Estrela Solitária
6 Capítulo 4 : Empatia
Capítulo 4: Empatia—Pega a chave extra do banheiro,por favor.—Você vai entrar?Keiko Yukimura e Reiko Fujiwara estavam no início do corredor,de pé,entreolhando-se.O único banheiro da casa ficava no final,à direita,e mesmo iluminada,a distância ínfima pareceu à Reiko interminável.—Talvez Kaoru esteja chorando pra valer,se aliviando...—De braços cruzados,a loira ponderou,soturnamente.—...tem certeza que lá dentro não há algo com que ela possa se ferir ou envenenar?—Não acha que está sendo um pouco paranóica?—A morena a fitou com ar condescendente de quem pedia razoabilidade.—Ela está bem assustada,mas...daí a se matar?—Você só não acredita nessa idéia porquê isso lhe causa repugnância.
—E à você,não?—Sim,mas quando estamos familiarizados com as coisas ruins,estamos mais preparados pra acreditar que podem acontecer.Keiko foi pegar a chave,e ao retornar,mostrava-se curiosa,embora tenha desviado o olhar depois de observar o rosto da colega rapidamente.—Ninguém que conheço cortou os próprios pulsos,eu pesquiso muitas coisas,como você sabe...—Reiko tomara a dianteira,surpreendendo-a.—...lembra daquela reportagem sobre suicídio que publiquei no jornal?Kaoru,querida,precisa de alguma coisa?—Não!—Foi a resposta abafada pelas paredes.—Obrigada.O tom de voz tranqüilo satisfez Fujiwara.Ela permaneceu em silêncio,esperando atentamente.Várias discussões sucederam à publicação daquela reportagem,pois na visão de alguns pais e educadores,aquele não era assunto a ser abordado num jornal escolar.Keiko Yukimura discordara publicamente:a série de artigos continha embasamento psicológico,histórico,sócio-cultural,e de profissionais entendidos no assunto,discorrendo sobre a terrível prática entre os cidadãos japoneses—“Um Povo Glamouriza a Covardia”.Havia,no encerramento,junto com telefones de grupos de apoio—entre eles o telefone da própria autora da reportagem—um texto sobre a visão pessoal de Reiko:Problemas econômicos,doenças,distúrbios mentais e de personalidade,pessimismo,pressões sociais,hipocrisia,uma cultura fria onde não se prezavam as relações de companheirismo entre as pessoas,somente as obrigações...gostara em especial da última frase:“Para ajudar alguém em depressão,a gentileza no seu modo mais simples já é perfeita.Seja simplesmente gentil com as pessoas,todos os dias.E jamais pressione os outros.Pressionar é sinal de fraqueza”.Aproveitando-se de sua autoridade como representante de turma,Yukimura organizara um debate no auditório da escola sobre a questão.As discussões transformaram-se em confusões.Um dos pais presentes chegara a pedir a expulsão de Fujiwara,alegando que “Suicídios eram coisa de gente maluca,vagabundos e drogados!”,pois seus filhos eram boas pessoas,vindos de boa família.“Existem outras pessoas além dos seus filhos,senhor...aliás,gosto muito de Yamato e Sora...são pessoas jovens,dignas e cheias de esperança...”A voz de Reiko ecoara serena e respeitosamente,através do microfone,embora ela demonstrasse nervosismo.“Me diga,o senhor já foi visitado pela tristeza e a frustração de um jeito desesperador?O senhor trabalha numa grande empresa,não é?Nas grandes instituições financeiras do nosso país,o trabalho vem em primeiro lugar,eles vão rumo ao progresso sem olhar para os lados...quando seu chefe chega,depois do senhor,muito bem-humorado,com uma pose de líder intocável,nunca sentiu vontade de esmurrar sua pequena mesa,atulhada de serviço que ele acumula injustamente sobre o senhor?Quando ele berra uma ordem atrás da outra,salpicando saliva em seu rosto,o senhor não tem vontade de berrar por um pouco de respeito?Quando recebe o seu salário,não tem a impressão de que seu trabalho pesa mais sobre seus ombros do que aquele dinheiro pesa em suas mãos?” O auditório silenciara-se horrivelmente.Para muitos deles,Reiko Fujiwara se transformara num símbolo desprezível de rudeza,mas ainda assim,sua audácia impressionara.Keiko ficara apreensiva.