Estranho Conhecido
13 Capítulo 13 - Medo
Notas iniciais
Capítulo 13 — Medo
— Kagome! Filha o que aconteceu? – Rumiko Higurashi exclamou algumas horas mais tarde quando a filha chegou à casa acompanhada dos amigos Sango e Miroku.
— Justin. – Kagome sussurrou. Rumiko se pôs branca como papel.
— O quê? Mas ele veio mesmo para o Japão? Kagome! Você está bem? Ele não tentou nada com você? Pelo amor de Deus! – a senhora Higurashi se exaltou, desespero em sua voz.
— Não, mãe, graças ao Miroku eu fui salva, agora estou bem, vamos entrar, estou morrendo de frio – Kagome respondeu cansada.
— Oh que cabeça a minha, entrem crianças. – Rumiko deu um passo para o lado e permitiu que o trio passasse.
Assim que todos se acomodaram no sofá, Kagome relatou a mãe e a Souta que descera correndo as escadas quase se estabanando com as muletas no caminho, tudo o que acontecera naquela noite.
— Quer dizer que você está em perigo! Se não fosse por Miroku só Deus sabe o que aquele louco teria feito com você! – a mãe exclamou. Agradecendo a Deus por ter mandado um amigo a filha num momento tão preciso como aquele.
— Mãe, agora que o pior já passou, eu só quero dormir, me deitar e esquecer do mundo, me sinto exausta, ficamos horas na delegacia — ela se virou para os amigos — e acho que sua mãe já deve estar preocupada com você né Sango? E o seu pai Miroku?
Miroku contara para elas enquanto dirigia de volta para a casa de Kagome, que seu pai e ele estavam morando novamente em Tókio, o pai dele fora promovido na empresa e com a promoção veio à transferência de cidade. O que deixara o garoto para lá de feliz.
— Minha mãe, nem liga se eu dormir fora – disse Sango, dando de ombros, quando viu o olhar espantado da mãe da amiga, acrescentou – Minha irmã sumiu por dois meses e minha mãe nada disse. – Miroku abraçou a namorada, sentindo a tristeza dela apesar da garota falar como se não fizesse diferença alguma o que a mãe pensara ou não.
— Meu pai me deu carta branca, para mim não tem problema, mas se quiser Sango, eu te levo em casa. – Miroku olhou para a namorada, perguntando.
— Eu quero ficar com a Kah- respondeu ela, logo em seguida fitando a amiga – Isso se você quiser que eu fique.
Kagome assentiu. Rumiko que assistia a conversa decidiu preparar um chá.
— Então está decidido, todos ficam, Miroku você pode mesmo dormir aqui? – a senhora Higurashi perguntou antes de sair do cômodo.
Ele assentiu. – Ok, Souta acompanhe Miroku para o seu quarto que eu já subo lá e ajudo a montar a cama, Kagome e Sango as duas podem ir indo também, que já vou lá, levarei um chá para todos vocês – Rumiko concluiu, tentando sorrir para o grupo que a fitava. Com exceção de Kagome que ainda estava com um olhar perdido.
Os quatro subiram para os respectivos quartos.
oOOoOOooOOOo
Depois de tomar o chá Kagome se sentiu mais calma e avisou a amiga que iria tomar um banho, pois se sentia suja após os incidentes daquela noite pavorosa.
Enquanto a água quente escorria por seu corpo, Kagome chorava se sentindo despedaçada, presa, se sentia como um verme sujo, com medo, insegura e sozinha.
— Kagome? Você está bem? – Sango perguntou do lado de fora do banheiro, à amiga passara mais uma hora de baixo d'água.
— E-Estou. – Kagome forçou a garganta a responder. A contragosto desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, se secou e vagarosamente vestiu o pijama.
— Você ta bem? – Sango perguntou novamente assim que a amiga entrou no quarto.
Kagome olhou para ela, o rosto inexpressivo, precisava fazer algo para aliviar a dor, o medo que sentia, então sem olhar para a amiga que já estava deitada no colchão ao lado de sua cama, Kagome pegou um bloco de notas e um lápis, deitou-se na cama e começou a desenhar.
