Estranho Conhecido
25 Capítulo 25 - Descobrindo o passado parte 2
Notas iniciais
O sol estava se pondo lá fora, um vento suave fazia com que os galhos da árvore arranhassem o vidro da janela e Kagome observava tudo perdida em pensamentos. Logo escureceria e então ele chegaria, Inuyasha...
Ainda estava pasma com as revelações sobre o passado dele. Nunca em sua vida teria imaginado que em quanto ela era uma criança feliz apaixonada pelo melhor amigo, este sofria nas mãos do pai e via a mãe se apagar, como ele dissera.
Inuyasha...Não queria sentir pena dele, ele não gostaria disso. Mas era o que sentia. Pensara que ninguém poderia ter uma vida pior do que a dela, pior do que o fato de ter um pai que abandona a família e depois ser caçada por um psicopata que a via como sei lá, a rainha da beleza? Porque não tinha explicação para um homem forte e bonito como Justin – arrepiou-se ao pensar nele – se interessar por alguém tão sem sal como ela. – concluiu olhando para si própria. Só que ela estava errada, Inuyasha tinha uma vida muito pior que a dela...
Respirou fundo, estava com fome. E não devia pensar em Justin. Para ela, ele estava morto e enterrado! Não queria nunca mais ter que pensar sobre ele. E quanto a Inuyasha... Só lhe restava esperar e ver se ele apareceria e lhe contaria tudo que ela queria saber.
Kagome desceu as escadas e encontrou Souta na cozinha fazendo um lanche.
— O que você está preparando? – perguntou.
— Sanduíche de presunto – ele disse antes de dar uma enorme mordida.
— Faz um para mim? – ela pediu com os olhos cheios de falsa inocência.
— Ah Kagome – ele reclamou de boca cheia – Faz você, oras...
— Não faço não, faça você por que eu estou mandando! – ela disse achando graça dele falar de boca cheia. Fazia tempo que não o provocava, já estava na hora. Ela sorriu com malícia.
Souta balançou a cabeça em negativa. Kagome olhou para ele e então para o sanduíche nas mãos dele. Esperou ele dar mais uma mordida e pegou-o, saindo correndo em seguida.
— Kagome! – Souta gritou correndo atrás dela. Ele ainda mancava um pouco, mas era tudo de mentira, fazia tempo que sua perna estava curada. Desistindo de fingir ele se pôs a correr de verdade gritando para que ela lhe devolvesse. – Que droga! Kagome! Ô Mãnhêêê! A Kagome roubou meu sanduícheee! – ele gritou com toda a força de seus pulmões.
— Não devolvo não! – Kagome gritou de volta. – E a mãe não está em casa ô abestado! – gritou com a boca cheia. – Hmmmmm! Está uma delícia! – passou por de trás do sofá, na sala, e quando ele foi para um lado tentar pegá-la, Kagome correu escada acima rindo.
— Droga! – Souta exclamou quando chegou à porta do quarto da irmã e ouviu o trinco da fechadura sendo fechado.
Kagome riu e falou do outro lado da porta: – Isso é para você aprender a fazer as coisas que te peço!
— Humpf! – ele resmungou voltando a cozinha para preparar um novo sanduíche.
Kagome terminou de comer o delicioso lanche e sorriu com as costas encostadas na porta. Será que Inuyasha alguma vez tivera momentos assim com os irmãos? Talvez com Shippo, será? O sorriso em seus lábios se desvaneceu. Inuyasha sofrera muito já na infância, porém ele disse que aquilo não era o pior, o que será que havia acontecido com ele nos anos que ela ficara fora? Cansada de refletir sobre isso, decidiu não pensar mais e esperar ele contar tudo de uma vez.
Kagome olhou para a cama desarrumada e sentiu-se corar. Ele tocou no meu seio – pensou acalorada. E não pôde evitar comparar a sensação quente que sentira com a única outra sensação guardada em sua mente: Justin. – ela estremeceu. – Não! Vou avaliar isso de forma neutra... Sem pensar no quase incidente...– ordenou-se. O toque de Inuyasha fora totalmente diferente, fora tão gentil, tão quente, um leve roçar..mas... Ela suspirou. Apesar da situação horrorosa na qual se encontravam: dele estar sofrendo e contando tudo de ruim que lhe acontecera.