“Todos nós temos obrigações...” Pálido,o homem retrucara.“É desse tipo de pressão que falei num dos meus artigos.De que adianta termos uma sociedade tão eficiente economicamente se todos estão morrendo de pé?Até na hora de pular da cobertura será preciso que alguém empurre.”Houvera murmúrios indignados.Professores quiseram intervir,mas foram impedidos por alguns de seus colegas.Reiko se arrependera da última frase,mas já era tarde.“Nós somos um bando de ingênuos arrogantes...ao invés de...criarmos uma sociedade onde todos trabalhem pelo bem de todos...criamos um sistema de competição que admira aquele que der uma contribuição supostamente maior...”Reiko sentira um entalo na garganta ao ver muitas cabeças discordando.Mas aquilo dera-lhe um empurrão.Para que manter uma máquina funcionando se ela só serve para se auto-desgastar?Isso está desmoronando,é como se fosse uma fachada de gelo que está derretendo...isso vai se refletir no nosso padrão de vida,na nossa vida familiar...o senhor pressiona Yamato e Sora,não é?Como o seu pai o pressionou para que estivesse onde está agora,como o pai do seu chefe o pressionou também.O seu chefe é um homem medíocre...com um físico franzino,talvez,com um caráter franzino...desde a escola ele aprendeu que a lei estúpida do mais forte prevalece e hoje vive como um colegial muito velho...ele não está interessado no crescimento do país...ele só quer descontar toda sua tristeza e frustração em funcionários como o senhor...é isso o que vocês sentem,depois de cada expediente,frustração...e todo o dia,sempre vem a tristeza...o senhor está cansado de ir às festas dele só para agradá-lo,não está?De ser o centro das suas piadas insossas...daquele homem mesquinho que precisa pisar nos outros para se sentir melhor.Ele deve pagar mulheres mais franzinas que ele para dizerem coisas amáveis junto aos seus ouvidos e gosta de desfilar com elas como se lhe pertencessem...não importa que ele mesmo saiba que não,o importante é mostrar pros outros...”
Keiko pusera a mão na testa.Os alunos escutavam,de olhos arregalados.“...Mas o senhor é diferente dele.Seus filhos o amam e falam muito bem do senhor.O senhor tem uma esposa,não deve gostar que ela trabalhe fora,porquê sabe que a família precisa,principalmente o senhor,de toda a energia e a dedicação dela...o senhor a pressiona também às vezes...”Sora Fukuda levantara-se e saíra do auditório pisando forte.As mãos de Reiko suavam,mas ela não conseguia parar.“...o senhor a obriga a economizar o máximo possível...para dois ou três seguros de vida...mas o seguro da sua família é uma boa convivência agora.Converse mais com os seus filhos,saia com sua mulher para ir ao cinema...não os pressione...a sua casa deve ser um refúgio...o senhor é um bom homem,que vai deixar seus filhos escolherem seu próprio caminho...assim tudo vai mudar...mesmo que seja aos poucos...o importante é que esteja mudando...se não mudar,as pessoas vão continuar se matando por pura moda...como se fossem gado de carne ruim...no Japão,suicídio é sinônimo de coragem,mas na verdade...é só a fuga de uma vida que não deu certo,sem objetivos,sem descobertas...a vida é preciosa demais para ser baseada em convenções.O senhor é forte,eu sinto isso só de olhar...construa alguma coisa que seja sua...seja honrado sem ter de provar isso à gente burra e medrosa que não está nem aí para o senhor...ensine seus filhos a construir...não deixe que eles vendam a alma em troca de um status que só pede sacrifícios”.Nesse momento,o diretor da escola,que estivera embasbacado,decidira dar um basta.Yamato Fukuda fitava Fujiwara com absoluto ódio.Tanto ele quanto sua irmã jamais voltariam a falar com ela.A loira saíra de cabeça baixa,amparada por Keiko,que já se arrependera de ter armado aquilo.Pouco antes de alcançar a saída,ouvira aplausos dos dissidentes,mas eles só fizeram com que se aborrecesse.Um assovio estridente a irritara em particular.Nesse momento,o barulho de água corrente cessou.Era Kaoru Motomiya que saía do banheiro,com os olhos baixos,um rosto profundamente marcado pela reserva e pela angústia.Reiko Fujiwara viu à si mesma depois daquele debate escolar.