Sango estava sem saber o que fazer, sua amiga perdera o brilho no olhar, parecia ainda entorpecida, deveria estar exausta e, no entanto estava ali deitada desenhando com afinco. Deu mais uma espiada no bloco depois de alguns minutos e viu que Kagome agora escrevia algo com força no papel, o desenho que ela havia feito parecia um rosto desfigurado, os olhos tristes, a expressão destroçada, Sango supôs que a amiga se sentia assim, em pedaços.
Quando Kagome terminou de escrever, ela jogou o bloco para Sango.
Sango agarrou o bloco, contemplou de perto a figura desenhada e leu o que a morena escrevera:
Rastejando dentro da minha pele
Estas feridas não curarão
Medo é o que me derruba
Confundindo o que é real
Há algo dentro de mim que me puxa pra baixo da superfície
Consumindo, confundindo,
Esta falta de autocontrole eu temo que nunca acabe
Controlando
Parece que não consigo
Me achar novamente
Minhas paredes estão se fechando
(Sem um senso de confiança, estou convencida que há muita pressão para eu agüentar)
Eu me senti desse jeito antes
Tão insegura
Desconforto eterno se possuiu em mim
Distraindo, reagindo,
Contra minha vontade eu fico do lado da minha própria reflexão
Está assombrando
Parece que eu não consigo
Me achar novamente
Minhas paredes estão se fechando
(Sem um senso de confiança, estou convencido que há muita pressão para eu agüentar)
Eu me senti desse jeito antes
Tão inseguro...
Kagome finalmente se deitou e ficou a olhar para o teto de seu quarto.
Sango a chamou algumas vezes, mas quando não houve resposta, apagou as luzes e decidiu dormir.
Pouquíssimas horas depois Kagome acordou com o sol batendo no seu rosto, com dificuldade abriu os olhos, e logo a realidade assomou novamente seus pensamentos. Quase fora estuprada! Quase vivenciara novamente a cena que a atormentava durante tanto tempo! A sensação de medo ainda estava vívida em sua memória, como se houvesse gelo em suas veias, nem mesmo o calor do sol em seu rosto conseguia fazer com que ela se sentisse quente.
Levantou-se com cuidado e avistou sua amiga deitada no colchão ao lado da cama, ainda em sono profundo. Sango, que amiga maravilhosa era ela.
Kagome contemplou por alguns segundos o rosto sereno da amiga e por um instante sentiu inveja, queria não ter recordações tão terríveis, queria ser uma pessoa normal, poder viver sem medo. Ela saiu do quarto e dirigiu-se ao banheiro, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho, parou de frente para o espelho e abriu a torneira e ficou um tempo olhando a água escorrer, o tempo era da mesma forma, escorre rapidamente, escapa por entre os dedos como areia, e, no entanto nem ele mesmo seria capaz de apagar o medo de seu coração. Jogou um pouco de água no rosto, desligou a torneira e ficou ali fitando o reflexo no espelho, seus olhos estavam inchados e ainda um pouco vermelhos dos momentos que chorara na noite passada.
Sango acordou perturbada, tivera um sonho desagradável que envolvia sua melhor amiga Kagome. Pouco a pouco memórias da noite anterior lhe assaltaram a mente, não era um sonho, Kagome quase fora estuprada, Sango nunca se esqueceria do olhar destroçado no rosto da melhor amiga. Naquele instante jurou que jamais voltaria a ver a amiga daquela forma. Levantou-se com pressa e colocou-se a procurar por Kagome, encontrou-a facilmente, ainda no banheiro a olhar-se fixamente no espelho.
— Kagome? – ela chamou. A morena a olhou, e Sango novamente deparou-se com aquele olhar perdido. Sem se controlar Sango abraçou-a tentando consolá-la. – Ah Kagome, está tudo bem agora, calma.
Kagome quando ouviu as palavras da amiga, não se agüentou e lágrimas rolaram por sua face.
— Tenho tanto medo, Sango e vergonha – ela soluçou.
