Estrada para Felicity
2 Carro, você decepcionou Felicity.
Notas iniciais
No sábado, tarde da manhã, Oliver acorda com o toque urgente de seu celular vibrando sobre a mesa metálica do porão. Ele olha o display do telefone e vê o nome de Felicity piscando, juntamente com sua foto séria, de óculos de grau e cabelos presos. Ele sorri e em seguida atende a ligação, com a voz ainda rouca.
– Felicity, bom dia!
– Oliver! Oi. Bom dia. Eu preciso de sua ajuda. – Felicity diz em sua usual voz apressada. Mas Oliver percebeu um tom a mais de urgência.
– Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
– Sim. Depende. Quer dizer, em uma escala de “derramei café na minha roupa” até “Conde Vertigo ressuscitou e está atacando novamente”, eu diria que estou no nível “meu carro pifou na estrada, no meio de uma nevasca.” Preciso de ajuda. Você pode mandar alguém para me ajudar? Estou presa na neve.
Era um alívio ouvir a voz dela depois de uma semana. Mas não nessas circunstâncias. Felicity já precisou de sua ajuda outras vezes, mas todas as vezes envolviam ela executando trabalhos para Oliver. Esta era a primeira vez que ela precisava dele para resolver uma questão pessoal. Oliver só não conseguia entender por que ela não ligou para o namorado, Barry Allen. Não que ele não estivesse disposto a largar tudo e correr para resgatá-la imediatamente.
– Presa na neve? Você está enterrada? – Oliver perguntou alarmado.
– Não, não. Meu carro está preso. E eu estou dentro. Está nevando muito. Se eu demorar aqui, acho que vou asfixiar. Mas relaxa, não estou em pânico. Ainda.
Oliver balançou a cabeça nervosamente, tentando pensar na forma mais rápida de chegar até Felicity.
– Certo. Vou rastrear sua localização. Não saia daí. Você acha que pode aguentar algumas horas?
– Oliver, aonde você acha que eu iria no meio dessa nevasca? Eu nem consigo sair de dentro do carro!
– Felicity. Foco. Quanto tempo você acha que tem?
– Umas duas horas no máximo. Tenho um kit de primeiros socorros aqui e um balão de oxigênio pequeno, só não sei se está bom para uso. Quer dizer, oxigênio não perde a validade. Ou perde? Vou perguntar ao Barry...
Oliver ficou intrigado e não conseguiu evitar perguntar.
– Felicity, por que você carrega um balão de oxigênio no seu carro?
– Para situações como essa! Oliver, estamos perdendo tempo e gastando meu precioso oxigênio. Por favor, mande alguém para me ajudar.
– Ok. Fica firme. Farei o máximo para ser o mais rápido possível.
Oliver apressou-se em pegar todos os seus equipamentos de primeiros socorros que Felicity pudesse precisar, jogou tudo dentro de seu carro e caiu na estrada. O GPS indicava que ela estava a cerca de 150 quilômetros de distância de Starling City, o que significava que em cerca de uma hora e meia ele chegaria até o local, se a estrada não estivesse muito coberta de neve.
A viagem pareceu interminável, mas ao finalmente aproximar-se da área indicada pelo GPS, Oliver reduziu a velocidade e parou o carro no acostamento. Do outro lado da estrada, quase enterrado sob a neve, Oliver pôde ver partes do Mini Cooper vermelho de Felicity.
Oliver atravessou a estrada apressadamente, tentando não escorregar nas placas de gelos formadas sobre o asfalto. Ao chegar perto do carro, esfregou a luva no vidro do motorista para remover a neve e avistou Felicity recostada no banco, sua boca levemente aberta, muito pálida. Ela parecia desacordada.
Desesperado, Oliver bateu no vidro freneticamente gritando “Felicity! Felicity, estou aqui!”. Felicity acordou assustada e sorriu aliviada ao ver o rosto de Oliver.
– Estou bem! – Ela gritou de dentro do carro. — Acho que adormeci. Sabe como é, isolada, sem internet, fiquei entediada. Caramba, está muito frio aqui!
– Você consegue baixar o vidro da janela? – Oliver indagou.
– Não. O sistema elétrico do carro deu pane. Não consigo ligar nada.
– Então não vejo alternativa senão quebrar o vidro. Sinto muito.
– Oh, não... Meu bebê! Você sabe quanto tempo tive que trabalhar para comprar esse carro? Claro que não! Oliver Queen bilionário. Meu carro deve custar o equivalente a uma cueca sua.
– Felicity! Eu não vou deixar você morrer congelada por causa de um carro. Se o problema é esse, depois lhe dou uma cueca minha para compensar o prejuízo.
Oliver brincou, tentando aliviar sua preocupação. Felicity estava muito pálida. E se não a conhecesse melhor, com essa conversa maluca, provavelmente diria que ela estava desorientada.
– Vá para o banco do passageiro e cubra o rosto. – Ordenou.
Felicity obedeceu, contrariada. Oliver quebrou o vidro do carro e estendeu a mão para dentro, para ajudá-la a sair. Ela estava fraca e tremendo incontrolavelmente. Quando ele a segurou em seus braços, Felicity envolveu os braços em torno do pescoço de Oliver e disse brincando.
– Meu herói!
– Você é uma garota forte, sabia? Mais forte do que imagina. Estou feliz que pediu minha ajuda. Eu não confiaria sua segurança a ninguém mais.
Oliver a abraçou, cobrindo seu corpo com seu casaco para mantê-la aquecida até chegarem ao carro do outro lado da estrada. Dentro do carro, Oliver ligou o aquecedor e cobriu Felicity com mais uma camada de cobertor e lhe entregou barras de cereal e chocolate quente em um copo térmico. Ele estava realmente preparado para tudo.
– Coma, você precisa recuperar as energias para se manter aquecida.
Felicity obedeceu silenciosamente. Estava exausta e só agora, que não precisava mais se preocupar em sobreviver, foi que sentiu o impacto do quanto cansativas foram as últimas duas horas. Oliver a observava cautelosamente, estudando cada detalhe que pudesse ser um sinal de que havia algo errado com ela. Mas a cor já estava voltando à superfície de sua pele, deixando suas bochechas rosadas. Oliver ficou mais aliviado e, relaxando em seu assento, começou a explicar seu plano para Felicity.
– Sei que está chateada por causa de seu carro, mas antes de chegar aqui eu já havia contatado a oficina mais próxima. Estão a caminho. E não se preocupe, qualquer despesa fica por minha conta...
