Notas iniciais
Awn, vocês tem o meu coração todinho por darem uma chance a essa história. Espero que gostem e desculpem os erros!

VERÃO DE 1985

☆☆☆ ACAMPAMENTO INTERESTELAR ☆☆☆

13 anos

Existem momentos marcantes na vida que, simplesmente, não importam quantos anos passem, não importam quantas vezes você se obrigue a esquecer, eles sempre estarão lá. Irremovíveis. Tão permanente quanto tinta a prova d’água.

Quando conheci Scar, eu sabia que era uma daqueles momentos. Tão histórico quanto à queda de Napoleão. Tão destrutivo quanto à bomba de Hiroshima. E tão marcante quanto à queda do Muro de Berlim.

Aquela garota era a bomba nuclear da minha existência. E um dia ela conseguiria me destruir, eu não tinha dúvidas.

Tudo começou quando nos mudamos. Eu era o garotinho raquítico digno de pena, espremido em uma cadeira de rodas com o dobro do meu tamanho e com olhos raivosos prontos para destilar veneno aos curiosos. E, ela, bem...ela era Scar. A doce e extraordinária Scar.

A primeira vez que eu a vi, ela não passava de uma ervilha gordinha e rosada de olhos arregalados e cachos desordenados. Sua casa ficava ao lado da minha, dividida somente por um carvalho grande e decrépito que se esgueirava entre as janelas mais altas.

A sua recepção a minha chegada foi no mínimo aterrorizante, quando, sem preliminares, ela saltou no meu colo e me encarou com aqueles olhinhos arregalados, como se eu fosse Vin Diesel e a minha cadeira o meu possante.

Gritando algo, como:

— Astronauta! Astronauta!

A sua mãe precisou arrasta-la do meu colo aos berros enquanto eu somente a fitava mudo e aterrorizado no auge dos meus cinco anos.

— Mas eu quero voar para lua com ele, mamãe.

— Querida, ele não é um astronauta.

— É sim! Ele tem olhos de estrelas.

Como eu disse: aterrorizante.

Nossas vidas se entrelaçaram naquele instante. Como linhas que formavam um nó intricado. Inseparáveis. Não que eu que quisesse. Veja bem, eu não queria. Mas, é impossível dizer não a Scar.

O que me leva ao verão de 1985. Ao XXI Acampamento Interestellar do Colégio HallWoth. Com o programa intensivo de atividades, ele atendia bem as exigências dos pais desesperados para se livrarem dos filhos problemáticos.

O problema é que filhos problemáticos raramente são uma boa companhia, e para mim – o pobre e decadente garoto cadeirante – e para Scar – a feia e espantosa garota extraordinária – eles era um pesadelo.

— Você está muito bravo? – O sussurro baixo de Scarlet corta o frio congelante do acampamento. Sua voz trêmula me atinge com a força de um raio. – Está?

— O que você acha? – Rosno parando embaixo de um poste de luz.

Ela deixa o olhar angustiado cair na minha face contorcida, seus olhos disparando até a marca que já começava a ficar roxa no alto da minha maçã do rosto.

— Muito, muito bravo. – Ela sopra um cacho sujo de lama para longe. – De um a dez o quanto você está me odiando, agora?

Somente a encaro.

— Olha, eu sinto muito, está bem? Eu não sabia que seria assim, se eu imaginasse só por um instante, que alguém machucaria você, eu jamais teria insistido tanto para vim.

Forço minha cadeira para atravessar as pistas de corrida. Scar arqueja tentando acompanhar meu ritmo.

— Charlie! Por favor. – Ela segura meu ombro e eu arranco os seus dedos de mim. – Me deixa explicar.

— Não tem nada para explicar, Scarlet. Você queria vim para o maldito acampamento, tudo bem. Mas, precisava me arrastar junto com você?!

O queixo dela treme e é isso, meu ódio se esvai tão rápido quanto um balão furado.

— Você é meu melhor amigo.

— Mas, não sou um maldito saco de pancadas.

— Eu sei. – Ela sussurra como se eu tivesse acabado de chutar o seu cachorro. – Sério se eu tivesse metade do peso do Rock Balboa eu daria uma surra naqueles babacas.

Bufo.

— Você levou uma surra tão feia quanto a minha. A diferença é que você parece um piolho atômico.

Ela estava coberta de gosma preta dos pés a cabeça, somente com os olhos limpos, piscando como se tivessem entrado em curto.

— Há há, hilário. – Ironiza.

Nos percorremos o restante do caminho em silêncio até Scarlet parar. Sua mão voando até o meu braço retesado.

— Ei! Você viu? Poxa vida, uma estrela-cadente. Rápido, Charlie faça um pedido.

— Que Mick tenha urticária e precise de fraudas geriátricas antes dos cinquenta.

— Argh, que nojo. – Ela abre os olhos e sorri. – Vamos.

— O que você pediu?

— Segredooo. – Ela cantarola.

— Ah, qual é? Você vai negar um pedido para esse pobre cadeirante moribundo?

— Tá mais para pretensioso e cínico cadeirante moribundo. Você sabe que essa não cola mais, né?

— Não custa tentar.

Paramos no alto do declive que se ramificava em uma pequena estradinha com pedregulhos.

Ela cruza as mãos na frente do peito em uma expressão suplicante. Minha expressão se fecha. Seu queixo treme e é isso. Eu sou um claro fracote por não saber lidar com Scarlet O'Harrison e o seu queixo trêmulo.

— Anda logo. Mas, sem gritinhos.

Em segundos, ela está enrolada em minha volta. Os caracóis dos fios descontrolados raspando a minha bochecha, os braços finos firmes em meu pescoço e as pernas cruzadas sobre as minhas. Os all stars vermelhos pendem para fora da cadeira como se fossem pêndulos de um relógio de parede.

A fito suspeito quando ela se ajeita em meu colo.

— O que você pediu?

— Um pouco de adrenalina para variar. – Ela me olha travessa.

Reviro os olhos.

— Está pronta? – Sussurro fitando a escuridão que se abre a nossa frente.

Ela semicerra os olhos, seus braços se enroscam ainda mais forte a minha volta como tentáculos de um povo. Um povo quentinho e macio.

— Sempre.

Impulsiono as rodas amaciadas pelo óleo que passeio de manhã e nós deslizamos mais rápidos do que as rapinas por entre a escuridão. No final, ela grita e eu não me importo de gritar junto.

Notas finais
Mil beijos e abraços, vocês são incríveis, estou abraçando cada um virtualmente rsrs. Bjss e xoxoxoxo (acho isso uma fofura nos filmes rsrs).