Estrela Solitária
11 Capítulo 9 : Tempestade de verão
Notas iniciais
Desculpem a demora!^^'
—EI!—O garoto gritou de repente, chamando a atenção de transeuntes. —TEM UM PEDÓFILO PASSANDO A MÃO EM MIM!A MINHA INOCÊNCIA ESTÁ AMEAÇADA, CHAMEM A POLÍCIA!O espanto e a zanga fizeram com que Takenaka afrouxasse a pressão. Rindo loucamente, Yusuke desprendeu-se com agilidade, girou o corpo, deslizando até à calçada. Ele permaneceu agachado, mesmo quando o professor acudiu.—Levante-se e já para a aula!Urameshi bocejou demoradamente. Ele ficou de pé, enquanto se espreguiçava. —O que tem atrás da porta número 2?O homem franziu o cenho, de cara fechada. —Yusuke... ao menos tente se interessar por alguma coisa!Não é possível que sua cabeça esteja tão vazia à ponto de se distrair fazendo nada!Você não será um menino a vida toda, precisa pensar no seu futuro agora, por que do contrário...—Eu sei!Tá legal?!Eu já ouvi esse papo um milhão de vezes!—O garoto levantara os braços, num gesto de impaciência. —Porque do contrário eu vou ter de trabalhar como operário, morar num cortiço fedendo à urina,quando me aposentar vou me transformar numa parasita da sociedade,e todas aquelas outras merdas que vocês falam quando querem parecer que venceram na vida...—Você precisa ter disciplina para alcançar suas metas, um bom emprego com que possa sustentar sua família...—Que família o quê, velho, tá variando??Se sozinho eu já vivo encrencado, imagina se fabricar uma gangue doméstica!Takenaka deu-lhe um cascudo.—Yusuke,as pessoas precisam trilhar caminhos para seguir na vida,e chegar à algum lugar!Porque não segue o exemplo de sua amiga?A menção de Keiko Yukimura fez o mal aluno refletir por um instante.—Ah...cada um na sua...a Keiko deve saber o que ela quer da vida...eu ainda não sei,e por enquanto,isso também não me interessa!E se algum dia eu descobrir, não vou te contar, por que fazer relatório da minha vida pro segundo cara mais chato do mundo não vai me conseguir um bom emprego!Valeu, meu camarada!Yusuke estalou os dedos debaixo do nariz do professor antes de enfiar as mãos nos bolsos e partir rapidamente, descontraído em seus movimentos pueris de salteador.Alguns momentos depois de dobrar a primeira esquina,ele parou de saltar.Caminhando à esmo pelas ruas,Urameshi evitou pensar no que quer que fosse.Tinha lembranças muito vagas à respeito de seu pai.Entretanto,pensar naquela figura quase abstrata deixava-o estranhamente agitado desde a infância.Brigara pela primeira vez aos nove anos de idade,com um coleguinha de classe,durante um inocente trabalho em grupo.Deste episódio,Yusuke recordava-se perfeitamente:uma das meninas lhe perguntara porque seus pais nunca apareciam nas reuniões escolares.Sabendo o quanto o garoto se chateava com aquilo,Keiko Yukimura respondera em seu lugar,dizendo ser falta de educação intrometer-se na vida de outros.Um dos meninos do grupo decidiu opinar sobre o assunto assim mesmo:não somente ele como toda a vizinhança tinha ciência de que Atsuko Urameshi “era uma prostituta muito desorganizada,pois ao invés de fazer uma lista com os dados completos de seus clientes e assim descobrir qual deles poderia ser o pai de seu filho,gastava o dinheiro que ganhava deles em bebida,afetando ainda mais a própria memória”.Um tubo de cola atingiu-o no rosto,mal fora pronunciada sua palavra final.À seguir,Yusuke saltou sobre a graciosa mesinha do primário,caindo em cima do insolente,descarregando nele os socos surpreendentemente dolorosos aplicados pelos punhos pequenos e rápidos.Toda a agitação despertada pelo pai,em quem pensava ao ver o rosto indiferente da mãe voltado para o televisor,enquanto ela fumava um cigarro atrás do outro,e ao ouvir sua voz escandalosa,mandando-o “se virar antes que os tiras batessem”,havia encontrado um canal de escape.Nem o choro abundante e o desespero de Keiko Yukimura detiveram o alívio da fúria. Tanto atualmente quanto naquela época, Yusuke não se sentia capaz de explicar qual a espécie do ímpeto que o movera.Fora muito mais do que o desejo de revidar a hostilidade em si.Era como se aquele ato de violência o tivesse libertado.A partir daí,ele nunca mais pudera integrar-se ao ambiente coletivo:os colegas passaram a temê-lo,e os professores,a desprezá-lo.
Urameshi era um sujeito naturalmente amigável.Mas sendo sensível como poucos, a hostilidade tabelada que lhe aplicavam o angustiava quase tão intensamente quanto a perturbada lembrança do pai.Sofrera inúmeros acossos antes de explodir: os vizinhos proibiam seus filhos de brincar com ele, por ser filho de uma mulher que, além de beberrona e mal educada, tinha estranhas relações com membros de uma facção da Yakuza.Percebia quanto os outros pais cuidavam de suas crianças, indo apanhá-los na escola ou levando-os para tomar sorvete numa tarde de domingo.Keiko Yukimura estava ao seu redor nestes momentos, fazendo às vezes da família convencional que ele tanto desejava ter.Isto não era o bastante para satisfazer o seu desejo—principalmente porquê detestava ser alvo de condescendência ou piedade—, mas apenas o interesse da garota bastava para deixá-lo feliz.Era muito bom ter alguém.Se não fosse a sua mãe, que ao menos fosse uma ótima amiga.Por volta de seus doze anos, Atsuko Urameshi costumava sentar-se no batente da porta dos fundos, e chamava o filho para junto de si,nas poucas oportunidades em que as ruas não atraíam o garoto.Os dois ficavam lado a lado, espremidos um contra o outro, sem palavras, sem ações, apenas observando a tarde sucumbir à noite.Certo dia,porém,ele perguntou em que ela trabalhava.A mulher respondeu fazendo uma pergunta imersa num ar reprovador que somente a dedicada mãe de Keiko seria capaz de exibir: “Você anda fumando e bebendo por aí,não é?”.Ele desviara o olhar,aborrecido.Os adultos não seguiam seus próprios conselhos,porquê insistiam que as crianças seguissem?Talvez porquê tivessem falhado e quisessem saber se alguém menos ‘encanado’ poderia conseguir,ele pensava.“Você bebe e fuma também,qual é,mamãe!”“Então continua nessa que logo, logo você vai estar trabalhando junto comigo!É um trabalho ruim pra caramba...você faz várias coisas,mas nenhuma presta...eu faço pelo dinheiro,claro,eu preciso,você precisa...”“Porquê a senhora não muda de trabalho?”“Você gosta da escola?”“Não,é um saco!”“Porquê?”“Eu não tenho cabeça pra isso!”“Mas você gosta de História,não gosta?A Keiko me disse que sim...ela disse que você fica hipnotizado durante a aula,olhando pro professor...”“Ah,pra onde mais eu vou olhar...!Mãe...me tira de lá,eu não quero mais ir...a professora de matemática me coloca sentado num canto quando eu erro as contas!O professor de literatura lê as minhas redações pra turma toda pra mostrar que tipo de bobagens os meninos burros fazem...”“Só você erra as contas na aula de matemática?”“Não”.“O professor de literatura lê só as suas redações ou a dos outros também?”“As deles também.”“Então porquê você está reclamando? Eu também não gostava da escola, e olha só onde vim parar,bebida e cigarros da melhor qualidade,mas nenhum diploma ou convites pra jantares bacanas...eu sinto falta disso,sabia?E você vai sentir também!Isso o que fazem na escola é um teste...eles estão separando os vencedores dos fracassados...eu fracassei...você quer isso pra si mesmo?”“A senhora não entende, eles são um bando de gente perversa!Tem uns carinhas que estão quase retardados de tanto estudar,não dormem,não comem,andam falando sozinhos pelos corredores!A galera da barra-pesada espanca os CDFs e obrigam eles a fazer seus deveres!Teve um menino da outra turma que tentou se afogar na piscina durante a aula de natação porquê tinha tirado nove numa prova lá e o tio ia brigar quando soubesse!”“Olha,Yusuke...”“E tem mais!”O garoto se levantara,exasperado.“Tem um pessoal que desconta nos calouros!Às vezes os piores são os que tiram as notas mais altas:eles obrigam os calouros a carregar seus livros e a engraxar os sapatos deles em troca de ajuda pra estudar,entre outras coisas!Até o palhaço que só tira em terceiro lugar no teste geral tá botando as garras pra fora!Ele manda os outros imbecis roubarem coisas pra ele!O dono da banca de revistas daqui de perto surrou um deles no meio da rua ontem mesmo!”