Por mais que isso fosse uma boa notícia para Felicity, ela não conseguia se sentir à vontade com o fato de que estava tomando tempo e agora dinheiro de Oliver com suas trapalhadas, mesmo que dinheiro não fosse lá um grande problema para ele. Sentia-se como se estivesse abusando de sua amizade e confiança.
– Oliver, agradeço muito sua ajuda. Não seu o que seria de mim se você não tivesse chegado tão rápido. Mas o fato de ter se dado ao trabalho de vir aqui me resgatar já é suficiente. Não precisa arcar com minhas despesas.
Oliver ligou a ignição, ignorando o falatório de Felicity e seguiu pela estrada em direção a Starling City.
– Espera, para onde estamos indo?
– Para casa. E Felicity, você me interrompeu. Primeiro: você sabe que essas despesas não significam nada para mim. Para que serve dinheiro se não for para ajudar quem precisa? Especialmente meus amigos. Segundo: enquanto aguardamos os mecânicos resgatarem seu carro e detectarem o que está errado com ele, vamos procurar um lugar para almoçar. Já passa de meio dia e, não sei você, mas eu estou faminto.
Não tinha como questionar a lógica de Oliver. Não fazia o menor sentido ficar parado na beira da estrada congelando se podiam procurar um lugar aquecido onde pudessem esperar confortavelmente. Quanto tempo demoraria até que os mecânicos se comunicassem, dando um parecer sobre o estrago em seu carro?
Depois de percorrer cerca de vinte quilômetros, Oliver avistou um restaurante de beira de estrada, bem simples, mas oferecia refeição quente. O local era parte de uma pousada, também simples, mas parecia acolhedora. Podia ser útil caso Felicity decidisse descansar um pouco até o carro ficar pronto.
O restaurante tinha aspecto de chalé na montanha, revestido de madeira do piso ao teto, com aquecedores antigos, tipo radiador espalhados sob as janelas de vidro. As paredes eram nuas exceto por um quadro de natureza morta suspenso sobre uma lareira desativada, e cortinas em xadrez vermelho com branco cobrindo as janelas. Felicity pede costelas ao molho barbecue, purê de batatas, salada de folhas e um muffin sabor red velvet de sobremesa. Oliver a assiste devorar a comida avidamente sentindo um misto de choque e diversão. De onde vinha todo aquele apetite?
Ele então comenta, entre uma garfada e outra.
– Para onde vai toda essa comida? Acho que você comeu um boi inteiro agora. Não que eu veja algum problema nisso.
– Aqui dentro — Felicity diz apontando para a própria cabeça — vive um bichinho que precisa de muita energia para funcionar. Especialmente quando certo Vigilante decide explorar minhas habilidades.
– Então está explicado por que seu corpo permanece tão...
Oliver pigarreia e Felicity o encara com uma sobrancelha arqueada, na expectativa do que ele vai dizer em seguida. — ...Saudável. — Complementa.
– Deve ser mesmo, já que tenho que escolher entre dormir e me exercitar quando chego em casa de madrugada após um longo e exaustivo dia de trabalho. Não que eu esteja reclamando.
– Se você está tentando me deixar com remorso, fique sabendo que está conseguindo.
– Mas é verdade ué!
– Eu sei. Ei! Acho que pensei em uma boa solução para esse problema. Se você concordar, claro.
– Vai diminuir minha carga horária para eu poder malhar? Eu tenho o melhor chefe de todos! Secretarias executivas do mundo inteiro, me invejem!
Oliver dá uma gargalhada alta, divertindo-se com as respostas atrevidas de Felicity.
– Falando sério, se você quiser podemos treinar por algumas horas no porão. Será um prazer ver você vestindo roupas coladas e tentando acertar golpes em mim e no Dig.
– Fico feliz em lhe entreter. — Felicity retruca.
Os dois se encaram por um longo momento, confortáveis na presença um do outro, despreocupados e conversando normalmente como pessoas comuns.
– Não sei você, mas estou adorando isso tudo.
– Isso tudo o que? — Felicity pergunta confusa.
– Já reparou que nunca temos tempo para conversar bobagens e simplesmente agirmos naturalmente, sem preocupações, sem esquemas, sem disfarces? Momentos como esse são preciosos para mim. Me lembram que ainda sou um cara normal, como qualquer outro.
Felicity queria dizer que eram preciosos para ela também, mas por outros motivos. Melhor não enveredar por esses assuntos.
– Se tem uma coisa que você não é, é normal, Oliver. Quer dizer, de uma forma positiva. Não existe e nunca existirá ninguém como você.
Com essa declaração de Felicity, Oliver vê seus sentimentos em relação a ela mudarem gradativamente. Mas tinha plena consciência que não podia deixar esse sentimento florescer. Ele nunca se perdoaria se algo acontecesse a Felicity por sua causa. Sem contar que agora tinha Barry Allen na parada. Talvez fosse melhor assim. Ele parecia ser um cara legal e combinava com o jeitinho da Felicity.
– Eu senti sua falta. — Oliver deixou escapar, quase como se estivesse pensando em voz alta.
Felicity arregala os olhos, sem acreditar no que acabara de ouvir. Será que estava delirando?
– O que você disse? — Ela pergunta, ajustando os óculos no rosto. Será que ouviu errado?
– Sentimos sua falta. Eu e Diggle parecíamos dois idiotas tentando lidar com aquelas máquinas. — Oliver desconversou.
– Ah, não vem com essa, vocês dois já se viravam muito bem sozinhos antes de eu aparecer.
– Talvez, mas você se tornou indispensável.
Oliver a encarou sério, transmitindo através do olhar muito além do que suas palavras diziam. Felicity ficou ainda mais confusa. O telefone de Oliver tocou. Era o mecânico para falar sobre o carro enguiçado. Eles detectaram o problema, mas levariam um dia inteiro para consertá-lo. O carro só ficaria pronto na manhã seguinte por volta do horário de almoço. E essa era uma concessão por que Oliver havia prometido dar uma grana extra pelo "esforço", já que eles normalmente não trabalham dia de domingo.
Oliver então se lembrou do evento beneficente e da missão para monitorar o vereador Blood e seus capangas.
– Droga! — Murmurou por entre os dentes.
– O que aconteceu? — Felicity perguntou preocupada com o estado de seu carro. — deram perda total? Ai meu Deus, por favor, diz que não!
Oliver respirou fundo e respondeu pacientemente.
– Não, Felicity. Não foi dada perda total no seu carro. Mas ele só ficará pronto amanhã. Teremos que passar a noite aqui.