Kagome não pôde evitar pensar que se sentia pronta para tomar o próximo passo com ele. Ela sentiu suas bochechas pegando fogo. Não era hora para pensar nisso! Mas, fora tão bom estar com ele! Senti-lo tão perto... Sentir as mãos fortes e quentes lhe tocando a pele. Ela arrepiou-se. Calma... – obrigou-se. Imagina se ele chega aqui e te pega desse jeito, afogueada? Ela respirou fundo e decidiu tomar um banho para resfriar-se. O assunto que ele viria discutir era sério demais para ficar pensando nos toques dele.
Kagome pegou suas roupas e foi ao banheiro. Deixando a cascata quente banhar-lhe o corpo.
oooOooOOooOooOooo
Kagome voltou ao quarto com a toalha em mãos e se surpreendeu ao ouvir uma voz assim que fechou a porta.
— Já reparou que sempre que venho você acabou de sair do banho?
— Já, toda vez que você vem de noite. – ela respondeu sorrindo para ele.
Inuyasha estava deitado na cama dela com um sorriso bobo nos lábios. Ele passou as mãos pelos cabelos arrepiados com gel e assistiu enquanto Kagome pegava o secador de cabelo no armário, conectava o cabo na tomada e sentava-se ao seu lado no pé da cama. A morena começou a secar os cabelos quando de repente sentiu o aparelho desaparecer de suas mãos.
— Deixa que eu faço isso – ela ouviu Inuyasha dizer e em seguida sentiu a mão dele pentear seus cabelos e o ar quente secá-los. O garoto estava ajoelhado atrás dela.
Kagome sorriu. Lembrou-se de quando era criança e Inuyasha lhe ajudara a secar os cabelos e ela secara os dele. Uma vez, haviam ido ao clube e nadado a tarde inteira. Aquele dia fora muito especial. – recordou.
Ela inclinou-se e apoiou as costas no peito de Inuyasha, olhou para cima e observou os olhos dourados dele. O garoto sorriu e empurrou-a um pouco para frente.
— Feh! Assim não consigo secar – ele reclamou de brincadeira.
— Lembra quando nós fomos ao clube e secamos um o cabelo do outro? – ela perguntou, com um sorriso nos lábios.
— Lembro sim. Foi muito legal. Nós tínhamos dez anos não é?
— Sim – ela assentiu voltando a olhar para frente para que ele pudesse secar seus cabelos. Mesmo sem saber de tudo que ele sofria naquela época, não há como negar que os dois haviam sido muito felizes na infância. Pelo menos a parte que ele passara com ela – Kagome refletiu. – A gente se divertiu muito quando éramos crianças. — afirmou.
— É... – ele assentiu – Foi a melhor parte da minha infância.
O silêncio caiu entre eles por alguns instantes, tudo que se ouvia era o barulho do secador.
— Inuyasha? – ela perguntou virando-se de frente para ele. – Você não liga de secar meu cabelo?
— Feh! Não, por quê ligaria? Não vai me dizer que acha que é coisa de menina? – ele indagou arqueando a sobrancelha. Kagome sorriu e ele continuou – Lembra que sempre tive os cabelos longos? Já estou acostumado, sem contar que sou eu que tenho que secar os cabelos do Shippo – ele revirou os olhos dando de ombros – O moleque já ta com onze anos e continua um bebê chorão. – reclamou.
Kagome sorriu: – Shippo é um menino muito doce.
Eles ficaram em silêncio por uns minutos e Kagome voltou a ficar de costas para Inuyasha e arrepiou-se quando sentiu os lábios dele beijando-lhe o pescoço.
— Inu... – ela suspirou sentindo-se corar. Kagome fechou os olhos e permitiu apreciar o calor da boca dele ao beijá-la. Ela respirou fundo quando sentiu uma mão na sua costela enquanto ele ainda secava seu cabelo com a outra. – Inu – ela tentou de novo respirando com dificuldade – Por que você cortou seu cabelo? – decidiu puxar assunto antes que se distraísse demais com o beijo que ele estava lhe dando.
