Estrela Cadente
3 Capítulo Três
Notas iniciais
☆☆☆
Verão de 1987
☆☆☆ ACAMPAMENTO INTERESTELAR ☆☆☆
15 anos
— Para com isso!
Uma bolacha atinge a minha bochecha e eu olho feio para Scar. As bochechas dela inflam tingidas de um vermelho furioso.
— Parar com o que, cachinhos?
Ela franze o cenho ao ouvir o apelido.
— De devorar Hannah Glaston como se fosse um pedaço de carne.
— Pelo menos é uma carne de primeira qualidade.
Scar enfia o dedo na goela e gargareja como uma galinha com problemas intestinais.
— Para com isso. Você é nojenta.
— Você que é nojento.
Dou de ombros.
– Você quer ir até o lago mais tarde? – Olho para Scar e franzo o cenho ao ver seu nariz corar. Ela pigarreia. – Vai ter uma chuva de meteoritos.
– Tanto faz.
Ela faz uma careta para a minha indiferença. A verdade é que a perspectiva de ter que me arrastar por todo o lamaçal do acampamento até o lago me faz estremecer, mas, ao mesmo tempo, deixar Scar perambular à noite pela mata sozinha me faz entrar em pânico.
A noite está fria a ponto de congelar a minha bunda quando paramos no píer que cortava o lago horas depois.
Scar se senta no chão ao meu lado, o binóculo perfeitamente posicionado sobre o nariz. Preciso entortar a cabeça para olhá-la.
– Esperando.
– Paciência. – Ela sibila, erguendo um pouco a cabeça. – Antes que eu me esqueça, obrigada por vir. Sei o quanto você detesta ter que rolar pelo acampamento depois que chove.
O acampamento tinha uma ótima programação para pessoas com duas pernas funcionando e um físico de um deus Apolo. Mas, para um cadeirante com braços esquálidos, era um verdadeiro tédio. Na maior parte do dia, eu ficava olhando Scar correr de um lado por outro, empurrando a minha cadeira, e bufando no meu ouvido por sempre perder as disputas por ser a última a chegar.
– Que bom que você sabe. – Respondo petulante.
– Está acontecendo! – Ela explode em um grito histérico.
– Onde? – Franzo o cenho.
– ALI!
Olho para o céu, mas só vejo breu. Scar pula sobre os pés e aponta para a direta. Eu deveria ter seguido a direção do seu dedo. Era o que garotos decentes fariam. Mas, por algum motivo maluco, meu olhar escorrega e paira sobre a pequena faixa de pele revelada pela camisa de algodão.
– Está vendo?
Pisco e arranco o olhar da sua barriga lisinha. Ela me fita com expectativa. A camisa volta para o lugar.
— Vendo o que? – Pergunto com a garganta seca. Pigarreio.
— A chuva.
— Não. Talvez, se você apontar de novo.
Sou um cretino. Sei disso. Mas, não consigo evitar olhar de novo quando Scar espicha sobre as pontas das pantufas de coelhinho e aponta para o céu. Ela desata a falar mil palavras por hora, mas meu olhar se perde de novo quando sua camisa se ergue.
Eu poderia pintar o seu umbigo. Ele é adorável. Um pontinho pequeno e delicado em meio a uma constelação de sardas. Meus dedos se contraem e eu inspiro lentamente.
— E, agora, você viu?
— Vi. – A minha perdição.
— Você está bem? Está vermelho.
— É o ar da noite.
Antes que eu possa me recompor, Scar corre para o meu lado. Seus cachos raspam contra a minha bochecha e o seu perfume me envolve como uma marreta.
— Olha. Lindo, não é?
Sem minha permissão, ela passa o binóculo pela minha cabeça e posiciona sobre os meus olhos. Pisco, focando nas lentes ampliadas. Estrelas cadentes explodem na minha visão, um borrão de cores elétricas embaçam as lentes quebradas. Agarro as rodas e exalo lentamente. Meu coração parecia querer voar para o céu pela forma como disparava no meu peito.
Sinto que posso flutuar, mesmo preso em uma cadeira, quando Scar se debruça um pouco mais sobre mim e sopra o seu hálito morna contra a minha bochecha.
— Agora, você sabe qual é a sensação.
Eu sabia e era viciante.
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