Estrela Solitária
2 Capítulo 1 :Conversas Infantis
Notas iniciais
O passado nos procura todos os dias,através dos temores e da consciência.
“Você sabe que sempre morou conosco,desde que era um bebê...”A menininha assentiu,observando respeitosamente o rosto formal cercado pela barba bem aparada e cabelos castanhos penteados com rigor.“Isso aconteceu porquê seus pais não podem estar com você...”“Eles não gostam de mim?”O contraste entre sua voz,grossa e imponente,e a vozinha delicada afligiu-lhe o coração,mas era preciso ir adiante.Decidiu falar com calma e seriedade,nada de faniquitos,porquê assim,pensava,seria mais fácil tanto para ela quanto para ele.“Reiko...existem pessoas boas...como você e a sua avó...e existem pessoas más,como aquele sujeito que botei na cadeia semana passada,kembra?”A garotinha sorriu.Tinha visto o avô na televisão,vestindo uma roupa longa e preta,falando com uma porção de pessoas.No final,outro homem usando a mesma roupa bateu o martelo,e o assassino de crianças saiu do tribunal para a prisão,onde ficaria até morrer.“Pessoas más...machucam os outros...o seu pai e sua mãe foram machucados por uma pessoa má...”Reiko ficou séria,mas em seu íntimo havia uma agitação estranha.“Eles se feriram,aí foram para um hospital,descansar...mas estavam tão cansados que...dormiram muito,e não conseguiram mais acordar...tiveram de ir embora para aquele lugar...aquele onde as pessoas dormem a vida inteira...”Olhou a menina,esperando a reação.Ela tinha baixado os olhos,como se estivesse refletindo.“Eles foram para o mundo espiritual?”“Isso mesmo.”“Não dá para falar com eles?”“Não.As pessoas vão para lá só de passagem.Depois,vão descansar em outros lugares,que ninguém sabe onde ficam”.De repente,ela começou a chorar,ainda confusa.Como podia?A mãe de Shuichi também dormira para sempre,mas havia ficado no mundo dos humanos!“Eles estão no cemitério?”Kenichiro respirou fundo.Ainda tinha vontade de socar o maldito Koenma Daiou.“Não.Eles estavam no Makai,naquele lugar muito longe onde vivem os monstros,quando foram machucados...”Engolindo em seco,temeu as outras perguntas,mas nenhuma foi feita.Reiko desceu e saiu depressa,sem fazer barulho,como se não tivesse ouvido nada.No dia seguinte,durante o caminho de volta da escola,a garotinha perguntou.Quando Kenichiro fechou o vidro negro,os dois ficaram à parte do motorista.“Não sei quem os machucou...e nem o porquê...seu pai...morava no Makai,sua mãe foi morar com ele...”“Quem contou para vocês que eles tinham se machucado?”“Foi Koenma Daiou...na verdade,ele era amigo da sua mãe,foi por causa dela que o conhecemos...”“Vovô...quando ele vem nos visitar?”“No final de semana,com certeza...”“Será que ele sabe quem matou papai e mamãe?”Ele olhou para a neta,surpreso ao ouvir de sua boca aquela palavra brutal.“Não vamos mais conversar sobre isso até que Koenma venha,tudo bem?”O avô procurou traços de quaisquer sentimentos no rosto da menina.Ela parecia muito triste,e também zangada ao extremo.“Tudo bem” Mas sua voz estava sutilmente tranqüila.***Reiko sempre soube que Koenma poderia lhe dar respostas, mas isso aconteceu apenas anos depois.Numa tarde, depois das aulas, ela o convidou para ir ao cinema,sabendo que o príncipe do Reikai não perderia uma chance de se safar do trabalho.Os dois detestaram o filme,uma comédia romântica das mais típicas.“Finais felizes só têm graça na vida real!” Disse Reiko,enquanto se dirigiam à uma lanchonete.“Mas ‘Tubarão’ teve um final feliz!”“Não pra quem foi devorado!”“Bom,alguém tinha que sofrer naquele negócio”.Enquanto bebiam refrigerantes, o rapaz notou que ela parecia um pouco tensa.“Eu quero saber a estória toda”.“Hein?!”Recebeu um olhar desdenhoso de aborrecida paciência.“Sobre a morte dos meus pais.Quem foi e porquê”.Koenma deixou o copo sobre a mesa,aparentemente calmo. “Ué,mas já contamos à você tudo o que houve...”“Vovó entregou vocês.Minha mãe nunca apareceu para visitá-los depois que partiu para o Makai.Foi você quem me trouxe ao Ningenkai,não ela”.A garota era um exemplo de equilíbrio e segurança,ao contrário dele,que franziu o cenho.“Naomi-san devia estar perturbada quando disse isso,você sabe que ela nunca mais ficou bem depois da morte de Ayumi”.