[align=center]***[ /align ]—A sua pele está gelada…parece de borracha...mas você é muito gentil,igual às outras...vocês são garotas legais...!Porquê não são assim quando podem falar e se mexer?O egoísmo todo vai embora pra sempre quando não falam e nem se mexem mais...vocês ficam puras por toda a eternidade!Quero ser gentil também...eu não vou deixar você apodrecer!Masanori Kato beijou a mão do cadáver,contemplando-o em deleite,com os lábios entreabertos.Só o desejo de explorar dominava sua agressividade,porém,deixando visível um ar determinado de divertimento e expectativa. Ele amara desde o primário uma colega de classe,Yume Sagawa.Apesar da amizade próxima,jamais teve coragem de confessar seus sentimentos.Durante anos,saíram juntos para ir à escola e freqüentar lanchonetes.Conversavam pelo telefone à noite,ela,descontraída,ele,com uma sensação de medo e fúria assombrando sua mente.Tinha certeza de que seria rejeitado se falasse.Yume não sabia que seu doce e tímido amigo delinqüia num distrito vizinho,para evitar má fama e assim,não decepcioná-la.Ele e seu grupo praticavam furtos,vandalismo,e ofereciam um serviço de proteção remunerada à pessoas que eles mesmos agrediam.O garoto também espancava cães e gatos até a morte,então tirava-lhes a pele e separava seus órgãos de sua carne como um açougueiro profissional,um hobbie que chamava de “Desvendar Almas Concretas”.Ele torturava seus desafetos obrigando-os a comer os pedaços das “Almas Concretas”,depois exigindo que imitassem com perfeição os animais devorados,para comprovar o que já sabia:uma alma absorve a outra,assim,elas se completam,tornando-se gêmeas. No segundo ano do colegial,a senhorita Sagawa arrumou um namorado.Kato odiou à si próprio por ser tão covarde.Odiou Yume,pois sendo mulher,é claro que tinha a obrigação de ter percebido quem era o homem certo.Será que a causa de sua fraqueza era a perturbação de sua ‘energia vital’ pelos pensamentos de sua amada?A maior frustração de Masanori era não conseguir ler as mentes,por isso,ele construía fantasias o tempo todo,como se fossem um roteiro de filme,onde os personagens e as situações ficavam sob seu total planejamento e controle.Algum tempo se passou,Kato foi admitido pela família Hisamatsu,e um terrível acidente ocorreu:Yume Sagawa ficou presa nas ferragens do seu carro,que se chocara contra a pilastra de um túnel.O rapaz chegou ao local depois do resgate, encontrando apenas a pilha de metal retorcido em que se transformou o veículo.Ele não chorou, observando a cena comovido,fascinado.Ele fechou os olhos enquanto sua mente desenhava dois quadros: No primeiro, Yume aparecia caminhando, falando, se despedindo,retornando,recusando,aceitando,escolhendo,dispensando,andando ao seu redor como se estivesse num labirinto,encontrando todas as saídas possíveis,menos a em que ele estava,à sua esperaO segundo quadro trouxe ao seu rosto uma expressão confusa de júbilo,como se não acreditasse em milagres e temesse desgarrar-se de um sonho:Yume estava deitada num caixão de cristal,rodeado de magníficas flores,feito uma Branca-de-neve sepulcral,ao alcance do príncipe.Ela havia morrido pouco depois da batida.Pedaços de vidro do pára-brisa tinham penetrado sua garganta e o pulmão fora perfurado por uma haste de ferro.Na ambulância, seu senso agonizante venceu a dor num