“Já fizeram isso com você alguma vez,te forçar a fazer coisas?”“Não,porquê se tentarem desço porrada em todo mundo!É eu e não tem pra ninguém!”“Então continue assim!Era assim que eu fazia!Mas faz uma coisinha a mais,ESTUDA!Estuda mesmo!”“Mas eu não gosto de estudar,eu quero sair daquela merda de escola!”“Yusuke,não existem vários tipos de merda no mundo!Você não vai sair de uma só pra mergulhar na outra,que é igualzinha!Não seja burro,tire o melhor disso,aproveite enquanto é de graça!No colegial,além de termos de pagar,você terá de ter um histórico sensacional pra conseguir ser aceito,além de ter de fazer as provas de admissão...”“AH,MAS QUE SACO!”Ele dera-lhe as costas e nunca mais tinham tocado no assunto.Hoje,Yusuke Urameshi já não dava importância àquele processo,do qual jamais faria parte.Havia desistido também de fazer seu jejum alcoólico: os dias ímpares do mês tinham se tornado monótonos ao extremo.***Desde criança,Reiko Fujiwara fora muito bem situada num universo que aos outros, sem dúvida, soaria esdrúxulo: Kenichiro Fujiwara fizera questão de educá-la para compreender o que a rodeava.Seu avô contava-lhe estórias tendo o Makai como palco da ação, de modo a esclarecer para a neta tudo o que pudesse acerca da cultura, dos costumes, do cotidiano, da política, dos códigos sociais daquele estranho povo ao qual ela pertencia parcialmente...um destes contos chamara a atenção de Fujiwara em particular:era sobre uma aldeia onde todos trabalhavam em conjunto,numa verdadeira democracia,pois este constituía o único meio de sobrevivência.Cada habitante possuía o mesmo grau inofensivo de força e habilidades diversas, que juntas, possibilitavam o perfeito funcionamento da pequena sociedade em que viviam.Uns ficavam responsáveis pela caça e pela pesca...outros pelo preparo da comida...um grupo colhia frutas na floresta guarnecido pelos encarregados da segurança...as mulheres ensinavam as crianças à ler e escrever...os homens ensinavam os mais jovens a trabalhar,quando atingiam a idade propícia...lutar,apenas para se defender.O senhor Fujiwara dava vida àquelas personagens, conferindo-lhes riqueza em personalidade e inserindo reviravoltas em sua rotina.Na medida em que ia mergulhando no relato, todos se tornavam familiares para Reiko, à ponto de a menina se preocupar com eles e desejar conhecê-los.O envolvimento com aquele universo intensificava-se devido à consciência de que sua realidade se fazia concreta, num plano distante da terra em que vivia.Seu pai vivera lá.Sua mãe se mudara para lá,para viver com ele,enfrentando a proibição do Reikai.Reiko gostava de pensar em seus pais vivendo numa comunidade igual àquela.No entanto, o ideal de paz e cooperação logo desmoronou quando uma guerra teve início,nas proximidades da aldeia.Um dos guerreiros responsáveis pela vigília noturna foi designado para conseguir mais armas,com o objetivo de fortalecer as defesas do pequeno contingente.O homem não andava satisfeito com a própria situação: ele tinha necessidade de fazer mais por seus entes queridos e o restante daquela gente.Julgava encontrarem-se não apenas numa situação desvantajosa como também humilhante:aquela tranqüilidade ilusória poderia durar mais cinqüenta anos ou até o dia seguinte.O fato é que algum dia,metade deles acabaria sendo assassinada enquanto a outra seria escravizada.O jovem não suportaria ter de decidir entre a morte ou a escravidão.Restava somente a terceira saída:fortalecer-se,lutar e vencer.No entanto,naquele momento,apesar da preocupação pungente,a comodidade lhe atraía consideravelmente.“Vovô...porquê os youkais mais fortes não moravam na aldeia?Porque havia guerra?Eles eram os responsáveis por isso,estavam do lado de fora,guerreando?”“Você não perde essa mania...deixe-me concluir,por favor...”“O senhor acha que papai e mamãe foram mortos por um youkai forte?Numa dessas guerras?”Kenichiro Fujiwara recusara resposta, prosseguindo com o relato: acompanhado por dois outros sentinelas, o rapaz fora ao encontro do forjador de armas.No caminho de volta,frustrado e temeroso,o grupo mínimo se deparara com um bando de mercenários.Em troca do fornecimento de um esconderijo-base-de-operações, os guerreiros prometeram armar e proteger a aldeia.Tudo transcorrera satisfatoriamente, até que um dos soldados desgarrados traiu o próprio grupo, entregando ao inimigo não apenas seus companheiros, como também os aldeões.
“Os mercenários trabalham para qualquer um que pague mais...certo?”“Isso mesmo.”“Juntos,eles roubavam e matavam por dinheiro...nunca pensaram que um deles mesmos poderia roubar e matar os outros,eles não se preveniam contra isso?”“Até mesmo uma corja de bandidos precisa da lealdade,mas somente para preservar os negócios...quando a ambição é muito grande,às vezes precisamos nos unir para alcançá-la...era preciso correr esse risco...no entanto,quando aparece um negócio melhor,no qual não haja divisões do lucro,e um risco igual ou menor,eles apenas seguem sua natureza de pragmáticos...ocorre que o traidor agarrou primeiro aquela vantagem.Se não fosse ele,teria sido qualquer um dos demais...”A aldeia fora saqueada.As crianças foram vendidas à diversos mercadores.A maioria dos homens e mulheres ou tornaram-se também escravos ou morreram em sua batalha improvisada de resistência.Um certo número deles apanhou surras de porrete aplainado, cuja finalidade consistia em matá-los ao mesmo tempo em que se amaciava sua carne: além de saborosa, outros tipos de alimentos estavam escassos.“Qual trabalho os escravos do Makai tem de fazer?”“Eles são destinados à todo tipo de atividade...”“Quais?”“Primeiro ouça tudo e compreenda...vou anotar as suas perguntas,veja...no final,...”“Só um instante!De que forma e para quem venderam as pessoas?Essas guerras de mer...quero dizer,as guerras fazem uma bagunça danada...porquê comprariam escravos numa época dessas?Tem o caso da traição,poupar dinheiro para matar cada vez mais gente,manter as tropas,enfim...!”O homem anotou a pergunta resumidamente antes de prosseguir:foi possível a sobrevivência de alguns,sendo que entre eles,escapara o introdutor do bando mercenário na aldeia.Longe dali,o grupo reduzido de ex-aldeões montou acampamento com precariedade em todos os aspectos.Não havia objetivos,rotina fixa além da vigilância constante ou qualquer estrutura funcional...a dor de cada um daqueles sujeitos assustados e estagnados juntou-se até formar uma espécie de matéria explosiva homogênea,cujos componentes disseminados pelo ar penetrariam à todos através de seus pensamentos e humores antes de explodir numa única chance apenas.O espírito guerreiro aflorou violentamente,atordoando-os...concluíram ter descoberto quais motivos levaram-lhes àquela convivência cooperativa:sua própria fraqueza,mediocridade,covardia,herdada de seus pais e avós,que não puderam sobreviver sozinhos,como os fortes e vitoriosos sobreviviam no Makai,sob as bênçãos superiores... Muito antes do assalto,a maior parte dos indivíduos já havia se cansado daquela paz sufocante que os impedira de conquistar por causa da incapacidade em buscar evoluções,da limitação de suas habilidades como líderes e guerreiros.Por isso,pensavam,tinham ido parar naquele quadro patético:expulsos de um território xucro no qual os poderosos procuravam apenas por comida e escravos. Jamais aqueles homens haviam representado um desafio para quem quer que fosse,e tampouco foram desafiados.Provavelmente conseguiram fugir graças ao tédio dos perseguidores.O ex-sentinela,o torto salvador de um povo pequeno demais em grandeza para honrar-lhe com o orgulho de tê-lo servido,creditou seus infortúnios à vingança desdenhosa de Raizen,o Deus da Guerra,submetendo-os à desonra em troca da falta de ambição e valentia.[i]“Este Deus do mundo das trevas...ele é igual ao Deus dos católicos?”“De modo algum.Ele,assim como os demais,considerados desta forma pelo povo,é apenas um símbolo de máximo poder,não há misticismo ou ideologia por trás dessas figuras...”[i]“O catolicismo é cheio de dogmas...‘o homem caído não pode redimir à si próprio é um deles’...”“Os dogmas foram inventados pelos homens...”