– O quê?? Eu, você, passar a noite juntos aqui? É pior do que eu esperava. — Ela falou baixinho.
– Isso não é problema. A questão é que eu deveria comparecer a um evento beneficente em nome das Consolidações Queen esta noite.
– Oliver, você tem que ir! É importante você provar que está comprometido com os assuntos da empresa, especialmente agora com aquela Isabel Rochev no seu pé o tempo inteiro.
Felicity faz uma careta ao lembrar da sócia arrogante de Oliver. Ela parecia não ir muito com sua cara também, e fazia questão de tratá-la com ar de superioridade, para mostrá-la qual o seu lugar. Mulherzinha cretina.
– Isabel! — Oliver lembrou-se que havia a convidado para acompanhá-lo ao baile. E agora teria que desmarcar o compromisso, o que sem dúvida a deixará uma fera.
– Tenho que ligar para Isabel para avisar que não vou poder comparecer ao evento. Um minuto.
Oliver tirou o celular do bolso e ligou para Isabel. Felicity o observava em silêncio, arrependida por ter pedido sua ajuda.
–Isabel? Sinto muito, surgiu um imprevisto, algo muito importante. Não poderei comparecer ao evento. Por favor, diga aos nossos convidados que peço desculpas pela indelicadeza.
Felicity não conseguia ouvir o que Isabel dizia, mas pelas respostas e expressão no rosto de Oliver, dava para ter uma noção.
– Isso é algum tipo de brincadeira Sr. Queen? O que poderia ser mais importante do que sua empresa? – Isabel provoca.
– Acredite, Isabel, há coisas mais importantes na minha vida do que as Consolidações Queen. – Oliver responde exasperado, olhando para Felicity.
– Inacreditável sua falta de compromisso. A cada dia que passa você prova que não está apto a conduzir essa empresa. Vou discutir esse assunto com a Sra. Moira Queen, verdadeira CEO das Indústrias Queen.
– Faça o que quiser, Isabel. Amanhã estarei de volta a Starling City. Oliver desliga o telefone sem se despedir. Ele estuda a expressão apreensiva de Felicity e assegura-lhe que está tudo bem.
– Ei, o que está lhe perturbando?
– Você não precisa fazer isso! — Felicity implorou, sentindo-se mal por tê-lo colocado nessa saia justa. — O carro ficará pronto amanhã. Eles vêm deixá-lo aqui na pousada. Você pode voltar para Starling City ainda hoje e cumprir com sua obrigação.
– Isso está fora de cogitação. Esqueça esse assunto, já está tudo resolvido. – Oliver contestou categoricamente.
Depois de fecharem a conta do almoço, eles seguiram para a recepção da pousada para reservar um quarto para passar a noite. Felicity assustou-se ao dar de cara com uma cabeça de alce pendendo no alto da parede de madeira, sobre o local onde fica o balcão de recepção.
– Ugh! Animais mortos. Ugh! Ugh! Me dá um arrepio ver essas coisas. É assustador.
Oliver estava concentrado conversando com a recepcionista sobre a reserva, não percebeu o pequeno ataque de pânico de Felicity.
– Você se importa se ficarmos no mesmo quarto? Pedi uma suíte com camas separadas. É apenas uma noite. Além do mais, não gosto nem um pouco da ideia de você dormir sozinha em um quarto de hotel de beira de estrada.
– Tudo bem, o que você mandar, chefe. — Felicity retrucou, e baixando a voz para que Oliver não a ouvisse, completou — Até por que não adiantaria nada discutir com você.
Após realizar o check in, a recepcionista que atendeu Oliver saiu de trás do balcão e caminhou em direção a uma escada enorme de madeira, centralizada bem no meio do saguão da pousada.
– Senhor e senhora Queen, por favor, podem me acompanhar? Vou levá-los até sua suíte.
Felicity encarou Oliver exigindo uma explicação para o “Sr. e Sra. Queen” que a recepcionista acabara de mencionar na maior naturalidade. Ele deu de ombros, e sorriu, divertindo-se com a reação exagerada de sua assistente.
A decoração do quarto seguia o mesmo padrão do restaurante, rústica, minimalista e aconchegante. Oliver e Felicity se entreolharam ao perceber a enorme cama de casal bem no meio do quarto. Por essa nem Oliver esperava, ele havia inventado uma desculpa esfarrapada para a recepcionista, dizendo que o “casal” estava em crise e que preferiam dormir em camas separadas. A moça disse que tudo bem, providenciaria uma suíte exatamente como solicitado.
Agora essa cama de casal não fazia o menor sentido. A ideia de dormir no mesmo quarto que Oliver já estava deixando Felicity zonza. Dormir na mesma cama com Oliver era fora de suas capacidades de autocontrole. Felicity logo lembrou de Barry e então recuperou o raciocínio lógico.
“Calma Felicity, é apenas uma noite. É apenas Oliver, seu chefe. É apenas o homem com quem você teve os sonhos mais inapropriados nos últimos meses... Vai ficar tudo bem. Não vai?”
Antes que Felicity começasse a protestar, a funcionária apressou-se em explicar.
– Senhora Queen, sinto muito, as camareiras não tiveram tempo para preparar o quarto conforme seu pedido, mas podemos resolver isso agora mesmo. Essa cama de casal pode ser dividida em duas camas de solteiro.
Oliver e Felicity respiraram aliviados, constrangidos com toda aquela situação. Depois que a moça deixou os dois a sós no quarto, Felicity encarou Oliver apertando os olhos com uma expressão acusatória e perguntou.
– Por que você fez isso? Sr. e Sra. Queen?
– Felicity... foi por uma questão de princípios.
– Princípios? Onde estão seus princípios? Eu tenho namorado, sabia? – Felicity dispara, indignada.
Oliver suspirou, observando silenciosamente Felicity dar seu espetáculo irracional de indignação. “Sim, ela tem namorado.” Pensou. “Mas não precisa ficar jogando isso na minha cara o tempo inteiro.”
– Olha só. Vamos esquecer isso? Vou chamar a camareira para separar as camas, enquanto isso podemos descer para a sala de jogos. Lá tem um bar, podemos tomar um drink e relaxar. Ou, se você preferir, você fica aí agarrada com seu tablet falando com Barry Allen no skype. Eu estou descendo.
Poucos minutos depois, Barry ligou para saber como tinha sido a viagem de volta para casa. Felicity foi até o corredor para atender e poder falar com mais privacidade. Ela teve que contar todos os acontecimentos das últimas horas, inclusive que teria que passar a noite no hotel de beira de estrada.
