Estranhas flores

2 Uma estranha coincidência


Notas iniciais
Desculpe a demora. Capítulo não betado, qualquer erro me avise que eu corrijo na hora. Boa leitura!

Naquela floricultura era dividida num pequeno salão na entrada cheia de estantes cheia de jarros de flores, até inclusive suspensas no teto. Estátua de jardinagem e alguns cartões e envelopes.

Na parte de dentro a floricultura separava espaço com a casa de Pisces, uma renomada família de profissionais floricultores que trabalhavam a gerações. E atrás da casa tinha a estufa, um jardim fechado com variadas flores plantadas. Mesmo não passando uma corrente de ar, fez com que algumas folhas de rosas do túmulo do patriarca caíssem no solo.

O patriarca da família, Lugonis de Pisces, morreu a alguns anos, deixando de herança aos seus três filhos a floricultura e conhecimento sobre plantio e colheita das flores, mas só o filho mais novo, Albafica, tinha interesse em continuar o trabalho da família, os outros dois filhos não queriam permanecer nesse destino. E assim se desvirtuavam do caminho que seu pai abriu para eles.

O segredo das famosas rosas da família era macabro, pai e avô foram cremados e tiveram suas cinzas enterradas no canto das rosas a pedido deles, e desde então aquela roseira nunca deixou de ter rosas tão belas e com um vermelho tão vivido.

Naquele dia a floricultura recebeu um cliente peculiar, um duque de uma terra distante ao norte não estava ali para comprar flores, bem, ele comprou um buquê personalizado, mas pedir a mão de um dos filhos em matrimônio.

Havia um conflito, entre o mais velho contra o mais novo. Porque a mão dele? Ele não fez nada demais, era sujo, era simples demais e personalidade estranha, sempre detestou contato físico com outras pessoas, contato pessoal, socialização, querendo ficar apenas com as plantas na estufa, e o mais velho sempre foi extrovertido, popular e sempre foi bem sociável, ao contrário de seu irmão.

O que havia de tão especial nele que chamasse a atenção do Duque?

Ele ainda estava ajoelhado enquanto Albafica estava confuso, Afrodite estava desacreditado e o Duque pacientemente carregava o buquê de flores vermelhas nas mãos.

-D-deve haver algum engano... Eu não posso aceitar.

-Por que não aceitaria? São os meus sentimentos.

-Eu... Eu não posso, eu sou apenas um florista. — Ele deu alguns passos para trás.

-Isso... Isso é impossível – Se intrometendo. — O que você viu de tão especial nele? Ele não faz nada demais.

-Isso não são palavras para serem direcionadas a quem entregarei meus sentimentos. Jovem Florista- Se referiu a Afrodite como um reles funcionário. Aqui nesse buquê de flores que acabei de comprar eu depositei todos os sentimentos que guardei, e estou aqui esperando uma resposta... Sei que soa indelicado de minha parte, mas gostaria de receber a sua resposta de imediato, Albafica.

O mais novo piscou várias vezes confuso, estava preso naquela proposta que não sabia como sair dela, não sabia o que responder, sua mente apenas repetia para não aceitar. Nunca entrou numa situação dessas, ninguém nunca demonstrou interesse nele, nem mulheres e nem homens. O que deveria dizer? O que era para ser um relacionamento?

-E então Albafica? Estou aguardando, não sou ficar nessa posição por alguém, mas você é especial.

-Mas... Por que eu?

“Por que ele, e não eu?” — pensou Afrodite.

-Por que você? É uma pergunta muito complexa – levantou-se tirando a poeira da calça. — Desde coloquei os olhos em você, algo me disse que era você, a pessoa que eu tanto procurei em terras tão distantes das minhas. Eu busquei em exato alguém que fosse verdadeiro em seus sentimentos, e não possuído e afogado pela ganancia. Desde que pus os olhos em você, eu soube que era você. E então Albafica, eu peço a sua mão, você me daria ela? Poderíamos partir para minha terra natal nesse exato momento se você aceitar este buquê.

-Mas... Você está aqui por estas terras a tanto tempo...? Por que eu? Eu não entendo.

-Você não consegue compreender o amor verdadeiro?

-Não, não é isso... Eu apenas...

-Apenas diga Albafica.

Ele ficou um tempo em silencio, Afrodite sem perceber havia amassado e a folha de anotação que estava em sua mão. O que ele estava tão hesitante? Aquela aberração não vai aceitar e vai jogar fora a oportunidade única de ir embora daquele lugar para sempre, ter uma vida feita num castelo e uma vida digna de rei. Por que não poderia ser com ele? Ele aceitaria sem rodeio algum.

-Eu... Não posso... Aceitar. Sinto muito.

A expressão do nobre mudou.

-Eu tenho os negócios da familia para cuidar, eu não posso sair daqui... E eu estou feliz aqui... E eu não conseguiria imaginar minha vida longe daqui... Me sinto mal por não aceitar seus sentimentos... É que ainda não tive a experiencia de amar alguém... E eu não saberia como retribuir...