“Se Deus criou o mundo e lhe devemos reverência,o que nos dá o direito de perdoarmos à nós mesmos?Como podemos saber o que merecemos de fato sem antes falar com Ele?Isto não é falta de respeito,prepotência?Então é só ajoelhar,dizer umas rezinhas para si mesmo,e está tudo bem?Será que alguém já ouviu realmente a voz de Deus,vovô?Ou será que ouviu apenas o que a própria consciência poderia suportar ouvir?O arrependimento durou mais de dez minutos?Ou quem sabe até meia hora depois,por causa do medo de ir para o inferno,que os pais tratam de incutir nos seus filhos desde cedo...não seria justo termos de cumprir uma tarefa dada por Ele?Não sei não...Reiko sacudira a cabeça,muito cética.Curioso,Kenichiro notara um certo ar de preocupação.Mas eu perguntaria àqueles ilustres senhores chamados Noé e Moisés se pudesse...talvez seja perturbador para a maioria das pessoas pensar nisso...com certeza deve ser o tipo de pensamento que ou enche de medo ou põe a fé em dúvida...bem,continuando...o catolicismo é cheio de dogmas...‘o homem caído não pode redimir à si próprio’ é um deles...é uma ideologia que,em suma,consolida o poder de Deus sobre todas as coisas...a guerra também é uma ideologia no Makai.E os que não a praticam,ganham um castigo...os dois deuses representam somente poder,basicamente?Através desse raciocínio,eu concluo apenas uma coisa:há deuses vivos no Makai,tão poderosos quanto este Deus que nos criou...”Kenichiro ficara perplexo,mas continuara:os remanescentes decidiram-se pelo extremo fortalecimento,em busca de vingança.Ao longo do tempo,aquele sentinela sobrevivente assumiu o comando da família errante.O peso do ocorrido desfigurou o senso e a consciência de todos.Dissidentes da finalidade coletiva foram imediatamente mortos,por fúria e para evitar futuras traições.Muito tempo depois,o grupo reencontrou seus outrora algozes.Apenas o líder dos aldeões desgarrados sobreviveu ao massacre mútuo.Na seqüência ele formou um bando de matadores profissionais, ganhando fama e fazendo fortuna.“Certo...”Dissera Kenichiro.“Agora...respondendo às suas perguntas sobre os escravos...”Reiko houvera perdido momentaneamente o interesse naquele assunto.Saber que nada restara da aldeia causava-lhe um sentimento de perda estranhamente próximo.A raiva pulsante enrugara-lhe a testa.“Eu quero saber outra coisa...quem está errado?Os deuses ou os seguidores?Tudo isso é muito confuso...”“Reiko,entenda uma coisa:se você não tiver um caráter forte,não haverá deus algum que possa lhe indicar um caminho...essas figuras tratadas como ‘deuses’ no Makai são apenas homens que podem matar mais pessoas com um simples gesto...essa divinização decorre do seu covarde poder de decidir quem vive e quem morre...o único sentimento inspirado por eles nos demais é o temor...”“E quanto ao Deus do catolicismo?”“Bem...”O Xintoísta Kenichiro ponderara.“...os católicos vêem o ato religioso de um modo muito diferente do nosso...eles o inserem na sociedade como um todo...nós,somente no contexto da família...trabalhamos com o politeísmo e o animismo...eles são monoteístas,cultuam um ser superior,criador da humanidade...”“Se existem forças como as do Reikai e do Makai,é possível que Deus também exista,não é?”“Você disse que perguntaria ao senhor Koenma sobre isso.Perguntou?”“Sim...ele respondeu que não se sabe para onde vão as almas após o julgamento...e já que o Reikai,responsável por este julgamento,é chefiado pelo Senhor Enma Daiou...o entendimento oficial é o de que não existe outra força superior...”“Você pensa diferente...correto?”“Sim!Eu penso que...o senhor Enma Daiou esconde a existência de Deus!Um imbecil daquela monta não pode ser a máxima autoridade por aqui!”“Porquê?”“É óbvio,ele quer todo o poder para si!Ora,vovô,se existem coisas como youkais e...e almas,vagando,ou...sendo transportadas para outra dimensão,porquê não pode existir um ser maior que tenha criado tudo isso?Os youkais surgiram de algum lugar...deve ter sido obra de uma...uma obra...extraordinária,por assim dizer...só não entendo para quê eles foram criados...e porquê eles tem tantos poderes...porquê Deus daria tanto poder à alguns e nada para os outros?E onde Ele está?”“Não vou mentir,isso também é um mistério para o meu entendimento das coisas...eu mesmo nunca estive preparado para...”“Para quê,vovô?”“Esqueça,não é importante...”Ele sorrira carinhosamente, e afagara os cabelos da neta.Houvera um peso exagerado em todo o gesto, como se o mesmo necessitasse de ênfase.“Talvez o Deus do catolicismo seja um reflexo do que desejam e acreditam os seguidores da religião...cada um tem uma visão diferente,mas creio que poucos de fato refletem sobre o assunto profundamente...Mas voltando ao início...você precisa ter caráter forte para suportar muitas coisas...há um deus bem maior dentro de você que pode ajudá-la...”[/i]“Não é o meu núcleo youkai,com certeza...”“Não.Estou falando de sua consciência.Quando você abrir sua mente à respeito do que quer que seja...liberte-a dos conceitos alheios...não importa se há alguém dizendo que...a generosidade é o caminho para o paraíso...ou que toda guerra é justa e natural...qualquer uma dessas alternativas precisa nascer...da sua vontade própria...no âmago do seu juízo...do contrário,você a imitará...você a perseguirá...mas não conseguirá senti-la viva dentro de você...essa alternativa não passará de um conceito vazio...absorvido de uma fonte artificial...moldado à uma conveniência...você não é uma conveniência...você é uma pessoa individual...e precisa refletir...de acordo com suas próprias necessidades...como poderá encontrar o que procura...feche os olhos.”Ela obedecera.“Porquê?”“Ouça com atenção:o importante é autenticidade...faça o bem ou faça o mal...construa suas estradas na direção que preferir...existe um instinto em nossa sensibilidade...é algo íntimo demais para entregar nas mãos de uma força invisível...nós devemos educá-lo...através da auto-reflexão...pedi que fechasse os olhos porquê lhe farei perguntas...mas quero que fique à vontade...como se estivesse sozinha...você as responderá para si mesma...tudo bem?”“Sim.”“Primeiro...o que sente à respeito da aldeia...antes da guerra?”“É um lugar cheio de paz...eu me sentiria segura se vivesse lá...é muito simples e calmo...ontem à noite sonhei com ele...”[i]“Como foi o sonho?”“Havia um rio...papai e mamãe estavam por perto...uma porção de crianças também...”“E você?”“Isso é realmente engraçado,eu me via no sonho como um bebê...eu queria brincar com as outras crianças,mas só conseguia ouvir suas vozes...”“O que mais?”“Havia paz...muita paz...não era preciso mais nada...podia-se ir aonde quisesse...os mais velhos cuidavam dos mais jovens...se agachavam para falar com eles até ficar no mesmo nível de altura...eu lembro que havia várias pessoas conversando assim,num gramado...as roupas eram estendidas em varais bem finos...o vento soprava contra os tecidos,fazendo-os flutuar como se fossem plumas...os homens conversavam baixo,as mulheres sorriam...”“...É tudo?”“Não...além dos muros,ouvia-se uivos e ganidos...havia alguma coisa mais forte que os cães soprando lá fora...eu pude ouvir uma das crianças dizer que eles uivavam e ganiam dentro de sua cabeça...e...eles garantiam devorar até que sobrasse apenas o pescoço e o restante do corpo...”“Isso tem algum significado para você?”“Não...”Ela mentira,com pressa.O senhor fará mais perguntas?“Sim,eu gostaria de saber...o que você pensa à respeito do sentinela?Aquele encarregado de comprar as armas.”“Qual o nome dele?”“Não é necessário dar nomes.”“Certo...ele tinha medo...de ser morto ou escravizado...ele pensava bastante sobre o assunto,esses pensamentos se pareciam com fogueiras,iluminando a mente por teimosia...queria fortalecer-se e lutar,se fosse necessário...talvez...ele quisesse acostumar-se ao próprio medo,ser sincero consigo...sentir-se forte por dentro antes de enfrentar o perigo externo...ele se preocupava com os habitantes da aldeia...por orgulho e por bondade,acredito...ele tinha uma espécie de missão...isso fez com que sentisse uma grande importância conferida à si mesmo...deve ter sido como se...pela primeira vez...ele fosse mais do que o sentinela,o protetor,aquele que esperava...ele foi em busca de alguma coisa...”