– Por que não me ligou? – Perguntou Barry magoado. – Eu teria ido resgatá-la.
– Barry, a situação estava crítica, Oliver tem mais... recursos. Eu não queria lhe deixar preocupado. – Felicity concluiu, consciente de que nem ela própria acreditaria em uma desculpa como essa.
Ao retornar para o quarto após a ligação, Felicity encontrou Oliver sentado na cama. Ele havia tirado o paletó, a gravata e dobrado a barra das mangas da camisa social branca que vestia e esperava pacientemente por ela, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos.
– Você disse para ele que passaria a noite comigo? Quer dizer, em camas separadas e tudo mais? — Oliver questionou curioso.
– Você por acaso disse a Isabel que não vai ao baile beneficente para passar a noite comigo? Quer dizer, não passar a noite como, você sabe... Só passar a noite mesmo.
– Claro que não! — Oliver exclamou.
– Então por que acha que eu diria isso ao Barry?
– É diferente. Isabel não é minha namorada.
– Não?
Felicity perguntou incrédula. Ela já havia percebido há muito tempo que tinha algo rolando entre os dois, mas não sabia o quanto estavam envolvidos. Só de pensar em Oliver com aquela mulher revirava seu estômago. Isabel Rochev era detestável. Uma devoradora de homens. Felicity não sabia o que Oliver tinha visto nela e, ciúmes a parte, ela achava que Oliver merecia alguém melhor.
– Eu vou com você! – Felicity decidiu e, pegando sua bolsa, passou por Oliver caminhando em direção à porta do quarto.
As horas seguintes passaram como um flash. A sala de jogos era, na verdade, um pequeno bar com duas mesas de bilhar e alguns assentos acolchoados e mesas nos cantos do salão. O lugar estava mais lotado do que Felicity e Oliver esperavam. Eles rapidamente chegaram à conclusão que a maioria daquelas pessoas provavelmente se encontrava em situação semelhante à deles. Presos na estrada por causa da nevasca.
Eles jogaram algumas partidas de bilhar, mas alguns engraçadinhos resolveram cantar Felicity descaradamente e ela, convenientemente, decidiu que não estava mais com vontade de jogar. No fundo, ela tinha receio de Oliver perder a paciência com os bêbados inconvenientes e causar uma cena no local. A pousada era a única existente em um raio de cinquenta quilômetros, eles teriam que dormir no carro, caso fossem expulsos do local. Quem se importa com um bando de trogloditas falando baixaria ao pé do seu ouvido, não é mesmo?
Oliver escolheu uma mesa reservada no fundo do salão e Felicity sentou-se de frente para ele. Sob a penumbra, tendo seus rostos iluminados apenas por uma luminária de luz âmbar fraca que pendia sobre o centro da mesa, eles conversaram descontraidamente.
– Você não vai me contar o que rolou em Starling City enquanto estive ausente?
– Nada muito excitante. Você saiu da cidade e levou as confusões com você. – Oliver piscou, provocando-a.
– Muito engraçado. Mas você deixou sua cota de problemas por lá também. – Felicity apontou, brincando distraidamente com o menu sobre a mesa.
– É que é mais divertido lidar com os problemas tendo você por perto. – Oliver diz com sinceridade. – Ei, você quer beber algo? Cerveja, vinho, uísque?
– Cerveja seria ótimo.
– Eu não sabia que você era o tipo de garota que bebe cerveja. – Oliver comenta. – Que tipo de cerveja prefere?
– As mais suaves. Na verdade não sou uma grande bebedora. Vou ficar com uma Bud Light, por favor. Oliver estendeu o braço e pediu ao garçom para trazer uma Bud Light e uma Corona.
– Não acha estranho passarmos tanto tempo juntos, praticamente o dia inteiro, todos os dias, e não sabemos quase nada um do outro? Quer dizer, você sabe muito mais sobre mim do que eu sobre você.
– Você nunca me perguntou, Oliver.
– Muito bem, posso perguntar agora, então?
– Vá em frente! – Felicity deu um gole em sua cerveja e encarou Oliver, esperando pelo interrogatório.
– Onde você cresceu?
– Em uma cidadezinha no interior da Pensilvânia. Quando terminei o ensino médio, ganhei uma bolsa de estudos para estudar no MIT, então me mudei para Cambridge, Massachussetts.
– Que tipo de música você gosta?
– Eletrônica. Daft Punk, New Order, essas coisas.
Oliver rolou os olhos sorrindo.
– Claro, não poderia ser diferente! O que faz nas horas vagas?
– Cozinho, falo com meus pais ao telefone, estudo, jogo videogame...
– Videogame? Não sei por que estou surpreso, você é notável, Felicity!
– O quê? Você gosta de jogar videogame? – Felicity indaga, surpresa.
– Adoro! Sempre que fico em casa de bobeira, passo o tempo jogando com minha irmã.
– Inacreditável! Agora você conseguiu me surpreender, Oliver.
Ele respondeu com um sorriso triunfante.
A brincadeira de interrogatório se estendeu por mais de duas horas, regadas a cerveja. Felicity bebia com cautela, mas já tinha perdido as contas de quantas cervejas já tinha tomado e sentia-se perigosamente “solta”. Oliver estava mais contido, porém muito mais relaxado do que costuma ser.
Felicity levantou-se para ir ao banheiro, e quando retornou, Oliver olhava para a estrada coberta de neve através da janela. Ela sentou-se de frente para ele, mas Oliver demorou alguns segundos para perceber sua presença. Ela o observou silenciosamente, decorando cada linha de seu rosto perfeitamente desenhado. Oliver voltou-se para ela, tirando-a de seu estado de contemplação. Felicity teve medo de ele ter percebido seu coração em seus olhos.
– Você parece tão pensativa, Felicity. Deve ser muito divertido estar dentro da sua cabeça.
Felicity franziu o cenho, apavorada com a ideia de Oliver conhecer seus pensamentos mais íntimos.
– Diga-me, no que você pensa a maior parte do tempo?
– Você. – Ela respondeu automaticamente. Se sóbria, já era difícil segurar sua língua, depois de várias garrafas de cerveja era quase impossível. Mesmo assim, ela tentou, desastradamente consertar seu deslize. – Não! Digo... estou com você a maior parte do tempo... então é meio inevitável.
Oliver ficou surpreso com a revelação, mas atribuiu a atitude de Felicity ao excesso de álcool no organismo e não levou muito a sério.
