Estranha Semelhança
1 Estranha Semelhança
O ministério da saúde adverte:
Ele sabia que aquele seria um caminho sem volta...
...fumar causa dependência química;
...desde o primeiro cigarro que pusera na boca. Experimentar? Que nada!
Uma tossida, duas. Questão de costume. Gosto meio ruim, que a cada tragada ia ficando um pouco melhor.
Diferentes tipos de cigarro. Diferentes marcas, gostos. Mais forte, mais fraco. Canela, cravo, menta; americano, árabe, australiano; mais doce ou amargo. De efeito mais ou menos forte.
Até que ele encontrasse o par perfeito.
Com Kaoru havia sido a mesma coisa.
Desde que ele pusera os olhos no guitarrista mais velho, Die sabia que poderia experimentá-lo de todas as formas e em todas as situações, que não adiantaria: ele havia sido derrubado de um penhasco, caindo eternamente num buraco sem fundo. Resgate? Ele não queria nada disso, não; obrigado.
Um beijo; dois. O gosto dos lábios de Kaoru também lembrava cigarro; os dois fumavam e era de se esperar tal coisa. Cada novo beijo era mais um passo que ele dava em direção ao abismo.
Amar Kaoru e se descobrir correspondido havia sido a queda fatal. Deliciosa, também.
Diferentes beijos, diferentes toques, diferentes brigas e reconciliações. Um gemido, um grito, um soco, um abandono, um recomeço. Pedido de desculpas; sexo; abstinência. Teste de fidelidade; quanto tempo Die conseguia viver sem Kaoru? Menos do que sem um cigarro na boca.
...fumar causa câncer bucal;
A boca de Die estava impregnada com o gosto de cigarro. Balas de menta não adiantavam mais; balas do que quer que fosse jamais adiantariam.
Ele não se importava. Kaoru não se importava. Nenhum dos dois dava a mínima pras conseqüências daquela droga – eles estavam mais do que cientes delas. Caso se importassem, certamente já teriam parado.
E por mais que Die beijasse Kaoru, ele nunca ficaria satisfeito. Ele queria morder cada canto daqueles lábios, com mais ou menos força; não importava onde eles dois estivessem.
Ele não dava a mínima para a possibilidade de serem flagrados – mas, nesse caso, Kaoru se importava. Maldita imprensa; maldito pudor.
Die não se cansava de traçar os contornos daquela boca com os próprios lábios, com a ponta dos dedos... e gostava de ser tocado por ela. Gostava de quando Kaoru explorava seu corpo com os lábios, secos ou úmidos, com ou sem ajuda de sua língua; gostava de quando ele lhe deixava marcas com os dentes. Gostava de ser surpreendido com a imaginação e a ousadia do líder, que a cada ano que passava lhe dava mais prazer; deixava Die ainda mais viciado em Kaoru.
...fumar causa câncer de pulmão;
O ruivo também sabia que, aos poucos, quase que imperceptivelmente, o ar ia se tornando mais escasso. A respiração às vezes ficava dificultosa.
Uma ou outra vez ele se pegaria no meio de um show, com o pulso sobre os lábios, olhando pro teto, querendo que seus pulmões continuassem trabalhando como costumava ser anos atrás.
Ele ficava ofegante e cansado com mais facilidade que antes. Seu pique diminuía...
...mas um cigarro, um maço ou anos de fumo – nada disso se comparava à capacidade que Kaoru tinha de deixá-lo completamente sem ar.
Podia ser só uma olhada – o poder da presença de Kaoru; um olhar mais demorado dele em sua direção; uma prensada inesperada contra alguma das paredes do estúdio; uma mão se infiltrando subitamente em sua roupa...
Ou quando Kaoru abusava de sua autoridade na banda e fazia com que eles trabalhassem demais.
Mas Die preferia ficar sem ar enquanto observava Kaoru no palco, ou andando à sua frente, exibindo de propósito ou não os atributos daqueles quadris que o deixavam louco; preferia ficar ofegante enquanto entrava e saía de dentro do corpo de Kaoru, ou quando era o contrário e o ruivo sentia-se rasgando, entre dor e prazer; ou simplesmente quando era provocado pelo outro, através de um toque na cintura, uma mordida no lóbulo da orelha, um sussurro em meio aos seus cabelos, uma lambida no canto da boca com os olhos fixos nos seus.
A respiração de Die falhava só de pensar em Kaoru.
Daí então ele não sabia se a passagem do tempo fizera com que isso se intensificasse por conta do tabaco ou de sua crescente dependência em relação ao líder.
...fumar causa impotência sexual;
Ele preferia pular essa parte; deixá-la como uma incógnita.
Porém, verdade era que Kaoru, sim, havia deixado-o impotente, de certa forma – pois Die não conseguia, não podia nem queria transar com mais ninguém.
Verdade era que ele só conseguia pensar em sexo se tal ato envolvesse o outro guitarrista.
E Die não se importava nem um pouco com isso. Ele poderia morrer sem transar com outra pessoa, que ele morreria feliz por ter sido fiel até o fim, por ter sempre amado, desejado e respeitado Kaoru.
Pois ele e somente ele era capaz de deixá-lo excitado com um simples gesto, um simples toque, uma palavra devidamente pronunciada. Kaoru sempre sabia como, quando, onde, por que – fosse sim ou não. Ele o entendia, ele o conhecia, ele se encaixava perfeitamente em todos os aspectos.
O ruivo estava impotente o bastante para não se incomodar com tal círculo vicioso.
...fumar causa infarto do coração.
Talvez seu coração parasse de bater subitamente por culpa do tabaco. Talvez, então, ele morresse.
Talvez isso acontecesse no meio de um show, ou durante a gravação de algum álbum; numa viagem, enquanto ele estivesse andando na rua; qualquer coisa assim, ridiculamente normal e aparentemente inofensiva.
Ou, quem sabe, ele morreria nos braços de Kaoru – enjoativamente romântico e poético. Entretanto, era Kaoru que fazia com que seu coração disparasse e alcançasse velocidades absurdas; ou falhasse uma batida em meio a uma onda de orgasmo que apenas o líder era capaz de produzir.
Já que o coração de Die pertencia mesmo ao guitarrista mais velho, nada mais natural do que o responsável por fazer com que ele parasse de bater definitivamente fosse o próprio Kaoru.
Die estava disposto a correr todos aqueles riscos; sempre estaria.
Ele sabia desde o começo que amar Kaoru seria algo eternamente fatal, perigosamente apaixonante...
...e estranhamente parecido com os efeitos da nicotina.
XXX
25/03/2007.
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