“Que coisa era essa?”Perguntara o avô,muito interessado.“...A manutenção da paz...e...da garantia de que ele era capaz de desejá-la sem mediocridade...na doutrina de Buda,explica-se que alguns homens são bons e nobres porquê vivem num ambiente promissor...penso que ele queria viver em paz por escolha própria,não por conveniência...a paz perde o valor quando é a justificativa dos fracos e covardes.”“Muito bom!Agora,sobre os mercenários...porquê você acha que tiveram a confiança dele?”“Ele não tinha outra saída...jamais havia arriscado coisa alguma...e não queria dormir no ponto...ele viu uma chance absurda,e agarrou-se à ela assim mesmo...”“Ele não poderia ter acreditado neles com sinceridade,confiando em sua palavra?”“Eu não confiaria.Aquilo era uma barganha...foi uma troca de vantagens necessárias...”“Você teria levado aqueles homens até a aldeia,se fosse o sentinela?”“Eu...eu teria tentado garantir-me primeiro...não leve a mal,vovô!Mas eu procuraria certificar-me de possuir um modo de enganá-los primeiro,alguma vantagem maior...ele confiou ciente do perigo,mas às cegas,e veja só no que deu!A aldeia foi destruída e pessoas sofreram...”“Vamos falar sobre o homem que traiu seus comparsas e os cidadãos comuns...quais suas impressões sobre essa pessoa?”“Ainda vivo ou depois de morto?No caso da segunda alternativa,saiba que eu o vejo como um monte de carne retorcida sem um pingo de sangue,adornada com floquinhos de neve na época do Natal...talvez eu lhe deixasse até mensagem presa à uma guirlanda perfumada, “Foda-se mas tenha um ano excelente”...”“Reiko!”Kenichiro assustara-se com o sério rancor e o sarcasmo sombrio que ela demonstrara pouco depois de falar sobre uma comunidade utópica onde a paz e a igualdade eram as únicas leis.A respiração da menina sofrera alterações.Todo seu íntimo pulsara,fervilhando ao calor do seu próprio sangue.Desculpe...mas eu também teria matado esse desgraçado...eu...Ela abrira os olhos,agoniada.“Vovô...o senhor é a única pessoa com quem posso falar sobre essas coisas...eu sei que o senhor me considera horrível,e que isso é incompreensível para o senhor...mas...esse...tipo de atitude me alivia.É horrível sentir-me assim...eu...sinto-me horrível por me sentir assim...eu não tenho arrependimento...eu quero,mas não consigo!”“Fale baixo,fale baixo!”“Não importa,talvez fosse melhor descobrirem tudo...eu...não posso continuar me sentindo assim...eu quero me ser diferente!Eu...quero construir alguma coisa,vovô...eu quero ser uma boa pessoa...ajudaria se eu não tivesse esta porra de poder esquisito...mas já que eu tenho...me ajude,mostre-me como eu posso ser boa mesmo sendo forte e gostando de poder!Deve haver um jeito,eu sei que há!Deus existe...e há um mundo sem sangue em algum lugar...diga-me onde e como posso encontrá-los!Não me deixe ser assim,eu não quero mais fazer essas coisas,eu não posso mais fazer...papai e mamãe nunca poderão descansar em paz se eu continuar sendo podre por dentro.”Reiko Fujiwara ainda pensava naquele fragmento da conversa quando beijou Koenma Daiou na testa, agradecendo-o por tudo.Conseqüentemente, agarrou a mão do avô, apenas largando-a para retirar a blindagem auditiva e visual que lhe apertara a cabeça durante o trajeto percorrido pela van do Serviço de Inteligência.Avô e neta foram deixados no estacionamento 24 horas de um centro comercial. A primeira sensação de Reiko ao que ela desceu do veículo foi um comovido fascínio pelo céu, de onde vinha a luz brilhante da tarde penetrar-lhe os olhos suavemente.De repente, as palavras de Otake vieram à tona como tinta negra, manchando a sua paisagem. Sempre nos momentos agradáveis, aquele tipo de coisa perturbava-a na própria consciência.Cada momento daquele interrogatório simbolizara uma amargura diferente: ser comparada à um animal irracional era quase pior do que conviver com a ameaça de morte por parte do clã de seu pai,pois tal comparação configurava uma espécie de aleijamento:era como se,na concepção geral,ela estivesse limitada à um só tipo de conduta e raciocínio por causa de sua origem.Entretanto, Reiko tentava formular soluções que a ajudassem a se locomover: seu senso naturalmente perspicaz optara pela peculiaridade.Fazer a diferença entre pessoas tolas e iguais, simultaneamente tornando-se uma espécie de parte iluminada em todo o mecanismo abrangente para a mestiça era, antes de qualquer coisa, uma questão que ia além da bondade: a honra e orgulho individuais ajudavam-na a dominar suas más inclinações melhor do que os bons sentimentos, justamente porquê estavam associados ao egoísmo, o grande Senhor das nossas vidas, além da consciência facilmente manipulável.Entretanto, ela frustrava-se com a óbvia conclusão de que era impossível ser decente o tempo todo, à menos que a pessoa fosse estóica o bastante para admitir ser trancafiada por quase a metade do ano por um maldito colecionador de cadáveres despedaçados.Mas isso não impedia Reiko de simpatizar com Jesus Cristo—jamais culpado de coisa alguma.Fujiwara gostaria de ter derrotado o Comandante de outra forma, menos inteligente, com mais heroísmo,semelhante àquele que havia inspirado seus pais.A chantagem fizera com que se comparasse à um dentre vários cães que disputam o último pedaço da carniça.Reiko lidava com seus medos diretamente, como um exercício de orgulho e uma forma de tornar-se melhor.Em sua visão, atirá-lo de volta na cara do homem fora um ato de mesquinhez, indispensável e até satisfatório, mas mesquinho.Ela expusera-se bastante para coletar as informações precisas de que necessitara, isso também era coragem, movida pela determinação em tirar sua nêmese de combate antes que ele a tirasse, uma coragem vingativa, que julgava muito justo e divertido derrubar panacas de seu pedestal quando eles tentavam mijar lá do alto sobre quem quer que estivesse por perto.De certo modo, ela sentia mais culpa em relação à suas atitudes por causa de Koenma:ele,mais do que qualquer pessoa,era capaz de enxergá-la como uma órfãzinha sofrida e desamparada,uma causa à qual ele abraçava não apenas em nome da decência,mas também como forma de superar a influencia patética do Rei Enma Daiou sobre todas as coisas.Fujiwara, desde muito cedo, aprendera a manipulá-lo.De fato, fizera isso duas vezes,numa delas quando ameaçara juntar-se à youkais para forçá-lo a falar a verdade sobre seus pais.Koenma era muito sensível.Reiko, muito mais do que isso.Seu calculismo precisava inteiramente da sensibilidade para funcionar.Ela entrou no carro sentindo o peso de uma sentença desfavorável, com a qual aparentemente já havia nascido. Quando chegaram à rua, o homem fitou-a brevemente de soslaio, naquele ínterim, concentrando-se também no trânsito.—O que tem aí?No banco traseiro do automóvel, o espião invisível aos olhos normais, um oni do Reikai pequeno e atarracado, digitou a pergunta do senhor Fujiwara num pequeno lap top equilibrado sobre suas pernas miúdas.Reiko olhou para a maleta de plástico preto sobre o próprio colo. —São os meus novos cosméticos... exclusivos para cuidar da beleza interior...Ela tentou sorrir, no entanto, desistiu, exausta.Abriu a tampa, retirando de lá um elegante frasco de vidro, contendo uma solução líquida esverdeada.—Este aqui é para diminuir o desconforto causado pelos efeitos colaterais dos aparelhos de contenção... deve ser injetado na veia duas vezes ao dia,uma pela manhã,outra à noite.—Injetado?—Kenichiro franziu o cenho. —Porquê você não pode apenas ingerí-lo?