“Vovó não é uma pessoa perturbada.Eu acho que ela sofre tanto que prefere se desligar de tudo.Mas eu preciso saber,senão vou ficar louca.Está na cara que você e vovô mentiram para mim,por favor,vamos pular esta parte ridícula onde eu tenho que implorar para conhecer minha própria estória”.“Reiko,a sua estória está aqui,no Ningenkai!Esqueca as coisas ruins e viva o presente.Você tem todo um futuro à espera...seria inútil deixar que o que quer que tenha acontecido aos seus pais interferir nisso”.Ela respirou fundo,de olhos fechados.Não queria perdem nem a energia e nem a calma.“Olha,não vamos falar sobre meu presente e futuro porquê isso não tem remédio.Só vou dizer uma palavra,restrições!Agora...eu te respeito muito,porquê ninguém mais se importaria comigo como você...mas não é justo eu ter de confiar num cara que não confia em mim...digamos que você esteja escondendo essa informação por medo de eu fazer alguma besteira...”“Você nunca me deu motivo para isso”.“Que seja!Koenma...não pode guardar numa caixa pro resto da vida!Eu não posso amadurecer o tanto que for preciso se não tiver com o que aprender!Quando você pretende me contar a verdade?Depois que eu me tornar uma adulta desajustada?Desse jeito vai ter sempre algo me prendendo ao passado!Além do mais...quanto confusão acha que uma humana-youkai de nível baixo pode aprontar?”O príncipe riu,muito animado. “Você não é tão fraca assim!E mesmo que fosse,a sua esperteza compensaria...são bons argumentos,mas eles não tem razão de existir!”Koenma continuou rindo.Momentos depois,cacarejou nervosamente,diante do rosto seriíssimo de Reiko.Ela ergueu um dedo,num gesto diplomático—e cômico— de advertência.“Eu quero conversar.ci-vi-li-za-da-men-te.Apesar de ser metade youkai,não é meu estilo arreganhar os dentes e fazer cara de mal...mas ser ignorada por você desse jeito me faz pensar que estou sendo desrespeitada por uma das pessoas mais importantes da minha vida!”Com a mão no peito solenemente, Reiko não estava mentindo,mas lhe pareceu oportuno mencionar aquele fato...“Não diga isso,você se sente desrespeitada e eu me sinto injustiçado!Não há nenhum segredo,menina,pare com essa mania de perseguição!”“Tudo bem”.Ele conteve a satisfação.“Tudo bem?!”“Pode suspender a fuga e guardar seus foguetes!Não vou te perguntar mais nada...” A garota fez um gesto descontraído de resignação. “Ainda hoje eu saio de casa e me junto aos youkais que perambulam pela cidade”.“O quê?!Mas eles não te aceitariam nunca!Que absurdo é esse,pra quê?!”“Conheço as leis.Se vencê-los,terão de me aceitar.Não sou tão fraca assim...”“Você adora viver aqui!Nem querer usar seus poderes você quer,não teria coragem de fazer isso!”“Isso tudo é verdade...mas eu não aquento mais essa angústia,Ko-san...eu levo uma vida praticamente pela metade!No mínimo eu tenho o direito de saber como fiquei sem eles e de quem é a culpa!Nossa relação é como um casamento...não tem sexo!Mas tem de haver sinceridade,senão,como eu vou ficar do seu lado?”Os dois estavam num espaço aberto,sob uma noite de lua crescente,distantes dos poucos fregueses do local.Koenma desejou que Kenichiro Fujiwara tivesse razão.“Eu vou contar tudo.Acredito no seu caráter...sei que se eu mostrar minha confiança,não vai me abandonar”.A jovem assentiu.Concentrou-se na própria seriedade numa tentativa de ignorar o medo nauseante dos detalhes.“Seu avô sempre quis te contar isso aos poucos,para que você absorvesse com naturalidade...ele achou que assim o impacto seria amortecido...talvez eu me sinta um pouco...responsável,entende?Eu quero estar sempre ao seu lado,haja o que houver.Às vezes um pai pode poupar o filho mais que o necessário porquê teme o seu amadurecimento...dá medo pensar nos caminhos que existem por aí...”Então,ele contou.Incredulidade se apossou dela.Depois foi o choque.À seguir,a angústia,novas imagens surgiam em sua mente,mais concretas.Raiva inundava sua mente,perseguindo seu auto-controle.Quando terminou,Reiko não conseguia pensar com clareza.Ainda intercalava,em pensamento,as visões que projetara e as cenas reais do que poderia ter sido a morte dos dois.Jamais imaginara algo tão monstruoso.Em suas fantasias,sempre imaginara seus pais desaparecendo de um modo abrupto,mas muito suave.Nunca pensara no derramar de sangue.De repente,sentiu um entalo na garganta ao se ver cercada por uma horda de youkais indestrutíveis.