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Pipino dirigia com a atenção necessária na estrada, mas também atento à Victoria. Ela parecia aérea. Com o braço direito sobre o apoio da porta do carro e a mão na boca, ela observava a estrada que parecia retirada do cenário de um filme ao lado daquele acolhedor mar da Flórida.

O pôr-do-sol e as praias cheias deixavam o ambiente mais romântico e afetavam ainda mais a empresária. Como ela odiava não ter as respostas. Como ela odiava se sentir tão insegura quanto ao amor de Heriberto e de seus próprios sentimentos. Como ela odiava todas as dúvidas que Bernarda sempre conseguia deixar em sua mente.

Victoria se surpreendeu quando sentiu o carro brecando, sabia que ainda não estavam em sua casa, olhou para Pipino e fez menção de abrir a boca.

— Não ouse contestar, Rainha! Hoje você e eu, vamos beber até perder o conhecimento. — Disse o estilista muito decidido.

— Você está louco, Pipino? — Ela contestou com os olhos arregalados. — Temos um desfile para preparar, definir quais serão as modelos que usarão cada peça, temos um ensaio agora...

— Antonieta vai cuidar do ensaio e tudo já está perfeito. Você não precisa de trabalho hoje, Victoria. Precisa relaxar! — Ele ultimou.

O manobrista levou o carro e ele deu o braço para ela que não reclamou de entrar naquele luxuoso bar com ele. Quando o garçom se aproximou, Pipino não hesitou:

— Nós vamos querer tequila! — Afirmou. — Muita tequila até que minha rainha se reconecte com sua felicidade tão vibrante.

Victoria refletiu sobre suas palavras. Não sabia onde havia se perdido de sua felicidade, talvez nunca tivesse tido uma alegria tão completa e verdadeiramente sua. Pipino dizia isso porque se encontrava com ela no ambiente onde ela se sentia mais completa e conseguia exalar uma euforia ainda que efêmera: seu trabalho pelo qual ela era apaixonada.

— Sabe por que eu amo tanto meu trabalho, Pipino? — Indagou ela uma hora e meia depois que entraram naquele bar, encarando firme o copo de tequila. O estilista, também alterado pelo álcool, continuou a elogiá-la.

— Porque você é a única rainha da moda, é óbvio. Não existiria moda mexicana se não fosse por você, Victoria! — exclamou com uma cara de quem não tinha nenhuma dúvida do que dizia.

— Não! — Ela afirmou batendo o copo na mesa. — Porque o trabalho não me defrauda! No trabalho eu posso confiar cem por cento, no trabalho Bernarda não é uma ameaça. — Ao fim da frase a voz mole veio com tristeza.

— Rainha, aquela cadela não é uma ameaça. O doutor delícia só tem olhos para você! — Afirmou abrindo os braços antes de servir mais tequila para ambos. — E, se não tiver, precisa ser internado em um hospício porque só pode estar completamente louco!

— Ou eu é que estou louca de pensar que o amor é para mim. — Ela voltou a ficar nostálgica virando mais um copo de tequila. — Por que você não me impediu, Pipino? Por que você não me impediu de ir pro quarto dele? Você devia ter me impedido. — Reclamou ela. — Se, por causa daquele imbecil algo der errado no desfile, você está demitido! — Ela voltou a bater o copo na mesa sorrindo.

— Não! E quem vai desenhar suas criações agora que sua mão está de férias? — Ele brincou levantando o copo para um brinde.

— Um brinde ao nosso grande talento para a moda... — Ela brindou. — E à minha completa inabilidade para o amor.

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Os últimos tragos de bebida foram amargos porque a nostalgia não a abandonava e Victoria terminou sendo colocada na cama por Antonieta depois que chegou de táxi com Pipino. Os dois entraram na sala cambaleando cantando um bolero aos gritos.

— No sé tú, pero yo te he comenzado a extrañar. En mi almohada no te dejo de pensar, con las gentes, mis amigos en las calles, sin testigos... me haces falta, mucha falta, no sé tú. — Cantavam abraçados em uníssono.