—A composição deles é extremamente corrosiva...tudo o que menos preciso agora é ter de juntar do chão pedaços do meu rosto e da minha barriga...além do mais,o efeito é complexo,tem de cair direto na corrente sanguínea...ora,meu sangue forte de youkai agüenta qualquer coisa.O sarcasmo pseudodivertido, quase triste, exasperou-o. As mãos pesadas apertaram o volante do automóvel.Aquilo era algum tipo de carma,só podia ser,ele pensava.Sua filha, Ayumi também não levara uma vida tranqüila: perdera a conta de quantas vezes tivera de agredi-la, desacordando-a, ou acorrenta-la à própria cama, engasgando-se com desespero,na tentativa de impedir que ela machucasse aos outros e à si mesma,enquanto uma estranha força invisível arrebentava toda a casa,cravando facas nas paredes,estourando vidraças,explodindo encanamentos,fazendo despencar lustres e estremecer todo o lugar,como num terremoto,levitar móveis...objetos inofensivos como livros e bandejas tornavam-se armas...eletrodomésticos funcionavam sozinhos,originando curtos-circuitos que culminavam em incêndios quase incontroláveis...Certa vez, a menina chegara a atacar os pais, atirando a mãe escada abaixo e quase enforcando-o,à distância,com um olhar congelado,sem vida...ela martirizava-se,alegando não estar agindo por vontade própria...tinha tentado suicídio algumas vezes...na época,Kenichiro chegou a acreditar que se tratava de uma possessão demoníaca.Ao saber que a garota estava grávida de uma das criaturas malignas que se alimentavam de carne humana e explodiam umas às outras em lutas casuais, reagira com extremo horror e repulsa.Pensava ter superado isto, mas agora, cheio de culpa e tensão, descobrira que este sentimento ainda existia, livre e dotado de vida própria.—Este aqui...—Reiko ergueu,à altura dos olhos,um frasco igual ao primeiro,mas desta vez,contendo líquido incolor.—...é para neutralizar o meu cheiro...como estou indefesa por causa da contenção energética,os youkais poderiam...bom,farejar-me e atacar...também injetável,uma vez por dia...—Agora, vem o mais interessantes...este vermelhinho serve para...—Reiko fitava o frasco sem emoção.—...reagir junto às correntes de energia que entram no meu corpo através dos aparelhos...e alimentar o meu núcleo youkai com a porra de um coquetel de estabilizadores...injetável,de três em três horas. Kenichiro se mostrou desgostoso.—Com o quê estas correntes de energia precisam reagir mesmo?—Oh!—Ela embaraçou-se de repente.—Com um...elaborado coquetel de estabilizadores,vovô.Desculpe!Sem isso,a minha energia pode ficar meio que entupida dentro do meu próprio corpo,acumulando-se gradativa e descontroladamente,até implodir o hospedeiro...—Tudo bem,o que mais?—Ele indagou,amenizando ligeiramente.—Temos aqui o regulador de ondas cerebrais...—Ela deu um pequeno sorriso,para agradá-lo.—...é um par de aparelhinhos que preciso usar fixos nas têmporas,na hora de dormir...—Parece a tiara mais esquisita que já vi!Porquê exatamente tem de usá-lo?—Para análise das influências externas sobre meu psiquismo, através da mente...—Isto quer dizer que... aquelas pessoas controlarão seus pensamentos à distância?—Não...até porquê já controlam coisas demais,seria o cúmulo...eles apenas acompanharão de que forma eu recebo os estímulos externos,quais quer que sejam eles...servirá também para alertar quando a mente estiver pronta para produzir a paranormalidade outra vez...ah!E aqui temos o garrote, a solução esterilizante, seringas,e as agulhas...—Você mesma terá de...—Sim,eu pedi à eles que me ensinassem...sabe,para dar um toque mais dramático à situação...se alguém me pegar enfiando uma agulha na veia,terá pensamentos indevidos...veja só que material de alto nível para a próxima novelinha da NHK:uma órfã lésbica,sofrendo ataques constantes de epilepsia e de crise nervosa,torna-se uma viciada em drogas a fim de suportar a tragédia de uma existência.Excessivamente complexo,mas um pouco piegas,diriam os críticos...—Pare com essas gracinhas.—Eu preciso do meu bom humor,não posso chorar... preciso de lágrimas para a minha estréia na TV.Espere só até descobrirem que uso coleira e pulseiras para controlar o monstro que existe dentro de mim.Terão de inventar números para calcular a audiência...uma boa parte das pessoas considera que as desgraças sentimentais tem muita graça.Pouco depois, ele estacionou o carro junto à entrada de um parque.Ela não se mexeu.—Você gostaria de caminhar um pouco?—Não, obrigada, eu quero ir para casa.—Você está de péssimo humor, com toda a razão.Sua avó e seu primo a esperam, mas duvido que alguma demora seja pior do que aturá-la nesse estado.Reiko Fujiwara refletiu por alguns momentos, ponderando que despejar os efeitos colaterais dos próprios problemas sobre outras pessoas era uma atitude típica de idiotas sem autocontrole.—Tudo bem!—Ela deu-lhe uma piscadela, resignada.—Vamos caminhar ao redor da lagoa e depois sentar sobre formigueiros...—Essa...essa...essa criatura...—Repuxando o canto da boca, o avô de Reiko indicou o vazio com o polegar.—...diga à ele para permanecer aqui.—Não é possível, Kadaisha-sama...—O pequeno espião dirigiu-se à garota polidamente, tratando-a com toda a pompa.—Eu compreendo, Toru,é admirável que faça com boa vontade o seu trabalho...—Reiko falou, tranqüilamente.—...mas será que você poderia nos acompanhar à distância?Meu avô precisa conversar comigo e ele não faz parte da sua jurisdição.Assim poderemos fazer o que é necessário sem causar constrangimentos aleatórios, de acordo?—Perdão, mas a senhora está numa fase crítica, e toda observação das suas atividades me foi recomendada, de modo que eu participarei da sua conversa como ouvinte.—A vigília será realizada também durante a noite, a partir do dia de hoje, correto?—Correto, senhora.—Antes nós trabalhávamos juntos somente durante o dia, para o fim de pesquisas sociológicas, comportamentais e patrulha de segurança, foi o que me disse a própria Diretora...informaram-me que o horário da nossa cooperação mútua foi estendido unicamente por razões de segurança,e não por uma necessidade maior de estudar a minha adaptação à este meio ou por conta de um comportamento suspeito,até porquê o meu interrogatório ainda está sob análise...eu sempre tive liberdade para conviver com a minha família sem a participação do Reikai,sendo que esta conversa pretendida por mim e pelo meu avô é de cunho familiar...mas talvez você pudesse fazer o favor de consultar a Diretora Kaho para confirmarmos ou não.Toru pensou durante alguns segundos.Só se ouvia a forte respiração do impaciente Kenichiro Fujiwara.—Isso me parece bem esperto da sua parte...—O pequeno suspirou.—...oh,senhora,eu ficaria encantado em servi-la...se já não tivesse uma notável mestra...vamos,não haverá problema em observar de longe,afinal.Já no estacionamento do parque, Reiko sentiu tonturas galopantes ao colocar os pés no chão.Seus olhos ardiam de modo menos intenso do que no dia anterior, mas ainda sentia as náuseas e as dores de cabeça.A coleira, muito justa, roçava-lhe a pele do pescoço, assim com as pulseiras, por baixo da blusa de gola alta e mangas compridas.Ela ainda não aplicara nenhum dos remédios.Talvez fosse melhor ir até o banheiro da lanchonete para fazê-lo...Ela sentou em cima da tampa fechada de um vaso sanitário, após trancar a porta e abrir a maleta sobre as coxas.Despiu a blusa, apertou o garrote ao redor do braço, desinfetou a região propícia à pescaria de veias, e enfiou a agulha.O êmbolo da seringa desceu vagarosamente, conforme recomendado pelo Doutor Murakami.A dor fora mais intensa do que imaginava.Ela sussurrou um xingamento.Parecia estar tomando um coquetel de veneno e ácido em alta temperatura.A entrada de tais soluções em seu corpo se fazia elevadora e cortante.Enquanto medicava-se dolorosamente, cerrando com força os seus lábios, estreitando os olhos, descalçando os sapatos quase em desespero, mas cuidando para não se mover, Reiko pensou em várias coisas de modo a se distrair do suplício (“A corda do arco, feita de kevlar, deve ser esticada pelos três dedos centrais, com ambos os braços em linha reta, até encostar no queixo”), entre as quais, as artimanhas de Toru.A mestiça jamais vira qualquer motivo para indispor-se com os espiões, eles estavam ali fazendo o seu trabalho.Mas principalmente porquê poderia ser-lhe útil ter ao menos uma simples aprovação por parte deles...Toru era sem dúvida o mais inteligente e ambicioso dentre todos.Cauteloso e afável, dava à Reiko a impressão de ser uma espécie de ‘teste-arapuca’ implantado sutilmente por Mizuki Kaho,assim como as noites liberadas da vigilância do Reikai.Talvez a Diretora quisesse propiciar-lhe, assim pensava Fujiwara, as chances adequadas para cometer irregularidades, durante uma noite de liberdade ou com a conivência de um espião declaradamente admirador de youkais superiores e fascinados por tesouros que reluziam fora de seu alcance.Mesmo vivendo no Ningenkai,era possível estabelecer excelentes contatos,principalmente no caso de uma youkai da estirpe de Reiko Fujiwara.O preconceito racial e a rivalidade poderiam ser ignorados—estratégica e temporariamente—em nome do lucro em comum.