— Feh! Cortei por revolta, pelo menos teria algo na minha vida no qual eu pudesse dizer que sou eu quem manda – ele respondeu.
Kagome ficou pensativa por um tempo enquanto ele continuava secando seu cabelo. Depois de alguns minutos Kagome o sentiu afastar seus cabelos novamente e em seguida voltar a beijar-lhe o pescoço. Ela se arrepiou e Inuyasha percebeu.
— Você gosta que te beijem no pescoço não é? – ele perguntou e mordiscou-lhe a orelha. Kagome estremeceu e Inuyasha sorriu.
— G-Gosto sim – ela balbuciou. – Gosto muito. – acrescentou com mais firmeza.
— Que bom. Porque gosto muito de beijar seu pescoço, ainda mais agora que ele está todo cheiroso. – a ponta do nariz dele percorreu seu pescoço e ela mordeu o lábio para conter um gemido ao sentir o ar quente da respiração dele contra sua pele.
Inuyasha voltou a beijar a pele alva do pescoço dela, dando pequenas mordidinhas e entre suspiros baixos Kagome notou que não estava ouvindo o barulho do secador.
— Inu-Inuyasha, volte a secar meu cabelo, sim? – pediu, tentando manter a voz firme.
O garoto sorriu, deu mais uma mordida de leve na pele alva que já estava ficando avermelhada de seus carinhos e voltou a ligar o aparelho.
Kagome suspirou. Inuyasha é enlouquecedor. – concluiu sentindo as bochechas em chamas. Sorte que ele não pode ver meu rosto agora – pensou agradecida.
— Pronto! – ele falou depois de alguns minutos e desligou o aparelho. Kagome se levantou da cama foi ao armário, pegou uma escova de lá e entregou a Inuyasha com um sorriso nos lábios.
O garoto sorriu e os dois voltaram à posição que estavam antes: com ela sentada na frente dele enquanto ele escovava seus cabelos.
— Então – ela começou. – Por que você disse que cortou o cabelo para sentir que tem algo na sua vida que você manda? – ela fez uma pequena pausa e decidiu explicitar a dúvida que martelava há tempos em sua cabeça – Tipo... Você é obrigado a ser traficante não é?
Ela o ouviu respirar fundo – Espera, vamos começar da parte que eu tinha parado senão você não vai entender nada. – ele afirmou.
Kagome assentiu. Inuyasha terminou de escovar os cabelos dela, levantou-se da cama e guardou a escova e o secador no lugar que a vira pegá-los.
— Kagome! – eles ouviram a voz de Rumiko através da porta.
A morena olhou para Inuyasha e ele assentiu então ela se levantou e abriu a porta apenas uma fresta.
— Que foi mãe? – ela perguntou.
— Filha! Acabaram de ligar, seu avô teve uma crise de asma e está no hospital você vai querer ir visitá-lo hoje ou prefere ir amanhã depois da aula?
— O vovô está bem?
— Tá melhor agora, eu e Souta vamos visitá-lo. Quer ir junto? – a mãe perguntou sem saber o humor da filha. Kagome pensou um pouco. Estava preocupada com seu avô, mas não queria mandar Inuyasha embora, queria tanto conversar com ele! – Ele está bem mesmo? Você quer que eu vá? – insistiu.
— Ele está bem sim filha, não se preocupe. O Souta só está indo porque não quer que eu vá sozinha à essa hora – Rumiko revirou os olhos e sorriu, seu filho era um anjo, não gostava que a mãe saísse por aí de noite sozinha.
Kagome retribuiu o sorriso e perguntou: – Que horas vocês voltam?
— Acho que dentro de uma ou duas horas, eu vou até a casa dele pegar umas roupas que a Kaede pediu e ela que vai ficar com ele. – Rumiko se aproximou e disse como se contasse um segredo – Tenho para mim que essa mulher está interessada no seu ji-chan.
Kagome sorriu. Kaede era a vizinha de seu avô praticamente desde sempre e ela já percebera há cinco anos que a mulher já era interessada nele naquela época, só que nunca acontecera mais do que uma amizade entre os dois. – Também acho, mas bem, se acha que não tem necessidade que eu vá, eu fico aqui então. – afirmou.
