Estranha Sensação
2 Improváveis Associações
Notas iniciais
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Osvaldo se incomodou com os olhares dirigidos à ele naquele café. Apesar de negar com veemência, o escândalo de assédio havia marcado sua carreira de ator irreversivelmente e agora ele apenas esperava abafá-lo de alguma maneira e voltar a ter sucesso.
Já havia passado uma semana desde que Kelly declarou que sofreu assédio nos bastidores de uma novela e que ele havia saído de casa, mas o assunto não deixava de ser comentado nos meios de comunicação e em cada canto da cidade. Bernarda chegou e sentou-se na frente dele sorrindo. Há muito esperava por aquele momento.
— Então foi preciso que ela te lançasse ao fundo do poço para que você atendesse ao meu chamado? — Debochou ela.
— Vamos direto ao ponto que quero sair daqui. — Disse o ator impaciente. — Por que você me procurou?
— A questão não é essa, meu caro Osvaldo. A questão é: Por que você não me respondeu nada?
— Porque eu sabia que sua intenção era destruir Victoria. Fui casado com ela por 18 anos, sei bem que a história de vocês duas é muito antiga.
— O problema é que eu não sei se agora você pode me servir de alguma coisa. Imagino que ela tenha te chutado e, quando te mandei aquela mensagem tinha planos muito bem definidos. Agora, o assunto é outro, não é mesmo...
— Você é sempre tão debochada? — Reclamou.
— Não, só quando se trata de meus desafetos. — Respondeu ela de um jeito simples. — Mas, em se tratando de Victoria, sempre!
— Prefiro que você fale diretamente, que não faça joguinhos. — Pediu Osvaldo.
— Está bem, que sensível. — Voltou a debochar vendo como ele se remexeu inquieto. — Bom, a Casa de Modas Bernarda não vai bem e você já deve saber. A Casa Victoria engoliu tudo que havia no mercado e não deixou pedra sobre pedra.
— Mas isso por competência de Victoria e incompetência sua. — Osvaldo reagiu à todo aquele deboche.
— Não vamos entrar nesse mérito. Minha casa de modas voltaria a brilhar se Victoria tiver uma surpresinha.
— O que você quer fazer contra ela? — Ele estava com tanto ódio pelo escândalo que nem sequer pensou.
— Tenho um informante na empresa dela. Eu soube que ela vai lançar uma nova coleção em breve e que mantém os desenhos exclusivos à sete chaves ninguém sabe onde.
— Provavelmente estão em nossa... Digo, em sua casa.
— Por isso te disse que não sabia se você me serviria...
— Eu ainda devo ter algum acesso à casa e à empresa. — O olhar de Osvaldo era de quem não tinha nada a temer.
— Não seria divertido se lançássemos toda sua coleção ou algum de seus modelos exclusivos antes dela? Ou no mesmo dia, mas antes, para que ela fosse acusada de plágio? — Sorriu a estilista.
— Eu já sei que você não o faz por diversão somente, senão, porque você precisa voltar a se sobressair nesse meio para não desaparecer. Mas eu gostei da ideia. Que Victoria se veja tão prejudicada quanto eu, neste momento, é o que eu mais quero. E o que ela merece!
— Victoria não é a deusa da moda como acredita e eu quero demonstrar isso. — Gargalhou. — Em breve, todos a verão como a mulher medíocre que ela é: sem marido e sem o que ela mais ama... — Estendeu o copo para um brinde.
— A casa de Modas! — Completou Osvaldo brindando. Aquele encontro havia lhe devolvido um pouquinho de seu bom humor.
***
— Como estão os preparativos para o lançamento, Pipino?
— Está tudo preparado, Victoria. A confecção dos dois últimos modelos ficou para os últimos dias como você pediu...
— É necessário porque não podemos confiar em ninguém e você já sabe.
— Mas todo o demais já está preparado.
— Maravilha, quero que tudo saia perfeito!
Pipino ficou observando Victoria. Durante toda aquela semana ela havia trabalhado como sempre, como se o que aconteceu com Osvaldo não a houvesse abalado, como se ela fosse aquele bloco de gelo que gostava de demonstrar. Havia apenas tomado mais cuidado para evitar a imprensa e soltado apenas uma nota pedindo que respeitassem sua privacidade naquele momento delicado.
— Você não lamenta nem um pouco o fim de seu casamento, rainha?
— Claro que sim, Pipino. Mas não o suficiente para que interfira em meu trabalho. — Respondeu ela prática. Com ele, ela conseguia falar com carinho e sinceridade, sem grosseria.
— É que você se comporta como se nunca tivesse sido apaixonada por ele. Parece que você está até melhor sem Osvaldo. — Estranhou.
— E eu estou! Sim, eu amei Osvaldo. Mas jamais permaneceria amando alguém que não respeitasse a minha autossuficiência. Osvaldo sempre me subestimou e isso eu jamais poderia perdoar.
— Nenhum homem te deixou assim, flutuando, te fazendo lembrar que antes de ser uma grande estilista você é uma mulher que queeeeima...? — Ele fez gestos exagerados divertindo-a.
— Sim, Pipino. Um homem fez isso comigo. Um único homem. Mas ele está muito longe e, assim como eu, dedicado a uma carreira que é maior que ele... — Divagou.
— Ele não volta nunca? — Os olhos de Pipino brilharam.
— Ele sempre volta, mas para essa carreira que o faz viajar o mundo todo e não se fixar em lugar nenhum. Que o impossibilita de ter uma família. — Victoria demonstrou que sabia sobre esse homem muito mais do que todos supunham.
— Mas talvez, algum dia, ele se canse dessa coisa aí que ele faz e então vocês possam se reencontrar. — Sonhou Pipino romântico.
Victoria sorriu duvidando, pois sabia que Heriberto jamais sairia do campo dos sonhos e ela era uma mulher prática demais para perder tempo dormindo.
***
Em um pequeno povoado nos arredores da Cidade do México, Heriberto terminou de atender uma criança e ficou reflexivo. Luiz, um médico daquela localidade, amigo dele entrou no consultório disposto à conversar.
— Dia pesado? — Disse servindo um café ao amigo.
— Luís, eu acabo de retornar de Moçambique em uma missão humanitária para atender crianças vítimas de HIV. Acreditem, aqui no México nenhum dia é pesado perto do que se vê ali. — Contou Heriberto despertando a atenção de Luis.
— Então é amargura. Eu estou te notando um tanto quanto sorumbático, cabisbaixo... O que foi?
— Todas as vezes que eu atendo uma criança eu reflito sobre essa vida que escolhi, sobre a impossibilidade de ter uma família que ela me exige, essa estranha sensação de incompletude...
— Você tem dúvidas?
— Quem não as tem, meu amigo? Quem não as têm?
— Já houve alguma mulher...? — O olhar de curiosidade era mais intenso que a força das palavras.
— Houve uma mulher. Uma única mulher e acho que é isso que me deixa assim todas as vezes que eu volto à Cidade do México. Hoje eu li na internet a notícia de que ela se separou. Essa mulher é a raiz de todas as minhas dúvidas, Luiz, a mulher que me deixa com essa estranha sensação e vive nessa cidade.
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