De fato, Reiko possuía excelentes contatos.Com certeza, ela já cometera irregularidades.Realmente, o malicioso Toru já cooperara.No entanto, ela fora mais astuta do que ele, e a Diretora Kaho nem imaginava o quanto.Seria melhor para todos que ela permanecesse à salvo de certas informações.Enquanto aplicava o último remédio, a garota optou por reler mentalmente trechos de Confissões de Uma Máscara,do dramaturgo Yukio Mishima,à pensar em coisas que faziam esquentar ameaçadoramente o seu rabo.Ao final do processo, o braço esquerdo ficou dormente e o local da picada de agulha ardia com intensidade.Ela teve de esperar alguns minutos antes de poder se vestir, e guardar tudo.Lavaria os utensílios em casa.Ao sair, ficou irritada, pois havia trocado os sapatos nos pés, mas consertou o engano ali mesmo, do lado de fora.—Você aplicou todos de uma vez?Um deles não era só à noite?—O senhor Fujiwara perguntou, enquanto caminhavam ao longo de uma trilha ladeada por ameixeiras.O espião Toru estava há metros de distância, fingindo interesse pelo trânsito das outras pessoas, segurando seu lap top debaixo do braço.—Eu estava passando muito mal,acabaria morrendo antes do anoitecer...agora já me sinto bem melhor...mas sabe o que é engraçado,na falta de outro termo?Os remédios do Murakami fazem o mesmo efeito que ele...—Como assim?—Nós fizemos uma releitura de Chapeuzinho Vermelho, para distrair, entre outras coisas...bem,vamos esquecer,já tive o bastante do Reikai por um bom par de anos...—Onde está aquela criatura?—Kenichiro Fujiwara perguntara muito baixo, cheio de cautela.—Atrás de nós, mas ele não pode nos ouvir.—Você tem certeza?—Sim.Eu chequei meus bolsos, cabelos e tudo o mais antes de sair do banheiro...a não ser que ele tenha posto o grampo no senhor enquanto ficaram sozinhos...para dizer a verdade,não sei se ele seria capaz de fazer isso sem a ordem da Diretora Kaho.Toru é muito obediente, o funcionário quase perfeito...não é,Toru?—De qualquer modo...não vamos perturbá-lo com piadas sem graça...—A expressão facial do senhor Fujiwara estava bem mais séria do que o seu tom de voz.—Deixe-me olhar debaixo dos seus sapatos, vovô!O homem apoiou-se no caule de uma das árvores e dobrou a perna esquerda para trás, mas nada.Porém, quando ela visualizou debaixo do sapato direito, uma surpresa: no espaço mínimo entre o salto e o solado, havia um diminuto aparelho transmissor.—Puxa!—Ela parecia bastante impressionada.—Ele está nos ouvindo em tempo real...alguém mais deve estar nessa,já que se ele contasse à cúpula que me ouviu confessar algo como a minha queda por cupons de desconto,seria uma palavra contra a outra...Toru estava distante e paralisado, mantendo a calma enquanto fitava os arredores.—Como ele conseguiu colocar isso?!—O senhor Fujiwara estava furioso, olhando ao redor sem se importar com o fato de que não conseguiria enxergar o ser sobrenatural.—Toru é um profissional bem graduado, vovô!—Despojada, Reiko sorriu,erguendo as sobrancelhas.—Ele recebeu todo tipo de treinamento que o senhor pode imaginar, se fosse mais alto e encorpado poderia ser um grande ninja...o senhor é impaciente para esperar,caminha de um lado para o outro quando precisa fazer isso,ele deve ter se aproveitado deste fato,e ao que o senhor levantou o pé,aderiu essa coisinha...mas sabe o que é mais interessante?—A garota levantou o aparelho diante dos próprios olhos.—Esse equipamento não é aprovado pelo Serviço de Inteligência, porquê foi fabricado no Makai...é uma peça ilegal,de contrabando...O senhor Fujiwara estava aturdido.Ele procurou dissimular um certo ar desconfiado.—É Ilegal?E como você sabe disso? —É a única explicação, vamos acompanhar: a Diretora Kaho negocia e recebe pessoalmente esse tipo de material, sendo que fica também responsável pela liberação dele junto aos outros agentes...ela jamais seria es...afoita, à ponto de grampear-me sem motivo e de uma forma tão negligente...logo...este artefato não saiu do depósito do Reikai...Toru!Você pode me ouvir, o sinal está claro?Nossa conversa está sendo gravada pela outra pessoa, não está?O que vocês iam dizer?Que você usou um gravador comum, enquanto estávamos no carro?Ia mentir à Diretora, dizer que falei coisas suspeitas e por isso você decidiu grampear?Como você o retiraria depois, para desaparecer com as evidências?Existe um dispositivo de auto-desintegração?Aliás, volto a dizer que gostei do seu novo penteado...o receptador está escondido nele?Vovô,pise forte, como um noivo judeu!—Você não vai denunciar este pilantra?!—Toru não é um pilantra.—Ela assegurou, firme e suave como sempre.—Digamos que ele seja determinado...vamos,vovô,quero acabar logo com isso.—Reiko, essa gente abusa de você diariamente, trata-a como se fosse uma criminosa por antecipação, eles precisam saber a hora de parar!Vamos levar isso ao senhor Koenma e dar-lhe um motivo para ser útil.—Ninguém aqui consegue parar, vovô, quanto mais se preocupar com horários.Por favor, faça o que eu lhe pedi ou me sentirei tão mal que remédio algum poderá ajudar.Contrariado, Kenichiro Fujiwara esmagou o aparelho transmissor sob o pé direito, e Reiko, pensando melhor, decidiu recolher os fragmentos, embrulhá-los num lenço e guardá-los no bolso.Tomada por um terrível estado de tensão, ela decidira não permitir que Toru percebesse isto.Ela mordera a sua calda, agora, ele estava tentando morder a dela.Os dois caminharam em silêncio durante algum tempo.De repente, a mestiça olhou para trás, oferecendo um simpático sorriso à Toru no exato momento em que ele dirigiu à dupla um olhar tenso de lástima.Desconcertado, o espião demorou alguns momentos para se recuperar da lividez.—Francamente, eu não me conformo com isso, ele estava espionando você ilegalmente, porquê não vai denunciá-lo?!—Vovô, se alguém me perguntasse o que eu penso à respeito disso tudo,eu diria que não agüento mais tanta conspiração...todos os dias eu reviro a casa inteira procurando escutas...quando encontro,prefiro quebrar e jogar fora...da mesma forma,eu adoraria que alguém,encontrando parasitas no meu jardim, cuidasse dele com carinho...tudo muito limpo e solícito,concorda?Ele olhou para o rosto ligeiramente sério, e compreendeu.—Certo...bem...venha,vamos nos sentar ali...Os dois se aproximaram de uma pequena área circular, próxima à um playground onde algumas crianças brincavam,acompanhadas por adultos.Avô e neta sentaram-se um diante do outro no banco de praça.Elegantes luminárias faziam a iluminação, apesar da claridade renitente que o crepúsculo fosco jorrava do céu.Era como se a tarde não desejasse declinar.—Alguém lhe mandou uma mensagem, por esses dias...—Kenichiro retirou do bolso interno do paletó uma carta e entregou à Reiko.—Você deverá gostar.A garota desdobrou o papel, curiosa, e leu, baixinho:Ora,mas há quanto tempo!Logo que você começou a ter aulas comigo, queria estar aqui à todo momento!Enchendo o meu saco: “Eu quero ser forte”, “Não quero mais ferir as pessoas”, “Ajude-me a livrar o meu traseiro do Reikai”,e agora,o que está acontecendo?Você deu o fora, para perseguir aqueles projetos de marginal da sua escola.O que vai ser da próxima vez?Você vai tentar impedir a pesca de baleias ou pretende destronar o imperador?Vamos perder mais um bom período de treinamento por causa dessa confusão em que você se meteu.Sei que desta vez não foi sua culpa, mas deve estar cheia de remorso, do mesmo jeito que estava da última vez, apesar de ter gostado de bancar a enguia elétrica!Deixe de frescura, menina!Decida logo o que você quer!Espero que esteja bem lembrada à respeito do clã de seu pai...eles ainda se lembram de você,com toda a certeza.Melhore rápido e venha treinar.Todo mundo acha você muito forte e durona...mas vou dizer o que eu penso da sua dureza,Fujiwara:é igualzinha à chocolate derretido grudado em papel alumínio.Ainda vou ter de bater bastante em você antes de endurecê-la de verdade.Reiko sacudiu a cabeça depois de ler a assinatura, dando uma risada descontraída.—Não há dúvida de que é da Mestra Genkai,o envelope está cheirando à mel!Kenichiro desaprovara totalmente o conteúdo da carta, mas a outra parecia bastante feliz.