único momento, dedicando o último pensamento ao melhor amigo que se afastara de seu convívio sem explicação.Masanori foi ao velório,para cortejá-la.A foto no altar jamais teve sua atenção.Pensou na torre que encerrara Rapunzel:será que era escura e abafada,como o interior do caixão que encerrava Yume?Masanori foi ao enterro,e lá formalizou o pedido.Ela,é claro,aceitou.O casamento aconteceu na noite daquela mesma data.Isamu Ishida e Hideo Kenzaki o ajudaram a cavar,profundamente enojados,mas impelidos pelo espírito de companheirismo da família.Kato ordenou que se afastassem.Desatou o laço e tirou da caixa um brilhante vestido branco e um longo véu de tule.Yume jazia dentro do caixão aberto,suas faces cadavéricas iluminadas pela luz da lanterna.Seu pescoço enfaixado,o tom púrpura do rosto e o algodão em suas narinas excitaram o noivo.Acabou tendo de chamar os dois ‘irmãos’:não conseguia vesti-la sozinho!Apesar dos protestos de Ishida,o feito foi realizado.Kenzaki também não tinha gostado substancialmente daquilo,mas a situação despertou nele um misto de repulsa e curiosidade mórbida.Quando a noiva ficou pronta,mais uma vez a deixaram à sós com o futuro marido.Seus caninos surgiram inofensivos sobre o sorriso extasiado.A lanterna deslizou de sua mão.Masanori Kato colocou o corpo sem vida sobre o gramado e fez sexo com ele diversas vezes,cravando os dedos na terra úmida do cemitério enquanto se movia.Fora a sensação mais plena de sua vida.Conectado à pessoa amada,podia ouvir tudo o que ela lhe dizia,mesma à longa distância do além!Ao final,tombou sobre a morta encharcado de suor,enroscando aos dois no véu diáfano.Meia hora se passou.Ele levantou-se,ajeitou o traje da mulher,indo ao carro à seguir.De lá,trouxe uma Katana de 30 centímetros.Enquanto a lâmina da arma brilhava junto à lápide onde se lia “Yume Sagawa –Muitas saudades,filha adorada e etc.”,Masanori tirou a gravata borboleta,a camisa e o paletó,espalhando as roupas pelo chão.Uma belíssima e luzidia tatuagem tomava toda a extensão de sua pele ao ilustrar animais selvagens vivendo em harmonia,flores e pares de olhos que choravam,provavelmente para regá-las.O homem ficou de joelhos sobre o corpo,desabotoando-lhe a parte frontal do vestido até o ventre.Com a mini-espada,cortou e removeu o grande curativo,até revelar a ferida mortal,logo acima do seio esquerdo.Ele se curvou e lambeu-a,umedecendo a região cheirando a formol.Kato ergueu o tronco,agarrando o punho da katana com ambas as mãos.Logo,o grande momento:de um só golpe,ele rasgou o centro do tórax de Yume,na linha vertical.Só parou ao alcançar o ventre,fascinado com o aspecto pastoso do sangue.A rigidez da carne de cadáver não tinha sido problema.O luar jamais estivera tão belo e fantasmagórico.Masanori imaginou-se num palco de ópera,seu amor tomando proporções poéticas na visão das pessoas.
Largou a espada,e enfiou suas mãos na cavidade entre os seios da moça,agarrando as bordas e esgarçando-as.Quando achou que a abertura era suficiente,vasculhou o interior em busca do elo que uniria o amor do casal de uma vez por todas.Ele arrancou o órgão viscoso com romântica urgência.O coração de Yume finalmente estava em suas mãos.Ele o devorou sem pressa.Ao engolir o último pedaço,chorou,emocionado.Os corações dos dois amantes estavam unidos.Ela estaria sempre guardada dentro dele,passeando em sua mente e alma.O mafioso calmamente realizara seus desejos,sem interrupções.A família Sagawa jamais soube da violação.Durante algum tempo,ele divertiu-se com relacionamentos sem importância,nos necrotérios dos hospitais.Para Masanori,era o mesmo que ir à um bar e conhecer alguém só para uma agradável aventura.Graças aos compromissos sociais de seu grupo,de fato ele tinha de freqüentar bares,mas havia muita perturbação ameaçando sua energia vital.Deveria recuperar sua tranqüilidade,mas como?Alimentando-se de uma alma concreta viva e amável,é claro!Felizmente,aproximou-se de Norika Motomiya,uma tímida garçonete.Os dois estavam prestes a se tornar um só.