Oscar acompanhou Pipino que terminou dormindo antes do banho e Antonieta foi com Victoria para seu quarto e a ajudou a tomar um banho e lhe serviu café forte e sem açúcar. Ela se sentou ao pé da cama e ficou esperando ela terminar. Victoria engoliu a bebida amarga sem dificuldade e a encarou um pouco envergonhada.

— Sabe quando foi a última vez que eu bebi assim? — Ela indagou sem esperar uma resposta. — No dia do lançamento da nossa coleção anual, depois de pegar Osvaldo e Bernarda transando naquele maldito estoque.

— Muita coisa mudou desde então... — Comentou Antonieta pegando a xícara na mão da amiga.

— Naquele dia Heriberto e eu nos beijamos pela primeira vez. — Recordou com nostalgia. Estava tomada dela desde que começara a beber. — Digo... pela primeira vez desde que nos reencontramos. E, segundo ele, foi por causa desse beijo que ele decidiu abandonar o sacerdócio.

— Você realmente acredita que Heriberto seria capaz de te trair com Bernarda? — Antonieta sentou-se mais perto dela.

— Osvaldo não foi? — Ela disse com os olhos cheios de lágrimas. Havia contado tudo que aconteceu a Antonieta durante o banho.

— Osvaldo e Heriberto são completamente diferentes, amiga, assim como o sentimento que você teve pelos dois também. — Antonieta tentou ajudá-la a desvanecer as dúvidas.

— Quando eu olho bem fundo nos olhos dele, eu sinto que ele me diz a verdade, amiga, mas... — Ela foi se ajeitando na cama para dormir. — Não dá para passar o tempo todo olhando nos olhos dele, não é mesmo? E eu tenho muito medo de estar sendo idiota de confiar em Heriberto. E se ele e Bernarda estiverem rindo de mim pelas costas? — Indagou insegura.

— Enquanto você é feliz com seu médico, o que acontece com Bernarda é o oposto de sorrir, pode ter certeza disso.

— Você não sabe o quanto eu gostaria de acreditar nisso, Antonieta. Você não imagina o quanto. — Falou fechando os olhos.

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Na noite seguinte, Victoria chegou em casa exausta. Ela não havia tido o melhor dos dias. Além da ressaca e de toda a dúvida que pairava por sua mente, Pipino não havia podido trabalhar naquela sexta-feira porque estava muito mal depois do porre da noite anterior, o pobre não estava acostumado a beber. Além disso, um dos organizadores do desfile havia lhe contado que Bernarda não escondia de ninguém a intenção de sabotá-la e ela precisava estar e manter toda sua equipe em alerta, sem descanso.

Antonieta lhe convenceu a jantar fora, orientando-lhe a vestir algo elegante, mas casual, pois a levaria para conhecer um restaurante incrível. Quando ela chegou ao fim do corredor para encontrar-se com Antonieta que, supostamente, estava lhe esperando lá embaixo, se surpreendeu com Heriberto no meio da sala, extremamente elegante com um buquê de rosas vermelhas nas mãos.

Obviamente, Antonieta havia combinado tudo com o médico e dado a ele o endereço da mansão de Victoria, ela soube de tudo no preciso momento em que o viu lá embaixo. Entretanto, saber que Heriberto queria sair com ela lhe produzia uma gama infinita de sentimentos encontrados, não se acostumava com a ideia de que, em se tratando dele, ela nunca poderia saber o que esperar nem mesmo de si mesma, muito menos de si mesma!

— Então você decidiu me surpreender? — Ela indagou com um sorriso pegando as flores e colocando em um vaso que estava numa mesinha no canto da sala.

— Não foi pra isso que eu decidi vir pra Miami? — Perguntou abraçando-a por trás aproveitando-se de sua distração enquanto ajeitava as flores. — A não ser que você não queira descobrir as surpresas que preparei para você. — Falou bem perto do pescoço dela, o calor de seu hálito pôde ser sentido em sua pele aveludada.

Victoria se viu amolecer com o contato dele e aquele rumor de sua voz tão único, tão sexy e fechou os olhos para desfrutar da sensação de arrepio que lhe percorreu o corpo e acelerou o ritmo de seu coração.

— Eu quero, Heriberto! — Respondeu de olhos fechados. — Quero descobrir todas as surpresas que você preparou para mim ainda que eu gaste toda minha vida me arrependendo disso.

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