Rumiko sorriu e assentiu: – Já tranquei as portas e as janelas, eu vou levar a chave está bem?
Kagome balançou a cabeça – Tudo bem. Não vou a lugar algum mesmo – deu de ombros.
— Então ta. Tchau filha – Rumiko a beijou no rosto.
E Kagome gritou – Tchau Souta! – Ela o ouviu responder à distância, a voz, aparentemente, vindo da cozinha.
A morena então fechou novamente a porta do quarto e passou a chave. Voltou-se a tempo de ver Inuyasha se sentando novamente na cama. Ela se sentou de frente para ele.
— Será que seu avô está bem mesmo? – ele perguntou preocupado.
— Deve estar melhor, senão minha mãe teria insistido para eu ir. – ela afirmou.
— Espero que ele esteja mesmo bem então – ele disse subitamente se sentindo tímido.
Kagome sorriu e acariciou o rosto dele com as mãos. – Tudo bem? – perguntou.
Ele corou e Kagome abriu mais o sorriso – O que foi?
— Feh, nada... — ele virou o rosto e a olhou de esguelha — É que sei lá, me senti meio que um intruso enquanto você conversava com sua mãe, o certo seria você ir com ela, e eu sei que você ficou porque eu to aqui. – ele concluiu dando de ombros e olhando para as próprias mãos.
— Que nada. — Kagome balançou as mãos em descaso — Eu to preocupada sim com ele, mas quero conversar com você e Inuyasha, você não tem por que se sentir um intruso, sabe que é bem vindo aqui. — afirmou puxando-o pelo queixo para que voltasse a fita-la.
— Feh! Não era na semana passada. – ele retrucou com a cara emburrada.
Kagome suspirou – Você viu a fita na janela – ela afirmou num tom cansado e ele assentiu – Desculpa por isso... É que semana passada eu precisava ficar sozinha, eu tava tão perdida, ainda estou um tanto confusa com algumas coisas e... – ela sentiu um dedo sobre seus lábios.
— Eu entendo. Vamos começar então? – ele perguntou parecendo um pouco nervoso.
Kagome assentiu e esperou que ele começasse, sentiu o coração disparar pela expectativa. Inuyasha pegou as mãos dela entre as suas e respirou fundo refletindo como contar tudo a ela. Ele olhou nos olhos cor de chocolate e começou:
— Quando você se foi – retomou da onde tinham parado o diálogo mais cedo naquele dia. – Eu me senti perdido... Meu raio de sol se fora... E minha mãe estava mais apagada do que nunca. Os primeiros meses passaram tão devagar... – ele balançou a cabeça relembrando – Foram horríveis... Mas... bem, não tão terríveis como o que aconteceu depois. — ele fez uma pausa — Foram mais ou menos uns seis meses depois que você partiu que minha vida virou de cabeça para baixo de uma vez por todas. – ele respirou fundo, enquanto Kagome prendeu a respiração por alguns segundos ao vê-lo daquela maneira. Ele estava sofrendo ao relatar para ela, isso estava claro. Ela apertou a mão dele transmitindo apoio e Inuyasha lhe deu um sorriso fraco. – Eu tentei matar meu próprio pai, Kagome... – ele soltou – Quando o vi matar minha mãe. – ele ficou quieto por uns segundos e viu Kagome arregalar os olhos e tirar as mãos das dele em choque. – É, eu sei, é horrível, mas é verdade, meu pai matou minha mãe... – ele respirou fundo sentindo-se mal por relembrar daquele fato.
— M-Mas como? — Kagome balbuciou chocada.
