Estranho Conhecido

22 Capítulo 22 - Sofrimento


Notas iniciais
4. Ed – 27/02/14 Para quem quiser ouvir, indico a música 'Inuyasha OST - The soul power' para leitura desse cap, é só procurar no youtube^^

Capítulo 22 – Sofrimento

Kagome acordou assustada e pensamentos confusos lhe invadiam a mente. Não conseguira dormir direito... Cochilara poucas vezes e acordara assustada e confusa. Duas palavras passaram a martelar sem cessar em sua cabeça: Justin e Traficante.

Um a um, todos os acontecimentos do dia anterior foram surgindo, como bolhas emergindo das profundezas de um lago, mostrando-lhe a dura realidade de sua vida.

Vagarosamente começou a analisar cada palavra, gesto ou expressão que vira ou ouvira no dia fatídico.

Kagome agarrou o travesseiro com força ao relembrar das cenas. O que mais lhe faltava acontecer?

O padrasto ser louco por ela, tentar violentá-la. Ser salva por seu anjo caído que na verdade é um traficante...

... Um traficante...

O que é um traficante? Alguém que é culpado pelo vício dos outros, alguém que é a causa da desgraça alheia. Um destruidor de vidas inocentes...

Meu Deus o que fizera para merecer isso? Amar alguém assim.

Ela gritou. Abafando o grito com o travesseiro. Meu Deus do céu! Amava tanto aquele garoto. Mas o que ele fazia? Disse que não era drogado... Mas, era culpado por viciar outros, arruinar vidas...

Inuyasha... Quando garoto, ele era tão tímido, tão fofo. E então quando o reencontrara, ele se mostrou diferente, às vezes meigo e engraçado, às vezes cheio de força e revolta.

E daí agora vinha à bomba, ele era um traficante! Seu Inuyasha, traficante! Malfeitor, ele andava armado! Um pensamento a assustou: Será que já matara alguém? Sua experiência com filmes a fazia crer que sim.

Calma! – ordenou-se. Ele não disse nada disso! Só disse que estava envolvido! Não disse como, nem quando, nem por quê. O que fazia ao certo continuava uma incógnita.

Kagome desatou a chorar. Por quê? Por que tudo aquilo acontecia com ela? Confusa tinha dito que não se importava com o que ele era, mas como não importar-se? Tinha sangue nas veias. Como ignorar algo como isso?

Descobrir tudo isso no dia que tinha a memória fresca do horror que passara nas mãos de Justin, era ainda muito pior! Passara meses tentando saber quem era Inuyasha, seu amado, seu príncipe encantado. E agora isso, descobria que seu 'príncipe 'não andava por aí num cavalo reluzente e carregava uma espada, bem, disso ela já suspeitava. Imaculado ele não era. Só não imaginara aquilo. Ele andava com um revólver por aí, traficando drogas! Será que eram só drogas? Afinal, ele andava armado! Será que traficava armas também?

Kagome sentou-se na cama, de repente lembrando-se que não trancara a janela. Correu até lá e passou a tranca. Espera! Inuyasha já estava dentro do quarto dela no dia anterior! Ele sabia entrar! Jogou-se contra a gaveta e pegou uma fita adesiva, com raiva, com os sentimentos virados num caos, cobriu toda a janela com a fita.

Queria morrer – pensou ao encarar seu feito. Mais uma vez estava destroçada, trancada dentro do próprio quarto. Sentia-se sufocada!

Jogou-se no chão. O que faria agora? Justin estava preso, mas será que por muito tempo? Dissera a Inuyasha que não se importava, mas...

Sentiu o coração apertado. Podia superar isso? Passar uma borracha em tudo que acontecera? Esquecer da dor, do medo? Esquecer-se que Inuyasha, seu amado... Era impuro, vil...

A dor, o medo e a confusão pareciam querer virar algo permanente em sua vida. Já perdera o pai que amara tanto e agora se sentia como se tivesse sido traída, Inuyasha, ele não era o que ela pensava ser...

Por que agora? – ela perguntou-se, estava indo tudo tão bem! Apesar de saber que ele tinha outra, seu coração parecia entender que esse era só o menor de seus problemas, mesmo antes de saber a verdade sobre ele.

O que faria agora? Continuaria com ele? Como se nada tivesse acontecido? E Justin? Meu Deus do céu será que seria capaz de ficar livre dele de uma vez por todas?

O que fazer? Não sabia...

Sua mente parecia estar viajando em espiral, sentia-se morta por dentro, como se uma nuvem densa e negra tivesse tomado conta de sua vida e não houvesse para onde fugir, não havia luz, não havia nada.

Estava sozinha, perdida num mundo onde ninguém tinha acesso, era como se tudo que conhecia toda a luz e alegria de sua vida, tivessem acontecido há muitos e muitos anos, parecia que nunca mais seria feliz. Estava presa junto com seus medos e pesadelos, Justin, o canalha e Inuyasha, seu amado traficante.