“Eles não fizeram nada de errado...qual é o problema dessa gente?!” Ela indagou,em perplexo desamparo.“É assim que funciona.Japoneses e Chineses se detestam,humanos e youkais também...”“O que o Reikai está fazendo para...para pegar esses sujeitos?”O copo diante da menina começou a rachar.“Olhe,já que estamos sendo sinceros,acredito que isso seja impossível...o mundo das trevas é indomável...apenas a metade da 1ª etapa está sob nossa supervisão...nao temos nem mesmo pessoal para capturar indivíduos de altíssima periculosidade como estes...”“E a Guarda Expedicionária?”“Falei com eles e com meu pai...mas foi decidido que esse caso não é de sua alçada...”“E o que é da alçada deles?!Apostar com os youkais quem faz a melhor pose?!”Ela chorava.Sua voz e mãos tremiam.Voou vidro em todas as direções.Koenma cobrira os olhos à tempo,mas um pequeno caco passara rente ao rosto de Reiko,abrindo uma pequena fenda em sua face direita.Ela sangrava.“Quer saber,você tem toda a razão...”Após falar mais alto do que pretendia,ele deixou cair os ombros.Aquela havia sido uma reunião sufocante.Sentia-se tão criança quanto Reiko,toda a vez em que precisava lidar com o alto escalão do mundo espiritual.Cheios de si,sempre voltados para as prioridades (Segurança,Exatidão e Controle—SEC),apoiando-se na vasta experiência,e liderados pelo julgamento hermético de Enma Daiou,pareciam não possuir consciência individual...Durante o encontro,alegara que Ayumi Fujiwara merecia uma investigação mais profunda acerca de sua morte,pois além de humana,servira ao Reikai com afinco,e graças ao fato de ser detetive,conhecera o youkai Daruya.A resposta que obteve ainda o enervava: “De fato.Mas Ayumi foi convocada para defender seu próprio mundo.Quanto esta criatura ameaçadora...a garota sabia no que estava se metendo,filho.Não devemos imitar sua imprudência e desviar a Guarda Expedicionária de sua funções para se arriscar numa tarefa tão ingrata.Que sirva de lição para outros que tencionarem desrespeitar a ordem e a própria natureza”.De modo que,o Reikai,que nunca tivera boas intenções em excesso,parecia dispensá-las com praticidade semelhante à do inferno.Reiko deitou a cabeça sobre os braços,espalhados na mesa.“Nenhum deles vai me ouvir...!Todos me tratam como se eu fosse um imbecil...quem eles pensam que são para saber o que é melhor para nós?!Às vezes eu penso...quem disse que o Reikai podia defender o Ningenkai?!Será que é justo sacrificar uma pessoa pelo bem de todos?!E quem se sacrifica por esse alguém depois?!Nenhum deles se importa com o que houve à sua mãe!Ela sempre lutou...ela teve todos os ferimentos,todas as dificuldades...porquê a glória e o respeito tem de ser do mundo espiritual?!Que autoridade é essa...!”Reiko levantou o rosto,e sorriu com tristeza,repleta de gratidão. “A melhor coisa do Reikai é você...nem pense em jogar tudo para o alto.Eu preciso de você no poder,Ko-san.Sem você,sabe lá onde eu estaria!”“Não me agradeça,eu sou um imbecil!”“Você não é imbecil.É que o seu coração é grande demais...é um peso enorme para se carregar...quem não precisa se preocupar com isso está sempre na dianteira da disputa...”“Temos um pacto de lealdade...certo?”“Sempre!Mas agora eu quero ficar forte de verdade.”“Você pretende se vingar?”“Eu não sei.Mas se esses malditos vierem atrás de mim,não posso morrer!Seria a vitória definitiva deles!”“Eles não virão atrás de você!”“Oh,eles virão sim!Querem fazer comigo o mesmo que fizeram com papai e mamãe...não teria a menor graça matar um bebê.Os safados são sádicos,querem matar alguém que possa implorar pela vida,alguém que saiba porquê está morrendo!”Ela cruzou os braços,mirando o infinito.Koenma agonizava em preocupação e espanto.Aquela menina tinha apenas 13 anos de idade.Nem ele,que possuía uma carga muito maior de existência,era tao maduro e perigosamente amargo.
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