Estrada Da Noite
1 one-shot de aniversário pro Ruki-san
Notas iniciais
Chovia estrondosamente, fazendo todo o cenário a minha volta parecer feito de nacos de sonhos e pesadelos, recortados por flashes violentos que me deixava tão alucinado quanto sonolento. E sono e direção nunca foram dois amigos pra se sair numa mesma noite.
Fechei meus olhos perigosamente, enquanto bocejava pela milésima vez e diante de mim apareceu como um oásis no deserto a salvação: uma pequena pousada.
Tinha um lugarzinho onde pude estacionar o carro e um senhor bondoso me acompanhou até a entrada da pousada, nos protegendo com um enorme guarda-chuva. Ele não me disse uma única palavra, mas sorria divertido consigo mesmo, talvez de alguma coisa que se lembrara ou da minha cara de sono.
O hall não era grande, exatamente como deve ser numa pousada de beira de estrada, mas tinha uma sala de TV com algumas pessoas sentadas assistindo ao telejornal. Caminhei até o balcão vazio e antes de tocar a pequena campainha dali, um gato malhado de grandes olhos amarelos pulou sobre minha mão, me impedindo de fazer barulho.
— Sirius! – uma voz feminina esbravejou às minhas costas e eu me virei. – Gomenasai – a dona da voz disse pra mim mais suavemente. – Sirius detesta o som dessa campainha...
Meu histórico com gatos não era dos melhores e eu podia estar apenas imaginando coisas, mas o felino chamado Sirius parecia me encarar ameaçadoramente.
— Vá cuidar da sua vida, Sirius – ela falou novamente com o gato e ele saiu de cima do balcão como se tivesse entendido o que ela tinha dito (ou como se um gato realmente tivesse coisas em sua vida pra cuidar...), lançando um último olhar desafiador na minha direção antes de sumir por uma porta. – Um quarto? – ela me sorriu, indo para trás do balcão, talvez para desviar minha atenção ainda focada no estranho Sirius.
— Ah... Hai... – respondi, ainda meio surpreso. Finalmente encarei a garota que falava comigo, uma garota baixinha, de rosto redondo e delicado, grandes e brilhantes olhos castanhos amendoados, uma boca cheia e bem desenhada, cabelos quase negros, com uma mecha rosa na franja.
— Temos o quarto 3602 vago – ela me informou, meigamente. – Eu vou acompanhá-lo.
Assenti, emudecido e a segui, subindo três lances de escada. A pousada não devia ser tão pequena como eu havia pensado.
Entramos no quarto e a grande cama me seduziu. Seria maravilhoso ficar ali e me esquecer do mundo por uns bons meses... Como seria...
— Será que eu posso lhe oferecer alguma coisa? – a garota me despertou de meus devaneios. – Deseja comer alguma coisa, Matsumoto-san?
Comer? Acho que era uma boa ideia comer antes de dormir...
— Hum...Claro... – respondi vagamente e ela riu.
— Eu já volto... Sinta-se à vontade! – e desapareceu pela porta, me deixando sozinho.
Fazia muito tempo desde a última vez que eu tinha me hospedado em algum lugar, mas não me lembrava de já ter recebido tantos cuidados como naquele lugar... Serviço de quarto àquela hora? Numa pousadinha? Trazido pelas mãos de uma linda garota? Eu não me lembrava de ter perguntado o preço da estadia, mas se fosse bom eu com certeza voltaria mais vezes... Uma vez por mês se fosse possível... Pra me refugiar do mundo...
Nem bem eu terminei essa minha linha de raciocínio, a garota retornara ao meu quarto segurando uma bandeja com um sanduíche de aparência muito apetitosa.
— Tem muito mais de onde esse veio, se tiver mais fome! Então, não se acanhe, viu?
— Arigato – dei risada e ela colocou a bandeja sobre minha cama antes de sair.
Liguei a televisão e me sentei para assistir enquanto comia. O sono não me abandonara e parecia que minhas pálpebras pesavam ainda mais... O que poderia ter acontecido se não tivesse encontrado aquele lugar?
Escutei uma batidinha na porta e a garota que me atendera tornou a aparecer. Sorri instantaneamente.
— Deseja mais alguma coisa, Matsumoto-san? Talvez uma toalha pra tomar banho... Um chá pra ajudá-lo a dormir?
— Posso querer os dois? – dei risada e ela assentiu veemente.
— Claro que pode! – ela pegou minha bandeja, entusiasmada. – Volto num segundo!
Fiquei sorrindo feito bobo por um bom tempo depois de ela ter saído. Levantei e fui até o banheiro, começar a encher a banheira.
— Matsumoto-san? – escutei o chamado fofinho da garota e só então percebi que tinha me recostado à parede do banheiro e fechado os olhos por mais tempo do que parecia ter passado.
— Ah... – senti as faces queimando quando ele entrou e me encontrou daquela maneira. Era quase como se eu estivesse nu...
— Será que vai se afogar na banheira? – sua voz doce de fada brincou e eu sentia o calor do constrangimento subindo por minhas orelhas.
— A água vai me manter acordado... Tempo suficiente... Eu acho... – brinquei também para disfarçar minha real preocupação.
— Será que me daria permissão de verificar se está bem? Onegai shimasu? – ela se curvou numa reverência graciosa e eu me surpreendi.
— Quer... Minha permissão... Pra verificar? Verificar se... Estou bem? – gaguejei pasmo.
— Onegai shimasu, Matsumoto-san – ela se curvou para fechar a torneira que já quase trasbordava a banheira, para ocultar um leve rubor que eu notara de relance em suas maçãs.
— Ah... Claro... – tornei a gaguejar. – Mas... Como... Como pretende... Ah... Verificar? – imagens formadas em minha mente me deixaram ainda mais constrangido e ela aparentemente deduziu o que eu estava pensando.
— Não se preocupe! Não vou entrar aqui enquanto estiver no banho! Minha irmã me mataria se eu violasse dessa forma a privacidade de um hóspede! Ela me enterraria viva e dançaria sobre o meu túmulo! Não estou exagerando!
— Não? – perguntei assombrado.
— Ah... Bom... Eu estou... – ela riu, sem graça, como se não esperasse que fosse realmente levar a sério o que ela dissera. – Mas nem se fosse pra salvar a sua vida, ela seria menos severa comigo sobre privacidade...
— Sua irmã parece assustadora! – eu não estava brincando. Ela deu de ombros.
— Só é complexa... – sua resposta não me foi clara nem tranquilizadora... Com certeza, me deu no que pensar... Muitas perguntas sem resposta que se formavam a mil por hora dentro de minha cabeça.
Ela me deu às costas, dando o assunto por encerrado e se encaminhando para a porta para sair do quarto. Mas havia ainda um ponto a ser esclarecido...
— Mas então... Como vai fazer? – perguntei de repente, fazendo-a se virar novamente. – Pra se... Assegurar de que eu não me... Afoguei... Sem entrar? – ela deu sua risadinha de fada.
— Tenho outros métodos... Especiais... – ela respondeu, misteriosa. – Que preservam sua privacidade e a minha sanidade...
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