Inuyasha balançou a cabeça e falou tudo de uma vez: – Eu estava em casa no meu quarto como fazia todas as noites, Shippo estava comigo dormindo tranquilo em sua cama e Sesshoumaru não estava em casa, ele estava de namorico com uma garota e passava cada vez mais tempo longe de casa, e foi então que eu ouvi vozes alteradas. Minha mãe gritando algo sobre meu pai estar envolvido com traficantes enquanto ele berrava de volta... Eu nunca tinha visto minha mãe daquela maneira, tão... Fora de si. Eu saí do meu quarto e me escondi ao lado da porta na entrada da cozinha e os vi discutindo. De repente, meu pai estava com as mãos no pescoço dela, apertando com tanta força, eu a vi tentando se soltar, seu rosto ficando vermelho... ela tentava se livrar, mas não conseguia, eu não sei o que deu em mim, mas ver aquilo provocou um choque e a próxima coisa que eu soube é que eu estava correndo na direção dele com a faca em mãos que estava na pia. Quando ele me viu soltou minha mãe deixando-a cair no chão, então me agarrou pelo pescoço e pensei que fosse me matar...os olhos deles brilhavam de fúria, parecia enlouquecido, ele me apertou com tanta força que a faca caiu da minha mão — ele franziu a testa — Foi tudo tão confuso, tão rápido... De repente ouvi sirenes e ele me soltou. Morrendo de medo, eu corri para minha mãe, mas já era tarde... E-Ela não estava respirando... – sua voz falhou e ele sentiu lágrimas lhe turvarem a visão, esfregou os olhos antes de continuar olhando para as próprias mãos: – Eu olhei para meu pai e ele estava gritando no celular de costas para mim, ele falava tão rápido que eu não consegui entender nada, ou não sei não prestei atenção, eu só pensei em fugir..minha mãe estava morta e meu pai tentara me matar...e-eu não sabia o que fazer e-eu corri para o quarto peguei Shippo e fugi com ele pela janela – Inuyasha parou para tomar fôlego – Nós fugimos, mas não sabíamos para onde ir... E-Eu não sabia onde Sesshoumaru estava, não tinha como encontrá-lo... E-Eu queria você... Mas, você havia se mudado...e e-eu não sabia o que fazer – ele gaguejou e olhou para Kagome, viu que lágrimas escorriam pelo rosto dela, ela pegou novamente nas mãos dele e Inuyasha prosseguiu, o rosto dele também estava coberto de lágrimas – Estava tão confuso e com tanto medo... Eu fui para o colégio então, já era de noite e não havia ninguém lá...
— Inuyasha, onde estamos? O que está acontecendo? Cadê a mamãe? Por que saímos de casa? – Shippo indagou para o irmão.
— E-Eu não sei Shippo – Inuyasha gaguejou, estava com frio. A chuva leve que caía sobre eles fazia com o que o vento gelado penetrasse em sua pele como lanças. Fazia horas que estava andando a esmo arrastando o irmão atrás de si, tinha fome e não conseguia parar de chorar pensando na mãe que perdera...a imagem do corpo inerte ainda vívida em sua mente...e não podia deixar de pensar no maldito pai que a matara. Ele respirou fundo e olhou através das lágrimas e da chuva o muro do colégio onde estudava. Fechado.
Ele não sabia mais o que fazer... Sentia-se vazio...
— Inuyasha – Shippo chamou quando os dois se sentaram na calçada na frente do colégio. O ar gelado da noite junto com a água causava calafrios no menino que vestia apenas o tecido leve de seu pijama de ursinhos.
— Que foi? – Inuyasha respondeu rispidamente. Queria acordar... Aquilo não podia ser real, era um pesadelo!
— Tem um homem ali – o menino disse apontando para um homem alto que vinha na direção deles.
Inuyasha ergueu os olhos e quando viu o homem seu coração começou a bater acelerado, algo o dizia que tinha que fugir.
— Corre Shippo! – ele gritou se levantando e agarrando a mão do menino.
Inuyasha olhou para trás e viu que o homem corria atrás deles.
— O que foi? – Shippo perguntou tropeçando nos próprios pés.
— Corre e cala a boca! – Inuyasha gritou não tinha forças para carregar o menino, mas sabia que tinha que fugir. Ele correu com todas as suas forças, arrastando Shippo atrás de si, a chuva e o peso adicional da criança o retardavam, não ia conseguir!
— Não! – ele gritou quando sentiu algo o agarrar – Me solta! – ele esperneou tentando se soltar.
— Inuyasha! – Shippo gritou e ele viu que outra pessoa tinha pegado o menino e se esforçava para calar-lhe a boca com a mão enquanto o carregava para um carro negro.