– Parece que alguém andou bebendo além da conta. – Ele disse, levantando-se e estendendo a mão para Felicity acompanhá-lo. — Está na hora de subir.
Quando Felicity levantou-se, o mundo girou. Não sem certo esforço, ela conseguiu se manter firme em pé. Fazia muito tempo que ficara bêbada a esse ponto. Oliver passou o braço em torno de sua cintura e caminhou lentamente com ela até as escadas, depois pelo corredor até seu quarto.
As camas já estavam separadas e Felicity sentou-se aliviada na cama próxima à janela, recostando-se na cabeceira, de olhos fechados.
– Como está se sentindo? Você precisa beber bastante água. – Oliver apontou, oferecendo-lhe um copo com água.
Felicity abriu os olhos e sentiu tontura novamente, mas obedeceu e tomou a água lentamente, em pequenos goles. — Sim. Obrigada. – Ela respondeu sem levantar a vista até Oliver.
– Está tudo errado, sabia?
Oliver sentou-se na beira da cama, de frente para ela, sem entender de onde vinha aquela conversa. Ele pôs a mão suavemente no queixo de Felicity, levantando seu rosto para encará-lo. Ela estava triste.
– O que está errado, Felicity?
– Tudo. Você não deveria estar aqui. Eu não deveria ter bebido, e eu não deveria estar me sentindo assim.
– Assim como? – Oliver perguntou confuso. Felicity foi escorregando para baixo na cama, até ficar deitada com a cabeça sobre o travesseiro. Ela fechou os olhos e adormeceu sem respondê-lo.
Cerca de duas horas depois, já passava das onze da noite, ela acordou atordoada. Olhou ao redor à procura de Oliver, mas ele não estava por perto. Ainda estava grogue, e quando baixou-se para pegar seu pijama e calcinha em sua mala no chão, sentiu tudo girando e correu para o banheiro para vomitar.
“Muito bem Felicity Smoak, não bastava atrapalhar os planos do Oliver e fazê-lo vir até aqui, você tinha que bancar a adolescente e tomar um porre e obrigá-lo a ser babá de uma mulher que não sabe se controlar. Onde você estava com a cabeça?”
Felicity leva sua consciência pesada para tomar um banho morno. Só agora ela percebera que tinha passado o dia inteiro com a mesma roupa. A água morna escorrendo por sua cabeça, descendo para seus ombros e caindo em cascata dentro da banheira ajudavam a relaxar, e pouco a pouco ela foi esquecendo o monte de bobagens que falou para Oliver no bar.
O enjoo havia passado; agora ela só sentia um pouco de dor no estômago e na cabeça. Nada que um analgésico não pudesse resolver. Felicity vestiu seu pijama e quando saiu, surpreendeu-se com Oliver vestido apenas de cueca boxer e camiseta regata, deitado em uma das camas de solteiro do quarto.
Ela suprimiu um grito tapando a boca com a mão e tenta disfarçar e não olhar, mas Oliver chama sua atenção.
– Está se sentindo melhor?
– Hum, sim. A dor de cabeça é apenas um castigo pela imprudência. Desculpa por tudo.
– Não tem o que desculpar.
– Onde você estava?
– Fui até o corredor fazer umas ligações. Não queria acordá-la.
A essa altura, Diggle deveria ter alguma posição sobre a emboscada que o vereador Blood armara para pegá-lo. De fato, quando Oliver conseguiu falar com ele, Diggle já havia conseguido passar a ficha de dois dos capangas contratados por ele para forjar o roubo de armas na base militar e enviado para o detetive Lance, que armou uma operação para flagrá-los em ação.
Quatro dos criminosos foram presos em flagrante. Outros dois conseguiram escapar, mas as câmeras de vigilância instaladas por Diggle na noite anterior haviam captado a imagem de seus rostos, que estavam sendo agora utilizadas para identificá-los. Agora era trabalho da polícia procurar e capturar os fugitivos. Oliver pretendia, ao retornar a Starling City, interrogar os presos à sua maneira, para arrancar uma confissão do envolvimento do vereador Blood com a armação.
– Está tudo bem? – Felicity perguntou, aproximando-se da cama de Oliver, que ficava encostada na parede lateral do banheiro.
– Sim, agora sim.
– O que houve?
– O detetive Lance descobriu que o vereador Blood...
– Aquele amigo da... da Laurel? – Felicity interrompeu.
– Isso. Na verdade, foi a própria Laurel que passou as informações para o pai alertar o “Vigilante”.
– E eu que pensava que ela odiava você. Não você “você”. – Felicity se atrapalhou. – Você, o Arqueiro.
– Eu também pensei. Mas parece que ela ainda tem um pouco de respeito pelo que eu faço. Enfim. O vereador Blood planejou armar uma emboscada para me atrair, me incriminar e me desmascarar publicamente.
– Caramba! E que plano foi esse? – Inconscientemente, Felicity sentou-se na cama, de frente para Oliver.
– Ele contratou uns caras para roubar armas na base militar, por que sabia que eu daria um jeito de interceptá-los. E seria nesse momento que seus capangas causariam uma explosão e tentariam me capturar.
– Whoa! E tudo isso aconteceu agora?
– Fiquei sabendo da armação ontem. Eu e Diggle nos esquematizamos para monitorá-los antes do ataque, desde ontem. Eu tive que trabalhar dobrado para fazer o que você faz em um piscar de olhos com os dados dos suspeitos. Dormi no porão de ontem para hoje, acordei com sua ligação. Felicity encolheu-se embaraçada. — Blood planejou o ataque para acontecer no dia e hora do evento beneficente das Consolidações Queen. Mas eu acabei vindo para cá. Ou seja, mesmo sem saber, você me salvou.
Oliver sorri colocando a mão e apertando levemente o ombro de Felicity. Ao aproximar-se ele não deixou de reparar no vestuário de Felicity. Ela usava um pijama de mangas curtas com short estampado com várias letrinhas organizadas em forma de palavra cruzada. Algumas delas estavam até marcadas. Curioso, ele não conseguiu evitar e comentou em tom de deboche.
– Não me diga que você tentou seduzir Barry Allen usando esse pijama de palavras cruzadas!
Seu sorriso denunciava o quanto estava divertindo-se com a situação, mas também algo mais. Oliver estava descontraído, relaxado de um jeito que Felicity raramente havia presenciado. Sorrir lhe caía muito bem e Felicity teve dificuldade para por uma cara de afetada quando ele estava tão lindo e bem humorado.