[align=center]***[ /align ]Masanori Kato e Reiko Fujiwara partilhavam de uma similaridade:ambos gostavam de estar no controle.Ela estava muito insatisfeita consigo mesma.Tão logo Kaoru Motomiya pedira para tomar banho,a pseudo-jornalista tinha entrado em ação:—Er,não tem água!Keiko a fitara com muita surpresa.—Claro que...—Está faltando água nesta parte do distrito desde o final da tarde.A associação dos moradores falou com a companhia,houve problema nuns canos principais do sistema distibuidor...Reiko sinalizara significativamente para que Yukimura concordasse,mas a garota negou.—Eu estava lavando louça antes de vocês chegarem.O banheiro fica ali,Kaoru,tem toalha,sabonete,xampu,tudo o que precisar.Eu vou pegar um pijama pra você!Após entregar as roupas,Keiko foi ao encontro da colega.—Que estória foi aquela?A outra sorriu,secamente.—Pergunte às evidências de um possível estupro,mas rápido,antes que elas desçam pelo ralo!—Eu não acredito!Reiko,essa menina precisa de apoio,de atenção!—Keiko falou,preocupada como se fosse a mãe de uns cinco órfãos de pai.—Olha...esta é a sua casa...eu respeito isso...agradeço por estar sendo tão atenciosa...sei que isto não é uma batida policial...mas você viu o estado dela...se tivesse visto como estava quando a encontrei...quase catatônica,morta de medo...—Eu entendo,me desculpe!Tem razão,mas...quer saber?O importante é ela ficar bem.Quando estiver mais calma,vai nos contar tudo.Além do mais,se ela foi...estuprada...—Keiko sentiu um leve arrepio,de horror.—...os sinais não vão sumir por causa de um simples banho!—Claro que vão,em que mundo você vive?!A saliva,o esperma,o sangue!Fios de cabelo,pêlos pubianos,restos de pele sob as unhas!—O que você queria,obrigá-la a ficar suja e levá-la à força à uma delegacia?—Eu queria ganhar tempo,até que Kaoru se abrisse,numa boa!—Olha,se aconteceu alguma coisa,ela deve estar muito machucada!—Não adianta se não tivermos provas materiais com que identificar o safado!Ainda por cima,às vezes atividade sexual constante mascara lesões desse tipo,e não sabemos se ela se encaixa ou não nesse grupo...isso sem falar que o estuprador pode ter usado vaselina pra facilitar a penetração...—Reiko!—Keiko Yukimura arregalou os olhos,escandalizada.—Pára!Por favor.Isso é tão nojento!Quanta maluquice!Depois daquela conversa,restou à Fujiwara somente preocupar-se com um possível suicídio.Ver Kaoru sair do banheiro carregando tanta angústia fez seu aborrecimento em relação à Keiko recrudescer,contra sua vontade.“É preciso enfrentar as dores,senão,viramos reféns!As pessoas fortes são as que tem mais cicatrizes,porquê elas lutam!”—Era o que seu avô sempre lhe dizia.Enfiar Kaoru Motomiya debaixo de um chuveiro e depois num meigo pijama poderia confortá-la momentaneamente,mas não ia eliminar suas dores.Devia tê-la feito se calar de algum jeito!,pensou Reiko,enquanto se dirigiam ao quarto de Yukimura.—Você quer comer ou beber alguma coisa?—Keiko ofereceu,amavelmente.Reiko ao seu lado,fitando Kaoru,que sentada na beira da cama,exibia taciturnidade total.—Não,obrigada.Foi então que a pseudo jornalista pressentiu um novo perigo:Yukimura estava olhando para a terceira jovem com a indefectível expressão estou-morrendo-de-pena-de-você-e-vou-te-dar-muito-carinho,que antecedia o clássico “Me conta o que aconteceu para que eu possa ajudar você!”.Aterrorizada,viu Kaoru insegura,desconfiada,retraindo-se em definitivo,escapando de seu alcance.—Keiko...—Fujiwara tocou no ombro da colega delicadamente.