—Esta senhora tem um modo tão estranho de se dirigir aos outros...—Ela é franca e direta, vovô, uma coisa com a qual não estamos acostumados...a mestra é bastante dura,mas eu creio que uma pessoa endurece pela necessidade de lutar...o caso de Genkai é muito diferente daqueles em que as pessoas tornam-se amargas,insensíveis,ou pior ainda,acomodadas...ela é uma lutadora que já sofreu muito,mas ainda há um bocado de chocolate derretido nos olhos dela...—Reiko riu, um pouco animada.—Se a mestra estivesse aqui, isso teria me custado uma série de exercícios tortuosos...—Oh, minha filha, só mesmo alguém tão boa quanto você para se apegar à pessoa dessas...não gosto do modo como essa mulher fala e age...ela é brutal demais.Kenichiro suspirara resignado, sem olhar para a neta.Reiko permaneceu calada por alguns instantes, imóvel após ouvir a palavra “filha”.O tom do avô pareceu-lhe estranho...ou será que era sua imaginação?—A questão é meramente perceptiva...—A loira ignorou a estranheza.—...veja por exemplo,o diretor da escola...mesmo com toda aquela conversa mole ,sei que ele me considera uma pessoa extremamente infantil,assim como cada porção de pessoas considera que sou anárquica,intelectual de meia tigela,corajosa,rude,inteligente,enfim...o senhor tem o exemplo dentro de casa:aquela reportagem do suicídio rendeu-me um dos prêmios anuais do Conselho Nacional de Educação...e o escândalo gerado pela palestra tornou-me quase tão popular quanto aquele assassino filho da puta que a nossa mídia fez o favor de transformar em celebridade...mas a minha vida na escola virou uma espécie de odisséia fodida...boa parte dessa popularidade vem de uns cretinos que adoram rebelar-se até contra o novo sabor da pasta de dente,para mostrar o quanto são “maneiros”...a maioria dos professores passa-me toneladas de trabalhos extracurriculares...os irmãos Fukuda vivem discutindo entre si e me detestam...cada texto que escrevo passo pelo crivo de um sensor...alguns deles só conseguem ir para o jornal depois de muita batalha verbal,porquê felizmente o professor Takenaka ainda é capaz de lutar por qualquer aluno que precise de ajuda...o que eu quero dizer é que as pessoas não vêem as coisas como elas são,elas vêem o que tem dentro de si mesmas...o senhor não gosta de Genkai porquê ela é uma estranha que ocupou um lugar importante na minha vida...de certo modo,o senhor acha que a mestra tem a chance de fazer mais por mim do que o senhor...e não lhe parece adequado o que ela têm feito...o senhor sempre foi muito sincero e colocou-me dentro do realismo das coisas...mas tem medo do que os outros possam fazer comigo...veja bem,a minha vida é uma aberração,por assim dizer...isso mexe com o senhor,por isso não consegue suportar que alguém seja duro comigo para ensinar-me.O senhor tem medo de me perder...—Ela o fitou com serena emoção.—Saiba que eu também tenho muito medo de perdê-lo.Kenichiro continuou sem fitá-la, mas franzira o cenho.—Você não acha certo pressionar as pessoas...mas isso o que ela faz com você é pressão...—Não é não, ela quer que eu aprenda. É muito diferente do pai que obriga o filho a seguir a mesma carreira ou do panaca que humilha os colegas no corredor da escola...é muito difícil admitir a existência de um problema,uma fraqueza...ou você tem coragem de mudar ou não tem...se não tem coragem,e isso se deve em parte às pessoas e ao sistema que estão ao seu redor...você se acomoda,e passa a ignorar aquilo,como se não existisse...eu gostaria de solucionar todos os problemas vovô,eu gostaria de conseguir me comunicar com as pessoas...se todo mundo se comunicasse...e se despisse dos seus recalques,do orgulho,nós poderíamos vencer...eu também tenho medo.Eu sou cheia de recalques e de orgulho.Eu gostaria de mudar...se pudesse ver em alguém a mesma disposição que eu vejo em mim,eu sentiria melhor...menos...menos errada...ninguém vive sozinho no mundo...você não pode mudar o mundo sozinho...se você estiver sozinho numa parada qualquer, o mundo é que muda você.Quando sou ferida, eu reajo automaticamente.Há pessoas que escolhem matar, outras escolhem morrer.Eu não quero matar porquê isso faz de mim um monstro...mas não quero aceitar a morte porquê isso faz de mim um trapo.Refletir é a única saída...mas quem consegue refletir prestes a levar uma bala na cabeça?Só então ele a fitou.Reiko deixara a maleta de lado, ao seu alcance.Ela descansava os cotovelos sobre os joelhos, o queixo sobre as mãos.De repente, ela recostou-se para trás, cruzando os braços, começando a chorar furiosamente, mas em silêncio.O avô tentou abraçá-la.—Não, vovô, não me console, por favor, aqui eu não sou a vítima...eu sou a última pessoa do mundo a merecer consolo.Eu não mereço estar aqui...eu não mereço...eu deveria estar no mundo das trevas junto com o imbecil do Otake,empilhando oferendas àqueles deuses fodidos.Muito calma e dura, ela assentira e erguera o dedo contra si mesma, olhando para frente.Kenichiro levantou-se, com o ar mais tranqüilo possível, e foi agachar-se diante da neta.—Não pense que passarei a tolerar este vocabulário vergonhoso...só hoje abrirei uma exceção...Os dois passaram alguns momentos calados, ele observando-a com muito carinho, e ela olhando na direção de Toru.—Eu não deveria estar chorando aqui...se ele ver,pensará que pode me sacanear...mas quer saber...—Reiko voltou-se para o avô.—Ele que vá pro inferno, ele e todo o mundo que não pode me ver chorar.Um dia, quando ainda era inocente, ela já chorara na frente do Comandante Otake, e o homem não se comovera.A sua mágoa depois do episódio era a mesma que Yusuke Urameshi alimentara a partir do momento em que foi flagrado chorando depois de ser obrigado a sentar-se nos fundos da sala de aula durante uma semana inteira, na ala dos “Meninos Preguiçosos”, por ter cometido um erro durante uma gincana inter-escolar cujos vencedores teriam direito ao que ele chamava de “brindes do inferno”.Os colegas lhe negaram o perdão, assim como Otake negara consolo à Fujiwara.Ambos ficaram encolhidos num canto como dois animaizinhos irracionais.—Você está assim principalmente...por causa do problema com o Reikai,por causa de Kaoru Motomiya,ou as duas coisas?A garota passou a mão sobre o peso do próprio olhar, secando a vista e umedecendo a palma.—Vovô, todo o Reikai pode ir se foder porquê eu estarei viva para lutar o quanto eu puder, aconteça o que acontecer...mas Kaoru se foi,e nada que eu tente fazer vai trazê-la de volta.Ela não pode mais lutar.Eu podia tê-la ajudado quando tive a chance, mas falhei.Um dia eu resolvi subir na porra de um palco de auditório, segurando um maldito microfone, desejando que as pessoas pudessem entender que não vale a pena jogar a vida fora...porquê se eu tivesse a chance de viver uma vida de verdade,vovô,só Deus a tiraria de mim...porquê todos os dias me vem na cabeça a imagem de mamãe,trancada numa cabine do banheiro da escola,rasgando os pulsos com a sua lâmina de barbear...e depois...quando tive a oportunidade de salvar alguém...eu me acovardei e deixei que essa pessoa morresse.O que se pode pensar de mim agora?Que sou realmente uma intelectual de meia tigela, igual àqueles cientistas sociais pacanas que pesquisam sobre a pobreza e não sabem o que é isso de verdade?Que sou uma sacana egoísta vítima de uma ridícula autopiedade?O que eu sou agora, vovô?Um monte de merda inútil usando capa de super herói e enfeitada com uma cereja,é o que eu digo.Kenichiro fitou o rosto angustiado,procurando fugir de sua própria angústia.Numa terça-feira, antes de ir para a escola, Ayumi surrupiara-lhe a navalha que usava para raspar a barba...algum tempo depois,ao desistir de morrer,ela estava morta de qualquer maneira.O avô levantou-se, despiu seu terno caro e bem cortado, estendeu-o sobre o chão e sentou-se, diante da neta.Ela estava curvada na direção dele.—Você não é uma merda, Reiko...—O senhor Fujiwara utilizava a mesma curiosa mistura de firmeza e suavidade a qual a garota sabia manusear muito bem.—...você é uma lutadora que já sofreu muito.—Não há nada de admirável no que fiz até hoje...—Você se lembra das estórias que lhe contava, sobre a aldeia e o sentinela?—Sim, eu lembro.