– Oh, sim. — Felicity respondeu, dando de ombros. — E como! Barry achou muito excitante brincar de palavras cruzadas no meu corpo, especialmente "palavras cruzadas strip". Coisas de nerd...
– "Palavras cruzadas strip"? — Oliver arregalou os olhos e estendeu a mão até tocar o tecido do pijama. Ele queria ler as palavras marcadas no pijama.
– Sim. — Felicity confirmou, sentindo-se vitoriosa por conseguir surpreender Oliver. Ela podia jurar que, por uma fração de segundo, um vestígio de ciúme brilhou em seu olhar. Agora sim a conversa estava ficando divertida. — Sabe como é, quando a pessoa encontra uma palavra, a outra tem que remover uma peça de roupa, de preferência a indicada pela palavra encontrada.
A consciência de que Felicity tinha uma vida sexual incomodou profundamente Oliver. Ele recostou-se na cabeceira de sua cama, fitando Felicity com uma expressão grave, taciturno. Por mais que parecesse extremamente machista, desejou que fosse ele a única pessoa que tivesse o direito e o privilégio de conhecer esse lado tão íntimo de sua assistente. Ele apertou os olhos na tentativa de apagar de sua imaginação a imagem de Felicity tirando a roupa para “aquele fedelho, Barry Allen”, e falou, com os dentes trincados.
– Felicity!
Felicity para de tagarelar e observa Oliver mudar de humor. Ela amava vê-lo descontraído e fazendo piadas, mas um Oliver sério, irritado era hipnotizante. Sentia-se completamente desarmada quando ele lhe dirigia a palavra em um tom autoritário. Ela não estava cem por cento certa do que havia causado tamanha mudança de humor em seu chefe, se foi sua mania de falar demais ou se era, na verdade, o tal ciúme que ela acreditava ter visto antes em seus olhos finalmente aflorando. Na dúvida, preferiu não provocá-lo mais.
– O que foi?
– Me poupe dos detalhes! Não quero ficar a noite inteira ouvindo sobre como você e Barry Allen passaram as noites jogando “palavras cruzadas strip”. Boa noite.
“Sim, ele está mesmo aborrecido.” Felicity pensou, mas se recusou a acreditar que seria por ciúmes de Barry. Há pouco tempo Oliver até encorajou sua aproximação, quando convidou Barry para a festa de boas vindas à Sra. Moira Queen, sua mãe, que havia acabado de ser liberada da prisão.
E ela recolheu-se para sua cama, deitada de lado, voltada para a direção de Oliver. Ele está deitado de costas para Felicity. Meia hora depois, ela ainda o observa e nota que ele está inquieto, como se estivesse tendo um pesadelo. Naquele momento Felicity sentiu pena de Oliver, ele parecia muito solitário ali, apesar de normalmente estar cercado por pessoas.
Em um impulso, Felicity levanta da cama e vai até Oliver, deitando ao seu lado, colando seu peito contra as costas dele, ela desliza o braço envolvendo seu corpo em um abraço protetor e reconfortante.
Oliver está desconfortável, envolvido em um sonho nebuloso naquela ilha desgraçada, no qual se vê envolvido em uma luta corporal com um dos capangas do doutor Ivo. Mas desta vez o sonho pareceu mais real. Ele sentiu o corpo de seu adversário aproximando-se perigosamente por trás, e furtivamente envolvendo o braço em torno de sua cintura para desferir um golpe. Oliver foi mais rápido que ele. Virou-se abruptamente, jogando seu corpo sobre o do adversário imobilizando-o, cravou sua mão forte em torno da garganta delicada e ofegante de seu adversário, que parecia tentar dizer, quase sufocando:
– Oliver, sou eu, Feli...
Oliver então abriu os olhos, piscou uma, duas vezes e então, aterrorizado percebeu que estava sufocando Felicity. Mortificado, ele rapidamente tira a mão de seu pescoço, sai de cima dela, deitando-se lado, próximo. Ainda confuso por causa do pesadelo, ele pergunta.
– Felicity, o que está fazendo aqui na minha cama?
Assustada com o ocorrido, Felicity recupera o fôlego e responde.
– Você parecia tão solitário, tão desamparado dormindo... Eu só queria lhe confortar e fazê-lo sentir que estava tudo bem.
Mesmo um pouco aborrecido por quase ter matado uma das pessoas por quem ele mais se importava na vida, Oliver se viu surpreendido pela doçura de Felicity. Ela não cansava de surpreendê-lo, e a vendo agora ali, vulnerável, deitada ao seu lado, tão próximo, Oliver não pôde evitar sentir uma ternura imensa por ela e um desejo irresistível de beijá-la.
Mas ele não estava certo sobre os sentimentos de Felicity por ele ou por Barry Allen, então juntou todas suas forças para controlar-se e respeitá-la como ela merece.
– Me desculpe, às vezes tenho esses pesadelos. — ele hesitou — Sobre a ilha... Ainda não consegui me livrar completamente de alguns instintos. Você está bem?
Felicity o estuda silenciosamente. Ele está tão próximo que embaralha seus pensamentos. Ela não consegue pensar claramente e, como sempre, deixa que sua franqueza leve o melhor dela.
– Melhor do que nunca, com você seminu deitado na cama comigo.
Oliver sorri, relaxando ao perceber que não havia causado nenhum dano.
– Eu... Eu não disse o que acho que acabei de dizer, disse?
– Sobre estar sem roupa na cama comigo?
Oliver brinca, encantado com o adorável jeito atrapalhado de Felicity se expressar. Como ele havia sentido falta disso nos últimos dias!
– Stress pós-traumático! — Felicity apressou-se em explicar — A ciência explica. A vítima fala coisas sem sentido após sofrer uma ameaça grave à sua integridade física.
– Felicity, falando sério, obrigado por se preocupar comigo. Às vezes sinto que você me conhece de verdade. Melhor do que ninguém.
Aquilo era mais do que Felicity esperava ouvir de Oliver. Emocionada, ela agradece e vai levantando-se da cama lentamente, como se para não culminar em outro ataque acidental de seu temperamental, imprevisível e adorado chefe.
Oliver estende a mão e segura seu punho, perguntando.
– Aonde você vai? Eu pensei que tivesse vindo para me confortar.
– Eu, eu achei que talvez você precisasse de mais espaço para dormir tranquilo.
– Eu preciso de você aqui ao meu lado para ficar tranquilo. Venha.