—Porquê você não vai ajudar sua mãe no restaurante?Eu faço companhia à ela.Ah,e não comente nada com seus pais,para não preocupá-los!A garota mais alta sabia que os senhores Yukimura,mesmo cheios de boas intenções,não saberiam ajudar:pressionariam,chamariam a polícia contra a vontade de Kaoru...a única certeza que tinha era de que a garota estava com muito medo.Somado ao constrangimento,a reação seria a pior possível. A morena observou a colega,incerta.—Tudo bem...se precisar,é só chamar.“—Vê se não banca a policial!”Quando as duas ficaram sozinhas,Reiko ligou o abajur que havia sobre um criado-mudo e desligou as luzes principais.O quarto pareceu menor e mais aconchegante graças à iluminação amarelo-fosca.Kaoru continuou no mesmo lugar,mas levantou a cabeça.—Keiko é um amor de pessoa...ela parece a mãe de alguém,não parece?—Fujiwara perguntou,em tom baixo e agradável.A loira despiu o moletom,pendurando-o num cabide próximo.O olhar de Kaoru se fixou no desenho da blusa sem mangas que a outra vestia.—É...parece...—Ela vive tomando conta do Yusuke Urameshi,o rapaz que encontramos na rua...dizem que os dois são meio que namorados...quer dizer,diziam,Yusuke já arrebentou os dentes de todas as bocas que falaram sobre isso...A estudante riu suavemente,e acomodou-se no lado esquerdo da cama,recostando-se contra os travesseiros,olhando apenas para o teto.Motomiya achou que deveria imitá-la,e o fez.Conte o que aconteceu!,uma parte de Kaoru pensou.Ela é legal!Está sendo tão compreensiva,tão gentil,aproveite e peça ajuda!—desta vez,pensar deu-lhe agonia.Ela precisa que você peça ajuda AGORA!E depois,como olharia para suas marcas?Como os outros olhariam?E quanto à honra de sua família?Além disso,não havia escapatória,do mesmo jeito só teria a morte como recompensa!Nós procuramos pela nossa própria desgraça...!—Quantos anos você tem,Kaoru?A pergunta sobressaltou a moça,que agora mantinha-se neutra.Ela demorou um pouco para responder.—Vinte e três.Foi a vez de Reiko pensar,trêmula de medo e ansiedade.Ela não irá se abrir com você.Na porra desse lugar as pessoas morrem de pé![i/]No Japão,muitas vítimas de estupro,ao invés de ir à polícia exigir sua justiça,vestiam um belo kimono—geralmente pertenceu à mãe ou avó—e rasgavam o próprio ventre com uma faca, antes de ir para um digno altar de cemitério,gélidas e serenas como donzelas honradas que cairiam no esquecimento.[i]É isso aí...alguém invade a sua vida e você acha que só esse alguém faltava para que chegasse o fim...você vive só para esperá-lo!De repente, uma idéia.A empatia...aproxima as pessoas!Mas...nesse caso...não exagere!Não pressione!Seja forte mas cuidadosa!—Droga,meu primo parece que sumiu da face da terra...eu já estou procurando por ele há dois dias...Shuichi Hatanaka,11 anos,era o único primo de Reiko.Ele colecionava brinquedos origami,chaveiros—comprados com o dinheiro economizado da mesada—,e adorava refeições em família.Vou ter que sujar sua barra um pouco,Shu-chan...—Aquele danado circula por aí com uma galera da pesada...—Reiko não se deixou intimidar pelo silêncio retumbante,e continuou.—...ele anda roubando e vive fugindo de casa...o pai dele me criou...titio chora dia e noite,não sei se mais morto de vergonha ou de preocupação...estou tentando ajudar...o garoto some porquê sempre estou no pé dele...Kaoru descansou as mãos sobre a barriga,com a garganta entupida pela própria voz.No entanto,inclinou a cabeça para o lado onde estava Reiko,que observava de soslaio.Ela quer mostrar consideração!Isso,continue assim!A loira julgou que contar uma estória de desavença familiar faria com que a outra não a visse como mais uma menina-de-vida-boa-que-ajuda-os-outros-para-ser-gentil.A empatia entre duas pessoas com problemas fluía melhor.Ainda assim,não convinha ensaiar dramas,tinha de envolver,mas descontrair o máximo possível.