Kagome observou seu quarto bem arrumado, limpo e cheio de cor. Para ela tudo parecia sem vida, tudo era escuro, como se de agora em diante vivesse num filme em preto e cinza, não era nem branco, era cinza.

Cansada de ficar olhando para suas coisas que para ela pareciam não significar mais nada, decidiu tomar um banho, lá pelo menos poderia chorar sem ninguém ouvi-la, lá a água poderia trazer um pouco de paz para seu coração e mente atormentada, sempre se sentia melhor quando a água quente banhava-lhe o corpo.

Seus nervos estavam em frangalhos, os músculos rígidos, precisava colocar em ordem seus pensamentos, tentar sair da escuridão onde se encontrava. Seu rosto todo doía por causa dos socos do canalha e do choro.

Deu uma volta pela casa a procura de sua mãe e lembrou-se que Souta estava na escola e sua mãe estava trabalhando por isso encontrava-se sozinha em casa, um arrepio lhe passou pela espinha ao constatar isso.

Calma – ordenou-se – Estou sozinha, não tem ninguém aqui, estou segura – se convenceu. Abriu a porta do banheiro, despiu-se e ligou o chuveiro.

Kagome deixou a água quente a envolver e no mesmo instante se sentiu um pouco mais lúcida. Ela permitiu que as lágrimas escorressem com a água e concentrou-se em relaxar, em pensar sobre os momentos bons com Inuyasha, queria escapar da dor, e pensar sobre Justin só faria com que se sentisse pior. Com Inuyasha tudo fora tão maravilhoso, estar abraçada a ele, beijá-lo, olhar nos olhos dourados e se sentir amada. Mas não conseguia. O medo e a sensação de desolação a assomaram de novo, os bons tempos pareciam-se afogar-se na onda de mágoa e medo em volta dela. Nem o banho conseguia fazer com que saísse daquele lugar.

Ela respirou fundo e de repente se pegou pensando sobre as músicas que ele escrevera. Talvez pudesse entendê-lo através delas.

Kagome bateu o punho contra o azulejo a sua frente, sentiu-se agoniada por não conseguir se lembrar das letras. Tinha algo sobre medo... Sobre tentar, cair, perder, morrer... E algo mais, mas nada parecia fazer sentido naquele momento.

Lembrou-se de repente que naquele dia teria que prestar seu depoimento, e estremeceu com a idéia de estar novamente numa delegacia. Mas não tinha saída, teria que fazê-lo – pensou agoniada.

Saiu do chuveiro, secou-se e colocou uma camiseta larga e uma calça jeans, olhou no relógio, eram quase dez da manhã.

Kagome foi à cozinha tomar um leite antes de sair e deixar um recado para a mãe na geladeira. Não havia notado antes, mas havia um bilhete lá.

Filha, não pude faltar ao serviço, por favor, não saia de casa, mamãe ama você.

Ps: tem ramen na geladeira.

Ps2: Souta queria faltar à escola para cuidar de você, mas ele tem prova.

Com amor, Mamãe.

Kagome sorriu, tinha sorte de ter uma mãe e um irmão tão queridos, que se preocupavam realmente com ela.

Pediu desculpas por sair através do recado.

Kagome saiu de casa depois de trancar todas as portas e janelas e conferir duas vezes cada uma.

Tinha acabado de entrar no metrô quando ouviu seu celular apitar.

Pegou-o e viu que era uma mensagem.

Kagome, como você está? Por favor, se precisar de qualquer coisa pode contar com a gente. Te amo, Sango e Miroku.

Sorriu, sim, tinha que lembrar-se disso, tinha amigos. Kagome observou as pessoas no metrô, alguns conversavam animados e outros ficavam ali simplesmente olhando em completo silêncio.

Percebeu que todos ali poderiam ter um problema, talvez até mais grave que o dela, talvez não.

Mas o que importava era que não era a única. Respirou fundo, iria sobreviver à ida a delegacia.

Chegou ao pequeno prédio onde ficava instalada a delegacia da cidade, respirou fundo mais uma vez e entrou pela grande porta de metal, apresentou-se para um homem fardado:

— Sou Kagome Higurashi vim prestar meu depoimento contra Justin Treiton.

O homem observou Kagome por alguns instantes.

— Acompanhe-me. – pediu com a voz grave.

OooOOoOOOOoO

Meia hora depois saiu do prédio se sentindo novamente na escuridão. Relembrar e narrar tudo que acontecera não fora fácil. Era doloroso, chorara muito durante a narração, não conseguira se conter.

Kagome pegou o metrô de volta para casa, precisava se recompor, organizar as idéias e decidir o que faria.

Estava cansada de sofrer, de ter medo, de sentir tanta dor. Não podia ficar o resto de seus dias presa naquele estado, mas não conseguia, tudo parecia não ter sentido. Estava perdida — constatou desolada.