— Shippo! – ele gritou e algo foi colocado contra sua boca e então ele apagou.
Inuyasha passou as mãos pelos cabelos, num gesto nervoso, respirou fundo e continuou contando — Quando finalmente acordei. Tudo estava diferente, eu estava numa casa estranha... Com uma garota ruiva olhando para mim.
— Tio. — a menina chamou — Ele acordou – disse para o homem sentado numa cadeira velha de madeira há alguns metros dela.
— Que bom Yura, agora saía. – a voz grossa ecoou pelo pequeno quarto e a menina saiu em silêncio do cômodo mal iluminado.
— Quem é você? – Inuyasha perguntou.
— Sou Naraku, trabalho para o seu pai e vou tomar conta devocêe seus irmãos.
— O quê? – Inuyasha gritou e tentou levantar só para perceber que estava com os braços amarrados nas costas e suas pernas também estavam presas por uma corda. Ele estava deitado em cima duma cama mal cheirosa e imunda.
— Cale a boca pivete – o homem falou levantando-se de sua cadeira de modo ameaçador.
— Inuyasha – ele ouviu e reconheceu a voz imediatamente.
Olhou para os lados e viu Sesshoumaru sentado no chão apenas a alguns metros dele, ele também estava amarrado.
— Sesshoumaru! – ele gritou – O que estamos fazendo aqui? Quem são essas pessoas? O que vamos faz..
— Inuyasha – a voz de Sesshoumaru o repreendeu e Inuyasha calou-se e o irmão mais velho continuou – Eu já sei o que aconteceu – Sesshoumaru disse apertando os punhos amarrados atrás das costas — Aquele maldito assassinou nossa mãe e mandou nos prenderem aqui.
— Onde ele está? – Inuyasha perguntou com ódio em sua voz.
— Na cadeia. – Sesshoumaru respondeu.
— Calem a boca vocês dois, a partir de agora eu mando em vocês – Naraku disse, a voz fria como gelo.
— Não tenho que te obedecer – Sesshoumaru retrucou e Naraku esbofeteou-lhe no rosto com tanta força que depois de alguns golpes o garoto estava desacordado.
Inuyasha olhou a cena petrificado no lugar, o medo sobrepondo-se sobre sua confusão.
— E-E Shippo? – ousou perguntar a voz tremendo por causa do medo.
Naraku apontou para o outro canto, onde num sofá a forma desacordada de Shippo se encontrava — Ele está...? – Inuyasha começou a sentir a bílis lhe subindo a garganta...Shippo estava...?
Naraku respondeu. — O menino está desacordado. Agora fique calado antes que eu te faça também calar a boca. – Naraku então saiu do cômodo e trancou a porta.
— Depois daquele dia minha vida nunca mais foi a mesma, Naraku nos jogou numa pequena casa e nos primeiros anos nós morávamos com um cara que nos dava muito medo, Sesshoumaru era o único que não se intimidava. Não permitiu que ninguém batesse em mim ou em Shippo, e-ele levava as surras em nosso lugar, agora nós moramos os três numa casinha simples no meio da miséria – Inuyasha respirou fundo emocionado e Kagome segurou as mãos dele tentando transmitir apoio, o garoto havia passado por um inferno em vida. Inuyasha ficou calado por uns minutos e continuou — Mais tarde o Sesshoumaru me contou que foi ele quem chamou a policia naquela noite, na noite que tudo mudou, quando meu pai matou minha mãe – ele respirou fundo e limpou as lágrimas que lhe banhavam a face — Ele disse que andara seguindo nosso pai e descobrira que ele andava com gente muito ruim, com traficantes, ele me contou que não sabia o que fazer na época, mas ele foi mais esperto do que eu, ele percebeu que a mamãe andava alterada, algo estranho estava acontecendo e por isso ao invés de ver a namoradinha dele, ele ficou de escondido observando, quando viu a discussão dos meus pais começar ele chamou a policia, ele tentou se esconder, mas Naraku o pegou. – Inuyasha respirou fundo e continuou – Se não fosse por ele eu poderia estar morto Kagome...
