Estrela Cadente
7 Capítulo Sete
Notas iniciais
☆☆☆
Verão de 1991
☆☆☆ ACAMPAMENTO INTERESTELAR ☆☆☆
19 anos
Aquele era o meu último verão no acampamento. Era o meu último verão com Scar. O tom definitivo daquela frase me fazia estremecer, mas eu me mantive firme quando atravessei à pequena rapinha que levava ao alto do observatório do acampamento.
Encarei as costas de Scar com o coração aos pulos.
– Cara, você sabe o duro que foi subir esse declive? Você tá me devendo uma.
As costas de Scar enrijecem. Até mesmo o seu cabelo parecer eriçar.
– O que está fazendo aqui? – Ela pergunta ainda virada de costas para mim. – Achei que não quisesse me ver nunca mais.
Fecho os olhos ao ouvir as palavras que havia cuspido na sua cara na última vez que realmente nos vimos.
– Vim buscar você. Último dia lembra? Dia de balançar o esqueleto. Pelo menos você vai, enquanto eu balanço essa belezura aqui. – Dou um tapinha malicioso no braço da cadeira. Ela permanece inclinada sobre a beirada da mureta, fitando o céu. – Scar, olha pra mim. Você não pode me ignorar para sempre.
Ela gira e eu perco o fôlego.
– Por que não? Você parece está fazendo isso muito bem.
– Tão bem que não resistir a seguir você morro a cima, com um verdadeiro lamaçal no caminho capaz de afundar um elefante.
Ela abre a boca, mas, de repente para. Seu olhar desse sobre mim em uma avaliação muda, mas, sei o que ela está fazendo. Pois, estou fazendo o mesmo. Meu olhar corre sobre ela, rápido e ansioso. Aperto os dedos sobre as rodas sujas de lama, sentindo o meu coração palpitar. Saudade pulsa em meu peito, rouba o meu fôlego e me faz fraquejar. Seus olhas brilham na noite gélida e eu sei que ela sente o mesmo.
Ela pisca e se recupera.
— Não vou voltar.
– O que? Por que não?
– Por que é doloroso demais. Odeio despedidas e você sabe disso. – Deixo a cabeça pender em confusão. Ela traga em seco, o olhar perdido acima da minha cabeça. – É nosso último verão no acampamento. E eu achei que, estando aqui com você, forçando você a lembrar de cada momento em que vivemos por trás dessas árvores e encolhidos naquela barraca fariam você enxergar o quanto isso é errado. – Ela olha para o espaço entre nós.
– Scar... – Sussurro.
Ela nega enfática, se recusando a me ouvir.
– Você é o cabeça dura mais idiota que eu já conheci. Eu amo você. Eu sou louca por você. Eu quero você. Você inteiro. Quero tudo e muito mais, Charlie. – Inspiro como asmático, forçando minha garganta a abrir, empurrando o bolo enorme que se forma na minha garganta. – Quero seus sorrisos quebrados, quero os seus abraços de urso, quero seus beijos molhados, quero suas pernas adoravelmente falhas emboladas entre as minhas.
– Para. – Cuspo com o coração ensaiando uma parada cardíaca em meu peito.
Mas, ela não para. Scar é uma estrela brilhante pronta para me dissecar de dentro para fora. Ela se aproxima com passos firmes, seu corpo se inclina sobre o meu, aprisionando-me contra a cadeira.
– É nossa última noite, Charlie. Amanhã eu vou embora e, se você quiser, eu posso dizer adeus. Definitivamente. Mas, antes, eu preciso ter certeza de que é isso que você quer?
O olhar dela cai até a minha boca, quente como fogo em brasa. Seus cílios fazem sombras sobre as bochechas, escondendo as pupilas dilatadas de mim.
– Eu menti. – Falo depois de alguns segundos. Os olhos dela disparam até os meus. – Eu não vim aqui para busca-la.
– A não? – Ela murmura suavemente, deixando o sopro da sua respiração raspar contra a minha.
Ah, cara, aquela garota era a minha kryptonita.
– Não. Vim aqui porque preciso da minha melhor amiga de volta. – Deslizo minha mão por seu braço estendido, adorando a sensação de pele macia contra meus dedos. – Preciso da minha garota de volta. Preciso de você Scar. Sou um merda egoísta por dizer isso. Mas, caramba, esse ano foi uma droga sem você, cachinhos. Eu nunca pensei que poderia morrer por alguma coisa que não fosse pela porcaria do meu coração parando, mas ter você longe me provou o contrário. – Acaricio a sua bochecha com reverência, deixando que os meus dedos reconheçam a pele acetinada. – Quis que você provasse como seria a vida sem mim...
– Terrível. – Ela dispara rapidamente.
Um sorriso teimoso força contra os meus lábios, mas eu o contenho.
– Foi pra mim também. Mas, você entende por que eu precisava deixar você livre? Por que eu precisava que você tivesse certeza de que era isso que você queria. Nós dois juntos.
– Sempre. – Ela completa, os olhos incandescentes.
Chuto o controle por espaço e roubo um beijo rápido, sem conseguir me conter. Ela suspira contra os meus lábios.
– Não aguentaria olhar para você daqui a alguns anos e ver arrependimento ali. Eu simplesmente não suportaria. Porque você merece o mundo, Scar. E merece muito mais do que eu e as minhas pernas de araque temos a oferecer.
– Se você continuar com esse discurso de garoto cadeirante moribundo, eu vou bater em você.
Rio e a atraio para o meu colo. Ela se deixa ir, enroscando os braços no meu pescoço.
– Não se pode bater em um cadeirante.
– Se ele for muito idiota, eu posso sim. – Ela esfrega o narizinho sardento contra o meu e exala. – Charlie, sei que está com medo, eu também estou. Mas, estamos juntos nessa. Eu e você. Como sempre foi. Nunca vou me arrepender, nunca vou olhar para você com nada menos do que amor puro e latente. Talvez, com um pouco de irritação, porque você sabe ser um babaca quando quer.
Belisco sua lateral, fazendo-a se aproximar mais de mim.
– Mas, vamos fazer isso juntos, está bem?
Aceno com a cabeça e esqueço-me de tudo quando me debruço sobre ela e a beijo com tudo que há em mim.
Minutos depois, quando uma estrela cadente risca o céu, não paro para olhar. Nem ao menos ligo. Por que eu já tinha uma estrela em meus braços e ela era muito melhor do que aquelas que estavam no céu.
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