-Mas poderia aprender. — Argumentou.

-Sim, mas... Acho que está muito precoce, está tudo sendo rápido... Então... Sinto muito.

O duque de Oslo então recuperou sua pose e então respirou fundo.

-Bom... Então acho que levei um fora – Sorriu.

Albafica abaixou a cabeça envergonhado.

O duque pagou em moedas de ouro a Afrodite e virou-se para despedir-se. Mas antes de abrir a porta ele voltou.

-Me dê um mês. Eu estarei aqui de volta em um mês para buscar sua resposta, Albafica. Então pense bastante até lá. Espero que sua resposta mude até lá.

E então saiu pela porta da frente.

Albafica estava se preparando para voltar para estufa e reencontrar a roseira de seu pai mas foi impedido por Afrodite que o empurrou para trás fazendo desabar no chão.

-IMBECIL! COMO PODE RECUSAR ESSA OFERTA?

-Afrodite!? O que deu em você?

-Calado! Eu não acredito... Eu não acredito nisso. Eu tenho um débil mental como irmão. Eu não acredito nisso.

Ele continuou repetindo a mesma coisa enquanto puxava seus cabelos.

-Um homem rico, podre de rico. Duque de não sei lá o que, vem aqui do nada nessa cidade medíocre, pede sua mão em casamento e você recusa? Acha mesmo que casamento funciona assim com amor e carinho?

-Afrodite, ele era uma pessoa estranha, eu nunca o vi na vida antes.

-E o que isso importa? Se você fosse com ele... Se eu tivesse ido com ele... Eu teria minha vida perfeita num castelo...

Os olhos de Afrodite não paravam de descer lágrimas, seu rosto branco estava rosa de raiva.

-Afrodite, se eu fosse embora, você ficaria sozinho aqui...

-Dane-se a floricultura. Eu quero mais que isso aqui pegue fogo! Eu nunca quis continuar essa vida de plebeu, de trabalhador. Se ele tivesse pedido minha mão ao invés da sua eu teria dito sim e pulado nos braços dele e nunca mais veria sua cara ou qualquer outra flor na vida. Albafica, quer saber? Vá correndo para as suas plantas, você nunca deveria ter saído de lá, se você nunca tivesse existido ele não te veria e pediria então a minha mão em casamento, e não a sua. Você é uma aberração, nunca entendi por que papai gostava mais de você do que de mim. Eu quero... Eu quero que tudo aqui pegue fogo...

E então Afrodite saiu do salão da loja para os quartos. Sem ele para atender os clientes deveria então fechar a floricultura.

Albafica sozinho trancou a porta e mudou a placa de “Aberto” para “Fechado”, foi correndo para a estufa e na roseira vermelha de seu pai desabou de chorar.

Sua cabeça estava a mil, pensamentos confusos e o peito doendo. Última vez que se sentira assim foi quando seu pai falecera. Nunca foi pedido sua mão, e essa primeira vez o pegou de surpresa.

As palavras de Afrodite doíam como facas, queria a presença de seu pai ali para conforta-lo.

Seu foco e suas lágrimas foram pausados quando viu algumas rosas murchando no pé.

-Pai... O que está acontecendo? Primeiro Cardinale sumiu... E agora Afrodite está assim... Eu não sei mais o que fazer... Ele disse coisas horríveis... Eu só queria ficar aqui com você... Eu queria que você estivesse aqui.

Naquele dia Albafica cozinhou comida para três pessoas, mas somente ele jantou naquela noite. Afrodite não quis sair de seu quarto, e no dia seguinte não quis trabalhar. A loja continuou fechada pois Albafica não daria conta de a manter funcionando.

Na hora do almoço Albafica foi pessoalmente ao seu quarto chama-lo para almoçar e ele não respondeu, mesmo batendo na porta várias vezes não tinha nenhuma resposta.

Então a abriu.

Não tinha ninguém lá.

O guarda-roupa estava vazio, os pertences sumiram.

Assim como foi com Cardinale, o quarto limpo e vazio, mas a diferença dessa vez havia um bilhete na cama com a letra do irmão do meio.

Estou indo embora, fique com a sua amada floricultura”.

...

As semanas se passaram, Albafica pediu ajuda de moradores para localizar seus irmãos, mas nada resultou. Teve dias que manteve a loja aberta e outros que a deixou fechada. Administrar as finanças e cuidar ao mesmo tempo das flores sozinho não era fácil. Ele rezava todos os dias para que seus irmãos reaparecessem.

Sozinho na casa, sem ninguém, e cozinhando comida para três todos os dias, na esperança de que eles voltassem para casa.

Alguns clientes se solidarizaram com o mais novo e compravam algumas flores, outros doavam alimento por solidariedade. Mas o que o confortava-o era a roseira de seu pai.

Ela estava perdendo as flores, era como se a planta da família estivesse morrendo.