— Tranqüila – Sango afagou os cabelos desalinhados pelo sono da amiga – Está tudo bem agora, ele será preso novamente. Não se preocupe, nada de mal irá acontecer a você, eu não vou deixar, está bem? E vergonha por quê? Não há nada para se envergonhar, você não fez nada de errado! Ele que é doente! Louco! Vamos esquecê-lo, ok? – Sango acariciou com as mãos o rosto da outra e sorriu tristemente – Vamos tomar café? – perguntou, se controlando para não chorar também, quebrava seu coração ver a amiga daquele jeito.
Kagome assentiu e as duas desceram para o desjejum.
Depois de um desjejum silencioso, o celular de Sango tocou, Rin estava preocupada com a irmã mais nova ter passado a noite fora e ficou mais tranqüila depois que Sango explicou que dormira na casa de Kagome.
Miroku ligou para o pai para avisar que já estava indo para casa.
— Sango, você quer uma carona? – Miroku perguntou, após de despedir da senhora Higurashi.
Sango o olhou indecisa, olhou para Kagome e perguntou à amiga – Kah? Você vai ficar bem? Se eu for embora?
Kagome que estava sentada à mesa sozinha, após a mãe ter ido lavar a louça na cozinha e Souta ter voltado para seu quarto, olhou vagamente para o casal de amigos na porta da cozinha.
— Pode ir, Sango, ficarei bem, eu só preciso ficar sozinha. – Sango assentiu apesar de não achar uma boa idéia. Miroku olhou para as duas amigas, foi até Kagome e abraçou desajeitadamente por causa da cadeira.
— Kagome, quero que saiba que pode contar comigo e com a Sango para qualquer coisa tá? Eu tenho que ir agora por que ainda tenho que arrumar a mudança. – Kagome assentiu de leve e ele beijou o topo da cabeça da morena, sorriu tristemente e se aproximou da namorada.
Sango ainda estava indecisa, não achava uma boa idéia deixar a amiga sozinha.
— Pode ir Sango, obrigada pelo apoio de vocês. –Kagome sorriu tristemente – Sério mesmo. Sempre serei grata a você Miroku por me salvar e a você Sango por estar sempre ao meu lado. – Dizendo isso Kagome se levantou e se pôs a ajudar a mãe com a louça.
O casal se fitou por mais alguns instantes, se despediram e por fim saíram da casa.
oOooOOoOOOo
Algumas horas mais tarde
— Não quero viver com medo, mas não consigo me esquecer da voz daquele homem – Kagome falava consigo mesma, deitada na cama, o sol a aquecer-lhe o rosto. – Só queria dormir, sem sonhar. – ela acrescentou tristemente.
Ela tentou relaxar e depois de algumas horas a olhar para o teto finalmente adormeceu.
— Ahñ? – Kagome acordou assustada com um barulho estranho vindo da janela, com o coração batendo rápido no peito virou vagarosamente o rosto na direção do barulho, uma mão batia insistentemente contra o vidro e Kagome se levantou com pressa, correu para o outro lado do quarto e já ia saindo porta a fora quando ouviu:
— Droga Kagome, abre logo isso aqui! – ela sorriu aliviada ao reconhecer a voz.
— Inuyasha! – ela gritou correndo para abrir a janela.
Assim que ele entrou no quarto ela o abraçou apertado.
— Nossa! Vou vir fazer visitas a você mais vezes se for assim que você vai me receber – disse ele sorrindo faceiro, afagando gentilmente as costas da garota. – Hey? – ele perguntou elevando o rosto dela ao nível do dele, e percebeu que ela havia estado chorando, os olhos estavam inchados. – O que houve? – perguntou assustado. Quando ela começou a chorar ele a abraçou com mais força e ficou murmurando palavras consoladoras.
Inuyasha levou-a até a cama e lá se sentou com ela ainda a abraçando tentando fazê-la se acalmar.
Assim que Kagome conseguiu relaxar, ela parou de chorar e começou a rir.
— Ficou louca? – Inuyasha perguntou desconcertado, pelo choro e depois a crise histérica que se seguiu.
— De-Desculpa Inu, é que sou uma boba, chorei convulsivamente em cima de você. – disse ela em meio a soluços, Inuyasha limpou algumas lágrimas que ainda escorriam pelo rosto dela. – O que faz aqui? – ela resolveu perguntar.
— Eu..senti saudade, só isso. Agora você vai me explicar o que está acontecendo?