—Você gosta de sorvete,Kaoru?A tristonha garota apenas assentiu.Quando ficou sozinha no quarto,correu os olhos pelo ambiente,desalentada.Fujiwara não costumava circular sem convite pela casa alheia,mas naquelas circunstâncias,a etiqueta teria de apanhar uma senha e entrar na fila.Foi à cozinha,mas ao invés de sorvete,encontrou creme de papaya.Retornava pelo mesmo corredor carregando duas colheres enfiadas numa tigela cheia o suficiente para duas pessoas,quando lembrou-se...As roupas dela!A tigela esperava sobre uma mesinha,na sala,enquanto Reiko entrava no banheiro e encontrava as roupas de Kaoru dobradas sobre a tampa do cesto de vime.Não toque nelas!As mãos pararam no meio do caminho.Luvas!Preciso de luvas!Correu de volta à cozinha,meio curvada,pé-ante-pé.Ficou aborrecida após procurar em gavetas,nos armários,debaixo da pia,em cima da geladeira,no pequeno varal de roupas da minúscula área de serviço,na despensa,e não encontrar.Contentou-se em apanhar um pequeno rolo de fita adesiva e quatro sacos plásticos sem uso,envolvendo suas mãos em dois deles e levando os restantes para o banheiro.Usando as mãos como se fossem uma bandeja,recolheu a blusa rasgada.Um saco estufado sobre a tampa do vaso sanitário recebeu-a,antes de ser lacrado com um pedaço de fita adesiva que Reiko cortou com a tesourinha de manicure que havia no armário espelhado.Que merda,Yukimura!Embalou o par de calças,lamentando a falta da roupa de baixo,onde sem dúvida os peritos policiais encontrariam provas mais consistentes.Mas poderia dar um jeito nisso,logo!Viu a jaqueta de Yusuke Urameshi,pendurada na ponta de um cabide.Quem diria...!Descobriu as mãos e jogou os sacos plásticos no lixo.Ficou no meio da sala,indecisa,segurando os sacos que continham as roupas,imaginando Keiko Yukimura sacudindo as peças com força e esfregando-as debaixo de uma torneira.Voltou ao banheiro,pegou a tesourinha de manicure,e cortou largas tiras da fita adesiva.Com elas,fixou os pacotes debaixo de um guarda-louças envidraçado.Era um bom esconderijo,graças aos suportes que o erguiam a alguns centímetros do chão.Reiko tivera de agachar-se,cuidando para que ficasse bem preso,e posicionado de modo a torná-lo quase invisível.De sobrancelhas erguidas,teve um pensamento estúpido sobre o que diria se alguém entrasse de repente:“Um rato fugiu com o meu anel de brilhantes!”Levantou-se,respirando forte.Convidaria-se a dormir na casa dos Yukimura,para não perder Kaoru de vista e resgatar os pacotes enquanto todos estivessem dormindo.No momento que ergueu a tigela,ouviu um forte estrondo.A porta do quarto de Keiko estava aberta,o som tinha claramente vindo de lá.A respiração de Reiko entalou em seus pulmões quando seus músculos se retesaram.Ao barulho da tigela batendo de volta contra ao vidro,seguiram-se as pancadas de sua corrida curta e desesperada sobre o piso de madeira.No espaço de tempo que a separou da sala e do quarto, a alarmante gritaria recrudescendo do lado de fora da casa golpeava seu estômago na forma da pavorosa tensão que só sentira no momento em que soubera detalhes sobre a morte de seus pais.Fujiwara adentrou o quarto enlouquecida,observando tudo rodar em alta velocidade diante de seus olhos,ao som doloroso de espanto das vozes que subiam da calçada.Kaoru Motomiya não estava mais lá.Há pouco,ela havia sentado no parapeito,para observar o céu noturno.Fascinada,pensou no brilho distante das estrelas,que alcançavam pontos à uma distância absurda para se fazer notar...como era lindo.Em seguida,levantou-se,fitando fixamente o horizonte,dobrando o corpo para a frente como se fosse uma delicada planta ao vento.As pontas de seus pés equilibraram-se sobre a laje e impulsionaram seu mergulho refrescante,de cabeça,sobre a ridigez metálica do teto do automóvel estacionado diante do restaurante Yukimura.
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