Felicity sorri e volta para a cama de Oliver, aconchegando-se sob seu cobertor. Oliver repousa a cabeça sobre seu busto e envolve sua pequena cintura com o braço musculoso e murmura junto com um grande bocejo.
– Felicity Smoak, você é minha paz.
Ela começou a questionar o real motivo pelo qual era sempre tão ansiosa para atender aos pedidos mais excêntricos de seu chefe. Ela simplesmente não podia mais se enganar com a desculpa que fazia o que fazia por amor ao trabalho. Suas atividades com Oliver e Diggle no porão há muito tempo passaram disso. Admiração por Oliver? Por sua coragem de desafiar o perigo, os poderosos da cidade em prol da justiça e dos menos favorecidos? Talvez.
Mesmo assim, havia algo mais, e isso era a razão da inquietação que vinha sentindo desde que começara a sair com Barry. Algo que não a permitia entregar seu coração completamente a ele.
Com Oliver adormecido como um bebê em seus braços, Felicity custa a acreditar que aquilo estava acontecendo de verdade. Decididamente, aquela era a melhor noite sem sexo de sua vida! Como pode ela sentir-se mais plena, mais feliz e mais completa em apenas uma noite não romântica com Oliver do que em toda a semana recheada de presentes, jantares à luz de velas e sexo satisfatório com Barry? Aquilo só podia significar uma coisa, mas Felicity estava cansada demais e assustada demais com essa súbita descoberta, para pensar sobre isso agora.
Felicity observou o fabuloso homem que jazia pesadamente sobre seu corpo, e atreveu-se a afagar-lhe os cabelos loiros e espetados, que faziam cócegas na palma de sua mão. A carícia foi recompensada com um gemido gutural de satisfação, que reverberou até seu coração.
Ao acordar Felicity se dá conta de sua situação. Ela literalmente dormira com seu chefe. Apenas mais um detalhe para adicionar ao seu currículo de secretaria executiva. Tão clichê que encaixava perfeitamente em sua identidade secreta. Será que alguém mais na empresa pensava isso dela?
Não, definitivamente não. Sua formação no MIT e suas habilidades com tudo relacionado à tecnologia eram reconhecidos por todos nas Indústrias Queen.
"Será que apenas dormir junto com outro cara — fora o fato de ele ser ridiculamente gostoso e ser minha paixão platônica — é considerado traição?" Felicity se perguntava. "Por que não rolou nada entre eu e o Oliver..." Ela ponderava inquieta. "Barry não merece ser traído. Gosto muito dele, ele me faz feliz. Mas se não rolou nada, então por que estou assim tão balançada? Nem sei o que Oliver sente. Na verdade, eu nem deveria estar pensando nisso." Concluiu confusa.
– Bom dia! – Oliver acorda e deita-se de lado, estudando o rosto de Felicity. – Dormiu bem?
– Bom dia. Não tenho nada a reclamar.
– Nenhuma ressaca?
– Nadinha. — Felicity disse, cobrindo a boca.
– Felicity, por que você está cobrindo a boca?
– Hálito matinal.
Oliver sorri e sopra bem na cara de Felicity, pegando-a completamente desprevenida.
– Se esse é o problema... – Ele ri e se levanta da cama, indo em direção ao banheiro.
– Acho que ainda tem oxigênio no meu carro, vou precisar dele! – Felicity replica, sorrindo.
Oliver e Felicity descem para tomar café da manhã no mesmo restaurante onde almoçaram no dia anterior. O lugar estava bastante movimentado e o cheiro de bacon e ovos invadia o olfato de Felicity despertando o pequeno dragão que residia dentro de seu estômago.
Mais uma vez seu apetite não decepcionou e impressionou Oliver como no dia anterior. Ele ficava impressionado com a luxúria com a qual Felicity se deliciava comendo. Era quase um espetáculo. Era algo admirável em uma mulher. Felicity era delicada o suficiente e saber que ela não era o tipo de garota que tinha frescura comendo era excitante para ele.
Oliver e Felicity comiam em silêncio quando o telefone de Oliver tocou. Era o mecânico avisando que o carro de Felicity estava quase pronto e seria entregue na pousada antes do meio dia. Eles poderiam comer sem pressa, depois aguardar poucas horas até estarem prontos para voltar para Starling City. No entanto, nenhum dos dois estava ansioso por esse momento. As últimas vinte e quatro horas foram cruciais tanto para Felicity quanto para Oliver perceberem que havia algo mais para explorar em seu relacionamento.
Não dava mais para ignorar o que um sentia pelo outro, porém nenhum deles sentia-se seguro o suficiente de que o sentimento era recíproco. Nenhum dos dois estava disposto a arriscar a amizade dando um passo em falso.
Felicity definitivamente não tomaria a iniciativa. Ela tinha um namorado e precisava se resolver com ele antes de qualquer coisa. Ela nem ao menos sabia se seria possível manter um relacionamento com Oliver Queen, CEO das Consolidações Queen e Arqueiro nas horas vagas.
Oliver estava inquieto. Ele parecia estar pensando o mesmo que Felicity. Mas ele foi o primeiro a quebrar o silêncio. Ele hesitou por alguns segundos e encarando Felicity de modo sério, questionou.
– Felicity, espero que não leve a mal o que vou dizer... Mas... Acho você muito mulher para o Barry. Ele parece um moleque.
Como ela poderia não levar a mal quando desde o início Oliver desaprova seu relacionamento com Barry, faz piadas e debocha? Chateada, Felicity levantou-se da mesa e, antes de dirigir-se à porta de saída, encarou Oliver e, com a voz embargada, disse:
– Não se engane, Oliver. Barry pode ter cara de menino, mas foi homem o suficiente para assumir seus sentimentos por mim e me pedir para ser sua namorada.
Felicity correu para o estacionamento procurando a chave do carro em seu bolso. Mas é claro que não encontrou. Seu carro estava na oficina. Agora teria que ficar do lado de fora ao relento, chorando no frio.
– Fantástico, Felicity. Fantástico! — ela resmungou em voz alta.
Poucos segundos depois, Oliver aproxima-se e a convida para entrar no carro.
– Me desculpe Felicity. Eu não tinha o menor direito de me intrometer na sua vida.
– Não tem mesmo! Pelo menos ainda lhe resta um pouco de bom senso.
– Entre no carro, você vai congelar aí fora. — Ordenou, entrando ele próprio dentro do carro.