Kagome o olhou em choque – Foi seu irmão quem chamou a polícia...caramba!
— É, devo muito a ele, se não fosse por ele... – Inuyasha balançou a cabeça – Nesses anos... — ele interrompeu a narração quando ouviu um barulho vindo de seu estômago e corou.
Kagome que estava ainda petrificada ouvindo tudo que Inuyasha lhe contava balançou a cabeça para sair do transe e sorriu fracamente – Está com fome? – ela observou o vermelho no rosto dele e respirou fundo, limpou as lágrimas de seu rosto com o dorso da mão e olhou para o garoto a sua frente, sentia-se tão estranha, estava em choque ainda. Nunca imaginaria que fosse o pai dele quem matara a mãe... E que ainda mandou alguém atrás dos próprios filhos! E que fora Sesshoumaru quem chamara a policia!
Ele ignorou a pergunta dela – Você está bem? – perguntou afastando as lágrimas dos próprios olhos. Odiava chorar, mas era impossível não fazê-lo quando pensava em seu passado.
— Estou – Kagome respondeu e de repente ela soluçou.
Inuyasha a abraçou e ela deixou que novas lágrimas escorressem e chorou no ombro dele – I-Inuyasha... Que horrível... Eu... Nem sei o que dizer... – ela agarrou-se a ele, estava tão pasma. Não conseguia acreditar no que acontecera com ele! E ainda tinha tanta coisa a esclarecer, não sabia se suportaria.
— Calma. – ele pediu gentilmente, afagou as costas dela e a abraçou apertado – Acalme-se, eu sei que é terrível – respirou fundo tentando se recompor. – Mas já passou, não adianta de nada chorar agora. – disse um pouco amargo. Não pôde evitar, era muito doloroso pensar sobre o que lhe ocorrera há cinco anos e contar para ela estava sendo um martírio.
Kagome tomou fôlego tentando parar de chorar. – Vamos fazer alguma coisa para você comer. – falou limpando mais uma vez as lágrimas.
— Tem certeza que quer saber do resto? – perguntou querendo que ela fosse sincera.
— Tenho! Quero saber tudo! – Não importa o quanto seja terrível – pensou.
Ela começou a levantar-se, mas ele a impediu.
— Vem cá – falou e a abraçou de volta. – Não fique assim... Tranqüila, a pior parte já passou. – Ele beijou as pálpebras úmidas dela e encostou sua testa na dela. – Vai ficar tudo bem – ele continuou, dissera muito essa frase nos últimos anos e sempre a dizia quando alguém estava sofrendo.
Kagome olhou nos olhos dourados dele e encostou seus lábios nos dele querendo esquecer-se do que ele lhe contara e Inuyasha retribuiu o beijo com fervor. Acariciou-lhe as bochechas com carinho e deixou-se levar pela sensação quente e repleta de sentimentos que era beijar a garota amada. Ela mergulhou com tudo no doce néctar dos lábios dele e permitiu-se não pensar em nada e somente aproveitar do beijo.
Depois de alguns instantes, Kagome se afastou um pouco, limpou as lágrimas com o dorso da mão e tentou sorrir para Inuyasha.
Ele encostou seus lábios nos dela mais uma vez e pediu:
— Vamos lá então fazer algo para comer, você está com fome?
Ela assentiu, estava mesmo na hora de jantar. Inuyasha a observou e falou:
— E tente não ficar pensando muito sobre o que te contei.
Kagome balançou de leve a cabeça, mesmo sabendo que era impossível não pensar sobre aquilo, levantou-se então do colchão, e seguiu para o banheiro para lavar o rosto.
Kagome observou seu reflexo no espelho, os olhos estavam um pouco inchados. Enxaguou o rosto com bastante água e secou-o na toalha, tinha que ser forte, era difícil, mas tinha que suportar, se ele fora forte suficiente para agüentar o que acontecera na sua vida, ela teria que ser capaz de agüentar firme também. Olhou para a porta do banheiro e viu Inuyasha encostado no batente. – Quer lavar o rosto? – perguntou.
Ele assentiu e Kagome deu passagem para ele. Inuyasha lavou o rosto e seguiram juntos para a cozinha
Fale com o autor