—Qual era a moral?Você pode resumi-la para mim?Mas quero que ouça a sua própria voz, quero que encontre dentro de você essa moral.Você é capaz disso.—Bem...—Ela olhou para o para o céu, como se a resposta estivesse ali.—Espere um pouco,deixe-me organizar as idéias...certo...naquela ocasião,o senhor pediu que eu colocasse numa balança as minhas sensações...de um lado a aldeia cheia de paz,e do outro,o mesmo lugar, só que destruído...—Reiko voltou a fitá-lo.—A destruição da aldeia machucou-me bastante,porquê eu perdi a paz,ou melhor,o sentinela ficou machucado e perdeu a paz...por causa disso ele se deixou destruir também por dentro,pelo desejo de vingança...naturalmente isso não trouxe de volta nenhuma das duas coisas...ele deu vazão à sua fúria,ao invés de canalizá-la para construir alguma coisa...era como se tivesse uma ferida apodrecendo dentro dele...tornando-o uma pessoa violenta e medíocre...a simples realização do ato de destruir,como os seus algozes,foi o suficiente para rebaixá-lo ao nível dos homens cruéis...ele se importou com o que lhe fizeram...não com o que a sua natureza buscava ou era capaz de fazer...ele foi fraco...porquê deixou a desgraça determinar o seu caráter...—Exato.Todos nós temos essa tendência obscura, mas natural, a levar em conta primeiramente os maus acontecimentos.Porquê?—Penso que...eles são capazes de nos mover...com muito mais intensidade...a dor motiva mais do que a felicidade.Se você...abraçar alguém todos os dias,essa pessoa enxergará o gesto como sendo algo comum...mas se você esbofeteá-la uma única vez...ela ficará fortemente marcada. —Isso está acontecendo com você agora.—É diferente, vovô!—Como está indo aquela idéia da Associação Anti Bullying?—Não muito bem...—Porquê? Reiko suspirou.—Para variar, é a porcaria da estúpida honra, mais uma vez...pedir ajuda por estar sendo perseguido é visto como fraqueza, uma atitude vergonhosa para você mesmo,para sua família,para os seus amigos,enfim,o cacete!As pessoas vivem como se ainda estivéssemos no tempo dos samurais...os alunos que se dispõem a enfrentar o julgamento dos demais esbarram em outra dificuldade,o medo de sofrer ataques ainda piores...ora,não adianta oferecermos suporte se não somos a entidade maior naquela área!O problema está na estrutura, vovô, nas regras principais...para que os alunos acreditem nessa iniciativa,e sintam segurança,precisamos que a direção da escola nos apóie primeiro,interferindo direta e publicamente...mas adivinhe só:aquele panaca do diretor está tirando o corpo fora!—Você já falou com ele?—Não!Ao que parece toda as vezes em que eu penso em procurá-lo para conversarmos,o vidente particular dele dá o toque e aí baixa um grupo de três ou quatro para uma reunião que dura no mínimo o dia inteiro.Uma vez ele me passou a perna e fugiu pelos fundos...eu não gostaria,mas estou prestes a cometer uma grosseria com requintes de sadismo...—Você acha que sua idéia está fadada ao fracasso?A expressão de Reiko suavizou consideravelmente.—Não.—Ela sacudiu a cabeça.—Todos os meus companheiros do jornal apóiam totalmente, bem, Osamu Ichijoji só está interessado em marketing, mas pode-se fazer muita coisa com ele...Keiko Yukimura também está participando, foi a única representante de turma que se dispôs a colaborar, o senhor pode acreditar ou não...quanto aos clientes...estamos trabalhando com apenas quatro pessoas,por enquanto...uma delas está querendo voltar à sua pseudo-vida de Parque Dos Cretinos...de qualquer modo,não temos pessoal o bastante e nem com disponibilidade de tempo para lidar com mais gente...—Você pensa em desistir?Ela sacudiu a cabeça, resoluta.—De jeito nenhum, nós estamos só começando. —Você reuniu essas pessoas em torno de um objetivo nobre...isso não é digno de admiração?E está determinada em seguir adiante...não é uma escolha mais inteligente do que se entregar ao derrotismo?—Eu estou fazendo a minha obrigação, desculpe, mas não vou receber elogios por causa disso.—Obrigação?...—Kenichiro observou com cuidado o rosto da neta.—Reiko...você acha que tinha alguma obrigação com aquela moça?Porquê você se diz culpada pela morte dela?—Eu já sei onde o senhor está querendo chegar...—A garota declarou, suavemente, quase melancólica.—Eu agradeço à Deus,do fundo do coração,por tê-lo,vovô...o senhor me enxerga de um modo que eu adoraria tornar realidade...o que acontece é que...eu não posso sair por aí empilhando cadáveres e querer compensar isso ajudando velhinhas a atravessar a rua.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Enquanto caminhavam, os dois passaram por um grupo de adolescentes jogando vôlei.Aquilo trouxe nostalgia e más recordações à Reiko,quando alguma coisa falou mais alto em sua mente.—Vovô...quem denunciou Kaoru por agressão?—A irmã mais nova dela, Norika.Fujiwara surpreendeu-se.—O que houve entre elas?—Apuraram que as duas discutiram num bar em Shinjuku...Kaoru deu uma bela surra na outra, houve até exame de corpo de delito...ela acusou a irmã de tê-la roubado,mas na delegacia se retratou e as duas assinaram um termo de boa convivência.No tal bar ninguém jamais ouviu falar delas ou se lembra desse evento...é engraçado,para não dizer esquisito...—Onde está Norika Motomiya?O que sabemos sobre ela?—A mãe disse que há muito tempo não falava com as filhas...Norika veio depois de Kaoru para Tokyo, quando ela já não estava no alojamento e nem no primeiro emprego...disse ainda que a mais nova deve ter viajado com uns amigos,porquê não sabia onde ela estava...é só o que temos.—Será que é mentira?Digo, talvez a senhora Motomiya não queira que falemos com ela, ou quem sabe a própria Norika prefira ficar calada...—Reiko ficou pensativa.—Ela poderia nos dar todas as respostas, ou no mínimo, a maior parte, com certeza...—De repente, um horrível pensamento exasperou-a. —Vovô...o senhor acha que...a irmã de Kaoru pode ter sido apanhada também?Se for verdade essa estória dos amigos...talvez existam mais vítimas...Kaoru talvez tenha sobrevivido e...oh,Deus...Apenas quando chegaram no carro, Toru aproximou-se, preferindo não ser notado.***—AHÁ, hoje você não escapa!—Calma, chefe, calma, eu sou da paz!O exultante gerente do super mercado, usando gravata vermelha e suspensórios brancos sobre uma camisa azul, investiu contra Yusuke Urameshi, chicoteando-o com um mata-insetos de plástico enquanto segurava na outra mão uma lata onde se lia ‘Mace’, o temível spray de pimenta,ou ‘inseticida contra vagabundos’,conforme denominação de sua autoria.Ao mesmo tempo em que protegia seus olhos, Yusuke corria na direção da saída do estabelecimento, desviando de fregueses aturdidos (alguns, porém, pararam para se divertir com a cena) e gôndolas repletas de produtos caros demais para os trocados que raspara do fundo de uma lata de biscoitos vazia antes de ir para a escola.Os tais trocados, àquela hora, estavam fazendo a alegria de um mendigo, muito amigo seu, aliás, com quem ele dividira uma garrafa de uísque barato da qual a senhora Atsuko Urameshi sentiria bastante falta posteriormente...Os bolsos de Urameshi transbordavam clandestinamente: pacotes de balas, chocolates, isqueiros, garrafinhas de iogurte, bolinhos de arroz entre outras guloseimas e objetos de porte pequeno que faziam-no parecer dono de suspeitos quadris.Antes de ser apanhado pelo gerente, já estava de saída, pensando se haveria chance de enfiar uma ou duas revistas pornográficas dentro da camisa.—HIROSHI, KENSHIN, FECHEM AS PORTAS!Dois homens correram a fechar as portas de vidro, mas Yusuke, desviando de um jato de mace que lhe queimou a bochecha direita, pulou sobre a esteira de um dos terminais de pagamento, e atirando tudo o que tinha nos bolsos sobre a dupla de seguranças, atordoando-os, conseguiu chegar até a saída, abaixando-se e gingando para os lados, escapando das mãos enérgicas.Ao invés de seguir pela calçada cheia de transeuntes, resolveu atravessar a rua freneticamente, enfrentando o trânsito, onde ninguém poderia apanhá-lo, a não ser o carro por sobre o qual ele rolou, num momento de vacilo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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