– Oliver, desculpe a franqueza, mas você é um cretino egoísta! — Felicity disparou sem hesitar. Agora que criou coragem, falaria tudo o que pensava de seu patrão-barra-paixão platônica. — Você veste aquele capuz e passa suas noites caçando criminosos para se redimir dos seus pecados, não se acha digno de ser amado, mas mesmo assim você encontra tempo para dedicar à sua família. Você sempre tem alguém lhe esperando em casa. E eu? Nos últimos meses tenho dedicado meus dias e noites ao meu trabalho na SUA empresa e nas SUAS atividades extracurriculares — não que eu esteja reclamando, eu amo o que faço. Minha família mora em outra cidade, eu não tenho vida social nenhuma. As únicas pessoas na minha vida são você e o Dig, então fica difícil abrir espaço para amizades e namorados quando estou 90% do meu tempo na sua sombra. Barry se importa comigo, e me desculpe se por razões totalmente egoístas, eu me sinto aliviada por ele saber seu segredo. Seria muito mais difícil explicar para outros caras por que estou saindo de casa no meio da noite para encontrar meu chefe. Sei que você não gosta dele porque ele sabe que você é o Arqueiro, mas ele é meu único vínculo com o que podemos chamar de uma "vida normal", ou pelo menos a ilusão disso.
Felicity parou para recuperar o fôlego e arriscou encarar Oliver por um segundo. Ele a observava atentamente, comovido por toda a situação de Felicity. Doía-lhe vê-la tão fragilizada. Como pôde negligenciá-la dessa maneira? Esteve tão absorto em seus problemas na empresa, em sua vida pessoal e ainda tinha suas atividades como vigilante. A constante presença e dedicação de Felicity, sua lealdade inquestionável e sua disposição para ajudá-lo incondicionalmente convenientemente o impediram de perceber que ela também tinha uma vida e que tinha sentimentos. Ele nunca retribuiu com justiça toda sua dedicação. Nem o melhor salário do mundo compensaria uma vida tão solitária. Oliver encara Felicity pondo todo seu sentimento no olhar, e diz:
– Felicity, por favor, me perdoa. Tenho sido muito injusto com você todo esse tempo. Você tem razão, você, mais do que qualquer outra pessoa, merece ser muito feliz. Mas ei, eu me importo com você. Muito. Sinto muito por tomar tanto do seu tempo. Barry Allen tirou a sorte grande, ele ficou com a melhor parte de você. Uma parte que eu não mereço e nunca poderei ter: seu coração.
Felicity enxugou as lágrimas que escorriam por suas bochechas com as costas da mão, absorvendo cada palavra de Oliver. Parecia que ele estava dizendo que gostava dela. Era isso mesmo? Ela precisava checar, para não correr o risco de ter inventado tudo em sua imaginação, como costumava fazer quando sonhava acordada com Oliver nos poucos momentos em que não estava com ele no porão ou no escritório.
– Oliver... O que você está querendo dizer exatamente...?
– Eu sei, meu timing é horrível, mas parece que foi preciso ver outra pessoa gostando de você para eu perceber o quanto é importante para mim. Não apenas por você ser uma profissional inigualável, mas por você ter resgatado algo em mim que eu pensava que havia morrido naquela ilha: minha dignidade. Você me entende e me respeita como ninguém. Você é a parceira dos meus sonhos. Eu quero ser o cara que te leva para jantar e que joga videogame com você no fim de semana. Quero ser a pessoa para quem você abre seu coração e conta suas inseguranças. Eu quero cuidar de você, Felicity. Eu sei que agora é tarde, você tem o Barry. Mas eu precisava que soubesse disso.
Oliver fica em silencio, esperando uma reação de Felicity. Eles se encaram por alguns segundos, a expectativa no olhar de Oliver consumia Felicity.
– Sim, é tarde. – Felicity murmurou ofegante. – Mas eu não consigo evitar o que estou sentindo. Oliver, o que vou fazer?
– Ei, nós vamos resolver isso juntos. – Oliver respondeu, acariciando o rosto de Felicity com as pontas dos dedos.
Ele aproximou-se lentamente dela, deslizando a mão para seu pescoço e, inclinando o rosto, beijou-a com firmeza, depositando todo seu desejo reprimido nos últimos meses naqueles lábios doces e delicados. Felicity parecia estar flutuando. Sua cabeça estava leve, seu corpo relaxado, ela só conseguia pensar em como o beijo de Oliver era muito melhor do que ela jamais sonhara.
Oliver e Felicity não cansavam de se beijar, de acariciar o rosto um do outro, de se abraçar. Oliver estava fascinado pelo cheiro do cabelo de Felicity. Ele mergulhava o rosto em suas madeixas loiras e inalava profundamente, cada vez mais a apertando contra si.
– Felicity, você cheira muito bem. – Ele sussurrou em seu ouvido. – Você... você quer voltar lá para cima? – Sugeriu, esperançoso.
– Quero. – Felicity suspirou. – Mas não posso. Ainda tenho um namorado. Ele não merece isso.
Oliver grunhiu baixinho, frustrado. Mas Felicity tinha razão. Por mais que os dois tivessem acabado de revelar o sentimento mútuo, não podiam ignorar que havia outra pessoa na vida de Felicity e antes de começarem qualquer coisa, ela precisaria dar um ponto final em sua história com Barry.
– Eu posso falar com ele. – Oliver sugeriu. Ele não queria admitir para si mesmo que estava inseguro, que tinha medo que Felicity mudasse de ideia ao reencontrar Barry.
– Não, Oliver. Barry é assunto meu. Eu vou falar com ele.
– Tudo bem. Então, já que só temos algumas poucas horas para nós dois, você vai voltar para Starling City comigo. Vou mandar alguém transportar seu carro até lá. – Oliver disse, beijando-a novamente.
– Combinado! – Felicity concorda.
Os dois subiram para pegar a mala de Felicity no quarto, fizeram check out e caíram na estrada.
No caminho de volta, Oliver de vez em quando tirava os olhos da estrada para admirar a beleza delicada de Felicity. Suas mãos estavam entrelaçadas na maior parte do tempo. Ele finalmente encontrara a paz que não sentia a mais de seis anos. Felicity já não se sentia tão confusa em relação a Barry. Ela percebera que seu sentimento por ele estava mais para amizade, não havia paixão. Não era amor.
Amor só podia ser o que ela sentia por Oliver naquele momento. Seu coração estava tão preenchido de felicidade que transbordava através de seus olhos, em seu sorriso, tudo nela denunciava que estava perdidamente apaixonada.
E juntos, naquela estrada até Starling City, Oliver e Felicity estavam prontos para enfrentar o mundo.
FIM
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