos firmes,muito compenetrado.Arago analisou a energia interior do humano franzindo a testa.Jamais lutara contra alguém ‘da outra raça’.

—Osa Nakano,27 anos,onze vitórias consecutivas,enfrenta Andy Lau,328 anos de idade!,e mesmo assim,nenhuma vitória!Se perder,deverá ter ainda mais uns 300 pra se recuperar!

“Obrigado,agora vá se foder!”—Ao fazer a inscrição,tinha se atrapalhado e dito a verdadeira idade.Todos riram,deixando-o extremamente aborrecido.

A torcida numerosa vibrava mais pelo vencedor consecutivo do que pelo desafiante desconhecido.Este se lembrou das lutas que já disputara no Makai.Não havia torcida,dinheiro em jogo,ou aquele ar de grande evento,apenas a energia e a emoção dos lutadores queimando em conjunto no desejo de elevar ao máximo sua capacidade.

Derrubou Osa Nakano com um soco apenas.A platéia dividiu-se entre a fúria—...grandes apostas,graves prejuízos...—e a ovação,mas esta enervou-lhe.Pensou nos escravos que conhecera perto da aldeia,sendo forçados a batalhar entre si para diversão de youkais poderosos.Jurara jamais ser um deles.

—O cara é fora de série!

O patamar superior ostentava diversas amuradas, que serviam perfeitamente como camarotes.De lá,integrantes da família Hisamatsu e seus convidados aproveitavam o show.

—Tem razão...!

Os dois homens dividiam uma garrafa de uísque rodeados pela fumaça de charutos.Kenzaki e Ishida tinham chegado ao topo à custa de muito trabalho.O Oyabun,o patrão,o pai,era em suas vidas o resumo de família,religião,ideologia e moral.

—Engraçado...parece que ele tem o mesmo tipo de técnica que o novo recruta...bate uma vez e mata na primeira.—Ishida falou,fitando Kenzaki.—Isso me preocupa...sabe,é estranho...ele olha pra nós como se...eu não sei...

Ele bebeu mais um gole.O outro pousou o charuto no cinzeiro elegante sobre a mesinha de vidro entre as poltronas.

—Andy é apenas um cara que se veste engraçado e mesmo assim consegue ficar sério pra caramba...nem nós que usamos terno e gravata o tempo todo parecemos tão respeitáveis...

—Não,tem alguma coisa errada com ele!Parece que veio de outro planeta,não sabe o esquema das coisas...ontem,na festa,bebeu uns duzentos litros de vinho e champanhe,mas parecia que estava bebendo água com gás!Quando estávamos conversando,perguntou onde ficavam os tanques de guerra e porquê existe “esse negócio de polícia”!

—O que você respondeu?—Kenzaki achou graça,ignorando a balbúrdia abaixo.

—A verdade,que nós aparecemos primeiro,lá no início dos tempos,aí,como tinha um monte de caras sem emprego,o governo resolveu colocá-los na nossa cola pra sempre!O maluco ficou com cara de besta e disse que o povo deveria se juntar à...como foi mesmo?...Ah,que o povo deveria se juntar aos grandes senhores para se proteger ou se agrupar em aldeias vigiadas por guerreiros da comunidade no alto das montanhas!

—Ele só estava te sacaneando,Ishida...

—Eu não me surpreenderia se alguém me dissesse que ele veio de um passado distante e muito esquisito!

—A garrafa está muito próxima e quase vazia,por isso está falando tanta besteira!—Kenzaki repreendeu,num misto de condescendência e exasperação.—E o assunto da garota,já resolveu?

—Não,eu estava aqui,ajudando você a se aproximar da garrafa e esvaziá-la!

—Que merda!—O homem mais velho se levantou.—É nisso que dá subir na vida e não esquecer dos amigos!Você está muito irresponsável,Ishida!Porquê não testou Andy Lau antes da luta?!O chefe vai se zangar,vamos ter um grande prejuízo!

—Mas assim parece emocionante,por causa do fator surpresa...

Assustado,Isamu Ishida pulou da poltrona antes de ser atingido pelo cinzeiro.

—Cara,você é um serial killer,muda de personalidade sem mais nem menos!

—Isto são os esquizofrênicos,seu ignorante!Agora,mande Kato soltar aquela menina antes que a vadia que escapou apareça aqui com os tiras!Dê dinheiro à ela também,assim acaba tudo bem!

Ishida ficou desesperado.—Ele não vai querer!Porquê você não vai lá?

—Vou verificar o caixa,que deve estar uma bagunça...você resolve o assunto da garota!Se ela já estiver morta,deixe que Kato satisfaça suas esquisitices,e livre-se pessoalmente do corpo.Dê à ela um enterro digno,mas em algum lugar muito profundo e de acesso quase impossível.Vai!

Kenzaki dera um tapa encorajador no ombro do amigo.Fora promovido há pouco tempo,e tinha horror à possibilidade de cair no conceito da família,não importa o quão loucos alguns de seus ‘irmãos’ poderiam ser.