— Ai Inu, você sempre aparece nos momentos mais inconvenientes, mas dessa vez você acertou – ela sorriu, um sorriso triste todavia. Ela virou de costas se aconchegando no peitoral forte do rapaz – Me abraça forte Inu, preciso de você – ela disse apertando os braços dele com força ao redor de sua cintura. Inuyasha assentiu e a abraçou com mais força, deixando o rosto aninhado no pescoço dela, ficaram assim alguns minutos antes de Inuyasha voltar a indagar:
— Me conta, o que houve para você fugir da janela quando eu bati e depois chorar daquele jeito? – ele acariciou com a ponta dos dedos os cabelos dela.
Kagome respirou fundo e contou tudo o que acontecera na noite anterior e toda a história do pai e do padrasto dela.
Inuyasha estava atônito depois que ela terminou a narrativa. – O quê? Eu não posso acreditar! Meu Deus Kagome! Graças aos céus Miroku estava lá! Tremo só de imaginar o que aquele cara faria com você – ele a abraçou apertado – Kag, por que não me contou nada disso antes? – ele perguntou depois de respirar fundo, virou levemente o rosto dela para que pudesse olhá-la nos olhos.
— Inu você também não me conta nada sobre a sua vida, por que eu contaria? – Inuyasha se encolheu diante disso, era a mais pura verdade, mas não podia contar nada a ela, ele teria vergonha da vida que levava, da pessoa que ele havia se tornado e pior não podia envolvê-la.
— Desculpa, eu não quero estragar mais as coisas e nem te meter nos meus problemas, Kag, pensei muito nessas ultimas semanas e é por isso que estou aqui, eu não posso te contar nada, mas não quero deixar de vê-la. – ele a fitou nos olhos profundamente, puro mel encontrando o chocolate dos olhos dela.
— Por que não pode me contar? Acabo de te contar a trágica história que é a minha vida e você não pode contar nada? Não pode ser pior do que isso. – suspirou.
Ele respirou profundamente – Kah tente compreender, não posso chegar perto de você. Não posso te contar. – sua voz estava angustiada. Kagome desistiu então de pressioná-lo, do que adiantava?
— Tudo bem, mas somos amigos apesar de tudo? – ela perguntou. Já não sentia mais aquele medo, Inuyasha estava ali abraçado a ela, e somente sentir o calor que emanava do corpo dele já a fazia se sentir bem, segura entre os braços fortes.
— Sabe que não quero ser só seu amigo – ele disse acariciando uma mecha dos cabelos dela, apreciando o tom levemente avermelhado que o sol atribuía aos cabelos. – Mas não posso oferecer mais do que isso. – ele respirou pesadamente antes de dar a noticia a ela – Kagome – ele soltou a mecha e colocou uma mão de cada lado do rosto da garota – Não podemos ser amigos, — ela arregalou os olhos, mas ele a impediu de falar – Eu vim aqui te dizer que só poderei te ver se for assim. — "Às escondidas" — acrescentou mentalmente.
— Mas? Por quê? – ela perguntou, confusa.
— Não posso responder – ele disse agoniado – Olha, quero que saiba que pode contar comigo, ficarei de olho em você, mas de longe. Ninguém pode saber que somos amigos. Não precisa ter medo desse cara, não vou deixar chegar perto o suficiente para se quer tocar num fio de cabelo seu, eu juro. – ele a abraçou com mais força para reafirmar.
— E como fará isso se não pode ficar perto de mim? – ela perguntou se aconchegando mais ao peito dele.
— Tenho meus meios. – ele respondeu ríspido, depois relaxou e continuou — Só promete que não ficará chateada comigo? – perguntou se sentindo triste, por não poder oferecer nada mais do que isso à mulher amada.
— Vou tentar Inu, juro que tentarei te compreender – ela respirou fundo – Agora o importante é que você está aqui, quando tudo que preciso é ficar aqui segura nos seus braços. – ela fechou os olhos.
Inuyasha aproveitou que ela se aconchegara e ficou a inalar o doce perfume natural que vinha dos cabelos e da pele dela, a amava com loucura, mas sabia que não podia expor sua vida a ela. Abraçados assim, adormeceram.
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