Albafica usou o mais forte fertilizante que possuía na roseira. Havia coisas que estavam começando a faltar na floricultura, era Cardinale que fazia a encomenda de materiais com fornecedores, e era Afrodite que fazia as compras, ia no comércio e trazia tudo para casa.

-Pai... Eu não sei o que faço, eu não estava esperando por isso. Eu espero na mesa de jantar por Afrodite e Cardinale, mas eles não voltaram. Não mandaram nenhum recado. Eu temo pela segurança deles, se estão bem, se estão se alimentando... Eu sinto falta deles... Pai, eu sinto tanta sua falta.

Quando o patriarca ainda era vivo, Albafica tinha 16 anos quando viu seu pai caído ao chão se contorcendo de dor. Os médicos disseram que foi um enfarto. Foi inesperado essa fatalidade.

Naquele dia Albafica foi dormir logo após jantar, sem a companhia de seus irmãos a casa ficava muito silenciosa, e mesmo se passando um mês do sumiço de Afrodite, ele não se acostumara com a solidão.

Em 1 mês, Albafica ficou sozinho, apenas com as companhias das flores.

1 mês que aquele elegante e misterioso duque não aparecia.

...

Não sabia que horas eram, mas o quarto estava claro, estranho pois havia apagado o candelabro antes de dormir. Foi aí que sentiu o cheiro de queimado, saltou da cama e quando abriu a porta, a casa estava tomada por fogo.

Foi uma ação rápida, desceu as escadas e correu até a estufa. Mas ela estava consumida pelo fogo.

Alguns vizinhos tentaram ajudar, já que Albafica não queria sair daquele lugar.

E em quanto isso o fogo tomando conta de tudo. Destruindo quadros, paredes, flores.

Foi como Afrodite desejou.

“Eu quero mais que isso aqui pegue fogo!”

Todo o trabalho de gerações sendo perdida com o fogo.

Não deu nem tempo de entrar na estufa para salvar a roseira de seu pai.

Não deu nem tempo de salvar nada.

Tudo foi perdido...

Estava sem sua família, sem seu pai... E sem suas flores.

...

De manhã haviam curiosos em frente a floricultura já com o fogo apagado. O teto havia desabado e os vidros estourados. Os vizinhos lamentavam pela perda do filho mais novo, ter que aguentar tudo sozinho. Nem mesmo seus irmãos voltaram para ajudar. Logo a família deles que eram tão unidas.

Albafica ficou assim, parado por horas em frente à loja destruída, sentado no chão e posição de piedade. Já não descia mais nenhuma lágrima de seus olhos que estavam inchados. Estava exausto, não dormira e nem mesmo descansara. O que restara para ele agora? Estava há dias vivendo da poupança guardada de seu pai já que não conseguia arrecadar vendas na loja. E agora perdeu-se tudo. Não tinha mais lugar para onde ir, sua casa, seu trabalho, sua família toda foram queimados.

Se ele pudesse ao menos ter salvado a roseira de seu pai... Não teve coragem de ir até os fundos da casa para averiguar a estufa. Era muita crueldade para ele.

Se ao menos um de seus irmãos estivessem ali, talvez ele conseguiria se levantar. Mas o que apareceu foi uma estranha carruagem negra estacionando ao seu lado.

O cocheiro puxou os cavalos e então abriu a porta, descendo um elegante nobre.

Era o mesmo das vezes passadas. Albafica não estava interessado em olhar para trás e para os lados, parecia que sua mente estava nublada e torturada por repetir para si mesmo que perdeu tudo.

O cheiro de queimado ainda era iminente, mas a fragrância do perfume que aquele homem exalava era mais forte.

-Céus, o que houve aqui?

Albafica ouviu, mas não se moveu. Nem havia passado pela cabeça que em um mês ele retornaria, ele nem se lembrava do que era. Sua cabeça estava ocupada com outras coisas.

Um sujeito que passava por ali explicou que os irmãos o abandonaram e a floricultura pegou fogo junto com a casa. Outro sujeito lamentou pelo destino do jovem florista. E uma senhora fez uma breve oração pedindo proteção ao mais novo.

A fonte de lágrimas já havia secado. Tudo que restava a ele, além da roupa do corpo, era lamentação. Que se tivesse acordado antes, poderia ao menos salvar seu pai.

O Duque de Oslo então caminhou até o mais jovem e abaixou-se a sua frente.

-Albafica, vamos embora, você virá comigo. Pois assim você terá um lugar para ficar. — estendeu sua mão a sua frente.

Os cidadãos concordaram com o nobre e incentivaram-no a aceitar o convite. O mais novo olhou para o gentil nobre e depois para o que sobrara de sua vida.

Sem roupas, sem vestes, sem mobília, sem seu pai, sem seus irmãos, sem suas flores, sem sua loja.

Depois de minutos, vários minutos ou até mesmo horas de negociações, ele aceitou e retribui a mão estendida para ele apertando-a.

Albafica passaria agora a morar com o Duque de Oslo, Minos de Griffon.


Notas finais
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